Como
a ciência vem reagindo ao aumento das alergias alimentares?
Os
especialistas as chamam de “nove grandes”: leite, ovos, nozes, peixes,
crustáceos, mariscos, trigo, soja e gergelim. Essas são, de longe, as alergias
alimentares mais comuns, e podem surgir em qualquer idade. Na melhor das
hipóteses, as alergias alimentares exigem cautela e mudanças no estilo de vida;
no pior dos casos, elas podem desencadear uma reação com risco de vida
conhecida como anafilaxia.
Apesar
de alguns desafios na medição contra as alergias alimentares, os dados sugerem
que as taxas explodiram nas últimas décadas. Os Centros de Controle e Prevenção
de Doenças relatam que as alergias alimentares em crianças aumentaram 50% entre
1997 e 2011. De 2005 a 2014, as visitas de emergência nos hospitais por
anafilaxia entre crianças de 5 a 17 anos aumentaram quase 200%.
Nos
Estados Unidos, uma pesquisa publicada no Journal of the American Medical
Association mostra que mais de 32 milhões de pessoas têm pelo menos uma alergia
alimentar, incluindo cerca de 6 milhões de crianças, o que representa
aproximadamente duas crianças em cada sala de aula. Os dados também revelaram
pistas sobre como a genética e o ambiente podem contribuir para o aumento do
número de alergias.
Especialistas
destacados conversaram conosco a respeito das pesquisas mais recentes sobre
alergias alimentares e a tecnologia mais inovadora que estamos usando para
combatê-las.
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O que é uma alergia alimentar?
É
difícil identificar o número de pessoas com alergias alimentares específicas,
em parte porque existem muitos tipos de sensibilidades alimentares com sintomas
que imitam uma reação alérgica. Por exemplo, a intolerância à lactose pode
desencadear dor de estômago como uma reação alérgica – mas tecnicamente é um
problema do sistema digestivo e não uma alergia ao leite.
Segundo
Ruchi S. Gupta, diretora do Centro de Pesquisa de Alergia Alimentar e Asma
(Center for Food Allergy & Asthma Research, Cfaar) da Faculdade de Medicina
da Universidade de Northwestern (EUA), a melhor maneira de saber com certeza
que uma reação ruim à comida é realmente uma alergia é ser diagnosticado por um
médico. Depois de saber que é uma alergia, diz ela, você pode desenvolver um
plano para tratá-la.
O que
torna uma alergia alimentar diferente de outras sensibilidades é uma resposta
do sistema imunológico. Em uma reação alérgica, erroneamente o corpo considera
como perigosa uma proteína inofensiva, como a do amendoim – as proteínas que
causam uma reação alérgica são chamadas de alergênicas. O corpo, então, produz
um anticorpo chamado imunoglobulina E (IgE) para combater o invasor.
Esses
anticorpos se ligam a certas células imunológicas – eosinófilos, mastócitos,
basófilos – que, quando ativados, liberam uma substância química chamada
histamina. Isto pode produzir uma reação alérgica em qualquer um dos quatro
principais sistemas de órgãos: intestino, pele, pulmões e coração. Os sintomas
incluem coceira e erupções cutâneas, contração muscular nos pulmões, vômitos e
diarreia.
Quando
mais de um dos quatro sistemas está envolvido – por exemplo, quando um paciente
apresenta sintomas tanto no intestino, como vômitos, quanto nos pulmões, como
dificuldade para respirar – é chamado de anafilaxia. Nesse caso, o hormônio
epinefrina, administrado por meio de uma injeção de EpiPen, pode ser usado para
relaxar e abrir os músculos das vias aéreas para facilitar a respiração.
“Os
problemas respiratórios e cardíacos são os mais alarmantes, porque é realmente
onde você está falando sobre reações potencialmente fatais”, alerta Edwin Kim,
chefe da divisão de Alergia e Imunologia Pediátrica da Universidade de Carolina
do Norte (EUA) e diretor da Iniciativa de Alergia de Alimentos da universidade.
Não há
alergias alimentares leves ou graves, mas apenas reações leves ou graves. As
reações podem ser um tanto imprevisíveis: um alergênico que causou uma reação
leve no passado pode causar uma reação mais extrema no futuro e vice-versa.
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Por que houve aumento nos casos de alergias alimentares?
Existem
duas causas para alergias alimentares: fatores genéticos e ambientais. Gupta
diz que a genética por si só não pode explicar esse rápido aumento de alergias.
O que sabemos, diz Kim, é que as crianças têm maior probabilidade de ter
alergias se ambos os pais apresentarem desregulação imunológica, sejam alergias
sazonais ou eczema.
Enquanto
isso, duas teorias principais examinam os fatores ambientais que levam às
alergias alimentares. A hipótese da higiene postula que a obsessão de uma
sociedade com a limpeza reduz nossas exposições iniciais a alergênicos –
tornando, portanto, nosso sistema imunológico mais propenso a reagir
exageradamente a proteínas inofensivas comuns e desencadear uma reação
alérgica.
Em
muitas partes do mundo, as crianças também passam menos tempo perto da terra e
do gado como no passado – o que pode explicar por que alguns estudos mostraram
que as áreas urbanas têm mais alergias alimentares do que as áreas rurais.
“Muitas
vezes falamos sobre a importância dos primeiros cem dias ou primeiro ano de
vida para que os corpos dos bebês vejam coisas diferentes, como brincar na
terra ou ser exposto a diferentes tipos de alimentos”, diz Gupta. Por temor as
alergias, os pais se tornaram excessivamente cautelosos ao introduzir alimentos
para seus bebês, acrescenta.
Mas a
hipótese da higiene não explica completamente por que as alergias estão
aumentando. Os pesquisadores descobriram que altas exposições a um determinado
alimento (como frutos do mar na Ásia), às vezes, estão associadas a uma maior
prevalência de alergias a esse alimento. E aqui surge a hipótese da dupla
exposição: essa teoria postula que a chance de desenvolver uma alergia
alimentar aumenta se um bebê for exposto a vestígios de um alergênico
(respirando ou tocando nele) antes de comê-lo.
Robert
A. Wood, chefe da Divisão Eudowood de Alergia e Imunologia do Centro Infantil
Johns Hopkins (EUA), dá o exemplo de um pai passando loção na pele de seu bebê.
Se o pai tiver uma quantidade muito pequena de proteína de amendoim em suas
mãos, a teoria sustenta que isso pode tornar a criança mais propensa a
desenvolver uma alergia a amendoim mais tarde.
Essas
são, de longe, as duas hipóteses mais estudadas. Outras incluem as mudanças nos
sistemas de cultivo ou embalagem dos alimentos, bem como as implicações que
podem ter as mudanças climáticas.
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Quais são os tratamentos disponíveis hoje e no futuro?
As
pesquisas mostram que a prevenção é fundamental. A organização sem fins
lucrativos norte-americana Food Allergy Research and Education incentiva as crianças a comerem amendoim o mais cedo
possível; as investigações sugerem que métodos de prevenção semelhantes também
são eficazes para outras alergias alimentares, diz Kim.
Os
tratamentos se enquadram em duas categorias: a imunoterapia, que aumenta a
tolerância aos alergênicos por meio de pequenas doses, e os biológicos, que
interrompem o anticorpo IgE que causa reações alérgicas.
Os
tratamentos de imunoterapia foram amplamente estudados e, em 2020, a Agência
Federal de Medicamentos (FDA) aprovou o primeiro (e único até agora) tratamento
desse tipo. A droga, Palforzia, é uma imunoterapia oral na qual pequenas doses
altamente controladas de proteína de amendoim são administradas diariamente por
meio de pílulas.
O
objetivo do medicamento é prevenir uma reação grave no caso de uma exposição
acidental – o que significa que as pessoas que tomam o medicamento ainda
precisam evitar o amendoim sempre que possível. Também existem ensaios clínicos
para desenvolver tratamentos que possam tratar alergias ao amendoim por meio de
manchas na pele.
Não há
tratamentos aprovados pela FDA para alergias além do amendoim. Alguns
alergistas administram doses improvisadas desses alergênicos aos pacientes, diz
Wood, mas a prática traz riscos. O pó de amendoim obtido no supermercado, por
exemplo, depende de um sistema comercial de rotulagem de alimentos que nem
sempre é preciso, dificultando a dosagem correta.
Como
ataca apenas uma alergia por vez, a imunoterapia não é eficaz para os 40% das
crianças que têm múltiplas alergias alimentares. Mas os medicamentos biológicos
podem ser a solução bloqueando os anticorpos IgE. Por exemplo, o remédio
omalizumabe se liga aos receptores das células imunes antes que um anticorpo
IgE chegue até eles, impedindo a ocorrência da reação alérgica.
Wood
espera que o omalizumabe, atualmente vendido sob o nome Xolair, para tratar a
asma, possa ser aprovado para tratar alergias alimentares nos próximos anos. Em
vez de uma pílula diária, é uma injeção administrada a cada duas semanas, e as
primeiras pesquisas mostram que os pacientes que tomam esta droga podem tolerar
uma grande quantidade de um alergênico. Os efeitos colaterais da droga incluem
dor nas articulações, tontura e fadiga.
Embora
seja um momento emocionante para o campo da alergia, “a cura não está no
vocabulário”, pondera Wood. Tanto a imunoterapia quanto os medicamentos
biológicos precisariam ser tomados indefinidamente, e se um paciente
interrompesse o tratamento, sua alergia apareceria novamente. “No momento, não
vemos nada que se assemelhe a uma cura, mas obviamente esse é o grande
objetivo”.
Fonte:
National Geographic Brasil

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