Minoxidil
oral é seguro, mas exige acompanhamento médico e demanda mais estudos
Quem
enfrenta ou já enfrentou queda de cabelo provavelmente conhece o minoxidil.
Esse fármaco se tornou bastante conhecido no Brasil como uma opção para tratar
a alopecia androgenética – a chamada calvície – que é uma condição vitalícia.
Os efeitos terapêuticos começam a ser perceptíveis entre três e seis meses após
o tratamento.
Em
formulações tópicas (loção ou espuma), o medicamento é vendido sem receita
médica, mas faltam ensaios clínicos maiores e diretrizes padronizadas para a
indicação do minoxidil via oral em baixas doses (LDOM). Pensando em melhores
práticas clínicas, 43 dermatologistas especialistas em cabelo de 12 países
diferentes participaram de um estudo Delphi – técnica baseada em questionário
em rounds: foram 180 itens no primeiro round de perguntas; 116 no segundo; 16
no terceiro e 11 no quarto.
Para
determinar um consenso, é preciso que pelo menos 70% dos profissionais
concordem em cada item. O artigo, publicado no JAMA Dermatology, sistematiza os
76 tópicos que alcançaram esse índice — incluindo diagnósticos para os quais o
LDOM traz benefícios, uso em adultos e adolescentes, contraindicações,
precauções, avaliação, monitoramento e consulta especializada.
“Produzimos
um guia prático que cobre diversos aspectos do uso do minoxidil oral, e também
aborda a visão dos especialistas em relação aos dados existentes na literatura
mundial”, comenta Isabella Doche, dermatologista que fez pós-doutorado na USP e
é uma das coautoras do estudo. A análise demonstrou bons resultados e baixo
perfil de risco, mas ela enfatiza que é essencial buscar acompanhamento médico
antes de iniciar qualquer tratamento.
O uso
do medicamento ainda é considerado off-label, ou seja, não está previsto na
bula. Originalmente, ele foi desenvolvido para tratar a pressão alta, mas se
tornou popular por seu efeito colateral de estimular o crescimento capilar. “O
mecanismo pelo qual ele funciona ainda não é totalmente conhecido, mas sabemos
que atua na abertura de canais de potássio, prolongando a fase anágena, que é a
fase de crescimento do cabelo”, explica Isabella.
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Principais resultados
“Os
dermatologistas concordam que a medicação pode ser usada para as alopecias
cicatriciais e não cicatriciais”, afirma Isabella. Além do aumento de densidade
capilar, estudos recentes sugerem que o minoxidil oral tem também um efeito
hormonal antiandrogênico. Isso significa que ele pode reduzir a produção de
andrógenos — hormônios masculinos que miniaturizam os folículos capilares,
levando à queda de cabelo —, e por isso é especialmente eficaz contra a
calvície.
A
dosagem indicada varia de acordo com o sexo e a idade do paciente. Para
mulheres, o consenso foi entre 1,25mg e 5mg ao dia. “Na prática, com 1mg a
1,5mg já obtemos um resultado bastante satisfatório, sem a necessidade de
aumentar”, comenta Isabella. Para homens, as doses variam entre 2,5mg e 5mg. Já
para adolescentes de 12 a 17 anos, as meninas devem iniciar com 0,6mg e os
meninos com 1mg, podendo chegar a 2,5mg e 5mg, respectivamente.
Sobre o
uso pediátrico, não foi possível chegar a um consenso. “Um novo estudo está
sendo desenvolvido no momento, porque o uso em crianças ainda é excepcional,
então é muito difícil encontrar especialistas experientes”, explica a
pesquisadora.
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A história do minoxidil
A
origem do minoxidil data dos anos 1950, quando ele foi desenvolvido para
controle da hipertensão arterial. O uso recomendado variava entre 20mg a 80mg,
mas essa alta dosagem causava efeitos colaterais fortes (como vasodilatação
intensa e edema), o que levou a produção a ser descontinuada. “Surgiram
medicações mais modernas que faziam o mesmo papel”, explica Isabella.
Mas um
efeito colateral curioso foi observado nos pacientes hipertensos: o crescimento
intenso de pelos. Isso ocorre porque o minoxidil, ao promover vasodilatação,
melhora a circulação nos folículos capilares e estimula o crescimento dos fios.
O que antes era uma reação indesejada, passou a ser explorado como benefício
para pessoas com calvície.
Na
década de 1980 ele passou a ser usado topicamente nos Estados Unidos — em
concentrações bem menores, de 5% (homens) e 2,5% (mulheres). Ainda assim, a
aplicação direta causava irritação na pele em alguns pacientes. Por isso, nos
anos 2000, o pesquisador australiano Rodney Sinclair retomou o assunto e
começou a questionar: por que não voltar ao uso oral, em doses bem menores?
Embora
ainda não tenha aprovação oficial para esse fim, o uso off-label é considerado
seguro e eficaz para queda de cabelo. Entretanto, a popularização do remédio na
mídia tem aumentado os casos de automedicação. “Você encontra locais que vendem
o remédio sem a necessidade de receita médica ou consulta, o que pode ser muito
danoso”, critica Isabella.
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Riscos associados
O
perfil de segurança do medicamento é robusto e são poucos os casos graves
citados na literatura. Contudo, ele não é isento de riscos: a partir de uma
extensa revisão de literatura, os dermatologistas concluíram que o efeito
adverso mais perigoso é a efusão pericárdica (acúmulo de líquido no coração),
que não está necessariamente associado à dosagem.
Dentre
os efeitos mais frequentes na prática clínica está a hipertricose (aumento
excessivo de pelos corporais), inclusive no rosto. “Para homens não é um grande
problema, mas, para mulheres, pode ser; por isso vamos ajustando a dose
conforme esse resultado”, comenta a dermatologista. No início do tratamento é
comum a ocorrência de taquicardia reflexa (aumento dos batimentos por causa da
vasodilatação) e tontura, sintomas que costumam melhorar em até duas semanas;
repercussões mais raras incluem edemas na face, mãos e pés.
Em
relação às contraindicações, os profissionais ressaltam que o medicamento não
deve ser utilizado por pessoas com histórico de derrame pericárdico,
pericardite, insuficiência cardíaca congestiva, entre outros. Ele também não é
recomendado para gestantes e lactantes.
Pacientes
com alterações menores — como histórico de taquicardia, arritmias, hipotensão,
comprometimento da função renal ou em diálise — devem ser referenciados a um
especialista antes de considerar o uso. Isabella explica que, para pacientes
sem contraindicações relevantes, não há necessidade de exames médicos
complexos.
“Sobre
o monitoramento dos pacientes, chegamos ao consenso de que devem ser avaliados
a resposta clínica e o perfil de efeitos colaterais antes de subir a dose”,
afirma. No entanto, não houve consenso sobre a frequência dessa mudança: alguns
especialistas defendem ajustes mensais, outros trimestrais.
Mas por
que o uso oral é indicado em vez do uso tópico? Segundo os pesquisadores, o
minoxidil oral é uma opção para pacientes que apresentam hipersensibilidade ou
alergias no couro cabeludo. Além disso, a versão tópica depende de uma
aplicação mais frequente, e o resultado pode ser menos eficaz. “Ela não é
agradável cosmeticamente, por isso muitas vezes a aderência ao tratamento é
ruim”, acrescenta Isabella.
No
Brasil, ainda não há versões industrializadas do minoxidil oral em comprimidos
de 5mg, como acontece em outros países. Portanto, a prescrição requer
manipulação da dose exata. “Existe um alerta muito importante da vigilância dos
órgãos reguladores do Brasil quanto à procedência dessas medicações: que sejam
feitas em farmácias credenciadas, autorizadas e sempre com acompanhamento de um
médico”, finaliza a dermatologista.
Fonte:
Jornal da USP

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