sábado, 5 de julho de 2025

'Com tiranos não combinam brasileiros corações': entenda simbologia por trás do Hino ao Dois de Julho

Apesar do famoso "independência ou morte" gritado por Dom Pedro I em 7 de setembro de 1822, foi só nove meses depois, em 1823, que as últimas resistências portuguesas foram expulsas do país pelos baianos. A vitória é celebrada anualmente no dia Dois de Julho, data que marca a Independência do Brasil na Bahia.

O feito dos baianos é narrado no Hino ao Dois de Julho, cuja letra foi composta pelo militar Ladislau dos Santos Titára e musicada por José dos Santos Barreto.

O g1 conversou com o mestre em História pela Universidade Federal da Bahia (Ufba) e professor da Universidade Estadual da Bahia (Uneb), Rodrigo Lopes, sobre as simbologias por trás do Hino ao Dois de Julho. Ele explica que a música enaltece a participação popular na resistência brasileira.

"É um hino muito mais sincero do que o nosso hino oficial, porque ele realemente descreve o que aconteceu na Bahia. Ele legitima a participação popular, é bonito e deveria ser conhecido em todo Brasil".

Nesta reportagem, você vai entender, estrofe por estrofe, o que é retratado no hino.

Confira:

🎵 "Nasce o Sol a dois de julho

Brilha mais que no primeiro

É sinal que neste dia

Até o Sol, até o Sol é brasileiro"

Era madrugada do dia 2 de julho de 1823 quando a esquadra portuguesa fugia pela Baía de Todos-os-Santos em mais de 80 navios. Quando o dia amanheceu, os soteropolitanos viram que as embarcações já estavam distantes no oceano.

Ou seja, o sol do 2 de julho brilha mais do que o sol de 1º de julho, porque é o primeiro dia de liberdade dos brasileiros.

"O sol é brasileiro e não baiano, porque a Bahia era o último baluarte português no Brasil. Nossa independência já havia sido proclamada nove meses antes, mas o Brasil não era completamente independente", pontuou o professor.

🎵 "Nunca mais, nunca mais o despotismo

Regerá, regerá nossas ações

Com tiranos não combinam

Brasileiros, brasileiros corações"

De acordo com Rodrigo Lopes, essa estrofe faz referência direta a Inácio Luís Madeira de Melo, militar português que comandou as tropas portuguesas assediadas em Salvador nos combates da Guerra da Independência da Bahia.

O militar foi enviado pela Coroa Portuguesa para ser o comandante das armas no estado. Ele tinha uma carta supostamente escrita pelo rei, mas o material não foi aceito de primeira pelos militares, nem pelos vereadores da Câmara de Salvador.

"Essa carta foi colocada em suspensão por vários motivos: ela não foi apresentada imediatamente e estava em péssimas condições. As autoridades não a aceitaram de imediato e Madeira de Melo se impôs".

Com a ajuda de militares portugueses, Madeira de Melo atacou os soldados brasileiros e a cidade virou um palco de guerra. O "despotismo" e "tirania" citados na letra estão relacionados a esse comportamento.

🎵 "Cresce, ó filho de minh'alma

Para a Pátria defender

O Brasil já tem jurado

Independência, independência ou morrer"

A Bahia não tinha uma quantidade de soldados profissionais suficiente para lidar com as tropas portuguesas. Assim, a população decidiu participar ativamente da luta.

O "filho de minh'alma" é o povo baiano, as pessoas comuns que lutaram pela independência. A resistência era composta por escravizados, senhores de engenho, vaqueiros, pequenos agricultores e mais. No desfile cívico, a imagem da cabocla e do caboclo simbolizam a conexão entre as personalidades históricas e as origens do povo baiano.

"Isso legitima o que aconteceu na Bahia, que é diferente do que aconteceu em qualquer outro lugar do Brasil. Aqui houve uma participação popular maciça", afirmou.

Já o verso "o Brasil já tem jurado", faz referência a Dom Pedro, que já havia proclamado a independência do Brasil nove meses antes, nas margens do Rio Ipiranga. "Independência ou morrer" foram justamente as palavras dele neste momento.

🎵 "Salve, ó rei das campinas

De Cabrito a Pirajá

Nossa pátria, hoje livre

Dos tiranos, dos tiranos não será"

A última estrofe do Hino ao Dois de Julho cita dois locais onde foram travadas batalhas pela independência do Brasil na Bahia: Cabrito e Pirajá, que atualmente são bairros em Salvador.

Segundo o professor, as duas localidades ficavam dentro da Fazenda Campinas, que se estendia do atual bairro da Lapinha até o limite com o município de Simões FIlho — aproximadamente 26 km de extensão. Na região, havia rebanhos de gado, pequenas povoações e uma casa de armas para a fabricação de pólvora.

Uma das batalhas mais famosas aconteceu em Pirajá, quando o cabo Luiz Lopes, conhecido historicamente como Corneteiro Lopes, desobedeceu o comandante das tropas brasileiras e soou a corneta para os oficiais avançarem contra os portugueses.

O verso "nossa pátria hoje livre" reforça a independência do Brasil, já que após o dia 2 de julho de 1823 nenhuma província brasileira permaneceu sob controle por portugueses.

"O Brasil não era independente até a Bahia se tornar independente. Enquanto houvesse uma província controlada por portugueses, Dom Pedro poderia gritar "independência ou morte" mil vezes, mas não seria independente", ressaltou.

•        Conheça os heróis da Independência do Brasil na Bahia

As guerras pela Independência do Brasil na Bahia foram marcadas por intensa participação popular. Negros libertos e escravizados, profissionais liberais, senhores de engenho, ganhadeiras, professores e outros grupos se uniram em prol de um único objetivo: expulsar os portugueses do país e acabar de vez com a exploração lusitana.

Inspirados pelos ideais dos iluministas franceses, que pregavam "Liberdade, Igualdade e Fraternidade", eles se articularam para guerrear contra os portugueses. Para historiadores, o movimento representa um momento de transição, quando pessoas comuns começam a participar da vida política de forma mais ampla, o que antes era restrito às classes mais favorecidas.

Os combates mobilizaram milhares de moradores de cidades como Cachoeira e São Félix, além da capital baiana. Alguns deles se destacaram e entraram para a história como heróis e heroínas da independência. O g1 reuniu alguns desses nomes - alguns deles, inscritos no livro de aço do Panteão da Pátria, em Brasília, memorial cívico nacional que reúne personalidades que ajudaram a construir a nação brasileira. Confira abaixo.

<><> Joana Angélica

No convento de Nossa Senhora da Conceição da Lapa, onde atualmente fica o bairro de Nazaré, em Salvador, ocorreu uma das mais emblemáticas mortes na luta pela Independência do Brasil na Bahia. Em fevereiro de 1822, a madre superiora do espaço religioso, Joana Angélica, se colocou à frente do templo para impedir a invasão por portugueses e foi morta com um golpe de baioneta. O episódio inflamou ainda mais o povo contra os colonizadores e aumentou o clima de tensão, que culminou com batalhas que viriam a seguir. O nome da Abadessa consta no Panteão da Pátria.

<><> Maria Quitéria

Maria Quitéria foi a primeira mulher a integrar o Exército Brasileiro. Ela fugiu de casa e se fingiu de homem para se alistar e guerrear no recôncavo, sob a alcunha de soldado Medeiros. Não demorou para a farsa ser descoberta, no entanto, ela foi mantida porque era uma das melhores atiradoras da tropa. Por causa dela, a saia foi incorporada ao uniforme oficial e, com água na altura da cintura, comandou um grupo de mulheres na luta contra os portugueses na Barra do Paraguaçu, entre outros confrontos. Além de ter o nome reconhecido no Panteão da Pátria, ela é homenageada com uma estátua no Largo da Soledade, no bairro da Lapinha, em Salvador. O distrito de São José das Itapororocas, em Feira de Santana, mudou de nome para homenagear sua filha ilustre Maria Quitéria.

<><> Maria Felipa

No antigo Arraial da Ponta das baleias, atual município de Itaparica, nasceu Maria Felipa, uma das heroínas das lutas da Independência. Praticamente não há documentos e registros oficiais que comprovem a existência dela, entretanto, Maria Felipa está imortalizada a partir das memórias do povo e teve o nome gravado no Panteão da Pátria. Escravizada liberta, pescadora e marisqueira, comandou dezenas de mulheres, indígenas, negros livres, escravizados e até portugueses que eram a favor do movimento libertário. Junto com o grupo, ela construiu trincheiras, vigiou praias, queimou embarcações e participou de combates contra as tropas lusitanas.

<><> João das Botas

João Francisco de Oliveira, conhecido como João das Botas, também viveu em Itaparica e foi um dos fundadores da Marinha Brasileira. Segundo tenente da Tropa Imperial, João abandonou a armada portuguesa para lutar contra os compatriotas. Experiente, organizou grupos que atuaram nos combates nas águas da baía de Todos-os-Santos. Entre os destaques, estão a batalha do Canal do Funil, quando, em pequenas embarcações, ele atingiu navios portugueses. João também liderou uma tropa que impediu o desembarque de rivais que queriam tomar a Ilha de Itaparica. O reconhecimento por esses feitos está no mar, já que a regata mais famosa de Salvador leva o nome do tenente, e no Panteão da Pátria.

<><> Frei Brayner e os Encourados de Pedrão

Da cidade de Pedrão, no sertão baiano, saiu um dos movimentos populares mais destemidos das lutas da Independência. No final de 1822, 39 soldados voluntários deixaram as famílias para se juntar ao exército libertador. Todos foram recrutados pelo Frei Maria do Sacramento Brayner, religioso que ficou preso em Salvador durante quatro anos por ter participado da revolução pernambucana, e que resolveu permanecer na Bahia para participar das batalhas. Eles foram para o combate vestidos de vaqueiros e ficaram conhecidos como os “Encourados de Pedrão”. Sem treinamento militar, avançaram em cavalaria para a capital e ajudaram a impedir a chegada de armas e alimentos para as tropas portuguesas.

<><> Corneteiro Lopes

O cabo Luiz Lopes era português, mas aderiu às lutas locais e enfrentou os compatriotas. Na decisiva batalha de Pirajá, em Salvador, quando a guerra parecia perdida, o comandante brasileiro Barros Falcão ordenou o recuo das forças nacionais. Era grande a diferença numérica das tropas, mas uma atitude ousada do cabo fez com que o jogo virasse. Em vez de acatar o pedido de recuo, Luiz Lopes soou a corneta para os oficiais avançarem com a cavalaria e degolarem os inimigos. Os invasores pensaram que as tropas brasileiras tivessem ganhado reforço e partiram em retirada, sendo perseguidos pelo exército libertador.

<><> Tambor Soledade

Em Cachoeira, no recôncavo baiano, o soldado Manoel Soledade usava o tambor para alertar as tropas locais sobre a chegada dos inimigos durante as lutas da Independência, por isso, ele ficou conhecido como "Tambor Soledade". Sem documentos oficiais de nascimento e de morte, diversas versões sobre a vida do soldado são contadas por pesquisadores. Uma delas prevaleceu nas memórias popular: a de que morreu na Praça da Aclamação, atingido por um tiro de canhão disparado de uma embarcação portuguesa. A morte dele inflamou ainda mais as lutas, que se intensificaram de Cachoeira a Salvador, e tiveram fim em 2 de julho de 1823. Homem negro, do povo, Tambor Soledade morreu sem presenciar o triunfo contra as tropas lusitanas.

<><> Cacique Bartolomeu Jacaré

A Casa da Torre Garcia D' Ávila, em Mata de São João, na Região Metropolitana de Salvador, foi uma importante base de operações das lutas. Além da posição estratégica, o lugar fazia parte do maior latifúndio do país e reunia mais de três mil pessoas, entre negros livres e escravizadas, que se juntaram nos combates contra os portugueses. Em novembro de 1822, um deles ganhou protagonismo por comandar uma tropa formada por indígenas Tapuias do litoral norte: o cacique Bartolomeu Jacaré. Sob a liderança dele, a tropa se destacou pela excelência no uso de arcos e flechas na icônica batalha de Pirajá.

<><> Pedro Labatut

As lutas da Independência do Brasil na Bahia ganharam um novo rumo com a chegada do General Pedro Labatut. Conhecido como "pirata do caribe", o militar francês integrou o exército de Napoleão Bonaparte e tinha vasta experiência nas guerras da América Espanhola. Ele foi chamado liderar os militares libertadores e trouxe o reforço de 250 soldados, além de 8 mil armas. O general foi decisivo na organização do batalhão de voluntários e comandou a tropa na famosa batalha de Pirajá. Em reconhecimento, foi construído na região dos confrontos um monumento que abriga um busto e também os restos mortais do militar.

<><> Lima e Silva

A principal rua do bairro da Liberdade, em Salvador, recebe o nome de um dos heróis da Independência do Brasil na Bahia. O militar carioca José Joaquim de Lima e Silva assumiu a chefia das tropas seis semanas antes do fim das batalhas, substituindo, o General Labatut, deposto e preso após denúncias de arbitrariedades e consequente revolta de oficiais brasileiros. Lima e Silva reorganizou as tropas e fechou o cerco contra os rivais. Sem ter como receber itens de primeira necessidade, os portugueses se viram obrigados a recuar.

<><> Lord Cochrane

Na baía de Todos-os-Santos, um oficial escocês se destacou como um dos protagonistas das lutas da independência. Com fama de "lobo do mar", o experiente Lord Crochrane foi contratado para ser o Primeiro Almirante da Marinha Nacional. Ele fez bloqueios marítimos para impedir a chegada de suprimentos para as tropas portuguesas, já cercadas por terra pelo exército libertador, capturou embarcações e fez lusitanos prisioneiros.

 

Fonte: g1

 

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