terça-feira, 15 de julho de 2025

Minoxidil oral é seguro, mas exige acompanhamento médico e demanda mais estudos

Quem enfrenta ou já enfrentou queda de cabelo provavelmente conhece o minoxidil. Esse fármaco se tornou bastante conhecido no Brasil como uma opção para tratar a alopecia androgenética – a chamada calvície – que é uma condição vitalícia. Os efeitos terapêuticos começam a ser perceptíveis entre três e seis meses após o tratamento.

Em formulações tópicas (loção ou espuma), o medicamento é vendido sem receita médica, mas faltam ensaios clínicos maiores e diretrizes padronizadas para a indicação do minoxidil via oral em baixas doses (LDOM). Pensando em melhores práticas clínicas, 43 dermatologistas especialistas em cabelo de 12 países diferentes participaram de um estudo Delphi – técnica baseada em questionário em rounds: foram 180 itens no primeiro round de perguntas; 116 no segundo; 16 no terceiro e 11 no quarto.

Para determinar um consenso, é preciso que pelo menos 70% dos profissionais concordem em cada item. O artigo, publicado no JAMA Dermatology, sistematiza os 76 tópicos que alcançaram esse índice — incluindo diagnósticos para os quais o LDOM traz benefícios, uso em adultos e adolescentes, contraindicações, precauções, avaliação, monitoramento e consulta especializada.

“Produzimos um guia prático que cobre diversos aspectos do uso do minoxidil oral, e também aborda a visão dos especialistas em relação aos dados existentes na literatura mundial”, comenta Isabella Doche, dermatologista que fez pós-doutorado na USP e é uma das coautoras do estudo. A análise demonstrou bons resultados e baixo perfil de risco, mas ela enfatiza que é essencial buscar acompanhamento médico antes de iniciar qualquer tratamento.

O uso do medicamento ainda é considerado off-label, ou seja, não está previsto na bula. Originalmente, ele foi desenvolvido para tratar a pressão alta, mas se tornou popular por seu efeito colateral de estimular o crescimento capilar. “O mecanismo pelo qual ele funciona ainda não é totalmente conhecido, mas sabemos que atua na abertura de canais de potássio, prolongando a fase anágena, que é a fase de crescimento do cabelo”, explica Isabella.

<><> Principais resultados

“Os dermatologistas concordam que a medicação pode ser usada para as alopecias cicatriciais e não cicatriciais”, afirma Isabella. Além do aumento de densidade capilar, estudos recentes sugerem que o minoxidil oral tem também um efeito hormonal antiandrogênico. Isso significa que ele pode reduzir a produção de andrógenos — hormônios masculinos que miniaturizam os folículos capilares, levando à queda de cabelo —, e por isso é especialmente eficaz contra a calvície.

A dosagem indicada varia de acordo com o sexo e a idade do paciente. Para mulheres, o consenso foi entre 1,25mg e 5mg ao dia. “Na prática, com 1mg a 1,5mg já obtemos um resultado bastante satisfatório, sem a necessidade de aumentar”, comenta Isabella. Para homens, as doses variam entre 2,5mg e 5mg. Já para adolescentes de 12 a 17 anos, as meninas devem iniciar com 0,6mg e os meninos com 1mg, podendo chegar a 2,5mg e 5mg, respectivamente.

Sobre o uso pediátrico, não foi possível chegar a um consenso. “Um novo estudo está sendo desenvolvido no momento, porque o uso em crianças ainda é excepcional, então é muito difícil encontrar especialistas experientes”, explica a pesquisadora.

<><> A história do minoxidil

A origem do minoxidil data dos anos 1950, quando ele foi desenvolvido para controle da hipertensão arterial. O uso recomendado variava entre 20mg a 80mg, mas essa alta dosagem causava efeitos colaterais fortes (como vasodilatação intensa e edema), o que levou a produção a ser descontinuada. “Surgiram medicações mais modernas que faziam o mesmo papel”, explica Isabella.

Mas um efeito colateral curioso foi observado nos pacientes hipertensos: o crescimento intenso de pelos. Isso ocorre porque o minoxidil, ao promover vasodilatação, melhora a circulação nos folículos capilares e estimula o crescimento dos fios. O que antes era uma reação indesejada, passou a ser explorado como benefício para pessoas com calvície.

Na década de 1980 ele passou a ser usado topicamente nos Estados Unidos — em concentrações bem menores, de 5% (homens) e 2,5% (mulheres). Ainda assim, a aplicação direta causava irritação na pele em alguns pacientes. Por isso, nos anos 2000, o pesquisador australiano Rodney Sinclair retomou o assunto e começou a questionar: por que não voltar ao uso oral, em doses bem menores?

Embora ainda não tenha aprovação oficial para esse fim, o uso off-label é considerado seguro e eficaz para queda de cabelo. Entretanto, a popularização do remédio na mídia tem aumentado os casos de automedicação. “Você encontra locais que vendem o remédio sem a necessidade de receita médica ou consulta, o que pode ser muito danoso”, critica Isabella.

<><> Riscos associados

O perfil de segurança do medicamento é robusto e são poucos os casos graves citados na literatura. Contudo, ele não é isento de riscos: a partir de uma extensa revisão de literatura, os dermatologistas concluíram que o efeito adverso mais perigoso é a efusão pericárdica (acúmulo de líquido no coração), que não está necessariamente associado à dosagem.

Dentre os efeitos mais frequentes na prática clínica está a hipertricose (aumento excessivo de pelos corporais), inclusive no rosto. “Para homens não é um grande problema, mas, para mulheres, pode ser; por isso vamos ajustando a dose conforme esse resultado”, comenta a dermatologista. No início do tratamento é comum a ocorrência de taquicardia reflexa (aumento dos batimentos por causa da vasodilatação) e tontura, sintomas que costumam melhorar em até duas semanas; repercussões mais raras incluem edemas na face, mãos e pés.

Em relação às contraindicações, os profissionais ressaltam que o medicamento não deve ser utilizado por pessoas com histórico de derrame pericárdico, pericardite, insuficiência cardíaca congestiva, entre outros. Ele também não é recomendado para gestantes e lactantes.

Pacientes com alterações menores — como histórico de taquicardia, arritmias, hipotensão, comprometimento da função renal ou em diálise — devem ser referenciados a um especialista antes de considerar o uso. Isabella explica que, para pacientes sem contraindicações relevantes, não há necessidade de exames médicos complexos.

“Sobre o monitoramento dos pacientes, chegamos ao consenso de que devem ser avaliados a resposta clínica e o perfil de efeitos colaterais antes de subir a dose”, afirma. No entanto, não houve consenso sobre a frequência dessa mudança: alguns especialistas defendem ajustes mensais, outros trimestrais.

Mas por que o uso oral é indicado em vez do uso tópico? Segundo os pesquisadores, o minoxidil oral é uma opção para pacientes que apresentam hipersensibilidade ou alergias no couro cabeludo. Além disso, a versão tópica depende de uma aplicação mais frequente, e o resultado pode ser menos eficaz. “Ela não é agradável cosmeticamente, por isso muitas vezes a aderência ao tratamento é ruim”, acrescenta Isabella.

No Brasil, ainda não há versões industrializadas do minoxidil oral em comprimidos de 5mg, como acontece em outros países. Portanto, a prescrição requer manipulação da dose exata. “Existe um alerta muito importante da vigilância dos órgãos reguladores do Brasil quanto à procedência dessas medicações: que sejam feitas em farmácias credenciadas, autorizadas e sempre com acompanhamento de um médico”, finaliza a dermatologista.

 

Fonte: Jornal da USP

 

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