Governo
promete agroecologia no Pronaf, mas banca pecuária, que desmata Amazônia
O GOVERNO
LULA (PT) lançou na segunda-feira (30) o novo Plano Safra da Agricultura
Familiar com entusiasmo. Apresentado como um marco de compromisso com o meio
ambiente e o combate à fome, o plano prevê juros reduzidos e novas linhas
voltadas à agroecologia, com valor recorde de R$ 89 bilhões.
O
discurso, contudo, contrasta com o histórico do Pronaf (Programa Nacional de
Fortalecimento da Agricultura Familiar) na Amazônia Legal: nos últimos 30 anos,
quase 65% desta linha de crédito rural foi destinada à pecuária.
A
informação é resultado de um levantamento inédito do WRI (World Resources
Institute), uma organização global de pesquisas, conduzido pelo economista
sênior Rafael Feltran-Barbieri. Ele aponta uma contradição entre o objetivo do
programa e a destinação real dos recursos. “Impressiona como na Amazônia, mais
do que no resto do Brasil, o Pronaf financiou muito a pecuária”, afirma.
A
pecuária é nociva para a Amazônia por vários motivos: é a principal causa da
devastação, responsável por mais de 90% do desmatamento do bioma para abertura
pastagens, segundo o MapBiomas; contribui significativamente para as emissões
de gases de efeito estufa, como o metano, liberado no processo de digestão dos
animais; e está ligada à grilagem de terras.
O
economista considera problemático destinar tantos recursos da agricultura
familiar para a criação de gado, pois a pecuária extensiva gera poucos empregos
e apresenta rentabilidade limitada. “A agricultura familiar é o contrário
disso. Permite desenvolvimento em áreas pequenas, com baixo impacto ambiental e
mais geração de renda”, defende.
O
Pronaf é o principal programa do Plano Safra da Agricultura Familiar, com R$
78,2 bilhões disponíveis, o que corresponde a 88% dos recursos anunciados para
a safra 2025/2026.
Uma das
novidades neste ano é o Pronaf B Agroecologia, que oferece microcrédito de até
R$ 20 mil com juros de 0,5% ao ano e bônus de adimplência de 40% (desconto nas
parcelas pagas dentro do prazo). Além do Pronaf B Quintais Produtivos para
Mulheres Rurais, com condições semelhantes. Há ainda a criação do SocioBio
Mais, que garante preço mínimo a produtos como babaçu, pirarucu e borracha.
As
medidas foram apresentadas como resposta às críticas da sociedade civil sobre o
uso histórico do Pronaf, especialmente na Amazônia. A campanha Sociobioeconomia
no Pronaf, por exemplo, articulada por dezenas de organizações, reivindicava
que ao menos 5% dos recursos do programa fossem destinados a sistemas
produtivos sustentáveis baseados em floresta, agroecologia e manejo comunitário
– algo possível de ser alcançado com as novas linhas criadas.
“Esse
plano só existe porque há contribuição de vocês. Vocês que lutam, pressionam e
batalham para ter políticas públicas para produção de alimentos”, disse o
ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, durante o lançamento.
O
presidente Lula classificou os juros do Pronaf como “negativos” — de 2% a 3% ao
ano em sua maior parte — diante de uma inflação estimada em 5%, e celebrou o
plano como parte de uma estratégia para reconstruir políticas públicas no
campo.
Os
anúncios são importantes por reforçar o compromisso do governo com a
agricultura familiar, avalia o secretário-geral do CNS (Conselho Nacional das
Populações Extrativistas), Dione Torquato. Porém, ele alerta ser necessário
garantir que os recursos cheguem de fato à agricultura familiar. “Não somos
contra as grandes commodities, mas são os alimentos da sociobiodiversidade que
chegam na mesa do brasileiro”, afirma.
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Burocracia e falta de informação limitam acesso a créditos
As
novas linhas de crédito só terão impacto real se forem lastreadas por recursos
suficientes e implementadas de forma estruturada, afirma Feltran-Barbieri, do
WRI. “Se esses programas específicos não tiverem fundos, vão ficar só no papel.
A pecuária continuará sendo priorizada”, avalia.
Segundo
o economista, mesmo quando há recursos disponíveis, o crédito frequentemente
acaba direcionado à pecuária por falta de demanda informada e de conhecimento
técnico nos bancos que operam o Pronaf.
“Os
técnicos dos bancos têm dados de produtividade da pecuária, mas muitas vezes
não têm base para avaliar uma agrofloresta, por exemplo, no momento de conceder
o crédito”, exemplifica.
Fernando
Moretti, da Conexsus (Instituto Conexões Sustentáveis), também reconhece
avanços no novo Plano Safra, porém ele aponta falta de estrutura para que o
crédito chegue a quem trabalha com agroecologia e produtos da floresta.
Um dos
principais problemas é que muitas famílias seguem de fora por não terem o CAF
(Cadastro Nacional da Agricultura Familiar), necessário para acessar o Pronaf e
outras políticas públicas. Segundo a Conexsus, cerca de 40% das famílias da
sociobiodiversidade ainda não têm esse documento.
Moretti
também defende mudanças nas regras do crédito rural, como a aceitação de
documentos alternativos ao CAR (Cadastro Ambiental Rural) em áreas coletivas e
a criação de equipes especializadas nos bancos públicos para atender melhor
quem vive da floresta.
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Programa ignora seguro para comunidades enfrentarem emergência climática
Dione
Torquato, do Conselho Nacional das Populações Extrativistas, aponta também a falta de um componente
importante no plano do governo federal: um seguro climático nacional que inclua
as comunidades extrativistas.
Ele
destaca que o Plano Safra já oferece subsídio a grandes produtores por perdas
climáticas, o que não existe, até hoje,
para quem vive da floresta. Um exemplo dessa exclusão, segundo Torquato, foi a
perda enfrentada por famílias no baixo Rio Juruá (AM) durante a seca severa de
2024.
Uma
balsa carregada com pirarucu manejado ficou encalhada por dias em um banco de
areia, forçando a associação local a contratar barcos extras para tentar salvar
a carga. Com a operação emergencial todo o lucro foi perdido, detalhou o
presidente da Aspruj (Associação dos Trabalhadores Rurais de Juruá), Antônio
Marcos Faria dos Santos.
Segundo
o agricultor, os períodos secos mais longos estão reduzindo o tempo útil de
pesca do pirarucu. “Nesses últimos tempos, as secas estão pesadas. O governo
precisa olhar para quem cuida da floresta”, afirmou. A Aspruj representa cerca
de 500 famílias ribeirinhas de 15 comunidades próximas a Tefé (AM).
Diante
de situações como essa, o Projeto de Lei 1528/2025, apresentado pela deputada
Célia Xakriabá (PSOL-MG), quer incluir povos indígenas, quilombolas,
ribeirinhos, extrativistas e pescadores artesanais no Fundo Garantia-Safra, com
direito a indenizações por perdas causadas por seca ou excesso de chuva.
O texto
prevê que o benefício possa chegar a até dois salários mínimos, pagos em até
seis parcelas, e que seja estendido a atividades extrativistas e pesqueiras,
não apenas agrícolas. A proposta também sugere que beneficiários participem de
programas de capacitação técnica para enfrentar as mudanças climáticas, com
foco em regiões como o Semiárido e a Amazônia.
Apesar
de ter alcançado valor recorde, o Plano Safra da Agricultura Familiar ainda é
muito menor do que o destinado a médios e grandes produtores. A vertente
empresarial do plano, lançada no dia seguinte, na terça (1º), promete R$ 516,2
bilhões, quase seis vezes mais do que o destinado à agricultura familiar.
O
Greenpeace Brasil criticou a disparidade e alertou para a ausência de critérios
mais rígidos. A organização afirma que o crédito rural voltado para o
agronegócio ainda permite o financiamento de imóveis com infrações ambientais e
não exige rastreabilidade na pecuária.
“É
necessário que esses bilhões sirvam à transição para sistemas alimentares
justos, resilientes e sustentáveis”, disse Thais Bannwart, porta-voz da Frente
de Desmatamento Zero da entidade. Para o Greenpeace, a política de crédito
rural, como está estruturada hoje, segue alimentando o desmatamento ainda que
embalada por um discurso de sustentabilidade.
• Lula cria programa de redução de
agrotóxicos, mas incentivos ao setor preocupam
O
LANÇAMENTO DO PRONARA (Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos), por meio
de decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na última
segunda-feira (30), representa um marco histórico para a política ambiental e
de saúde pública no Brasil, avaliam organizações sociais que integram a
Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. Mas as entidades
reforçam que a vitória precisa ser acompanhada de políticas públicas efetivas e
do envolvimento da sociedade para que o plano se concretize.
Em nota
publicada na última terça-feira (1), a campanha chama a atenção para o fato de
que, no mesmo dia da assinatura do decreto, o Diário Oficial da União publicou
a concessão de 115 novos registros de agrotóxicos. Critica, ainda, as
bilionárias isenções fiscais concedidas para a indústria de defensivos
agrícolas. Até agosto de 2024, por exemplo, o governo federal renunciou a mais
de R$ 25,7 bilhões em impostos para o setor. Esses dois pontos, diz a nota,
“nos lembram de que o ‘Programa de Incentivo aos Agrotóxicos’ segue mais forte
do que nunca”.
O
Pronara prevê a coordenação entre ministérios como o da Agricultura, Saúde,
Meio Ambiente, Desenvolvimento Agrário e Desenvolvimento Social para reduzir
gradualmente o uso de agrotóxicos, especialmente os mais perigosos ao meio
ambiente e à saúde humana, além de fomentar a produção sustentável e
agroecológica.
O
programa está vinculado ao Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica
(Planapo) e foi construído ao longo de mais de uma década de intenso diálogo
entre governo, movimentos sociais, agricultores familiares e organizações da
sociedade civil.
“A
gente sempre acreditou na proposta do Pronara como uma ferramenta viável para o
Brasil poder avançar, mesmo que em passos tímidos, para um processo de
transição agroecológica. Ele tem ações para fomentar a agroecologia, a
tecnologia, capacitação e assistência técnica, além de propor avanço na
pesquisa e vigilância em saúde”, afirma Jakeline Pivato, coordenadora da
Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. “A questão é: só vai
surtir algum efeito se o que projetamos realmente sair do papel, e não há
dúvidas que, para avançar, só com muita luta e pressão popular”, completa.
Desde
sua elaboração, há mais de dez anos, o Pronara enfrentou forte resistência,
principalmente do Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária). Em 2014, por
exemplo, a então ministra Kátia Abreu – na época, líder ruralista – bloqueou a
inclusão do programa no Planapo, alegando que seria uma “sentença de morte da
agricultura brasileira”.
Em
2024, a Secretaria de Defesa Agropecuária do Mapa negou novamente a
incorporação do Pronara ao Planapo, atrasando seu lançamento e exigindo a
intervenção direta do presidente Lula para que o ministério aceitasse o
programa.
“Mesmo
sendo um programa dentro do governo, e mesmo havendo eventualmente vontade
política, as fortíssimas bases do agronegócio e da bancada ruralista instaladas
no executivo sempre agiram para frear o Pronara”, afirma a nota da campanha.
Esse
histórico de resistência ao programa ocorre em um contexto preocupante: o
Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos; em 2022, por exemplo, usou
mais de 800 mil toneladas, o que representa 22% do total global. Entre 2000 e
2023, o uso desses produtos cresceu 365%, muito acima do crescimento econômico
do país.
Pesquisas
apontam que a exposição a agrotóxicos provoca sérios danos à saúde, incluindo
intoxicações agudas, danos ao DNA, aumento do risco de câncer, distúrbios
hormonais, abortos espontâneos e doenças neurológicas. Um estudo recente da
Universidade Federal da Paraíba (UFPB) identificou que trabalhadores rurais
expostos apresentam níveis significativamente maiores de danos genéticos,
associados a envelhecimento precoce e doenças degenerativas.
Além
disso, a Anvisa monitora resíduos dessas substâncias em alimentos consumidos
pela população, reforçando os riscos de contaminação alimentar. Organizações
como a Abrasco alertam que cerca de um terço dos alimentos consumidos no Brasil
está contaminado por agrotóxicos.
Além
dos impactos à saúde, o uso intensivo de agrotóxicos está associado a práticas
agrícolas que dependem de monoculturas e alta mecanização, que, por sua vez,
requerem grandes quantidades de fertilizantes sintéticos. Esses fertilizantes
nitrogenados liberam óxido nitroso (N2O), um gás com potencial de aquecimento
global cerca de 300 vezes maior que o CO2, segundo estudos do Karlsruhe
Institute of Technology (KIT) e relatórios internacionais como o da ONU.
Para os
movimentos sociais, a instalação do Comitê Gestor do Pronara, prevista para os
próximos dias, será fundamental para garantir a transparência, o monitoramento
e a implementação das ações que podem transformar a realidade da agricultura
brasileira, protegendo a saúde da população e a preservação ambiental.
“O
caminho que precisamos percorrer para avançar na proteção da sociedade é a
reforma agrária, subsídios e fomento à agroecologia, banimento dos agrotóxicos
banidos em outros lugares do mundo, legislações protetivas, acesso à cultura,
educação. Mais políticas públicas de redução de agrotóxicos e o fim da isenção
fiscal aos agrotóxicos”, analisa Pivato.
Fonte:
Repórter Brasil

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