segunda-feira, 14 de julho de 2025

Como Trump virou figura central da política brasileira em uma semana

Na última semana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se tornou uma figura central na política — não de seu país, mas do Brasil —, mobilizando oposição e governo em debates acirrados.

Trump fez declarações contra o governo Lula, atacou diretamente o Judiciário brasileiro e anunciou uma tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros exportados para os EUA.

Segundo entidades do setor, a tarifa de 50% tornaria inviável a exportação de produtos como suco de laranja, aço e carne, que perderiam competitividade nos EUA — principal destino de parte dessas mercadorias. Representantes da indústria temem demissões e cancelamento de contratos.

A decisão repercutiu como um terremoto em Brasília. Agora, as discussões no Congresso, no Executivo e até no Judiciário — incluindo movimentações para as eleições de 2026 — estão contaminadas pelo fator Trump.

Veja como isso aconteceu:

<><> A carta

O estopim da crise foi uma carta publicada por Trump em seu site, no dia 9, em que o republicano afirma que o Brasil está perseguindo Jair Bolsonaro e atacando empresas americanas:

“O governo Lula persegue seu antecessor político com investigações motivadas por vingança. A Suprema Corte do Brasil se tornou um instrumento de opressão.”

A motivação ideológica da taxação chocou o governo brasileiro e o Judiciário brasileiro, que lembram que Bolsonaro é réu por tentativa de golpe de Estado, num processo que obedece os ritos constitucionais.

Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros, a partir de 1º de agosto:

“Essa taxação é uma resposta legítima à tirania disfarçada de democracia. Não aceitaremos que o Brasil, sob o atual regime, continue atacando nossos aliados e prejudicando nossas empresas.”

O anúncio surpreendeu o governo brasileiro, que esperava — como o próprio Trump havia sugerido dias antes — uma tarifa geral de 10% para países do Brics, grupo que inclui o Brasil.

<><> Lula: 'Se não tiver jeito no papo, a gente taxa também'

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu com firmeza. Disse que Trump está “mal informado” e que o Brasil jamais admitirá intromissão estrangeira no seu Judiciário:

“Nos últimos 15 anos, entre comércio e serviços, temos um déficit de 410 bilhões de dólares com os EUA. Eu que deveria taxar ele.”

Lula acusou Jair Bolsonaro de ter enviado o filho, Eduardo, aos EUA para pedir ajuda a Trump:

“Aquela coisa covarde mandou o filho dizer: ‘Trump, pelo amor de Deus, salva meu pai’. É preciso que essa gente crie vergonha na cara.”

O presidente afirmou que tentará negociar na Organização Mundial do Comércio (OMC), mas que, se necessário, recorrerá à Lei da Reciprocidade, sancionada por ele em abril:

“Taxou aqui, a gente taxa lá. Não tem outra coisa a fazer.”

<><> Bolsonaro: 'Isso jamais teria acontecido sob o meu governo'

O ex-presidente Jair Bolsonaro manifestou apoio total à decisão de Trump. Em nota, disse ter recebido a notícia da tarifa com “senso de responsabilidade” e reafirmou:

“Reitero minha admiração pelo governo dos Estados Unidos.”

Bolsonaro ainda responsabilizou Lula e o Judiciário pela crise:

“A medida anunciada é consequência direta do afastamento do Brasil dos seus compromissos históricos com a liberdade. Isso jamais teria acontecido sob o meu governo.”

Ele também endossou a expressão usada por Trump e afirmou:

“Há uma verdadeira caça às bruxas no Brasil. Peço aos Poderes que ajam com urgência apresentando medidas para resgatar a normalidade institucional.”

<><> Brics e o pano de fundo geopolítico

A tensão ganhou força após a reunião do Brics no Rio de Janeiro, dias antes do tarifaço. Lula defendeu o multilateralismo, a soberania dos países membros e até mesmo a criação de uma moeda própria, alternativa ao dólar:

“Não temos a máquina de rodar dólar. Só os EUA têm. Podemos negociar com as moedas de cada país.”

Trump é contra essa visão:

“O Brics foi criado para nos prejudicar, para destruir o dólar como padrão. Se quiserem jogar esse jogo, eu também sei jogar.”

<><> Congresso

No Congresso, a reação escancarou a divisão entre governistas e bolsonaristas.

  • Randolfe Rodrigues (sem partido-AP): “Não existe dois lados quando o que está em jogo é a soberania nacional.”
  • Humberto Costa (PT-PE): “Trump fez um ataque ao Brasil, não a um governo.”
  • Ivan Valente (PSOL-SP): “É interferência externa, e defesa de um golpista que vai para a cadeia.”

Por outro lado, parlamentares da oposição apontaram a diplomacia ideológica de Lula como causa da crise:

  • Flávio Bolsonaro (PL-RJ): “Parabéns, Lula. Você conseguiu ferrar o Brasil.”
  • Ciro Nogueira (PP-PI): “O senhor colocou a ideologia acima do interesse do povo brasileiro.”

<><> Governadores se posicionam

Os governadores também se dividiram:

  • Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP): “Lula colocou ideologia acima da economia. Esse é o resultado.”
  • Romeu Zema (PL-MG): “A conta será paga pelas empresas e trabalhadores.”
  • Ronaldo Caiado (União-GO): “Lula declara guerra aos EUA e tenta ressuscitar o bolivarianismo.”
  • Eduardo Leite (PSD-RS): “Lamento a interferência externa, mas também a radicalização política interna.”
  • Jerônimo Rodrigues (PT-BA): “O Brasil não é quintal de ninguém. Não aceitaremos chantagem.”

<><> E agora?

Lula afirmou que não procurará Trump diretamente, mas que está disposto a dialogar.

O governo também organiza uma reunião com empresários brasileiros exportadores, que temem prejuízos bilionários com a medida. A expectativa é formar um grupo técnico para explorar novos mercados, enquanto tenta reverter o tarifaço na OMC.

Mesmo a milhares de quilômetros de Brasília, Trump quer ditar o tom do debate político brasileiro.

Ao fim da carta, o republicano escreveu:

“O Brasil está em perigo. E enquanto houver uma voz livre, ela precisa ser ouvida. Bolsonaro é um patriota. E Lula, um tirano travestido de democrata.”

Lula tem afirmado que essa atitude é "inaceitável".

Na sexta-feira (11), Trump disse que pretende conversar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre as novas tarifas aplicadas ao Brasil “em algum momento, mas não agora”. Eles nunca se falaram pessoalmente desde que Trump assumiu, no início do ano.

¨      'Diz pro seu marido, o Senhor Laranja, nos deixar em paz': brasileiros invadem posts de Melania após Trump fechar comentários

Dois dias após o anúncio do presidente americano Donald Trump sobre a taxação de 50% aos produtos brasileiros, usuários brasileiros do Instagram resolveram expressar indignação em comentários clamando pela soberania nacional.

Depois que Trump restringiu os comentários em suas publicações na última quinta-feira (10), os usuários migraram a revolta para perfis de personalidades ligadas ao presidente americano: a primeira-dama Melania Trump e o vice-presidente J.D. Vance.

Nem mesmo o perfil da Casa Branca se livrou da ira digital dos brasileiros. No fim do dia, o perfil de Trump já permitia comentários novamente, mas os brasileiros seguiram comentando em posts de pessoas ligadas ao presidente.

Frases como "Brasil soberano", "o Brasil é dos brasileiros" e "deixe o Brasil em paz" aparecem com muita frequência entre os comentários das publicações.

Outra frase muito presente é "o Brasil não é seu quintal". Em abril, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, se referiu à América Latina como "quintal" de Washington em entrevista à Fox News.

Na página de Melania, muitos brasileiros pediram que ela "controlasse" o marido. Outros fizeram piadas com a cor da pele do rosto do presidente americano.

"Diz pro teu marido Senhor Laranja pra deixar nosso país em paz, somos SOBERANOS e não quintal de NINGUÉM...não vamos deitar nunca", diz um comentário.

¨      Como o Brasil poderia retaliar os EUA após tarifas de Trump

O governo brasileiro está calculando os próximos passos de sua resposta ao anúncio do presidente dos Estados UnidosDonald Trump, de que produtos do Brasil exportados para o mercado americano serão submetidos a taxação adicional de 50% a partir de 1º de agosto.

Em entrevista na noite de quinta-feira (10/07) ao Jornal Nacional, da TV Globo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse que a primeira etapa da reação será a formação de um grupo de empresários brasileiros de setores com grandes volumes de exportação para os EUA, como produtores de suco de laranja e aço, além da Embraer.

A ideia é diagnosticar as consequências do aumento das tarifas e buscar soluções, como a procura por novos mercados estrangeiros.

Além disso, Lula afirmou que o Brasil vai buscar uma avaliação da Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre a situação.

"A partir daí, se não houver solução, nós vamos entrar com a reciprocidade já a partir do 1º de agosto, quando ele começa a taxar o Brasil", disse o presidente à TV Globo.

<><> Afinal, o que é a lei da reciprocidade, citada por Lula como uma possível resposta a Trump?

Sancionada pelo presidente brasileiro em abril, a Lei brasileira de Reciprocidade Econômica autoriza o governo a retaliar países ou blocos que imponham barreiras comerciais a produtos brasileiros.

Na época da entrada em vigor, a lei foi apresentada como uma "ação estratégica" frente às tarifas impostas a dezenas de nações pelo governo Trump, em abril.

Entre as medidas possíveis, o Brasil poderia impor restrições e sobretaxas na importação de bens e serviços, suspender acordos ou obrigações comerciais e, em casos excepcionais, suspender direitos de propriedade intelectual, como reconhecimento de patentes ou pagamento de royalties.

A lei determina ainda que "consultas diplomáticas serão realizadas com vistas a mitigar ou anular os efeitos das medidas e contramedidas".

Apesar de a lei oferecer instrumentos legais para que o Poder Executivo, em coordenação com o setor privado, adote "contramedidas" em resposta a "medidas unilaterais que impactem negativamente a competitividade internacional brasileira", uma retaliação do Brasil pode provocar uma escalada na guerra comercial.

"A resposta mais óbvia, a retaliação, viria com o Brasil impondo tarifas recíprocas ou semelhantes a produtos americanos", diz à BBC News Brasil o especialista em relações Brasil-EUA Carlos Gustavo Poggio, professor de Relações Internacionais da universidade Berea College, no Estado americano do Kentucky.

"Mas esta não seria a melhor resposta", avalia Poggio.

Ao comentar sobre as chances do Brasil de medir forças com os EUA, Poggio compara: "É Davi contra Golias".

"Os EUA são um parceiro muito mais importante para o Brasil do que o Brasil é para os EUA em termos do comércio como um todo. Então, a capacidade que o Brasil tem [de retaliar] é muito limitada", avalia.

'Trump só escuta empresários americanos que eventualmente liguem pra ele', diz o professor Carlos Gustavo Poggio, sugerindo que o Brasil poderia tentar mobilizar parlamentares e empresários nos EUA — Foto: EPA via BBC

Na carta endereçada a Lula, em que anunciou a intenção de taxar as exportações brasileiras, Trump avisou que "se por qualquer motivo você decidir aumentar suas tarifas, então qualquer que seja o número escolhido para aumentá-las, ele será adicionado aos 50% que cobramos".

Segundo Poggio, uma retaliação pura e simples por parte do governo brasileiro seria apenas uma questão simbólica que acabaria prejudicando o Brasil também.

"Porém, não dá para ficar totalmente sem resposta [ao anúncio de Trump]", pondera.

Uma outra maneira de responder, segundo o analista, seria tentar fazer pressão sobre os setores específicos mais ligados ao comércio brasileiro e buscar contato com a sociedade civil americana, como parlamentares e empresários — "e ver se isso consegue chegar a Trump".

"Trump só escuta empresários americanos que eventualmente liguem pra ele e falem 'isso está nos prejudicando'", observa.

Outra opção, sugere Poggio, seria tentar algum tipo de pressão regional, unindo-se a outros países, como o México.

<><> 'O Brasil está sendo sancionado pelos EUA, assim como Irã, Venezuela ou Rússia'

Os EUA são o segundo principal destino das exportações totais brasileiras, atrás da China, e o principal destino das exportações brasileiras de produtos manufaturados.

A nova taxa representa um aumento significativo em relação aos 10% anunciados pelos EUA em 2 de abril.

Produtos como aço, petróleo, aeronaves, celulose, café, carne e suco de laranja estão entre as principais exportações brasileiras para os EUA, segundo dados do governo, e esses setores poderiam ser os mais afetados.

Entre os mais importados pelo Brasil dos EUA estão motores e máquinas não elétricos, óleos combustíveis e brutos de petróleo, aeronaves e gás natural.

O Brasil poderia redirecionar seus produtos para outros mercados, como a China.

Mas, enquanto as exportações para a China são focadas em commodities, a pauta para os EUA é mais diversificada e com valor agregado mais alto.

Entre as justificativas para as novas tarifas, Trump citou um suposto déficit comercial dos EUA com o Brasil. No entanto, dados oficiais do governo brasileiro mostram superávit para os EUA.

Em sua nota em resposta, Lula disse que "é falsa a informação, no caso da relação comercial entre Brasil e Estados Unidos, sobre o alegado déficit norte-americano".

"As estatísticas do próprio governo dos Estados Unidos comprovam um superávit desse país no comércio de bens e serviços com o Brasil da ordem de US$ 410 bilhões ao longo dos últimos 15 anos", diz a nota.

As justificativas de Trump para o anúncio não são meramente comerciais. Sua carta cita uma suposta perseguição que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) estaria sofrendo no Brasil, onde é alvo de processo criminal no Supremo Tribunal Federal (STF) sob a acusação de liderar uma tentativa de golpe de Estado.

Lei sancionada por Lula em abril autoriza o governo a retaliar países ou blocos que imponham barreiras comerciais a produtos brasileiros. — Foto: Reuters via BBC

A carta de Trump também menciona decisões do STF com "centenas de ordens de censura secretas e ilegais para plataformas de mídias sociais dos EUA, ameaçando-as com milhões de dólares em multas e expulsão do mercado brasileiro de mídias sociais".

A decisão de Trump foi recebida com surpresa no Brasil e nos EUA. O economista americano Paul Krugman, vencedor do Nobel de Economia em 2008, disse que a carta "marca um novo rumo" das políticas tarifárias, descritas por ele como "megalomaníacas".

Os principais veículos da imprensa americana também repercutiram a carta. O jornal The Washington Post afirmou que o anúncio mostra como questões pessoais, e não simplesmente econômicas, norteiam o uso de tarifas comerciais por Trump.

Na quarta-feira, o Ministério das Relações Exteriores convocou duas vezes o encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos, Gabriel Escobar, para prestar esclarecimentos.

A convocação é uma medida séria em relações internacionais e uma demonstração de desagrado com a outra nação.

A embaixadora Maria Luisa Escorel, secretária da América do Norte e Europa do Itamaraty, informou que o Brasil devolveria a carta, considerada por ela como ofensiva e contendo afirmações inverídicas e erros factuais.

Poggio, do Berea College, considera este um dos pontos mais baixos nos 200 anos de relações bilaterais entre Brasil e EUA e classifica as ações anunciadas por Trump como uma sanção ao Brasil.

"O nome que se dá a medidas coercitivas econômicas para fins políticos é sanção", afirma.

"O Brasil está sendo sancionado pelos EUA, assim como Irã, Venezuela ou Rússia. Com a diferença que o Brasil é uma democracia e é um aliado histórico dos EUA, um país amigo dos EUA."

 

Fonte: g1/BBC News Brasil

 

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