Justiça
Eleitoral recorre aos militares diante de facções e riscos à votação em 9
estados
Facções
criminosas, territórios sob domínio armado, tráfico de drogas em regiões de
fronteira e riscos em áreas indígenas estão entre os motivos apresentados pela
Justiça Eleitoral para recorrer ao reforço federal nas eleições de outubro.
Levantamento do ICL Notícias identificou pedidos de tropas em ao menos nove
estados, num mapa ainda em formação que revela onde autoridades eleitorais
enxergam ameaças à segurança e à liberdade da votação.
A busca
encontrou solicitações ou decisões envolvendo Acre, Amazonas, Ceará, Maranhão,
Mato Grosso do Sul, Paraíba, Piauí, Rio de Janeiro e Tocantins. Os processos
estão em estágios diferentes: em alguns casos, os Tribunais Regionais
Eleitorais (TREs) já aprovaram a requisição; em outros, os pedidos ainda
precisam percorrer etapas até a autorização final do Tribunal Superior
Eleitoral (TSE).
O
levantamento também mostra uma dimensão que não aparece quando as decisões são
observadas isoladamente. Somente Ceará e Maranhão já têm pedidos aprovados
pelos respectivos TREs envolvendo 111 municípios. No Piauí, a solicitação
alcança 45 zonas eleitorais. No Amazonas, foram registrados pedidos de 37
municípios. No Acre, oito das nove zonas eleitorais entraram na relação.
Os
números não podem ser simplesmente somados, porque os tribunais usam unidades
diferentes — município, zona eleitoral ou local de votação — e porque pedido de
força federal não significa que os militares já estejam autorizados a atuar.
Nesta
quarta-feira (19), o TSE voltou a detalhar as regras para o emprego das Forças
Armadas nas eleições. A chamada Garantia da Votação e da Apuração (GVA) pode
ser autorizada para assegurar o livre exercício do voto, a normalidade da
votação e a apuração dos resultados.
Os
pedidos são encaminhados pelos TREs ao TSE e precisam apresentar justificativas
individualizadas. Depois de aprovados pelo Tribunal Superior, são enviados ao
Ministério da Defesa.
Há
ainda limites para a atuação militar. Nas localidades onde houver GVA, as
tropas não podem permanecer a menos de 100 metros das seções eleitorais. Também
não podem entrar nos locais de votação sem ordem da autoridade eleitoral
competente ou do presidente da mesa receptora.
A GVA
não deve ser confundida com outro tipo de participação das Forças Armadas nas
eleições: o apoio logístico.
Neste
segundo caso, militares transportam urnas, equipamentos e equipes da Justiça
Eleitoral para regiões de difícil acesso. O governo federal já autorizou esse
apoio em 128 localidades distribuídas por 42 municípios de Acre, Amapá,
Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Roraima.
O mapa
da segurança eleitoral é diferente — e as justificativas apresentadas pelos
tribunais ajudam a explicar por quê.
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Facções e tráfico aparecem no Acre
No
Acre, o TRE aprovou a solicitação de força federal para oito das nove zonas
eleitorais do estado.
As
justificativas apresentadas para o reforço passam pela situação de segurança
pública. Entre os problemas apontados estão atuação de organizações criminosas,
tráfico de drogas em regiões de fronteira, episódios de violência e limitações
do efetivo policial disponível para atender simultaneamente às necessidades do
estado e da eleição.
A
abrangência territorial é grande. As zonas incluídas alcançam municípios como
Rio Branco, Porto Acre, Feijó, Sena Madureira, Brasiléia, Epitaciolândia, Assis
Brasil, Senador Guiomard, Acrelândia, Plácido de Castro, Tarauacá, Jordão,
Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Porto Walter e Marechal
Thaumaturgo.
Em
parte dessas regiões, a preocupação eleitoral se mistura a um problema
conhecido da segurança pública amazônica: cidades próximas às fronteiras
internacionais e rotas utilizadas para crimes transnacionais.
É
justamente esse tipo de situação que diferencia o pedido acreano de uma
requisição genérica de policiamento adicional.
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RJ cita domínio territorial do crime organizado
No Rio
de Janeiro, o argumento apresentado pela própria cúpula da Justiça Eleitoral é
ainda mais explícito.
O
TRE-RJ aprovou por unanimidade, em julho, a solicitação de força federal para
as eleições. Ao defender a medida, o presidente do tribunal, desembargador
Claudio de Mello Tavares, apontou a existência de eleitores que vivem em áreas
controladas pelo crime organizado, principalmente na Região Metropolitana.
Segundo
o magistrado, trata-se de um problema estrutural provocado pelo controle
territorial armado exercido por organizações criminosas.
A
preocupação do tribunal não é apenas com a ocorrência de violência no dia da
eleição, mas com a própria liberdade de escolha do eleitor em regiões nas quais
grupos armados exercem domínio territorial.
O tema
já levou a Justiça Eleitoral fluminense a adotar outras medidas. Neste mês, o
TRE-RJ informou a alteração de 66 locais de votação por razões de segurança,
numa estratégia para afastar seções de áreas consideradas vulneráveis à
influência do tráfico, das milícias ou de disputas entre grupos criminosos.
O
tribunal também criou uma estrutura extraordinária de segurança para as
eleições de 2026, com participação de órgãos municipais, estaduais e federais e
foco no enfrentamento de interferências criminosas sobre o processo eleitoral.
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Maranhão inclui 45 municípios nesta semana
O mapa
continua crescendo às vésperas da eleição.
Na
segunda-feira (17), o TRE do Maranhão aprovou por unanimidade pedido de força
federal para 45 municípios no primeiro turno.
A
decisão é uma das mais recentes encontradas pelo levantamento do ICL.
Segundo
o tribunal, as localidades foram selecionadas após consulta às zonas eleitorais
e análise da Assessoria de Segurança Institucional e Inteligência do TRE-MA,
além de informações produzidas por instituições de segurança pública.
O
relator do processo, corregedor eleitoral Sebastião Bonfim, considerou
presentes os requisitos para encaminhar a solicitação.
O
próprio tribunal afirma que a seleção levou em consideração elementos concretos
de “risco e vulnerabilidade”.
Entraram
na relação municípios como Barra do Corda, Grajaú, Viana, Turilândia, Santa
Luzia, Buriticupu, Cururupu, Amarante do Maranhão, Presidente Vargas, Fernando
Falcão, Arame, Bacuri, Bom Jardim, Tuntum e Presidente Sarney.
A
análise não foi automática. Pedidos sem justificativa considerada
suficientemente objetiva ou individualizada foram retirados da relação, segundo
o TRE.
Esse
detalhe é relevante porque mostra que a presença de um município na lista
pressupõe, ao menos na avaliação regional, a existência de circunstâncias
específicas apresentadas à Justiça Eleitoral para justificar a necessidade de
reforço.
A
requisição ainda precisa cumprir as etapas previstas até a efetiva autorização
da força federal.
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Ceará pede reforço para 66 cidades
O Ceará
apresenta, entre os casos identificados pelo levantamento, uma das maiores
listas em números absolutos.
O TRE
aprovou pedido para 66 municípios, incluindo Fortaleza.
Também
aparecem na relação cidades importantes como Caucaia, Juazeiro do Norte,
Sobral, Crato, Maracanaú, Iguatu, Quixadá, Canindé, Aracati, Crateús, Itapipoca
e Tianguá.
A
abrangência chama atenção porque não se limita a áreas remotas ou fronteiriças.
A capital e grandes centros urbanos aparecem ao lado de municípios do interior.
O
pedido teve origem em manifestações de juízes eleitorais e passou pela
estrutura de segurança da Justiça Eleitoral.
O caso
cearense também revelou diferença de avaliação entre autoridades envolvidas no
planejamento da eleição. Durante a discussão sobre o reforço, informações da
área de inteligência da segurança pública estadual indicavam que, naquele
estágio, não havia necessidade de força federal, enquanto magistrados
eleitorais defenderam a solicitação.
A
divergência mostra que a avaliação de risco feita pela Justiça Eleitoral pode
não coincidir com a leitura das forças estaduais de segurança.
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Fronteira e aldeias em Mato Grosso do Sul
Em Mato
Grosso do Sul, o desenho é diferente.
Os
pedidos aprovados pelo TRE alcançam localidades em Amambai, Paranhos, Ponta
Porã, Antônio João, Aral Moreira, Coronel Sapucaia, Bela Vista e Caracol,
municípios situados na faixa de fronteira com o Paraguai.
A
região concentra desafios conhecidos de segurança pública relacionados à
extensão da fronteira e à circulação transnacional.
Mas a
solicitação não se restringe às cidades fronteiriças.
Também
foram incluídos locais de votação em comunidades indígenas, como a Aldeia
Pirakuá, além de unidades instaladas em aldeias de municípios como Caarapó e
Juti.
A
presença desses locais evidencia outra dimensão do emprego federal: garantir
acesso e segurança eleitoral em territórios nos quais características
geográficas, conflitos locais ou dificuldades operacionais podem exigir uma
estrutura diferente daquela utilizada nos grandes centros urbanos.
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Piauí tem pedido para 45 zonas
O Piauí
aparece com outro número expressivo: requerimentos de força federal envolvendo
45 zonas eleitorais.
A
comparação direta com os 66 municípios cearenses ou os 45 maranhenses seria
enganosa. Uma única zona eleitoral pode abranger mais de uma cidade.
Por
isso, o número de municípios piauienses potencialmente alcançados pelo pedido
pode ser superior ao número de zonas.
O dado,
no entanto, indica a dimensão territorial da preocupação. O estado possui 74
zonas eleitorais, o que coloca uma parcela significativa delas no universo das
solicitações de reforço.
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Amazonas registra pedidos de 37 municípios
No
Amazonas, o planejamento da segurança eleitoral registrou solicitações de força
federal provenientes de 37 municípios.
O
número também deve ser interpretado com cautela: a existência do pedido não
significa que todos receberão tropas. As solicitações ainda passam pela análise
das instâncias da Justiça Eleitoral.
O
estado apresenta uma combinação particular de desafios. Grandes distâncias,
localidades acessíveis principalmente por rios e dificuldades de deslocamento
fazem com que a participação militar também seja utilizada para apoio
logístico.
Por
isso, é especialmente importante distinguir onde haverá apenas transporte
militar de urnas e equipes e onde será considerada necessária a presença de
força federal para a segurança da votação.
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Tocantins e Paraíba também têm solicitações
No
Tocantins, o TRE informou ter aprovado requisição de força federal para cinco
zonas eleitorais, abrangendo sete municípios e 16 locais de votação.
Na
Paraíba, pedidos foram apresentados para Itabaiana, Piancó e Bayeux.
São
situações numericamente menores que Ceará ou Maranhão, mas que reforçam a
dispersão geográfica das solicitações: o mapa encontrado pelo levantamento vai
da Região Norte ao Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste.
Até o
momento, o ICL não localizou pedidos públicos de GVA de 2026 já divulgados ou
formalizados nos demais estados. A ausência de informação pública, porém, não
permite afirmar que eles não solicitarão força federal. Novos pedidos podem ser
apresentados conforme avança o planejamento de segurança.
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Militar não substitui autoridade eleitoral
Apesar
do nome “Garantia da Votação e da Apuração”, o emprego das Forças Armadas não
transfere aos militares o comando da eleição.
Nas
localidades atendidas, a tropa permanece subordinada às determinações da
Justiça Eleitoral para aquela missão.
A
legislação estabelece ainda uma espécie de zona de proteção ao redor das
seções: a força federal não pode permanecer a menos de 100 metros dos locais de
votação nem entrar neles sem ordem da autoridade eleitoral ou do presidente da
mesa.
O
objetivo é conciliar o reforço da segurança com a preservação do ambiente de
votação e evitar que a presença armada interfira no exercício do voto.
As
solicitações estaduais são analisadas pelo TSE antes de serem encaminhadas ao
Ministério da Defesa. Isso significa que o mapa levantado pelos TREs ainda não
corresponde necessariamente ao mapa definitivo da presença das Forças Armadas
em outubro.
É
justamente esse mapa que deverá ganhar contornos mais claros nas próximas
semanas.
Em
2022, segundo dados divulgados pelo Ministério da Defesa, ações de Garantia da
Votação e da Apuração alcançaram cerca de 570 municípios e 4,6 mil locais de
votação. Naquele pleito, militares também transportaram aproximadamente 4,8 mil
urnas eletrônicas para regiões de difícil acesso.
As
decisões dos tribunais regionais permitem identificar uma característica do
planejamento: em diferentes partes do país, a requisição de tropas está
diretamente ligada a problemas que ultrapassam a organização operacional da
eleição e alcançam questões de segurança pública — do domínio territorial
exercido por organizações criminosas no Rio às facções e rotas do tráfico no
Acre, passando pelas fronteiras e comunidades indígenas de Mato Grosso do Sul.
Fonte:
ICL Notícias

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