Quem
é Augusto Cury, o escritor que disputa as eleições de 2026
Augusto
Cury, de 67 anos, chegou ao primeiro debate presidencial de 2026 como um
personagem que destoava dos demais candidatos: um escritor de autoajuda, médico
psiquiatra e palestrante que decidiu trocar os livros pelo palanque.
Candidato
do Avante, Cury quase nem entrou no estúdio da Band na noite deste domingo
(23/8). Diante das ausências do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do
senador Flávio Bolsonaro (PL) e do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema
(Novo), ele anunciou que faria um protesto e não participaria.
Pouco
depois, no entanto, Cury voltou atrás e entrou no confronto, dizendo que o fez
por respeito ao jornalista Fernando Mitre, diretor de jornalismo da
Bandeirantes.
No
palco, ao lado do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) e de Renan Santos
(Missão), Cury criticou a polarização e tentou se apresentar como uma
alternativa aos dois grupos políticos que, segundo ele, dominam a disputa.
Um dos
momentos que mais chamou atenção ocorreu quando Cury reagiu às críticas de
Santos ao eleitorado de Lula, a quem o empresário chamou de
"canalha". "Estão rifando o futuro do Brasil, e eu não quero o
voto deles", afirmou.
"Olha,
Renan, você tem um nível de agressividade que me assombra. As ideias podem ter
fundamento, mas a agressividade asfixia a capacidade de as pessoas terem suas
próprias opiniões. Nós estamos em uma democracia, e a beleza dela está na
divergência", disse Cury.
"Você
pode criticar as ideias de Lula, e elas são criticáveis, mas você não pode
criticar a pessoa, transformando ela em uma escória humana, quase um lixo. E
nem mesmo o eleitor de Lula", acrescentou o candidato do Avante.
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Um desejo antigo para 'aumentar a régua do debate'
Cury é
um sujeito de predicados superlativos. Considerado o escritor brasileiro mais
lido da última década, ele vendeu mais de 30 milhões de livros no país e agora
quer estender essa ambição à política.
O
escritor contou à BBC News Brasil em abril que se lançar à política é um desejo
antigo, mas sua família tinha medo de que ele pudesse se ferir em um ambiente
"extremamente agressivo e espinhoso".
Uma
década depois, com o amadurecimento de suas filhas, ele contou que teve apoio
para se candidatar, com a promessa de que, caso fosse eleito, não buscaria um
segundo mandato.
"Não
avaliei me candidatar a nenhum outro cargo, seja deputado, seja senador, seja
governador, porque não quero fazer carreira política. Meu objetivo é aumentar a
régua do debate", afirmou.
"Só
acho que o Brasil não pode ser sequestrado por duas famílias — no bom sentido,
sem fazer julgamento dessas famílias, mas o Brasil é muito maior do que a
família Bolsonaro e a família Lula da Silva."
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Quais são as chances de Cury nas eleições?
Com os
resultados das pesquisas nacionais divulgadas até a sexta-feira (21/8), antes
do debate da Band, a estimativa de intenção de voto em Augusto Cury, no
primeiro turno, é de 1%.
A
estimativa é do Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, que compila os
levantamentos das instituições Datafolha, Quaest, AtlasIntel, MDA, Gerp, entre
outros, e calcula uma espécie de média para os dados.
Até a
sexta, Lula era quem liderava as pesquisas para o primeiro turno, com 39% das
intenções, seguido por Flávio, com 35%, e Caiado, em terceiro lugar, com 5%.
A ideia
da equipe de Cury é atrair eleitores que votaram em branco ou nulo — índice que
foi de 4,41% em 2022, o menor desde 1994, mas que tem girado em torno de 10% na
última década —, além dos que se abstiveram, que somaram 20,9% no último
pleito, o maior percentual desde 1998, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.
Em
abril, Cury afirmou que rejeita declarar apoio a qualquer candidato em um
eventual segundo turno que não o inclua. Ele também evita dizer em quem votou
na eleição passada.
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Candidato com 'uma mente capitalista e um coração social'
O maior
sucesso de Cury nas livrarias, O Vendedor de Sonhos, ilustra a verve narrativa
que o tornou conhecido. Na história, que também ganhou o cinema, um psicólogo
desiludido tenta tirar a própria vida, mas é impedido por um morador de rua,
com quem passa a salvar outras pessoas.
O
escritor apresentou a própria candidatura como uma história improvável, movida
pela esperança, e disse acreditar que sua experiência estudando a mente humana
pode ser usada para enfrentar conflitos, tanto dentro quanto fora do país.
Ele se
projeta como uma terceira via, ancorando-se no lema de que tem "uma mente
capitalista e um coração social", perfil que, segundo ele, o distanciaria
tanto de Lula quanto de Flávio.
"Tenho
uma mente liberal, quero um Estado enxuto e eficiente, que acolha as pessoas
que estão querendo produzir, mas não têm condições, seja pelos juros
altíssimos, seja pela burocracia", afirmou.
"E
essa mente capitalista tem que ser acompanhada de um coração social, que
valoriza os direitos humanos no mais alto nível, a educação de qualidade, a
proteção da mulher."
Ao ser
questionado se isso não o colocaria no centro do barômetro ideológico, o
escritor rejeitou a ideia e disse que "o centro está no limbo entre ser
neutro, estar em cima do muro" e que ele é "contra ser uma pessoa que
não tem opinião".
Cury
disse ser possível unir a agenda econômica e social e cita como exemplo a
proposta de rever o sistema prisional, que, em sua avaliação, faz "com que
a sociedade pague duas vezes, porque são de R$ 3 mil a R$ 4 mil gastos por mês
com cada prisioneiro e, quando ele retorna à sociedade, reincide no crime e
volta ao presídio".
"O
Brasil aprisiona muito, ao contrário do que se acredita. Os criminosos devem,
sem dúvida, ir às barras da Justiça, mas quem estamos aprisionando? São os
criminosos de alta periculosidade ou jovens que não têm como sobreviver e
acabam cometendo crimes, vendendo drogas?", questionou.
O
escritor reconhece que pautas como essa podem levá-lo a ser ligado à esquerda
e, em última análise, a Lula e ao Partido dos Trabalhadores, mas disse ter
esperança de que o eleitorado não vá se deixar convencer por essas associações
e de que os adversários não vão lançar mão dessa estratégia.
"Isso
não é uma pauta da esquerda. As pessoas associam à esquerda, mas é uma pauta
suprapartidária, porque também a esquerda não fez nada de grande impacto para
mudar a ressocialização e impedir que as prisões se tornem escolas do crime.
Essas pautas são sequestradas", disse.
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Propostas para o mundo todo
Cury
disse que não queria ser uma alternativa a Flávio e Lula somente para as crises
brasileiras, mas acreditava ser possível ajudar a solucionar impasses entre
líderes mundiais, de Donald Trump a Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky,
presidentes dos Estados Unidos, da Rússia e da Ucrânia.
"Se
tivesse o privilégio de sentar na cadeira de presidente, nos primeiros dias
chamaria vários políticos, como Putin e Zelensky, para conversar, porque sou um
especialista em pacificação de conflitos, tenho livros sobre isso",
afirmou ele à BBC News Brasil em abril, quando ainda era pré-candidato à
Presidência.
"Quem
sabe alguém de fora, de um país como o Brasil, que é pacífico, seja mais
ouvido. Não apenas este, mas os conflitos na África e em outros países."
Entoando
o lema de que tem "uma mente capitalista e um coração social", o
escritor disse que, caso seja eleito, espera "inspirar outros atores nas
mais diversas nações, seja na Ásia, seja no mundo ocidental", a pôr fim às
guerras e resolver desafios como a fome mundial.
"Se
gastasse talvez 20% do que se gasta em armas, a equação da fome teria se
resolvido. Eu gostaria de chamar o G20, ou quem sabe os quase 200 países que
participam da ONU, e meio por cento de todas as importações e exportações do
mundo poderiam formar um fundo. Ou por que não de 2% a 3% de toda compra e
venda de armas formassem um fundo para resolver a fome mundial?", propôs.
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Da autoajuda à política
Nos
bastidores, há quem trate a candidatura do escritor como inviável e a associe
mais a uma estratégia de marketing para impulsionar os negócios, tanto a venda
de livros quanto de cursos.
Seria
um movimento benéfico à sua carreira. Afinal, se na década passada Cury se
consolidou como o autor nacional mais lido do país, hoje enfrenta forte
concorrência de livros de autoajuda que viralizam nas redes sociais e, no
mercado de cursos e palestras, concorre com coaches que se criaram não nas
livrarias, mas já na internet.
A
leitura remete ao movimento de Pablo Marçal (União Brasil), que disputou a
Prefeitura paulistana no ano retrasado e agora tenta voltar aos palanques. Ele
se anunciou candidato à Presidência pelo Partido Renovador Trabalhista Nacional
(PRTB), embora a candidatura ainda deva ser analisada pelo TSE.
Cury,
porém, rejeitou essa interpretação e disse que, na prática, a incursão na
política pode até prejudicar seus negócios.
"Não
pensei muito nisso, mas vários amigos me dizem que vai prejudicar, que vou sair
ferido. Mas já tenho muito mais do que mereço, tanto financeiramente quanto
socialmente e intelectualmente."
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Propostas para o sistema presidencial e o STF
Ao
longo da entrevista por videoconferência à BBC News Brasil, concedida em abril
de sua casa na região de Ribeirão Preto, no interior paulista, Cury não se
furtou a comentar geopolítica global — citou diversos países, seus problemas e
possíveis soluções —, mas também detalhou propostas para o Brasil.
A
principal delas envolve mudanças na estrutura de poder, com apoio do Congresso.
Ele defendeu mudanças no presidencialismo, com a criação do cargo de
primeiro-ministro, e no Judiciário, especialmente no Supremo Tribunal Federal
(STF), que, em sua avaliação, estaria "sufocando os outros poderes" e
precisa "ser preservado de qualquer interferência política".
Ele
disse que pretendia articular com o Congresso "o fim da vitaliciedade dos
ministros". "Eles ficariam de oito a dez anos. Essa história de
entrar com 40 e sair com 75 seria encerrada."
"Além
disso, dois terços teriam que vir da magistratura, ou seja, ser juízes de
carreira, não mais escolhidos pelo presidente, mas pela própria classe e, quem
sabe, até pelo voto público."
Cury
criticou a "espetacularização" da atuação dos ministros da Corte e
propôs que seus votos deixem de ser transmitidos ao vivo.
"Por
mais que sejamos livres para expressar ideias, toda vez que você está debaixo
dos holofotes denotam-se vários gatilhos mentais e você acaba dando respostas
que não daria se não estivesse sob os holofotes."
O
escritor disse que as mudanças que propõe se baseiam em seus estudos sobre a
mente humana e em outro lema de sua campanha, "make humanity great
again", ou "torne a humanidade grande novamente", baseado no
movimento americano Maga ("Make America Great Again"), encampado por
Trump.
"Quando
alguém te ofende, te rejeita ou te critica, detona o primeiro copiloto do eu,
abre uma janela traumática e, se o volume de tensão é grande, a âncora gera
hiperfoco", disse Cury.
"Milhares
de arquivos mentais deixam de ser acessados para dar respostas inteligentes. O
Homo sapiens se torna Homo bios, instintivo, animal, e comete os maiores erros.
Professores, casais e também líderes internacionais têm suas piores atitudes.
Dizem palavras que nunca deveriam ser ditas."
Fonte:
BBC News Brasil

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