Como
barulho humano alcança o fundo do mar e põe animais em risco
Tempestades,
ondas e ventos combinados com o canto dos pássaros, o assobio das baleias e
diversos sons de outros animais marinhos formam a paisagem sonora natural dos
oceanos. No entanto, detonações de rochas, sinais estridentes de sonares,
roncos de motores de navio e outros ruídos emitidos pela atividade humana estão
ficando cada vez mais altos.
Os
especialistas alertam que isso tem um impacto perigoso na vida marinha. O som
desempenha um papel essencial em atividades cruciais das espécies marinhas,
como reprodução, alimentação, manutenção da estrutura social e fuga de
predadores.
"Todos
os animais marinhos são muito acústicos. A audição é seu principal
sentido", diz Lindy Weilgart, que estuda a poluição sonora submarina e
seus efeitos sobre os cetáceos (grupo de animais marinhos que inclui baleias,
golfinhos e botos) desde 1994, e é consultora da organização de conservação sem
fins lucrativos Oceancare, com sede na Suíça.
Weilgart
lista as duas maiores ameaças como sendo as frotas de navios em constante
expansão e os canhões de ar comprimido usados para encontrar reservas de
petróleo no fundo do mar. Os sonares navais, a construção offshore, a mineração
em águas profundas, as traineiras usadas para pesca de arrasto, os barcos de
passeio e outras atividades aumentam os níveis de ruído.
"Nossa
atividade econômica está aumentando", diz à BBC Patrick Miller, professor
da Universidade St Andrews, na Escócia. "Muitas das coisas que fazemos
geram ruído nos oceanos do mundo. Portanto, isso só vai aumentar",
acrescenta.
• Níveis de ruído estão aumentando
O
estudo de medição de ruído oceânico é uma área relativamente nova.
Em
2006, pesquisadores da Universidade de San Diego, nos EUA, analisaram dados de
1964-1966 e 2003-2004 perto da Ilha de San Nicolas, a 257 quilômetros a oeste
da Califórnia.
Eles
descobriram que o ruído em 2003-2004 era de 10 a 12 decibéis (dB) mais alto do
que em 1964-1966 — um aumento médio de 3dB por década.
Desde
então, a atividade humana aumentou ainda mais.
"O
ruído dos navios é um dos principais ruídos de fundo nos oceanos do
mundo", diz Miller, que vem pesquisando o tema desde 1997. "Há
evidências muito boas de que está aumentando", ele acrescenta.
O
International Fund for Animal Welfare (IFAW) afirma que, em qualquer dado
momento, 250 mil embarcações estão no oceano, e alguns navios de carga emitem
"até 190 decibéis de ruído, o que é muito mais alto do que um avião
decolando, e quase o mesmo nível de um show de rock".
Para
efeito de comparação, em seres humanos, ruídos altos acima de 120 dB podem
causar danos imediatos aos ouvidos. Ouvir um breve nível sonoro de 140 dB causa
dor, e pode levar a danos permanentes à audição.
• 'Viver em vez de jantar'
A luz é
absorvida mais rapidamente na água do que no ar, reduzindo a visibilidade, e os
odores se dissipam mais rápido, tornando todo o espectro da vida marinha
altamente dependente do som para sobreviver.
Os
cetáceos enviam e recebem sons complexos para se comunicar uns com os outros,
navegar pelas águas, encontrar alimentos e muito mais. Os peixes e
invertebrados também usam o som para essas funções vitais básicas. Um estudo
indicou, por exemplo, que o som crônico de baixa frequência também afeta a
capacidade dos peixes jovens de encontrar um lar.
O som
viaja mais rápido e mais longe na água (cerca de 1.480 metros por segundo) do
que no ar (343 metros por segundo), o que significa que ele percorre longas
distâncias com relativamente pouca perda de intensidade ou volume. Isso
beneficia os animais em seu habitat natural, mas também amplifica os impactos
da atividade humana.
Um
estudo da Universidade de Bristol, no Reino Unido, publicado em 2023, mostrou
que os golfinhos estavam efetivamente gritando para se comunicar uns com os
outros, mas ainda assim estavam com dificuldade para trabalhar juntos.
Os
cientistas descobriram que, à medida que os golfinhos eram expostos a níveis
crescentes de ruído gerado pelo homem, eles quase dobravam a duração e o volume
dos assobios para compensar essa interferência.
Miller
fez parte de uma equipe que estudou o impacto da poluição sonora subaquática
sobre as baleias perto da ilha vulcânica Jan Mayen, na Noruega, no Oceano
Ártico.
Eles
colocaram tags de monitoramento nas baleias, presas por uma ventosa. O
equipamento caiu depois de um ou dois dias, e foi coletado, permitindo que os
cientistas estudassem os níveis de ruído e os movimentos dos animais.
A
pesquisa constatou que a poluição sonora subaquática gerada pelos seres humanos
é captada pelas baleias de forma semelhante à maneira como elas detectam
predadores naturais.
O
artigo, publicado em 2022, conclui que os cetáceos estão enfrentando o dilema
de escolher "viver em vez de jantar", afirmando que o aumento do
ruído impede que as baleias se alimentem, o que reduz seus níveis de energia.
"Quando
ouviram os sons do sonar, elas pararam completamente de se alimentar, e se
afastaram por vários dias. Portanto, isso está realmente afetando sua
capacidade de usar o habitat da maneira adequada", explica Miller.
"Esta
é uma preocupação global porque os níveis de ruído em todos os lugares estão
subindo, e os animais estão tendo cada vez menos habitat de qualidade."
• Encalhe de baleias e outros impactos
Especialistas
afirmam que o ruído pode desorientar os animais, o que pode levar a encalhes
nas praias e causar fatalidades de outras maneiras.
Os
sonares navais são frequentemente responsabilizados pelos encalhes em massa de
baleias em diferentes partes do mundo, e também podem ter um impacto em outros
animais.
Em
2015, a Marinha dos EUA concordou em limitar o uso de certos tipos de sonar que
podem inadvertidamente prejudicar baleias e golfinhos em águas próximas ao
Havaí e à Califórnia.
"A
Marinha tinha um sonar ativo de média frequência que se mostrou fortemente
ligado a encalhes fatais de baleias-bicudas, e até mesmo a mortes no mar. Mas
há também um sonar ativo de baixa frequência que não foi tão claramente
associado a esses encalhes, mas tem um alcance muito mais amplo de
impacto", diz Weilgart.
Seus
cálculos mostram o impacto que ruídos de 120dB (o volume de um trovão) podem
ter no ecossistema.
"O
sonar ativo de baixa frequência pode afetar 3,9 milhões de quilômetros
quadrados", diz ela, quase o equivalente à área combinada da Índia e do
Paquistão. "Se você estiver usando esse nível de 120 decibéis, ele
perturba as baleias."
Estima-se
que os canhões de ar comprimido usados para localizar reservas de petróleo e
gás no fundo do mar produzem sons de até 260 dB debaixo d'água, que podem
viajar até 4.000 quilômetros no oceano.
Um
livreto da organização Oceancare cita estudos científicos que listam as
consequências.
"As
baleias-comuns foram desalojadas de seu habitat quando uma pesquisa sísmica
começou, e o desalojamento durou muito além dos 10 dias de duração da pesquisa
sísmica", detalha.
Um
estudo publicado em 2013 diz que as pesquisas sísmicas em 2008 e 2009
"podem ter levado à mortalidade em massa de narvais presos no gelo no
Canadá e na Groenlândia."
• Gigantes sensíveis
Acompanhada
do filho de 5 anos e da filha de 10 meses, Weilgart passou um ano navegando
50.000 quilômetros pelo Pacífico em um veleiro de 13 metros, seguindo grupos de
cachalotes para sua pesquisa de pós-doutorado.
"Me
lembro de como as cachalotes são sensíveis ao som. Elas são bem grandes. Mesmo
as fêmeas têm de 11 a 13 metros [de comprimento], e os machos têm o dobro do
tamanho", diz ela.
Weilgart
se lembra de ter que ficar em silêncio para observá-las de perto — até mesmo um
pequeno som as assustaria.
"Às
vezes, tentávamos entrar na água para observá-las debaixo d'água. Tínhamos que
ser muito cuidadosos para não fazer barulho. Você certamente não podia pular do
barco. Era preciso simplesmente deslizar para dentro da água. Não podemos usar
pé de pato".
A
exposição persistente ao ruído aumenta os níveis de estresse das baleias,
afetando sua imunidade e capacidade de reprodução, observa Weilgart.
Há
regulamentações nacionais e regionais para controlar os níveis de ruído do
oceano, mas nenhuma regulamentação internacional aplicável para a redução de
ruído.
A ONG
World Wildlife Fund (WWF) afirma que até mesmo uma redução de 10% na velocidade
dos navios reduziria seus níveis de ruído em 40%.
Fonte:
BBC World Service

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