sábado, 5 de julho de 2025

Jason Burke: Um cessar-fogo em Gaza parece estar próximo. Eis por que pode acontecer agora

Após quase 21 meses de guerra sangrenta, agora parece uma questão de quando, e não se, um novo cessar-fogo dará uma pausa nos combates que devastaram Gaza, desestabilizaram a região e horrorizaram espectadores do mundo todo.

Na sexta-feira, Donald Trump disse esperar que o Hamas concorde em 24 horas com um acordo já aceito por Israel. Analistas preveem um anúncio formal após a chegada de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense, a Washington na segunda-feira, em sua terceira visita à Casa Branca desde que Trump iniciou seu atual mandato.

Se um novo cessar-fogo entrar em vigor, será o terceiro durante a guerra, na qual cerca de 57.000 palestinos, a maioria civis, morreram.

A primeira durou apenas 10 dias, em novembro de 2023. A segunda foi imposta a um relutante Netanyahu por Trump em fevereiro deste ano e terminou em março , quando Israel renegou a promessa de passar para uma segunda fase programada que poderia ter levado ao fim definitivo das hostilidades.

Os termos do novo acordo incluem a libertação escalonada de reféns mantidos pelo Hamas; liberdade para centenas de palestinos em prisões israelenses; ajuda desesperadamente necessária para Gaza; e a retirada gradual das forças israelenses de algumas partes da faixa tomadas nos últimos meses.

Mais uma vez, o cessar-fogo durará 60 dias, durante os quais serão realizadas negociações sobre o que acontecerá em seguida. Trump e as potências regionais estão oferecendo garantias para tranquilizar o Hamas de que Israel não retornará simplesmente a uma ofensiva total e que discussões significativas sobre o fim permanente da guerra realmente ocorrerão.

Um fator que aproximou um novo cessar-fogo foi o breve conflito do mês passado entre Israel e o Irã, que culminou em um cessar-fogo mediado pelos EUA. Isso culminou em uma série de acontecimentos militares e políticos que enfraqueceram seriamente Teerã e os vários grupos militantes que ela apoiava na região, incluindo o Hamas.

Mais importante é o impulso que Netanyahu deu. Embora as pesquisas registrem apenas um ligeiro aumento no apoio ao seu partido Likud e em sua popularidade pessoal, muitos israelenses, ainda assim, comemoraram o que foi visto como uma vitória esmagadora sobre um adversário muito temido.

Se Netanyahu levar a guerra em Gaza a um final que os eleitores considerem bem-sucedido, ou pelo menos aceitável, Netanyahu poderá concorrer às eleições — provavelmente no ano que vem — alegando ser o homem que tornou Israel mais seguro do que nunca, mesmo que poucos tenham esquecido as falhas estratégicas e de segurança que levaram ao ataque do Hamas em outubro de 2023, no qual militantes fizeram 251 reféns e mataram 1.200, a maioria civis.

Até o final deste mês, o parlamento israelense entrará em recesso de três meses e os tribunais também não funcionarão, dando a Netanyahu um alívio da ameaça de um voto de desconfiança ou de uma moção de dissolução, bem como da continuidade do interrogatório em seu julgamento por corrupção. Isso mina as ameaças de derrubar o governo feitas durante o conflito em Gaza por aliados da coalizão de extrema direita, veementemente contrários a um acordo com o Hamas.

Pesquisas de opinião sucessivas mostram que um acordo que traga os reféns de volta seria muito popular entre os israelenses, o que também ajudaria Netanyahu nas eleições. As baixas israelenses em Gaza – 20 soldados morreram em junho – também são preocupantes. Uma pesquisa publicada pelo jornal israelense Maariv na sexta-feira mostrou um novo impulso para o primeiro-ministro, com o aumento das esperanças de um cessar-fogo.

Quanto ao Hamas, analistas e fontes próximas aos seus líderes afirmam que a organização militante islâmica está dividida, muito enfraquecida pela ofensiva israelense em Gaza e ciente de que possui poucos aliados que possam ou queiram oferecer apoio prático. O principal objetivo de seus líderes agora é manter alguma presença em Gaza, mesmo que residual. Isso por si só já constituiria alguma forma de vitória e explica em parte a determinação com que o Hamas busca o fim permanente dos combates.

Ainda não está claro se isso acontecerá. A mídia israelense foi informada por "fontes próximas a Netanyahu" de que, se o Hamas não puder ser desarmado em Gaza e seus líderes exilados do território devastado por meio de negociações, Israel retomará as operações militares e que Washington apoiará sua decisão de retornar à guerra. Muitos "próximos a Netanyahu" também continuam a apoiar a emigração "voluntária" em massa de Gaza, ou a realocação de grande parte de sua população para uma área no sul, ou ambos.

Os últimos dias têm sido agitados por vozes: americanas, israelenses, sauditas, catarianas e muitas outras. Mal se ouvem as vozes dos 2,3 milhões de palestinos em Gaza, onde a ofensiva israelense continua. Na sexta-feira, autoridades locais e médicos disseram que ataques aéreos israelenses mataram 15 palestinos no território e outras 20 pessoas morreram em tiroteios enquanto esperavam em postos de alimentação.

¨      Contratado de ajuda humanitária em Gaza diz que viu colegas atirarem em palestinos famintos

Um ex-contratado de segurança dos novos e controversos centros de distribuição de ajuda em Gaza — apoiados por Israel e pelos EUA — disse à BBC que testemunhou colegas abrindo fogo diversas vezes contra palestinos famintos que não representavam ameaça alguma, inclusive com metralhadoras.

Em uma ocasião, ele relatou que um guarda disparou de uma torre de vigilância com uma metralhadora porque um grupo de mulheres, crianças e idosos estava se afastando do local muito lentamente.

Ao ser questionada, a Fundação Humanitária de Gaza (GHF, na sigla em inglês) afirmou que as alegações eram categoricamente falsas.

A fundação encaminhou uma declaração dizendo que nenhum civil jamais foi alvo de disparos nos centros de distribuição da GHF.

A GHF iniciou suas operações em Gaza no final de maio, distribuindo ajuda limitada a partir de vários locais no sul e centro da Faixa de Gaza. Isso ocorreu após um bloqueio total de 11 semanas imposto por Israel, durante o qual nenhum alimento entrou no território.

O sistema tem sido amplamente criticado por forçar um grande número de pessoas a atravessar zonas de combate ativas até um número reduzido de centros. Desde o início das operações da GHF, forças israelenses mataram mais de 400 palestinos que tentavam obter ajuda alimentar nesses locais, segundo a ONU e médicos locais. Israel afirma que o novo sistema de distribuição impede que a ajuda chegue ao Hamas.

O ex-contratado afirmou que, enquanto guardas atiravam contra um grupo de palestinos em um dos centros da GHF, outro contratado no local, em pé sobre o barranco com vista para a saída, disparou de 15 a 20 tiros com arma automática contra a multidão.

"Um homem palestino caiu no chão, imóvel. E então o outro contratado que estava ali disse: 'Droga, acho que você acertou um'. E depois riram disso."

O contratado, que falou sob condição de anonimato, disse que os gestores da GHF minimizaram seu relato, tratando-o como coincidência, sugerindo que o homem palestino poderia ter "tropeçado" ou estar "cansado e desmaiado".

A GHF afirmou que o autor das denúncias é um "ex-contratado insatisfeito" que teria sido demitido por má conduta, o que ele nega. Ele mostrou comprovantes de pagamento indicando que continuou recebendo salário por duas semanas após deixar o cargo.

O homem com quem conversamos, que disse ter trabalhado nos quatro centros de distribuição da GHF, descreveu uma cultura de impunidade, com poucas regras ou controles.

Ele afirmou que os contratados não recebiam regras claras de engajamento nem procedimentos operacionais padrão, e que um líder de equipe teria dito: "Se você se sentir ameaçado, atire — atire para matar e pergunte depois".

A cultura da empresa, segundo ele, era como se "estivéssemos entrando em Gaza, então não há regras. Faça o que quiser."

"Se um palestino está se afastando do local e não demonstra nenhuma intenção hostil, e mesmo assim estamos atirando tiros de advertência, estamos errados, estamos sendo criminalmente negligentes", disse.

Ele afirmou que cada centro tinha câmeras de vigilância monitorando a atividade na área, e que a insistência da GHF de que ninguém havia sido ferido ou alvejado era "uma mentira descarada".

A GHF afirmou que os tiros ouvidos nas imagens compartilhadas com a BBC vinham das forças israelenses.

Líderes de equipe se referiam às pessoas de Gaza como "hordas zumbis", disse o ex-contratado, "insinuando que essas pessoas não têm valor".

Ele também relatou que palestinos estavam sendo feridos de outras formas nos centros da GHF, por exemplo, atingidos por estilhaços de granadas de efeito moral, com spray de pimenta ou empurrados pela multidão contra arame farpado.

Ele disse ter testemunhado várias ocasiões em que palestinos pareceram ter se ferido gravemente — incluindo um homem que levou uma lata inteira de spray de pimenta no rosto e uma mulher que, segundo ele, foi atingida por uma peça metálica de uma granada de efeito moral, disparada de forma inadequada contra a multidão.

"Essa peça metálica a atingiu diretamente na cabeça e ela caiu no chão, sem se mover", disse ele. "Não sei se ela morreu. Sei com certeza que estava inconsciente e completamente imóvel."

No início desta semana, mais de 170 instituições de caridade e ONGs pediram o encerramento da GHF. As organizações, incluindo Oxfam e Save the Children, afirmam que forças israelenses e grupos armados "rotineiramente" abrem fogo contra palestinos em busca de ajuda.

Israel nega que seus soldados atirem deliberadamente em pessoas que recebem ajuda e afirma que o sistema da GHF fornece assistência direta a quem precisa, contornando a interferência do Hamas.

A GHF afirma ter entregue mais de 52 milhões de refeições em cinco semanas e que outras organizações "ficam impotentes enquanto sua ajuda é saqueada".

O exército israelense lançou uma ofensiva em Gaza em resposta ao ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, no qual cerca de 1,2 mil pessoas foram mortas e outras 251 feitas reféns.

Desde então, pelo menos 57.130 pessoas foram mortas em Gaza, segundo o ministério da saúde do território, controlado pelo Hamas.

¨      Número de mortos em Gaza é 65% maior que oficial, diz estudo

Com a entrada de jornalistas na Faixa de Gaza severamente restrita pelos israelenses, a fonte de dados sobre o número de vítimas da guerra costuma ser o Ministério da Saúde local, controlado pelo Hamas – e Israel sempre rejeitou esses números, alegando que eles seriam exagerados. Agora, um estudo independente mostra que a contagem real de mortos é provavelmente ainda maior que os números oficiais.

Uma pesquisa conduzida pelo economista Michael Spagat, do Royal Holloway College, da Universidade de Londres, estimou que, até o início de janeiro deste ano, mais de 80 mil palestinos haviam sido mortos na guerra de Israel em Gaza, 65% a mais do que os nomes que constam nas listas do Ministério da Saúde local.

Para Spagat, especializado em guerras contemporâneas e na contagem de vítimas de conflitos, um dos aspectos importantes do seu trabalho é "lembrar-se de cada vítima". Que os nomes dos mortos estejam pelo menos escritos em listas, como o Ministério da Saúde de Gaza faz atualmente.

Ele considera as listas oficiais "amplamente corretas" – mesmo que o ministério seja controlado pelo Hamas, classificado como uma organização terrorista pela União Europeia (UE), pelos Estados Unidos e outros países.

"O Ministério da Saúde de Gaza lista os nomes dos mortos com seu número de identificação, idade e sexo. Isso pode ser facilmente verificado", afirma.

Isso já foi feito: em fevereiro, pesquisadores publicaram um estudo na revista científica The Lancet que comparou obituários publicados em redes sociais com as listas do Ministério da Saúde palestino, e chegaram à conclusão que alguns nomes não haviam sido adicionados à lista oficial – ou seja, havia nomes faltando. E concluiu que o número de mortos era provavelmente maior do que o divulgado.

<><> Pesquisadores em campo em Gaza

Agora, pela primeira vez, foi apresentado um estudo realizado de forma independente sobre as listas de mortos publicadas pelo Ministério da Saúde em Gaza. Os pesquisadores, liderados por Spagat, perguntaram aos moradores do território palestino sobre os membros falecidos de suas famílias.

Para fazer isso, eles estabeleceram uma colaboração com colegas do Centro Palestino para Políticas e Pesquisas de Opinião (PCPSR), uma organização independente de pesquisa, liderada pelo cientista político Khalil Shikaki, financiada por fundações privadas e pela UE, entre outros. Ela é sediada em Ramallah, na Cisjordânia, mas também conta com uma equipe experiente na Faixa de Gaza.

"Não precisamos ser autorizados a entrar em Gaza. Já estávamos lá", diz Spagat, explicando como os dados foram coletados na zona de guerra, onde – com exceção de algumas organizações humanitárias – a autoridade israelense responsável dificilmente permite a entrada de alguém. Israel vem proibindo a entrada de jornalistas internacionais desde o início da guerra. "Felizmente, nenhum de nossos pesquisadores em campo foi morto até agora. Todos os funcionários do estudo estão vivos."

Os pesquisadores em campo conversaram com uma amostra de 2 mil famílias, representativa da população de Gaza antes do ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro de 2023, que levou à guerra conduzida por Israel.

Eles não puderam entrar em áreas isoladas pelo exército israelense como zonas de combate. No entanto, como grande parte da população de Gaza foi deslocada, os pesquisadores puderam conversar com pessoas em locais como o acampamento de Al-Mawasi, onde estão ex-moradores do norte da Faixa de Gaza ou de Rafah.

O estudo concluiu que, de 7 de outubro de 2023 a 5 de janeiro de 2025, o número de mortes diretas pela guerra foi de cerca de 75.200. No mesmo período, o número de mortos segundo o Ministério da Saúde de Gaza foi de 45.650. A pesquisa indica, portanto, que o número real de mortes é 65% maior do que o registrado nas listas oficiais.

Isso significa que cerca de uma em cada 25 pessoas foi morta na Faixa de Guerra, que tinha uma população de cerca de 2,3 milhões de habitantes no início da guerra.

<><> Mortes por desnutrição e doenças

A isso se soma o número das chamadas "mortes indiretas da guerra", ou seja, todas as pessoas que morreram em consequência da desnutrição ou de doenças provocadas pelas circunstâncias da guerra – menos o número de pessoas que teriam morrido de velhice ou doença independentemente da guerra. Os pesquisadores estimam que as mortes indiretas da guerra somam 8.540 para o período mencionado.

Esse número é significativamente menor do que o anteriormente estimado. Um estudo publicado na revista The Lancet em julho de 2024 havia projetado que, para cada morte contabilizada, quatro mortes indiretas adicionais da guerra teriam que ser adicionadas. As organizações humanitárias vêm alertando há meses que os civis em Gaza podem morrer de desnutrição e doenças – falou-se em dezenas de milhares de mortes indiretas da guerra.

Spagat atribui o número mais baixo de "mortes indiretas" ao fato da população de Gaza ser, em média, jovem e, antes da guerra, em grande parte bastante saudável, devido a um bom sistema de saúde e à alta taxa de vacinação "graças à ONU e a muitas organizações humanitárias".

Esse número não é baixo em comparação com outras zonas de guerra. "Nossos números mostram que as organizações humanitárias têm feito um ótimo trabalho em manter a população viva até agora", afirma.

Ele ressalta que o estudo foi realizado antes do bloqueio total de onze semanas imposto por Israel às entregas de ajuda humanitária a Gaza. "A população de Gaza está desnutrida. Quando surgem doenças, as coisas podem acontecer muito rapidamente. Mesmo que houvesse um cessar-fogo na próxima semana e ele fosse mantido, o número de mortes indiretas cresceria novamente. Nossos números não são definitivos."

O estudo ainda não foi revisado de forma independente por pesquisadores que não estiveram envolvidos nele. Trata-se de uma pré-impressão. Por esse motivo, os números também não podem ser considerados definitivos. Mas as conclusões coincidem com o estudo publicado anteriormente na Lancet, que verificou a lista de nomes fornecida pelo Ministério da Saúde de Gaza.

<><> Mais de 30% das mortes diretas são de crianças e adolescentes

A equipe de pesquisa de Spagat e Shikaki utilizou métodos diferentes, mas tinha um objetivo semelhante. Eles queriam verificar se a instituição que conta diariamente as novas mortes na Faixa de Gaza pode ser usada como referência confiável.

"Mostramos claramente que eles não estão exagerando o número de mortos. O estudo também indica que eles fornecem um quadro realista da demografia das vítimas fatais. A porcentagem de mulheres, crianças e idosos que calculamos corresponde com bastante precisão aos números do Ministério da Saúde em Gaza."

De acordo com o estudo, mais de 30% das mortes diretas são de crianças e adolescentes menores de 18 anos. Outros 22% são mulheres e cerca de 4% são pessoas com mais de 65 anos. A maioria dos mortos são homens de 15 a 49 anos. Isso significa que os combatentes foram realmente alvos?

"Não", responde Spagat. "Nas guerras, os jovens são sempre os mais propensos a serem mortos." Assim como o Ministério da Saúde de Gaza, o estudo não faz distinção entre combatentes e civis.

"Teríamos colocado nossos pesquisadores de campo em risco se eles tivessem perguntado se havia membros do Hamas morando na casa." Eles poderiam ser considerados suspeitos de serem agentes do serviço secreto israelense, de acordo com Spagat. Portanto, esses dados não foram coletados.

<><> 100 mil mortos até hoje – um número difícil de imaginar

Ele enfatiza: "Temos um número muito grande de crianças pequenas mortas, o que é fora do comum". Ele hesita em fazer comparações, mas "em Gaza, 4% da população foi morta. Não vimos isso em nenhuma outra guerra no século 21".

Se extrapolarmos os números do estudo de Spagat e Shikaki para os dias de hoje, chegaríamos rapidamente a 100 mil mortos. Um número difícil de imaginar, por trás do qual estão os nomes e as histórias de pessoas.

Conhecemos algumas delas, como a família al-Najjar. As crianças Yahya, Rakan, Ruslan, Jubran, Eve, Rivan, Saydeen, Luqman e Sidra foram mortas em 23 de maio em um ataque aéreo israelense em Khan Yunis. Sua mãe sobreviveu porque estava de plantão no hospital como médica. O único sobrevivente do ataque foi seu filho Adam, de onze anos. O pai das crianças, o também médico Hamdi al-Najjar, morreu alguns dias depois.

 

Fonte: The Guardian/BBC News/DW Brasil

 

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