Da
periferia chilena à corrida presidencial: Jeannette Jara lidera pesquisas
Uma
mulher comunista está na liderança das pesquisas eleitorais para presidir o
Chile. Anunciada oficialmente candidata pela Unidade pelo Chile, coalização de esquerda
e centro-esquerda, Jeannette Jara avançou 24
pontos nas sondagens, passando de 7,4% das intenções de voto em maio para 31,4%
neste mês de junho.
A
pesquisa da consultora Activa Research ocorre após as primárias da coalização
de esquerda e centro-esquerda, ocorridas no último domingo (29/06), que
deram uma vitória esmagadora à candidata do
Partido Comunista chileno (PCCh, por sua sigla em espanhol), com 60,17% dos
votos.
Pela
primeira vez, os comunistas chilenos contarão com o apoio de uma grande
coalizão na disputa pelo Palácio de La Moneda. Jara não é a primeira mulher
comunista a disputar a Presidência do Chile: em 1999, Gladys Marín se lançou ao
cargo e obteve 3,19% dos votos.
A
diferença é que agora, 25 anos depois, há reais chances de vitória sustentada
por uma ampla base de apoio. Uma virada histórica para o Partido Comunista que
não apresentava um nome tão competitivo desde Elias
Lafert, em 1932.
Com
simpatia da população e um legado de realizações a apresentar, Jara apresentará
os feitos de sua passagem pelo Ministério do Trabalho e de Bem-Estar Social do
atual governo de Gabriel Boric. “Temos a
oportunidade de reencantar os cidadãos”, disse a agora candidata, em seu
discurso de vitória, após vencer quadros importantes da centro-esquerda
chilena, como Carolina Tohá (Partido Pela Democracia) e Gonzalo Winter
(Convergência Social).
Principal
aposta da esquerda para as eleições de novembro, aos 51 anos, ela enfrentará a
extrema direita liderada por José Antonio Kast (Partido Republicano) e a
direita encabeçada pela ex-ministra de Sebastián Piñera, Evelyn Matthei
(União Democrata Independente) que detêm, segundo a sondagem divulgada nesta
sexta-feira (04/07), 18% e 17,4% das intenções de voto, respectivamente.
Seu
desafio será construir pontes para além da esquerda. Para isso, Jara irá
apostar em suas origens populares e em uma trajetória de 35 anos em defesa da
classe trabalhadora chilena.
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De Conchalí
Filha
de uma dona de casa e de um mecânico industrial e primogênita de cinco irmãos,
Jara nasceu em 1974, em El Cortijo, na comuna chilena de Conchalí que fica na
periferia de Santiago. Suas origens são humildes, ela cresceu em uma
‘mediagua’, como são chamadas as habitações pré-fabricadas típicas das
periferias da capital chilena, e sempre estudou em escolas públicas.
“Como
vocês sabem, eu era uma menina que começou a vida numa família humilde em
Conchalí (…), uma menina como muitas outras que hoje, aos cinco ou dez anos,
talvez me vejam hoje na televisão (…) A essa menina, venho oferecer o meu
coração”, afirmou em seu discurso de vitória.
Sua
militância comunista começou cedo, aos 15 anos, quando ingressou na Juventude
Comunista do Chile (JJCC, por sua sigla em espanhol). Foram dez anos até se
tornar, efetivamente, membro do PC chileno, aos 25 anos. No mesmo período, ela
ingressou na Serviços de Impostos Internos do Chile (SII, similar à Receita
Federal), onde atuou como auditora, tornando-se líder sindical dos
trabalhadores fiscais.
Com
dupla graduação, em Administração Pública pela Universidade de Santiago (USACH)
e em Direito pela Universidade Central do Chile, além de um mestrado em Gestão
e Políticas Públicas pela USACH, Jara integrou como assessora e, depois,
subsecretária de Bem-Estar Social, o segundo governo de Michelle Bachelet (2014-2018), a
primeira mulher a presidir o país.
“Não
posso falar de ex-presidentes sem reconhecer, pelo menos por um momento, o
tremendo legado que a ex-presidente Michelle Bachelet nos deixou. Foi ela quem
nos mostrou, mulheres, que nada é impossível, com talento, esforço e paixão.
Obrigada, Michelle, por abrir caminho”, afirmou Jara, no último domingo.
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Ministra de Boric
À
frente do Ministério do Trabalho e Bem-Estar Social do atual governo, Jara
ganhou projeção nacional ao aprovar três grandes reformas que impactaram
diretamente a vida dos trabalhadores chilenos: a redução da jornada semanal de
45 para 40 horas, o aumento do salário-mínimo para 500 mil pesos (atualmente, o
mais alto da América Latina) e uma reforma previdenciária que conquistou apoio
até da direita.
Ela
deixou o cargo, em 7 de abril para disputar as primárias, com o compromisso de
ampliar a agenda social. Em seu discurso, prometeu aos chilenos um “salário
digno” de 750 mil pesos chilenos (R$ 4.335,00), caso seja eleita.
Apoiada
nas prévias pela Ação Humanista e pela Esquerda Cristã, Jara contará com apoio
do presidente Boric que a
parabenizou pela vitória nas prévias, convocando as demais forças a
apoiá-la. “Saúdo e abraço Jeannette Jara pelo enorme apoio que recebeu
hoje. Ela lidera imediatamente as forças do progressismo rumo ao futuro, que
claramente a escolheu como sua líder. O que nos espera não será fácil, mas
Jeannette sabe travar batalhas difíceis”, postou Boric na plataforma X.
“Agora,
vamos todos trabalhar juntos pela unidade, com carinho e abertura para convocar
a maioria de nossos compatriotas a continuar construindo um país mais justo,
seguro e feliz”, convocou, ao festejar a participação de 1,4 milhão de pessoas
na escolha eleitoral.
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Rumo ao La Moneda
Ao
longo de sua campanha, Jara manteve um tom conciliador e evitou grandes embates
ideológicos. Pressionada a comentar sobre a Venezuela e o governo de Nicolas
Maduro, ela contradisse o PC chileno, afirmando que se trata de um “regime
autoritário”. Também afirmou que o sistema cubano é “democrático à sua
maneira”, acrescentando que a Ilha “tem problemas internos” e que houve
“violações de direitos humanos” contra presos políticos.
Suas
declarações reforçam a busca de apoio em segmentos moderados do Chile, como a
Democracia Cristã, partido cuja direção resiste em apoiá-la por ser comunista –
apesar de que alguns dos seus parlamentares, sim manifestaram apoio à sua
candidatura, como a senadora e ex-candidata presidencial Yasna Provoste, o
senador Francisco Huenchumilla e o deputado Eric Aedo.
Para
escapar das simplificações, Jara vem apresentando propostas. Além do aumento do
salário-mínimo prometido aos chilenos, sua estratégia econômica está focada na
expansão do mercado interno chileno, através de incentivos ao consumo privado e
público, e do aumento dos investimentos estatais.
Seu
programa de governo prevê medidas para o fortalecimento da renda familiar,
geração de emprego, estímulo à negociação coletiva e reforma tributária
progressiva. Ela também defende o reconhecimento e a remuneração do trabalho
doméstico e de cuidado, e é uma apoiadora aguerrida do projeto de creche
universal, em discussão no Parlamento chileno, com forte adesão popular.
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Embates
Embora
evite polêmicas, Jara mostrou que é capaz de grandes embates. Em relação às
imensas reservas de lítio do país, já afirmou que irá rever um acordo para a
exploração do mineral no Salar de Atacama, firmado entre a estatal Codelco e a
empresa SQM da família de Julio Ponce Lerou, ex-genro do ditador Augusto
Pinochet.
Como
informa El País, ela pretende revisar o acordo, mas respeitará as leis.
“Se for a nossa vez de assumir a Presidência e isso for resolvido, eu o
respeitarei. Existe o Estado de Direito aqui; se não for, buscarei outro
caminho”, afirmou.
O Chile
é um dos países do chamado “triângulo do lítio”, ao lado da Argentina e da
Bolívia. Os três detêm as reservas mais importantes do mineral das chamadas
terras raras, fortemente cobiçado pelo setor de tecnologia e dos carros
elétricos.
Sua
postura também é firme na defesa intransigente da soberania chilena e da ordem
multilateral. Se eleita, alertou, não deixará o Chile subordinado “a governos
estrangeiros ou a modelos externos”.
“Manterei
uma política internacional baseada na independência e no multilateralismo,
defendendo os direitos humanos onde quer que sejam violados no mundo, em linha
com nossa tradição como Estado, promovendo relações comerciais com outras
nações que nos beneficiem como país. Continuaremos a ser um país livre,
independente e soberano”, garantiu.
Manifestações
de sensibilidade social e de firmeza, características notáveis das grandes
presidentas de esquerda e centro-esquerda na América Latina, vide Cláudia, Dilma, Michelle, Cristina, Xiomara…
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‘Milei chileno’ diz apoiar novo golpe militar,
perseguição a comunistas e repressão violenta
Em
entrevista realizada nesta quinta-feira (03/07) ao canal Megavisión, o
candidato presidencial chileno Johannes Kaiser, do Partido Nacional Libertário,
afirmou que apoiaria um novo golpe de Estado no país, semelhante ao promovido
em 1973 por Augusto Pinochet.
Perguntado
sobre se apoiaria um novo golpe, o político que atualmente exerce o cargo de
deputado afirmou que o faria “sem dúvida, e aceitaria todas as consequências”.
Em
seguida, o entrevistador questionou se ele reconhece as mortes e violações aos
direitos humanos ocorridas durante a ditadura de Pinochet (1973-1990), ao que
Kaiser respondeu que sim, e que também estaria disposto a apoiar essas mesmas
práticas novamente.
“Se
estamos pedindo (ao Exército) por uma luta de classes, e recebemos a resposta,
não podemos esperar que ela seja pacífica”, alegou o político de extrema
direita.
Johannes
Kaiser é considerado pela imprensa de seu país como o “Milei chileno”, e lançou
sua candidatura presidencial pelo recentemente fundado Partido Libertário
Nacional, utilizando o termo “libertário”, utilizado justamente pelo presidente
da Argentina para definir a si mesmo como uma forma diferente de defensor do
liberalismo.
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Perseguição a comunistas
Além de
se dizer apoiador de um possível novo golpe de Estado, Kaiser anunciou na
entrevista que, se eleito, pretende tornar o Partido Comunista chileno ilegal,
e iniciar um processo judicial contra todos os seus líderes, pelo suposto
envolvimento com os protestos da revolta social em outubro de 2019.
“Estou
dando um alerta, o Partido Comunista deveria sido condenado já durante o
governo militar (ditadura de Pinochet), como fizeram na Polônia e na Ucrânia, e
nós vamos fazer aqui no Chile se chegarmos ao governo”, afirmou Kaiser.
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Pesquisa
Na pesquisa eleitoral mais recente, publicada nesta
quinta-feira (03/07) pela consultora Activa Research, Johannes Kaiser aparece
em quinto lugar, com 4,2% das intenções de voto. Sua campanha vem em queda nas
pesquisas, já que no começo do ano ele aparecia com dois dígitos em algumas medições.
Quem
lidera essa sondagem mais recente é a candidata do partido que Kaiser defende
perseguir: Jeannette Jara, do Partido Comunista, que aparece com 31,5% das
intenções de voto.
Em
segundo lugar está outro candidato de extrema direita, José António Kast, do
Partido Republicano, com 18,1%, seguido por Evelyn Matthei, da União Democrata
Independente (extrema direita), com 17,3%, e Franco Parisi, do Partido das
Pessoas (ultraliberal) com 7,6%.
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Zohran Mamdani: até março, candidato favorito a prefeito
de Nova York era só um desconhecido no metrô
Era
março em Nova York quando o fotojornalista Adam Gray despertou às seis da manhã
para mais um dia comum de trabalho. A pauta: acompanhar um dos pré-candidatos
às primárias do Partido Democrata para a prefeitura da cidade. Um nome
completamente desconhecido, até mesmo para quem cobre o dia a dia da “cidade
que nunca dorme” há quase uma década: Zohran
Mamdani.
O jovem
de 33 anos, representante do 36º distrito do Queens — uma das regiões mais
diversas etnicamente dos Estados Unidos —, poderia facilmente passar
despercebido num evento no descolado bairro de Bushwick. Um cara comum, mais um
millennial nova-iorquino. Naquele dia, Zohran não discursava em um comício
lotado, tampouco era seguido por uma multidão de apoiadores. As fotos
dificilmente estampariam uma capa do New York Times. Mesmo assim, o
fotojornalista decidiu acompanhá-lo — no metrô, ao lado apenas de um assessor,
rumo a Albany para cumprir mais um dia de trabalho como legislador.
Cinco
meses depois, aquele político quase invisível é hoje o nomeado candidato democrata à prefeitura de
Nova York,
favorito na corrida contra os republicanos. A campanha que parecia pequena e
improvável acabou surpreendendo a todos — inclusive o repórter que testemunhou,
através das lentes, o nascimento de um fenômeno político.
Os dias
de acesso livre a Mamdani deram lugar a longas esperas em frente à sede do
National Action Network (NAN), onde ele agora sai pelos fundos, ladeado pelo
reverendo Al Sharpton e pelo cineasta ganhador do Oscar, Spike Lee. Uma SUV os
espera. Nenhuma palavra à imprensa, apenas o ritual de abrir caminho entre o
mar de fotógrafos e desaparecer no carro. Mamdani virou celebridade — a aposta
de eleitores cansados dos nomes de sempre, como Andrew Cuomo, e a esperança de
um Partido Democrata abalado, que após a vitória de Donald Trump, ainda busca
uma nova direção.
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Zohan: novo Obama do Partido Democrata?
Um
colega jornalista que esteve na festa de comemoração da vitória resumiu, em uma
postagem, o que muitos sentem: “Zohran devolveu ao povo a esperança, aquela
mesma que se sentia na época de Barack Obama.”
Nascido
em Uganda, Zohran Mamdani é filho da premiada cineasta indiana Mira Nair,
diretora de obras como Monsoon Wedding — indicado ao Globo de Ouro e vencedor
do Leão de Ouro em Veneza —, e do renomado acadêmico Mahmood Mamdani,
pesquisador nas áreas de colonialismo, identidade e justiça transicional, com
passagens por universidades como Columbia e Makerere, em Uganda.
Zohran
carrega duas etiquetas que muitos candidatos tradicionais do Partido Democrata
evitariam exibir: é muçulmano e socialista declarado. Nada disso, no entanto,
parece ter afastado os eleitores — afinal, nas primárias, apenas membros do
próprio partido podem votar. E Mamdani conquistou essa base ao falar com
clareza sobre temas que impactam diretamente a vida dos nova-iorquinos: a
guerra em Gaza, o avanço das deportações e, acima de tudo, o custo de vida.
Em Nova
York, onde 37% da população é formada por imigrantes e muitos rejeitam o
envolvimento dos EUA nos conflitos do Oriente Médio, Zohran Mamdani representa
uma nova postura política: um político que se opõe às deportações em massa e defende o direito da Palestina
de existir,
enfrentando temas difíceis com propostas claras.
Uma pesquisa da Siena College de janeiro de
2024 revelou que 53% dos nova-iorquinos se opõem ao envio de ajuda militar e
econômica adicional a Israel, enquanto apenas 35% apoiam a medida — reflexo do
sentimento de uma cidade diversa que busca vozes que traduzam suas preocupações
e desafios.
Sua
plataforma é clara e ousada. Ele promete transporte público gratuito, creche
universal para todas as crianças de até 5 anos, e controle de aluguéis. Para
financiar essas mudanças, propõe a criação de US$ 10 bilhões em nova
arrecadação, com aumento de impostos para grandes empresas e os mais ricos do
estado. Só a proposta dos ônibus gratuitos, por exemplo, custaria cerca de US$
900 milhões por ano ao sistema de transportes MTA.
Para
Mamdani, isso não é utopia, é necessidade. Como ele disse recentemente: “Não dá
pra chamar Nova York de ‘a maior cidade do mundo’ quando grande parte da
população não consegue pagar para viver nela.”
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Retomar as redes sociais sem esquecer o corpo a corpo
Durante
muito tempo dominadas pela direita, as redes sociais começam a se tornar também
terreno fértil para campanhas progressistas. Se antes o TikTok era visto apenas
como espaço para desinformação, agora ele é compreendido como uma ponte direta
entre candidato e eleitor.
Zohran
Mamdani soube usar essa linguagem como poucos — produziu
conteúdos variados, não teve receio de se expor, buscou engajamento com humor,
criatividade e autenticidade e alcançou mais de um milhão de seguidores.
A
estética da campanha também chamou atenção. Inspirada no visual dos pôsteres de
Bollywood, combinava cores saturadas, como azul-real vibrante com letras
amarelo-ocre e sombras vermelho-berrante, e tipografias ornamentadas, parecidas
com letreiros pintados à mão em vitrines de mercadinhos e lanchonetes de
bairro.
Foi
justamente nessas vitrines — e não nos grandes outdoors da cidade — que os
cartazes de Mamdani começaram a aparecer.
A
identidade visual, ao mesmo tempo excêntrica e familiar, foi criada por uma
cooperativa de design baseada na Filadélfia, liderada por Aneesh Bhoopathy. Em
entrevista à The Hollywood Reporter, ele contou que, além da influência de
Bollywood (uma homenagem direta à origem sul-asiática de Mamdani e a sua mãe
cineasta), a estética também bebeu de elementos visuais típicos de Nova York:
táxis, bilhetes de metrô, fachadas de bodegas e até raspadinhas de loteria.
“As
peças gráficas da campanha de Mamdani não se pareciam com nada da política
tradicional — e isso foi proposital”, afirmou Bhoopathy.
Mas o
diferencial de Mamdani não ficou só na internet. Apesar da forte presença
digital, ele apostou também no tradicional corpo a corpo. Realizou dezenas de
comícios por semana, mobilizou centenas de voluntários e encerrou sua campanha
com uma caminhada simbólica de 21 quilômetros — partindo do
Bronx até o distrito financeiro de Manhattan, cumprimentando nova-iorquinos
pelo caminho, apresentando sua proposta com o rosto aberto e os pés na calçada.
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Mamdani busca novos apoios
O que
a New Yorker chamou de “sonho nova-iorquino” ao noticiar a
surpreendente vitória de Zohran Mamdani nas primárias democratas ainda está
longe de se concretizar.
O
veredito final virá em novembro, nas eleições gerais, quando o social-democrata
enfrentará o atual prefeito e candidato à reeleição Eric Adams — que deixou o
Partido Democrata para concorrer como independente —, acusado pelos
conservadores de desviar-se da administração Biden. No campo republicano,
estará Curtis Sliwa, fundador do Guardian Angels, que segue firme na disputa
mesmo sob pressão do partido para se retirar. Além disso, o campo independente
pode incluir o advogado Jim Walden, que se apresenta como alternativa
pragmática e antiesquerdista, e há especulações de que Andrew Cuomo possa
reentrar na corrida por uma linha própria.
Até lá,
Mamdani terá que mostrar que tem “casca-grossa” para resistir à pressão. O
próprio presidente Donald Trump já ameaçou prendê-lo caso
se oponha aos planos de deportações em massa. Outros aliados de Trump chegaram
a sugerir a revogação da cidadania americana de
Mamdani —
que imigrou de Uganda aos sete anos de idade.
Em
busca de alianças para essa nova etapa, Mamdani passou o último sábado no
Harlem, onde participou de um comício ao lado do reverendo Al Sharpton, uma das
maiores referências da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e
presidente da National Action Network (NAN). O objetivo era claro: conquistar o
apoio das comunidades negras de Nova York.
Do
púlpito da NAN e com uma imagem de Martin Luther King à suas costas, Al
Sharpton afirmou que ninguém deveria considerar a comunidade negra como
garantida e que nenhuma pessoa sozinha representa esse grupo. Ele ressaltou o
compromisso de Mamdani, lembrando que o candidato esteve com eles no último
Natal, servindo refeições a pessoas em situação de rua — o único político que
ficou o dia todo e não foi embora.
O
reverendo explicou que essa postura explica a forte identificação dos jovens
com Mamdani, mencionando que seu neto disse: “E na minha própria família, foi
meu neto quem me ensinou a dizer Zohran. Então não se sinta mal — talvez seja
um bom sinal pra você”, falando sobre o possível estranhamento com o candidato
e explicando que ele levou Eu uns seis meses pra aprender a pronunciar Obama
direito
Sharpton
também destacou o impacto de Mamdani em pautas que a cidade costumava ignorar e
elogiou sua equipe, citando Patrick Gaspard, ex-embaixador dos EUA na África do
Sul e aliado próximo de Barack Obama, como alguém que ajudou a energizar os
jovens eleitores e a trazer novos votantes, forçando a cidade a enfrentar
questões até então negligenciadas.
No
mesmo evento, Mamdani reafirmou sua mensagem central: a esperança como força
transformadora. Citando Martin Luther King, declarou que “agora é a hora” de
tornar reais as promessas da democracia para quem não consegue pagar aluguel,
transporte ou creche em Nova York.
Reconhecido
como o primeiro muçulmano e o primeiro sul-asiático a disputar a prefeitura
pela legenda democrata, ele relativizou esses títulos, dizendo que é “apenas um
em uma longa linha” de pessoas que abriram caminho antes dele.
Encerrando
sua fala, Mamdani resgatou as palavras do ex-prefeito David Dinkins, o primeiro
prefeito negro da cidade, destacando que a comunidade votou “com esperança, não
com medo”, e que ao fazer isso expressou algo profundo sobre a alma e o caráter
de Nova York.
Para
Mamdani, essa esperança exige ação diária, pois “a esperança é uma disciplina”,
finalizou o candidato, agora oficial, diante da audiência do Harlem e das
lentes dos fotojornalistas, entre os quais o repórter Adam Gray, que pegou o
metrô junto com ele no começo da campanha.
Fonte: El Mostrador/Opera Mundi

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