sábado, 31 de janeiro de 2026

A que conduzem as turbulências de 2026?

Há alguns acontecimentos capazes de revelar transformações já em curso antes mesmo de serem percebidas. Exemplo disso são as declarações recentes do governo estadunidense sobre a Groenlândia, as ameaças tarifárias contra o Canadá e a escalada intervencionista na Venezuela. Tratá-las meramente como bravatas de um mandatário excêntrico seria um erro de leitura; estamos, na verdade, diante de sintomas de uma reconfiguração estrutural da ordem internacional.

Em janeiro de 2026, reportagens do periódico canadense Globe and Mail revelaram que as Forças Armadas daquele país vinham desenvolvendo cenários de contingência para tensões com os Estados Unidos, incluindo a modelagem de resposta a uma hipotética invasão americana. A informação passou quase despercebida fora do Canadá, talvez porque já tenhamos nos acostumado a ouvir um presidente dos Estados Unidos tratar países soberanos como imóveis à venda e alianças históricas como contratos rescindíveis. É assim que funciona normalização do impensável, como uma erosão gradual, perceptível apenas quando o terreno já cedeu – a analogia com o sapo fervendo, aqui, é óbvia.

Comparações com os anos 1930 tornaram-se um lugar-comum, mas poucos a desenvolvem com o devido rigor. Não há, óbvio, uma equivalência literal – a Polônia foi invadida por força militar direta, o que não ocorreu na Venezuela –, mas certamente existe identificação uma lógica de escalada. Vale examinar esse tipo de estrutura: primeiro, a quebra de um tabu menor; depois, a anexação de um território estratégico sob o pretexto de proteção ou compra; finalmente, a consolidação de uma esfera de influência exclusiva. Nessa chave interpretativa, a Venezuela funcionaria como o ponto de ruptura das normas de não intervenção, por meio de sanções, retórica belicosa e operações encobertas. A Groenlândia corresponderia ao território estrategicamente vital cuja absorção é apresentada, inicialmente, como uma transação comercial razoável. O Canadá representaria a extensão lógica de uma política de consolidação hegemônica hemisférica. Mutatis mutandis, já vimos algo assim nos livros de história do século XX.

De fato, as diferenças estruturais entre os dois contextos são significativas e devem ser consideradas. A existência de arsenais nucleares introduz uma variável de contenção inexistente nos anos 1930. A destruição mútua assegurada limita o espectro de ações militares diretas entre grandes potências, canalizando os conflitos para formas híbridas e guerras por procuração. Além disso, a interdependência econômica contemporânea difere substancialmente daquela do período entre guerras. Os custos de uma ruptura comercial total distribuem-se de maneira muito mais ampla, criando, dentro de cada país, grupos interessados na manutenção de algum grau de cooperação. A configuração multipolar atual, com a emergência da China como potência de primeira grandeza, tampouco reproduz a bipolaridade germano-americana da ascensão nazista.

Essas diferenças, entretanto, não invalidam comparações. O paralelo captura com precisão, justamente, a dinâmica psicológica da escalada: cada transgressão não punida reduz o custo percebido da próxima; a inação coletiva sinaliza fraqueza e convida à agressão; a fragmentação dos interesses impede a formação de coalizões de contenção. Herman Kahn, em seu trabalho sobre escalada nuclear, descreveu essa lógica como uma escada de 44 degraus entre a crise diplomática e a guerra termonuclear. Estamos subindo os primeiros degraus. No entanto, talvez a chave mais útil venha de outra tradição: Karl Polanyi, ao analisar o colapso da ordem liberal do século XIX, mostrou como sistemas aparentemente estáveis desmoronam quando suas contradições internas atingem um ponto crítico. Por esse viés, o “moinho satânico” do mercado autorregulado acabou por destruir as bases sociais de sua própria existência. Algo análogo pode estar em curso: a ordem baseada em regras, ao servir de instrumento para a hegemonia de um único ator, minou as condições de sua própria legitimidade.

A Groenlândia ocupa uma posição central nesse tabuleiro por razões materiais concretas. O aquecimento global está abrindo rotas de navegação antes impraticáveis no Ártico, reduzindo dramaticamente as distâncias entre a Ásia e a Europa. A Passagem Noroeste, através do arquipélago canadense, e a Rota do Mar do Norte, ao longo da costa russa, representam alternativas cada vez mais viáveis aos canais de Suez e do Panamá. O recuo das geleiras torna acessíveis vastas reservas de minerais críticos. A Groenlândia abriga depósitos significativos de terras raras – elementos essenciais para baterias, smartphones, turbinas eólicas e tecnologias de ponta. Atualmente, a China controla a ampla maioria da produção e do processamento global desses minerais. Para os estrategistas em Washington, essa dependência tornou-se inaceitável no contexto de uma competição hegemônica prolongada.

A dimensão militar agrava o quadro. A Base Espacial de Pituffik (antiga  Base Aérea de Thule), operada pelos Estados Unidos na Groenlândia desde 1951, constitui um componente central do sistema de defesa antimísseis norte-americano e do monitoramento do espaço aéreo ártico. A transformação dessa presença militar em controle soberano pleno adquire uma lógica estratégica própria em um cenário de deterioração das relações com a Rússia e a China. Controlar o Ártico nas próximas décadas significa controlar fluxos comerciais, recursos críticos e vantagens militares decisivas. A lógica em operação não pertence a um negociante imobiliário caprichoso; mas a um império consciente de que as condições materiais de sua hegemonia estão sendo ameaçadas.

Analistas de geopolítica ártica têm discutido possíveis trajetórias de escalada. Uma sequência hipotética envolveria, primeiro, a pressão econômica sobre a Dinamarca mediante tarifas e ameaças de retirada da proteção da OTAN para forçar a venda ou cessão de direitos de soberania. Segundo, a ocupação militar sob o pretexto de impedir a influência russa ou chinesa – uma presença efetiva que anularia a soberania dinamarquesa. Terceiro, o fomento de movimentos independentistas na Groenlândia, seguidos de um pedido de associação ou anexação aos Estados Unidos. Se a Groenlândia for absorvida sem uma resposta militar global (o que deve, sim, acontecer), o Canadá tornar-se-ia o próximo alvo por continuidade geográfica e integração econômica. A estratégia seguiria outro modelo – a anexação por ruptura: uma guerra de tarifas extrema para colapsar a economia canadense e forçar uma união aduaneira total; o questionamento da legitimidade do governo de Ottawa em proteger o Ártico, levando a incursões militares coordenadas e permanentes. Trata-se, evidentemente, de cenários especulativos, não de planos em execução. Contudo, o fato de serem hoje discutidos abertamente já indica a magnitude da ruptura em curso.

A arquitetura institucional construída após 1945 não foi desenhada para conter sua principal potência. A OTAN, pensada como uma aliança defensiva contra a União Soviética, não possui protocolos para o cenário em que seu membro hegemônico decide anexar o território de um aliado. O Artigo 5, que prevê a defesa coletiva, pressupõe uma agressão externa. Diante de uma movimentação estadunidense sobre a Groenlândia, a Europa encontrar-se-ia paralisada entre a lealdade atlântica e a defesa dos princípios supostamente fundantes de seu projeto político. É difícil prever como essa tensão se resolveria na prática – declarações recentes de líderes europeus oscilam entre a reafirmação ritual da aliança e sinais crescentes de desconforto.

Os modelos de teoria dos jogos aplicados ao cenário – particularmente o equilíbrio de Nash e o modelo de Stackelberg para interações líder-seguidor – apontam para um resultado previsível: a acomodação fragmentada. O custo de enfrentar os Estados Unidos excede, para cada ator individual, o custo de aceitar a transgressão. A partir dessa lógica, a Europa provavelmente tentaria negociar um status especial para evitar o colapso da aliança atlântica, sancionando os EUA apenas simbolicamente. A dependência europeia do guarda-chuva nuclear americano, embora questionada há décadas, permanece um fator estrutural que condiciona qualquer capacidade de resposta autônoma.

A China exploraria diplomaticamente a situação, apresentando-se como defensora da ordem baseada em regras historicamente promovidas pelos próprios Estados Unidos. Há uma ironia nessa inversão: Pequim, frequentemente acusada de violar normas internacionais no Mar do Sul da China, encontraria na agressão americana a oportunidade para reposicionar-se como garante da estabilidade global, atraindo o Canadá e parceiros europeus descontentes para sua esfera de influência econômica. A estratégia chinesa, assim, seria de contenção econômica, não de confrontação militar. A Rússia, por outro lado, optaria por uma escalada oportunista. O precedente de uma anexação territorial bem-sucedida pelos Estados Unidos enfraqueceria dramaticamente as objeções ocidentais à própria conduta russa na Ucrânia, abrindo espaço para movimentos análogos no Ártico e na Europa Oriental, sob o cálculo de que Washington não poderia responder militarmente a múltiplas crises simultâneas.

Projeções do Peterson Institute e de modelos semelhantes indicam três trajetórias possíveis, dependendo da intensidade do conflito. No cenário de sucesso rápido limitado à Groenlândia, o crescimento global desaceleraria significativamente, com os Estados Unidos capturando rendas de recursos enquanto enfrentam custos diplomáticos. No cenário de conflito prolongado envolvendo o Canadá, haveria estagnação global, com o colapso do comércio norte-americano afetando severamente os setores automotivo e de energia. No cenário de uma guerra fria ártica total, os modelos sugerem uma recessão global prolongada, com o risco de conflito nuclear tático tornando-se uma variável de mercado constante. A transição de um sistema baseado em regras para um sistema baseado exclusivamente no poder tende a produzir inflação estrutural em qualquer dos cenários: fragmentação das cadeias de suprimento, multiplicação de barreiras tarifárias e incerteza generalizada quanto à estabilidade dos acordos comerciais.

O uso sistemático do dólar como instrumento de coerção geopolítica – sanções, congelamento de ativos, exclusão de sistemas de pagamento – vem incentivando a busca por alternativas há pelo menos uma década. Uma ruptura aberta com aliados tradicionais intensificaria dramaticamente esse movimento. Nesse sentido, analistas ligados ao BRICS projetam uma queda expressiva da participação do dólar nas reservas globais até o fim da década, embora céticos apontem a ausência de uma alternativa plenamente desenvolvida como freio a essa transição. A direção do movimento, de todo modo, parece clara.

A América Latina ocupa uma posição específica nesse realinhamento. A região deixa de ser tratada como parceira e passa a ser classificada como Recurso Estratégico de Segurança pelos Estados Unidos. O objetivo seria, assim, garantir a autossuficiência hemisférica em energia, minerais críticos e alimentos, blindando o bloco americano contra sanções e a influência sino-russa. A Venezuela representa o primeiro teste. A intervenção militar, justificada por uma retórica de segurança nacional e proteção de interesses energéticos, quebraria o tabu da soberania hemisférica vigente desde o fim da Guerra Fria. O Caribe e a América Central entrariam na sequência, visando garantir rotas comerciais e recursos energéticos contra a presença chinesa crescente na região.

O Brasil enfrenta, nesse contexto, o cenário mais complexo de sua história diplomática. A tradição construída ao longo de mais de um século – não intervenção, solução pacífica de controvérsias, multilateralismo – pressupõe um mundo onde esses princípios possuem alguma eficácia. Em um sistema no qual a força volta a ser o árbitro último das disputas, essa tradição perde sua ancoragem. A questão deixa de ser moral ou identitária para tornar-se eminentemente prática: como preservar a autonomia decisória quando as regras do jogo estão sendo reescritas unilateralmente?

A análise por teoria dos jogos do dilema brasileiro revela uma estrutura de incentivos perversa. Há indícios de tarifas elevadas sobre exportações brasileiras como instrumento de pressão para forçar o abandono da parceria com a China e a exclusão de tecnologias chinesas, como o 5G. Um alinhamento incondicional com Washington implicaria a perda do mercado chinês, hoje o maior parceiro comercial do país, que absorve uma parcela substancial das exportações de commodities agrícolas e minerais. A estratégia de maior viabilidade, segundo esses modelos, seria uma neutralidade ativa operacionalizada através do BRICS. O Brasil poderia emergir como articulador de um bloco de não alinhados na América do Sul, preservando a soberania regional contra a doutrina de intervenção hemisférica.

Essa estratégia exigiria, certamente, a capacidade de resistir a pressões consideráveis, possivelmente incluindo sanções setoriais e campanhas de desestabilização – novamente, guerra híbrida. A experiência histórica indica a possibilidade de potências médias preservarem margens de autonomia mesmo em contextos de forte polarização, desde que disponham de coesão interna, diversificação de parcerias e clareza estratégica: a ausência de qualquer desses elementos compromete dramaticamente as chances de sucesso. O cenário mais preocupante não envolve uma pressão externa bem-sucedida, mas sim uma fragmentação interna que inviabilize qualquer estratégia coerente. As divisões políticas que atravessam a sociedade brasileira refletem clivagens profundas sobre o próprio projeto de país, algo que tem ficado cada vez mais evidente.

Finalmente, há uma dimensão dessa crise que transcende a geopolítica em sentido estrito. O desmantelamento da ordem internacional pela força unilateral funciona como validação ideológica para movimentos até então considerados marginais. A anexação de territórios estrangeiros sem consequências catastróficas demonstraria, na prática, o direito internacional como uma ficção sustentada apenas pelo equilíbrio de poder – um equilíbrio passível de alteração unilateral por quem dispõe de meios para tanto. Essa demonstração valida uma narrativa segundo a qual as regras são obstáculos artificiais impostos pelos fracos aos fortes, e nações verdadeiramente soberanas não se submetem a constrangimentos externos. Ressoam aí tradições políticas supostamente desacreditadas pelo século XX: o nacionalismo étnico, a noção de espaço vital e a glorificação da força como virtude política suprema.

Emerge daí uma nova forma de autoritarismo adaptada ao século XXI, focada no controle de recursos escassos – água, minerais, terras aráveis – e na exclusão violenta de migrantes climáticos. Sua legitimação não se baseia primariamente em mitologias raciais ou projetos imperiais explícitos, mas na promessa de proteção em um mundo percebido como caótico. Em um contexto de escassez crescente, migrações massivas e erosão das certezas, a oferta de ordem e segurança – mesmo ao custo da liberdade – encontra uma audiência receptiva. A normalização opera através do que caberia chamar de estética da eficiência: regimes dispostos a quebrar tabus seriam mais capazes de proteger seus cidadãos do que democracias liberais paralisadas por procedimentos. A democracia, nessa visão, constituiria um luxo de tempos de abundância, incompatível com as exigências de um planeta em crise permanente.

O mundo projetado para as próximas décadas não envolve necessariamente uma guerra aberta entre grandes potências. Os arsenais nucleares continuam funcionando como limitadores últimos. O mais provável é um conflito híbrido permanente, com guerras por procuração intensificadas, ataques cibernéticos a infraestruturas críticas, bloqueios econômicos e escaramuças contidas abaixo do limiar da destruição mútua assegurada. O Ártico transforma-se no epicentro dessa confrontação – uma zona de tensão constante, uma espécie de Mar do Sul da China setentrional, onde as potências testam continuamente os limites umas das outras sem jamais ultrapassar a linha vermelha final. A desintegração funcional da ONU e da OMC produz um mundo de blocos comerciais armados, onde a paz constitui apenas um intervalo entre sanções.

Obviamente, nada disso está determinado. Trajetórias históricas são moldadas por contingências, escolhas e eventos imprevisíveis, mas a análise de tendências permite identificar pontos de pressão e decisões capazes de fazer a diferença. O desafio para países como o Brasil é triplo: resistir à pressão econômica sem capitular, articular uma resistência regional sem isolamento e defender princípios democráticos e multilaterais sem ingenuidade quanto à sua fragilidade presente. Nenhuma dessas tarefas é simples, e o sucesso em qualquer delas depende de condições domésticas que estão longe de estarem asseguradas.

O custo mais elevado da nova ordem, caso se consolide, não será apenas econômico ou geopolítico. Será moral. A barreira ética contra o uso arbitrário da força, construída sobre os escombros de duas guerras mundiais, terá sido rompida. O fascismo, em suas novas roupagens, deixará de ser uma aberração histórica para tornar-se uma opção de governança entre outras, avaliada não por sua moralidade, mas por sua eficácia percebida e capacidade de engajamento em tempos de algoritmos. Trata-se de um retorno ao estado de natureza hobbesiano na esfera internacional: o forte faz o que pode, o fraco sofre o que deve. É contra essa normalização que vale a pena resistir.

 

Fonte: Por Por Estevão Rafael Fernandes, em Outras Palavras

 


 

Padre Júlio: fora das redes, doações para projetos caem e fiéis querem ajuda do Vaticano

Desde a proibição do uso das redes sociais pelo padre Júlio Lancellotti, em dezembro de 2025, a arrecadação para as ações da Pastoral de Rua, que atende a população em situação de rua na capital paulista, está em franco declínio. Segundo a aposentada Idalina Rodrigues, 58, conhecida como Ida, voluntária há cinco anos do Centro Comunitário Santa Dulce dos Pobres, da paróquia do padre Júlio, as doações já caíram mais de 20% em menos de dois meses.

“A gente sempre recebeu muita coisa de higiene pessoal, absorvente, fralda. Depois da interrupção dele [padre Júlio] nas redes sociais, a gente não recebe mais. Antes vinha muito desodorante, nunca mais veio, depois que ele saiu das redes”, relata.

Ida Rodrigues vai todos os dias ao Centro Comunitário, de segunda à sexta-feira, e ajuda nas atividades de 8h às 12h. O local fica a cerca de 100 metros da Paróquia São Miguel Arcanjo, na Mooca, região Leste de São Paulo, onde o padre Júlio é o pároco responsável há mais de 40 anos. Segundo Ida, o Centro atende mensalmente de 400 a 500 pessoas em situação de rua. Quando faltava algum item específico, o pároco fazia o pedido nas redes sociais.

“As pessoas vêm de outros estados para conhecer a obra, o padre Júlio, ver como conseguem ajudar. Então, essa divulgação que era feita nas redes sociais, para a gente era de extrema importância”, salienta.

A professora Elisa Huertas, 43, frequentadora há 25 anos da paróquia, catequista e membro da pastoral de comunicação, explica que a congregação é formada por cerca de 300 fiéis que contribuem financeiramente todos os meses. Sem as doações externas, diz Huertas, eles não conseguem manter todos os serviços prestados.

O Centro Comunitário fornece diariamente café da manhã para cerca de 350 pessoas em situação de rua. Também são oferecidos serviços como orientação jurídica, psicológica e de assistência social, corte de cabelo e doação de óculos de grau. Ficam à disposição para uso gratuito biblioteca, computadores, telefones e roupas. O Centro ainda conta com o atendimento ao trabalhador, para elaboração de currículos, emissão de documentos, acesso ao gov.br, encaminhamento para vagas de trabalho, impressão e plastificação de documentos.

A determinação que o padre Júlio não usasse mais as redes sociais e não transmitisse as missas pela internet, veio de Dom Odilo Scherer, arcebispo metropolitano de São Paulo. Com o intuito de reverter a decisão, a comunidade da paróquia reuniu mais de mil assinaturas em um abaixo-assinado de apoio ao padre Júlio e tentou entregar o documento ao cardeal.

“A Paróquia, os paroquianos, querem que continue [as postagens nas redes sociais]. Tentamos contato, mandamos mensagem para Dom Odilo. Ele me respondeu que era para entregar na região episcopal de Belém. Já Dom Cícero [bispo responsável pela região] mandou entregar na chancelaria da arquidiocese de São Paulo. Deixei claro nas mensagens que não queria apenas entregar, eu queria conversar, e eles se recusam”, declara Huertas. Diante das recusas, o grupo de fiéis pretende enviar o abaixo-assinado para o Vaticano.

<><> Por que isso importa?

        O padre Júlio Lancellotti, reconhecido como defensor de direitos humanos e por suas obras assistenciais com populações de rua da capital paulista, foi proibido de usar redes sociais pela Arquidiocese de São Paulo em dezembro de 2025.

        A proibição, vista por apoiadores como censura e perseguição política, está impactando as doações para a pastoral que atende pessoas em situação de rua na cidade.

“A gente fez alguns contatos com o Dom Odilo e sem sucesso. Contatos muito respeitosos, com muita delicadeza. Nosso contato foi no sentido de mostrar a importância desse trabalho, a importância do padre Júlio [estar] nas redes sociais, mas a gente não teve sucesso, não conseguiu nenhum retorno”, confirma Ida.

Os fiéis ouvidos pela reportagem salientaram que o padre tem seguido rigorosamente a orientação da Arquidiocese. “Desde que houve essa proibição, o padre [a] seguiu à risca. Ele nunca mais usou [as redes sociais], nunca desrespeitou a proibição do cardeal. Com isso, a gente está tendo que fundar [as redes sociais da paróquia] do zero. Isso atrapalha a arrecadação da igreja, atrapalha as pessoas conseguirem ver quais os eventos estamos promovendo”, explica a advogada Amanda Lopes, 27, que é também voluntária no Centro Comunitário e membro da Pastoral de Comunicação.

Para a advogada, a orientação dada ao pároco afeta negativamente o trabalho de toda a comunidade. “Eles [Dom Odilo e Dom Cícero] não estão atacando o padre Júlio, estão atacando a pessoa em situação de rua, quem vem aqui pegar um pão, tomar um banho. Isso não é sobre o Padre Júlio, isso é sobre as pessoas que dependem da paróquia São Miguel Arcanjo para ter o mínimo”, critica.

A falta de diálogo com a Arquidiocese gera dúvidas entre os integrantes da igreja. “Por que nós somos ignorados pelo nosso bispo? Eu sou fiel, sou paroquiana, vou todos os dias à missa e ele é meu bispo. […] Tem uma obra sendo feita que está completamente de acordo com a doutrina social da igreja, com o Concílio Vaticano II. Tudo de acordo com o que a igreja preconiza, de acolhimento, de ajuda, de olhar para o pobre, de caridade”, salienta Huertas.

O casal de professores Maria Lúcia Taiar Santos, 59, e Tarcísio Santos, 60, frequenta a paróquia há cerca de 50 anos e se diz “indignado” com a ausência do padre nas redes sociais. “O que percebemos é que a cada dois anos, sempre em ano de eleição, tem alguma iniciativa contra o padre Júlio. [Em 2024], estive conversando com o Dom Odilo, mostrando que ele não estava isolado, tinha a voz da comunidade junto”, conta Santos.

O professor admite, no entanto, que agora esse contato não foi possível. “Não fomos atendidos, enquanto comunidade. Está havendo aí, parece que um bloqueio, uma resistência, não consegue nem encaminhar o abaixo-assinado”, alega Santos.

“O que é estranho, porque na verdade o papel deles é estar junto [dos fiéis]. Essa indiferença parece um descaso ou uma rejeição à população que é da comunidade [da igreja]. A gente vê nisso um contrassenso’, complementa Taiar Santos.

Questionada pela Agência Pública sobre as negativas, a Arquidiocese de São Paulo informou em nota que “as solicitações de audiências com o Arcebispo de São Paulo devem ser feitas por meio do e-mail casaepiscopalsp@terra.com.br. Informamos, ainda, que, nas últimas semanas, tanto o Cardeal Odilo Pedro Scherer quanto Dom Cícero Alves de França estiveram em compromissos pastorais fora da cidade de São Paulo”.

A ideia de enviar o abaixo-assinado para o Vaticano surgiu em função dessa dificuldade de diálogo com a Arquidiocese de São Paulo, e também por causa da ação de um político de Belo Horizonte, afirmaram os paroquianos. “Eles enviaram um documento contrário ao padre Júlio, então queremos enviar nosso abaixo-assinado que é a favor”, diz Huertas.

Em novembro de 2025, o deputado federal Junio Amaral (PL-MG) e sua esposa Marília Amaral, apresentaram uma denúncia contra o pároco na Embaixada da Santa Sé, em Brasília e em um departamento da Cúria Romana no Vaticano.

Amaral foi multado em outubro de 2024 pela Justiça Eleitoral por “veicular informação sabidamente falsa” durante as eleições em que ele concorreu para prefeito de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. Em 2022, ele teve suas contas nas redes sociais X (antigo Twitter), Facebook e Instagram suspensas por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, por publicações consideradas violadoras de “diretrizes legais”.  

<><> Centro comunitário é alvo de hostilidade dos moradores

Entre os voluntários da Paróquia São Miguel Arcanjo, uma reclamação comum é a falta de compreensão dos moradores do bairro do trabalho de solidariedade feito pelos fiéis e pelo padre Júlio Lancellotti.

“As pessoas do bairro, principalmente. É a nossa maior dificuldade, porque eles acham que as pessoas em situação de rua desvalorizam a região”, lamenta Rodrigues. “Eles não entendem que não é porque o padre Júlio dá de comer que as pessoas estão em situação de rua. É o inverso. O padre Júlio dá de comer, e assistência, porque existem pessoas nas ruas”, ressalta.

Um levantamento feito pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) no ano passado, mostrou que são cerca de 96 mil pessoas em situação de rua na cidade de São Paulo.

Segundo o último Censo da População em Situação de Rua, realizado pela prefeitura de São Paulo em 2021, 18,2% se estabeleceram na região da Mooca. Perde apenas para a região da Sé, com 40,3% das pessoas em situação de rua. Na sequência, estão os bairros Santana/Tucuruvi e Vila Maria, ambos com 3,9% do total.

Por nota, a Prefeitura de São Paulo informa que “o próximo Censo da População em Situação de Rua no município será realizado neste ano, conforme o cronograma previsto. O levantamento terá início com o trabalho de campo em março de 2026”.

Obra em frente ao Centro Comunitário é exemplo da expansão imobiliária da região

Interesses econômicos também são considerados pelos paroquianos como uma ameaça para as obras da paróquia. “O bairro está passando por um processo de gentrificação, são muitos prédios sendo construídos e eles acham que as pessoas em situação de rua atrapalham”, afirma Elisa Huertas. Segundo a consultoria imobiliária Binswanger Brazil, desde 2020 a região da Mooca teve 80 empreendimentos imobiliários aprovados, sendo que 36 ainda estão em obras.

 

Fonte: Por Ludmila Pizarro, da Agencia Pública


Como azeite e pimenta do reino ajudam o corpo a turbinar absorção dos nutrientes da comida

Ela é uma especiaria valorizada há milhares de anos por sua capacidade de dar sabor até aos pratos mais insípidos.

A pimenta-do-reino começou a ser cultivada há mais de 3.500 anos na Índia, de onde é originária a planta que a produz, e se tornou um dos produtos mais valiosos do mundo antigo.

Hoje em dia, a maioria das pessoas a usa como tempero na comida, muitas vezes sem nem pensar. Mas adicionar pimenta-do-reino às refeições pode trazer mais do que sabor: pode aumentar a quantidade de nutrientes absorvidos a partir dos alimentos.

Os grãos de pimenta contêm uma substância química que facilita a absorção de vitaminas e outros nutrientes pela corrente sanguínea.

Da mesma forma, as minúsculas gotículas de gordura presentes no leite e no azeite de oliva também melhoram a disponibilidade de nutrientes no organismo.

Os cientistas buscam explorar esses efeitos para desenvolver novos tipos de alimentos fortificados e ajudar pessoas que têm dificuldade em absorver os nutrientes necessários para se manter saudáveis.

Um dos problemas enfrentados, mesmo com os alimentos mais nutritivos, é saber se o corpo consegue extrair vitaminas e minerais à medida que eles passam pelo sistema digestivo.

No caso do milho doce, por exemplo, os grãos são, sem dúvida, repletos de nutrientes: são ricos em fibras, proteínas, vitaminas e micronutrientes como o potássio.

Mas qualquer pessoa que já tenha olhado o vaso sanitário depois de comê-lo pode se perguntar quanto desse alimento foi, de fato, absorvido pelo organismo.

A película externa que envolve o grão é difícil de ser digerida pelo corpo humano, especialmente quando não é bem mastigada.

"Quando você come milho doce [sem mastigá-lo adequadamente], ele passa por todo o trato gastrointestinal e acaba no vaso sanitário, e todos os nutrientes que ele contém ficam ali", diz David Julian McClements, professor de Ciência dos Alimentos da Universidade de Massachusetts (EUA).

Felizmente, ao mastigar o milho doce, é possível liberar a polpa rica em nutrientes em seu interior, permitindo que ela seja digerida.

<><> O que é uma matriz?

Esse exemplo extremo ilustra um fato simples sobre os alimentos: para que os nutrientes sejam digeridos e utilizados pelo organismo, eles precisam primeiro ser liberados da complexa matriz de proteínas, carboidratos, gorduras e outros componentes que conferem textura e estrutura aos alimentos.

Existem ainda outras barreiras que podem dificultar a digestão das vitaminas.

Depois de liberadas da matriz alimentar, as vitaminas precisam se dissolver no líquido gastrointestinal. Em seguida, devem ser transportadas até o intestino delgado, onde células especiais chamadas enterócitos as conduzem para a corrente sanguínea.

No entanto, muitas vitaminas, entre elas A, D, E e K, que são classificadas como vitaminas lipossolúveis (que dissolvem em gordura), precisam de ajuda para chegar ao destino final.

"As vitaminas lipossolúveis não se dissolvem em água, portanto, se você as consome e não há gordura na refeição, elas não se dissolvem e simplesmente percorrem o trato gastrointestinal, sendo eliminadas nas fezes", diz McClements.

A matriz alimentar também pode ajudar nesse processo.

"Se você consumir [as vitaminas] com alguma gordura, essa gordura se decompõe e forma minúsculas partículas nanométricas chamadas micelas dentro do trato gastrointestinal", explica McClements.

"Essas estruturas retêm as vitaminas em seu interior e, em seguida, as transportam por meio do líquido gastrointestinal aquoso até as células epiteliais, onde podem ser absorvidas."

No entanto, algumas pessoas enfrentam dificuldades adicionais para obter vitaminas a partir dos alimentos.

Pessoas com "síndrome de má absorção" apresentam capacidade reduzida de absorver nutrientes devido a danos no revestimento intestinal.

Isso pode ocorrer por diferentes motivos, como doença inflamatória intestinal, doença celíaca, radioterapia e quimioterapia.

Na pancreatite crônica, os pacientes deixam de produzir enzimas essenciais para a digestão de gorduras, proteínas e carboidratos.

Doenças hepáticas também podem impedir a liberação da bile no intestino delgado. A bile auxilia na digestão das gorduras, e, sem gorduras na dieta, o organismo não consegue absorver as vitaminas lipossolúveis.

Nesses casos, costuma-se recomendar o uso de suplementos vitamínicos.

<><> O problema dos suplementos

"Os suplementos de vitaminas e minerais não deveriam ser usados de forma universal, e a maioria das pessoas não precisa deles", afirma JoAnn Manson, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard (EUA), que realizou estudos de grande escala sobre vitaminas e suplementos.

Segundo ela, uma alimentação saudável e equilibrada deveria ser suficiente.

"No entanto, as pessoas com doença de Crohn, colite ulcerativa e doença celíaca frequentemente não conseguem absorver a gordura de forma adequada. Isso provoca deficiências de vitaminas lipossolúveis, como as vitaminas A, D, E e K. Portanto, o uso de um multivitamínico nesses casos pode ser bastante apropriado."

No entanto, as vitaminas são absorvidas com menor eficiência quando consumidas na forma de suplemento. Para contornar esse problema, os cientistas vêm desenvolvendo novas maneiras de administrar vitaminas para potencializar sua absorção.

A chave, ao que tudo indica, está nas nanopartículas que se formam espontaneamente ao redor das vitaminas.

"Os cientistas que pesquisam isso tentam simular o que o corpo já faz, mas utilizando outros tipos de moléculas que normalmente não estão presentes nos alimentos", explica McClements, da Universidade de Massachusetts (EUA).

As nanopartículas são extremamente pequenas, com uma largura que varia de 1 a 100 nanômetros (nm). Para efeito de comparação, um fio de cabelo humano tem espessura aproximada entre 80.000 nm e 100.000 nm.

Enquanto isso, os cientistas da Universidade de Alberta (Canadá) descobriram que encapsular vitamina D em nanopartículas feitas de proteína de ervilha também aumenta a absorção dessa vitamina.

Já pesquisas conduzidas pelo próprio McClements mostraram que ingerir comprimidos de betacaroteno (precursor da vitamina A) junto com uma emulsão de nanoglóbulos de gordura, conhecida como lipossomos, pode elevar em 20% a biodisponibilidade do suplemento, ou seja, a quantidade de vitamina absorvida na corrente sanguínea.

Entre as boas fontes de carotenoides estão frutas e verduras de cores intensas, como cenoura, brócolis, vegetais de folhas verdes e tomates.

Em um estudo, McClements, da Universidade de Massachusetts, pediu que os participantes consumissem uma salada com e sem nanopartículas. A salada continha 50 g de espinafre, 50 g de alface-romana, 70 g de cenoura ralada e 90 g de tomates-cereja.

"Quando oferecemos apenas a salada, pouquíssimos carotenoides chegaram à corrente sanguínea, porque, sem gordura, as vitaminas não se dissolvem nos fluidos gastrointestinais", diz McClements.

"Mas quando oferecemos a salada com um molho contendo minúsculas gotículas de gordura, a quantidade de carotenóides absorvidos na corrente sanguínea aumentou de forma significativa."

<><> O poder do condimento

É aqui que entra a pimenta-do-reino.

Quando McClements e sua equipe adicionaram pimenta-do-reino à salada e ao molho, a absorção aumentou ainda mais.

As células do revestimento intestinal costumam ter transportadores que expelem os nutrientes já absorvidos e os devolvem ao trato gastrointestinal.

No entanto, uma substância química presente na pimenta-do-reino bloqueia esses transportadores, permitindo que mais vitaminas e carotenóides sejam absorvidos pela corrente sanguínea.

Foi então que McClements teve uma revelação: esse método já existia há milhares de anos.

"Trabalhamos durante anos tentando melhorar a biodisponibilidade da curcumina [um composto presente na cúrcuma]", relata.

"Comparamos diferentes sistemas de administração à base de proteínas, gorduras ou carboidratos, e descobrimos que os mais eficazes eram pequenas gotículas de lipídios, muito semelhantes ao leite, nas quais a curcumina é adicionada."

Ele conclui: "Eu estava caminhando pela nossa cidade quando vi um anúncio de leite dourado. Era uma bebida indiana muito tradicional e ancestral. Basicamente, é exatamente a mesma fórmula que criamos, só que eles a fizeram há mil anos."

A antiga bebida indiana consistia em cúrcuma misturada a um produto lácteo, com adição de pimenta-do-reino.

McClements e seus colegas demonstraram que é possível adicionar altas concentrações de curcumina ao leite de vaca, mantendo o composto estável por pelo menos duas semanas quando refrigerado.

Recentemente, o grupo também passou a testar a incorporação desse composto em leites vegetais.

Deixando de lado as novas e sofisticadas formulações vitamínicas, existe algo que possamos fazer para aumentar a absorção de vitaminas?

Segundo McClements, caso a pessoa faça uso de suplementos vitamínicos, o ideal é ingeri-los junto com uma refeição rica em gorduras.

"O melhor é algo que contenha pequenas partículas de gordura, como leite ou iogurte", sugere.

<><> A importância dos molhos

Também é importante ter em mente que, embora os vegetais sejam ricos em vitaminas benéficas à saúde, eles também podem conter "antinutrientes": moléculas que podem interferir na capacidade do corpo de absorver certos nutrientes.

Por exemplo, o brócolis e a couve-de-bruxelas contêm glucosinolatos, que podem interferir na absorção de iodo.

Por outro lado, as verduras de folhas verdes são ricas em compostos chamados oxalatos, que se ligam ao cálcio e impedem sua absorção.

Ainda assim, desde que se consuma uma variedade de vegetais, os benefícios desses alimentos para a saúde superam qualquer possível efeito nutricional negativo.

Por fim, se você vai saborear uma salada suculenta e saborosa, a escolha do molho ou do óleo pode fazer toda a diferença.

Um estudo recente de McClements e de seu colega Ruojie Zhang, da Universidade do Missouri (EUA), revelou que combinar couve (um vegetal altamente nutritivo, rico em carotenoides e nas vitaminas C e E) com um molho à base de azeite de oliva pode ajudar o corpo a aproveitar melhor esses nutrientes.

Essa descoberta pode ser uma das razões pelas quais dietas ricas em azeite de oliva, acompanhadas de frutas e verduras frescas, como a dieta mediterrânea, costumam ser tão saudáveis.

"Descobrimos que as nanopartículas feitas com azeite de oliva realmente aumentaram a biodisponibilidade dos carotenoides, enquanto as feitas com óleo de coco não tiveram efeito algum", explica McClements.

Isso acontece porque o óleo de coco forma estruturas muito pequenas, e o carotenoide é grande demais para caber nelas.

É como tentar colocar um elefante dentro de um fusca: às vezes você precisa de um veículo maior.

 

Fonte: BBC Future

 


 'Trump quer exorcizar presença positiva da China na América Latina', diz ex-presidente da Colômbia

Mais que petróleo ou minerais valiosos, a presença crescente da China na América Latina é o grande motor por trás da invasão dos Estados Unidos à Venezuela e do aumento de tensão entre o governo americano e líderes da região, avalia o ex-presidente da Colômbia Ernesto Samper Pizano.

"Acredito que o que está incomodando [Donald] Trump ou que ele quer exorcizar é a presença positiva da China na América Latina", disse ele à BBC News Brasil, referindo-se à aproximação comercial e aos investimentos do país asiático na região.

A China é hoje o principal parceiro comercial de países como Brasil, Chile e Peru, e há mais de uma década tem feito pesados investimentos na região, especialmente no setor de infraestrutura.

"Os EUA estão muito nervosos porque o que a China fez foi simplesmente percorrer o caminho que eles deixaram aberto", completa Samper.

Em entrevista à BBC News Brasil, o ex-presidente também comentou sobre a situação atual na Venezuela e sobre a presidente em exercício do país, Delcy Rodríguez, que foi empossada depois que o então presidente Nicolás Maduro foi deposto e detido em uma operação militar dos EUA em 3 de janeiro.

Samper descreve Delcy Rodríguez como alguém "competente" e "preparada", com apoio "em muitos setores empresariais", trânsito entre militares e contatos com setores de oposição.

Ele conviveu de perto com a atual mandatária venezuelana entre 2014 e 2017, quando foi secretário-geral da União das Nações Sul-americanas (Unasul), enquanto Rodríguez ocupava o Ministério das Relações Exteriores sob a presidência de Maduro.

"[Delcy] tem uma maneira de ser que lhe permite ter muito diálogo com todos os setores", disse, na entrevista concedida à reportagem por videoconferência, de Bogotá.

Samper tem 75 anos e vem de uma família proeminente na Colômbia. Seu avô foi candidato à presidência do país e um tio-avô pilotava o avião no qual morreu o cantor Carlos Gardel.

Em 3 de março de 1989, quando era senador e disputava a vaga de candidato do Partido Liberal à presidência, foi alvejado por cinco disparos em um atentado promovido por grupos paramilitares.

O candidato de esquerda José Antequera, atingido por 13 projéteis na mesma ocasião, não sobreviveu. Quando Samper chegou ao hospital Caja de Previsión, 17 minutos depois do atentado, os médicos deram-lhe quatro minutos de vida.

"Doutor, não me deixe morrer", pediu.

Passados cinco anos, Samper foi eleito presidente com um programa de reformas sociais. Em um país convulsionado pela expansão do narcotráfico, o governo de Samper, de 1994 a 1998, foi marcado pelo Processo 8000, instaurado a partir da denúncia de que um de seus assessores teria recebido US$ 6 milhões do Cartel de Cali para a campanha.

O inquérito levou à prisão de um ministro da Defesa e um procurador-geral, mas Samper, que sustentou não ter sido informado da operação, escapou do impeachment.

Ao deixar o governo, criou duas fundações e foi um dos inspiradores do Grupo de Puebla, organização que reúne líderes de centro-esquerda e esquerda da América Latina e da Espanha, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente do Estado espanhol José Luis Zapatero.

Quase quatro décadas depois, ainda leva no corpo quatro das cinco balas que o atingiram em 1989.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Ernesto Samper à BBC News Brasil.

·        Já se passaram algumas semanas desde a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela e a prisão de Nicolás Maduro. Como o senhor avalia esse episódio e que lições se pode tirar dele?

Ernesto Samper – O primeiro é que o caso do presidente Maduro nos EUA encontrou surpresas. A primeira delas, e talvez mais importante, é que o Departamento de Justiça dos EUA revelou que o Cartel de los Soles não existia. Se o Cartel de los Soles não existe, as acusações feitas ao presidente Maduro como chefe desse cartel sucumbem e o processo fica debilitado.

Certamente há uma grande indignação na América Latina por essa operação de intervenção [dos EUA na Venezuela] porque, ainda que nos últimos 50 anos os EUA tenham promovido mais de 64 intervenções em distintos países da América Latina, incluídos Brasil, Chile e quase todos os países da América Central, havia 35 anos que não se produzia uma invasão como a que se produziu na soberania da Venezuela.

Há 35 anos, houve uma operação parecida no Panamá para extrair o general Noriega [Manoel Noriega, ditador do Panamá deposto em 1989 pelos EUA]. Assim, a América Latina, que é uma zona de paz no mundo, viu-se realmente muito surpreendida com essa violação da soberania e alteração da condição de paz.

Na América Latina, há muitos anos não vimos um conflito territorial entre países. Vivemos em paz. Creio que esta política do presidente Trump, agressiva contra a América Latina, como se vê no caso do aumento das tarifas, da perseguição aos migrantes, de acabar com programas da Usaid [agência do governo americano para ajuda a países pobres] que beneficiavam setores sociais, demonstra agressividade para obter um reflexo eleitoral [nos EUA].

·        Trump disse que uma intervenção similar na Colômbia "soa bem". Como o senhor reage a essa afirmação?

Samper – Como tudo de Trump, [é uma afirmação] desafiante, agressiva. Todavia, talvez não seja conhecido publicamente que depois dessa afirmação houve um diálogo telefônico entre o presidente Trump e o presidente [da Colômbia, Gustavo] Petro, em que concordaram em se reunir na primeira semana de fevereiro em Washington.

Creio que os temas mais importantes dessa reunião serão, primeiro, que o problema do narcotráfico não é somente um problema da Colômbia, mas também dos países consumidores e que o tipo de drogas que estão sendo produzidas na zona andina, como a cocaína, não é o tipo de droga consumida hoje nos EUA, como o fentanil.

O segundo tema que certamente estará no radar da conversa entre os dois presidentes será o tema do futuro das negociações de paz com o Exército de Libertação Nacional [grupo guerrilheiro colombiano que não aderiu ao Acordo de Paz de Havana entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia em 2016] e, mais concretamente, a permanência do ELN na Venezuela.

Ainda que seja claro que essa permanência está provada, é certo que a Venezuela cumpriu um papel muito importante em cercar os distintos setores [da guerrilha colombiana abrigados em seu território] e enfrentá-los para celebrar acordo como o Acordo de Paz de Havana.

Finalmente, penso que o tema que permeia essa relação tão tensa não é nem sequer o petróleo ou as terras raras [minerais cruciais para indústrias de alta tecnologia].

Acredito que o que está incomodando Trump ou que ele quer exorcizar é a presença positiva da China na América Latina. Os EUA estão muito nervosos porque o que a China fez foi simplesmente percorrer o caminho que eles deixaram aberto.

·        Petro parece ter optado por uma política de engajamento com Trump depois de fortes choques verbais. O senhor acredita que Petro escolheu o caminho correto?

Samper – Acredito que escolheu o caminho correto por várias razões, mas a mais importante é que, de alguma maneira, contribui para que Trump não intervenha nas eleições que se realizarão na Colômbia a partir do mês de março deste ano.

Trump deu muitos exemplos de intromissão em processos eleitorais. Fez isso recentemente no caso de Honduras, inclusive absolvendo um criminoso [o ex-presidente Juan Orlando Hernández, que cumpria pena de 45 anos nos EUA por tráfico de drogas, do conservador Partido Nacional] para que pudesse ajudar o candidato vencedor das eleições [Nasry Asfura, também do Partido Nacional, eleito presidente com 40,3% dos votos e que tomará posse no dia 27 de janeiro].

Fez o mesmo no Chile, favorecendo o candidato da extrema-direita [José Antonio Kast, do Partido Republicano, que venceu a eleição presidencial em segundo turno com 58,16% dos votos]. Voltou a fazê-lo com um cheque generoso para [o presidente Javier] Milei na Argentina, que lhe permitiu ganhar as eleições parlamentares [os EUA ofereceram à Argentina um resgate financeiro de US$ 40 bilhões semanas antes das eleições de outubro de 2025, vencidas pelo partido de Milei].

Ou seja, ele [Trump] vai tratar de intervir em todas as eleições. Se nós conseguirmos que, por meio de um acordo, ele não se meta nas eleições da Colômbia, creio que seria um bom resultado, especialmente para os setores progressistas.

·        O jornal britânico Financial Times pergunta, no título de um artigo publicado no último dia 19 de janeiro, se o novo regime venezuelano encabeçado por apoiadores de Maduro e alinhado com os EUA é "sustentável". O que o senhor pensa disso?

Samper – Penso que a única saída que a Venezuela tem neste momento é aquela para a qual de alguma maneira se está abrindo caminho, a de que a presidente em exercício, Delcy Rodríguez, uma pessoa que tem apoio em muitos setores empresariais, conhece muito bem o tema do petróleo, tem relações com o setor de oposição que não é o de María Corina Machado [proeminente oposicionista venezuelana e Prêmio Nobel da Paz de 2025], tem ótima formação e sobretudo tem contatos com os quadros militares, que são indispensáveis nesta etapa como apoiadores de um processo de transição, conduza a transição.

·        O senhor conhece pessoalmente Delcy Rodríguez. Ela pode cumprir esse papel?

Samper – Creio que é uma pessoa competente, assim como seu irmão, Jorge Rodríguez [presidente da Assembleia Nacional, o parlamento nacional venezuelano].

Quando fui secretário-geral da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), conheci muito de perto seu trabalho, desenvolvemos muitos projetos conjuntos e me consta que são um pouco as pessoas que estavam mais próximas de Maduro, que representam mais de alguma maneira seu projeto político.

Há outros setores nos quais não tenho tanta confiança. Delcy é uma pessoa preparada em universidades inglesas e francesas, fala vários idiomas, esteve encarregada de todo o tema da mineração e do petróleo nos últimos anos. Introduziu umas condições de estabilização econômica que hoje em dia são percebidas na Venezuela, talvez por uma desdolarização da economia. Tem uma maneira de ser que lhe permite ter muito diálogo com todos os setores.

·        Quais seriam as condições de um processo de transição na Venezuela?

Samper – Poderia haver um processo de transição sempre e quando os EUA aceitassem desbloquear a economia venezuelana, porque eles a mantêm totalmente bloqueada há seis anos, especialmente no tema do petróleo, e o governo provisório da Venezuela aceitasse a libertação dos presos que hoje em dia são da oposição, presos por razões políticas.

Isso seria um bom começo para que se iniciasse uma etapa de diálogo nacional que culminasse em eleições livres. Acredito que esse é o caminho.

O caminho, por exemplo, de entregar o governo à oposição seria saltar da frigideira para o fogo.

·        O senhor acredita que a preocupação com transição e democracia é central para os EUA neste momento? Trump justificou a ofensiva contra Maduro com acusações de narcotráfico e autoritarismo, mas parece ter abandonado esse discurso.

Samper – Creio que Trump utilizou a acusação de narcotráfico para poder justificar a intervenção na Venezuela e uma possível intervenção na Colômbia por razões policiais, que o livram de se apresentar ou responder perante o Congresso dos EUA, de pedir permissão para invadir um país ou para sequestrar um presidente.

Creio que, com a razão do narcotráfico, ele pode dizer que está cumprindo uma ordem judicial. Mas, afinal, todos sabemos que o interesse dele na Venezuela não é somente o petróleo, mas também as terras raras produzidas na Venezuela, que são as mesmas produzidas na Groenlândia, que têm um grande interesse porque disso depende o quanto poderão avançar na corrida da inteligência artificial.

Meu feeling é que, por trás de tudo isso, está a intenção de Trump de frear a presença da China na América Latina.

·        A Espanha disse que não reconhecerá intervenções que violem o direito internacional. Isso põe em dúvida o futuro de uma transição democrática na Venezuela como a que o senhor propõe?

Samper – Não, pelo contrário. O tema da Venezuela, para que se resolva, tem de terminar em eleições livres, mas não somente eleições. Tem de haver uma mudança constitucional que permita que volte a existir um equilíbrio de poderes na Venezuela, equilíbrio que se rompeu porque há 20 anos vem governando um só partido.

Para [haver] esse equilíbrio de poderes, é necessária uma reforma constitucional. Por isso, eu quero que a Venezuela tenha esse processo de transição. Primeiro, é preciso estar sintonizado com os poderes fáticos que existem na Venezuela, concretamente com os militares, e, além disso, deve terminar em uma reforma constitucional que todos apoiem para que o equilíbrio de poderes volte a se estabelecer.

Então, sim, pode haver eleições livres para voltar a escolher as pessoas que devem dirigir o país, mas para isso há que ter um mapa do caminho. É preciso dar os passos firmes, e estou certo de que Trump depois de amanhã vai se esquecer da Venezuela e vai estar preocupado em governar a Groenlândia ou ver como se anexa o Canadá ou qualquer uma de suas loucuras expansionistas.

Ele deveria aprender as lições que lhe deixou o presidente McKinley [William McKinley, presidente americano de 1897 a 1901] há cem anos, que é seu ídolo, de que a fortaleza dos EUA não aumenta com a expansão, mas, pelo contrário, se debilita, porque abre muitas frentes de guerra e de confronto. Os EUA não estão preparados para lidar com tantas frentes ao mesmo tempo, mas há uma que vai pôr fim às aventuras de Trump, que é a frente interna.

·        Em que consiste hoje essa frente interna?

Samper – Creio que nos EUA estão começando a aparecer recursos morais que são os que vão deter Trump. Estou falando dos meios de comunicação, das universidades, dos intelectuais, do prefeito de Nova York [Zohran Mamdani, socialista independente] ou do governador da Califórnia [Gavin Newsom, democrata].

Creio que haverá uma conjunção de forças que se somarão. Quem sabe não tenhamos que esperar que ocorra uma mudança de equilíbrio no Congresso nas eleições dos próximos meses, nas quais vai se renovar um terço do Congresso, para ver um Trump muito mais amarrado às preocupações internas do que a consertar o mundo?

·        Petro baseou-se na história da Colômbia para cogitar "governos compartilhados" como fórmula de transição na Venezuela. Isso é viável?

Samper – Não somente é viável como é a única que tem probabilidade de êxito. A própria Venezuela, com o Pacto de Punto Fijo [acordo de transição política firmado entre partidos venezuelanos depois da queda do ditador Marcos Pérez Jiménez, em 1958], talvez tenha feito uma primeira tentativa de ter governos compartilhados.

Na Colômbia, ficamos por 16 anos com uma frente nacional que previa alternância de partidos no poder e permitiu pacificar o país. A partir dessa pacificação, chegamos a acordos como o de Havana. É preciso lembrar que, na América Latina, não temos regimes parlamentaristas.

Creio que a saída política para o problema latino-americano é caminhar em direção a regimes semiparlamentaristas. Temos regimes presidencialistas que têm o pior da presidência dos EUA e da monarquia espanhola. Ficamos com os defeitos de cada um desses sistemas, herdamos esses defeitos. Agora necessitamos fazer a transição para um sistema parlamentarista que permita haver eleições e que essas crises se resolvam sem que haja rupturas institucionais.

·        Como o senhor reage à elevação do tom entre Trump e líderes europeus sobre a Groenlândia?

Samper – Penso que, por trás da Groenlândia, está o afã expansionista de Trump, mas ele sabe que a Europa não está em seu melhor momento. A Europa está atravessando uma de suas piores crises em muitos anos, não somente porque tem o problema da Ucrânia, que está a suas portas, mas porque tem problemas de sintonia entre seus membros.

O excesso regulatório na Europa está paralisando o desenvolvimento de sua ciência e sua tecnologia. Em termos econômicos, está sendo superada pela China. Assim, a Europa tem igualmente uma oportunidade para se reconstituir, para fortalecer seus laços econômicos e para se desprender da tutela militar dos EUA.

É disso [da dependência militar europeia em relação aos EUA] que Trump está se aproveitando neste momento para dizer que não há quem se oponha a seus apetites expansionistas na Groenlândia, que são motivados não somente pelas terras raras, que são sua obsessão, mas também pela tentativa de deter a China e a Rússia e a influência que podem ter neste momento sobre o norte da Europa.

·        O senhor crê que Trump possa recorrer à força na Groenlândia?

Samper – Creio que Trump é capaz de qualquer coisa, e muito mais de usar a força porque creio que ele se deu conta de que é preferível ser um presidente militar do que um presidente constitucional.

Ele tem governado com decretos executivos e, em casos como o do bombardeio de lanchas na Venezuela, passou por cima de todas as normas do direito internacional humanitário, da Carta das Nações Unidas, que em seu Artigo 54 trata do emprego da força. Creio que isso de alguma maneira o encorajou, e não descarto que poderá tentar [usar a força novamente]. Agora, o que está acontecendo no interior dos EUA e qual é o pensamento dos militares neste momento são temas que devemos explorar.

·        O que restou da integração sul-americana?

Samper – Essa é uma boa e triste pergunta. A integração da América Latina nunca foi tão necessária como agora e nunca estivemos tão desintegrados como agora.

Dos grandes mecanismos de integração, a Unasul está praticamente desaparecida e a Celac [Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos] é um mecanismo sem poder, sem secretário, sem pessoal. Permanecem os processos regionais de integração em algumas áreas importantes.

É importante o [acordo comercial] que acaba de ser assinado pelo Mercosul com a Europa, por exemplo. Esse é um fato de integração importante. Há também o Pacto Amazônico que apresentou avanços, há a integração centro-americana, mas não estamos funcionando como 34 países.

Os acordos de livre comércio que firmamos em má hora com os EUA são mecanismos para retardar a integração à luz dessa diplomacia ideológica que Trump está fazendo e que dividiu os países entre governos amigos e inimigos da política ideológica de Trump.

Esse vírus da politização, somado ao vírus da polarização que as redes sociais conseguiram nesses países, assim como os meios de comunicação que são donos das redes, está produzindo uma crise de representatividade muito grande na região.

 

Fonte: BBC News Brasil