Amazonas:
Petróleo só será 'passaporte para o futuro' se modelo adotado no pré-sal mudar,
diz ex-diretor da Petrobras
A
descoberta de petróleo em um poço na bacia da Foz do Amazonas, no litoral do
Amapá, é uma notícia "animadora" e que tem potencial de alavancar o
papel global do Brasil, mas ainda está cercada de incertezas técnicas e de
dúvidas sobre quem se beneficiará da riqueza que pode ser gerada, afirma Ildo
Sauer, professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP e ex-diretor da
Petrobras.
Em
entrevista à BBC News Brasil, Sauer questionou a ideia defendida pelo
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de que o achado na Margem Equatorial
é um "passaporte para o futuro do Brasil".
Segundo
o engenheiro, essa mesma expressão foi usada antes do início da exploração
comercial do pré-sal brasileiro em 2006, mas o modelo de exploração adotado nos
últimos 20 anos impediu que a previsão se concretizasse.
"Não
foi um passaporte para o futuro", diz. "Os recursos do pré-sal foram
queimados até agora."
Sauer
defende há anos o maior controle estatal, por meio da Petrobras, da exploração
do petróleo no Brasil, com uso dos lucros para o desenvolvimento nacional.
"A
minha defesa sempre foi de usar os recursos do petróleo para financiar um plano
nacional de desenvolvimento econômico e social", disse à BBC.
"Investir
na educação pública, na saúde pública, resgatar previdência, fazer a reforma
urbana, fazer a reforma agrária, investir decisivamente em tecnologias e
sistemas que possam propiciar uma transição lenta e gradual que é necessária
para não mais dependermos dos fósseis no futuro. Nada disso está sendo
feito."
Sauer
foi diretor da Petrobras entre janeiro de 2003 e setembro de 2007, durante o
primeiro mandato e o início do segundo mandato do presidente Lula.
Anos
após ele deixar o comando da estatal, a Operação Lava Jato revelou a
existência, durante os anos 2000 e início dos anos 2010, de um amplo esquema de
corrupção envolvendo dirigentes da empresa.
Quando
foi ouvido pela CPI da Petrobras em 2014, Sauer afirmou que sua saída não teve
relação com esses esquemas posteriormente revelados pela Lava Jato, mas sim com
divergências políticas e administrativas sobre os rumos da política energética
e da gestão da estatal.
'Notícia
animadora, mas que precisa de cautela'
A
Petrobras afirmou ter encontrado petróleo na bacia da Foz do Rio Amazonas, em
águas "ultraprofundas" na costa do Amapá. O achado ocorreu no poço
Morpho, a cerca de 175 km da costa.
Ildo
Sauer classificou a notícia como "muito animadora", mas afirmou que é
preciso cautela.
O
especialista avalia que, a princípio, os primeiros resultados da perfuração
parecem positivos, com indícios de presença de óleo leve, considerado mais
valioso comercialmente.
Ainda
assim, ressalta que é cedo para estimar o tamanho das reservas e afirma que são
necessárias muitas etapas técnicas para desenvolver a exploração na região.
Os
próximos passos passam pela perfuração de um segundo poço exploratório para
confirmar a descoberta e obter uma estimativa preliminar do volume de óleo
existente no local.
Depois
disso, é preciso comunicar a descoberta à Agência Nacional do Petróleo (ANP)
para que o órgão regulador autorize a elaboração de um plano de avaliação.
Também
são necessários estudos geológicos, geofísicos e de avaliação econômica para
determinar a quantidade exata de petróleo, os mecanismos necessários para
desenvolver o recurso e a viabilidade econômica do projeto.
Só
depois que a viabilidade comercial da área é declarada formalmente, é que um
plano de desenvolvimento é elaborado e aprovado.
"Tipicamente,
leva no mínimo 4 anos até chegar ao início do desenvolvimento", diz Sauer.
"Estamos falando de um horizonte de 5 a 7 anos para de fato começar a
colocar esse petróleo no mercado."
Crítica
ao modelo de exploração
O
principal ponto da crítica do ex-diretor da Petrobras não é a exploração em si,
mas a forma como a renda do petróleo é distribuída no país.
Ele
defende que os recursos do subsolo pertencem a toda a população brasileira e
argumenta que os ganhos obtidos com o pré-sal não se converteram em melhorias
proporcionais em áreas como educação, saúde, infraestrutura e desenvolvimento
tecnológico.
Segundo
Sauer, esse cenário pode se repetir com a descoberta na bacia da Foz do
Amazonas se não forem implementadas grandes mudanças no modelo.
"Não
adianta nada a gente desenvolver e descobrir o pré-sal, autorizar o pré-sal e
seguir o mesmo paradigma com a Margem Equatorial", diz.
Para o
engenheiro, o principal problema do modelo atual é que uma parcela
relativamente pequena da riqueza gerada pelo petróleo acaba se convertendo em
investimentos capazes de transformar o país.
Segundo
ele, os recursos são distribuídos entre custos de produção, royalties, tributos
e lucros das empresas petrolíferas, mas não há um mecanismo eficaz que garanta
que essa renda seja direcionada prioritariamente para áreas como educação,
saúde, infraestrutura, ciência e tecnologia.
Em sua
avaliação, a promessa de que o pré-sal financiaria o desenvolvimento nacional
não se concretizou porque a maior parte dos ganhos foi apropriada por governos
locais, pelo sistema financeiro e por acionistas, inclusive estrangeiros.
Outra
crítica central é ao próprio desenho regulatório do setor. Sauer afirma que,
tanto no regime de concessão quanto no de partilha, o Estado brasileiro captura
uma parcela menor da renda petroleira do que poderia.
Para
que o Estado capture a totalidade do excedente econômico, ele defende que o
Brasil utilize um dispositivo da Lei nº 12.351/2010, que criou o regime de
partilha para o pré-sal e áreas estratégicas, para a contratação direta da
Petrobras pela União em um regime que, segundo o engenheiro, seria semelhante
ao de prestação de serviços.
Nesse
formato, diz, a Petrobras receberia apenas uma retribuição pelo custo de
produção, e todo o restante do excedente econômico ficaria diretamente com o
Tesouro Nacional para financiar o desenvolvimento social.
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Potencial de protagonismo na geopolítica do petróleo
O
ex-diretor da Petrobras também avalia que a descoberta na bacia da Foz do
Amazonas reforça a relevância estratégica do Brasil no mercado global de
petróleo.
Segundo
ele, o pré-sal já transformou o país em um ator relevante na geopolítica
energética, e a eventual confirmação de grandes reservas na Margem Equatorial
pode ampliar esse papel.
"O
Brasil, que há 20 anos atrás era considerado inexistente na geopolítica do
petróleo, assume, com o pré-sal, um papel de protagonista, não hegemônico, mas
um protagonista relevante", diz Sauer.
"E
com a sinalização [sobre a descoberta] na Margem Equatorial, essa sinalização
permanece, mas é mera contingência possível no cenário que ainda vai
evoluir."
Ainda
assim, ele pondera que o Brasil ainda exerce um papel limitado na definição dos
preços internacionais da commodity.
Ele
argumenta que o país atua principalmente como um "tomador de preços",
se beneficiando dos valores sustentados pela Opep (Organização dos Países
Exportadores de Petróleo) e seus aliados sem participar efetivamente dos
mecanismos de controle da oferta que influenciam o mercado global.
É nesse
contexto que Sauer menciona o que considera uma cultura de
"subalternidade" na formulação das políticas nacionais, argumentando
que o país abriu mão de exercer a liderança compatível com seu potencial
energético, tanto na área do petróleo quanto em outros setores estratégicos.
Segundo
ele, com uma produção de cerca de 4,5 milhões de barris por dia e a perspectiva
de expansão por meio da Margem Equatorial, o Brasil teria condições de assumir
um papel mais estratégico na governança do mercado de petróleo.
"Está
para ser visto quando de fato haverá independência e autonomia brasileira de
garantir a sua inserção internacional autônoma soberana em relação à riqueza do
petróleo, de não se subordinar às pressões financeiras e de atuar de forma
conjunta com a Opep e a Opep+ para ser um dos que carregam o ônus de
beneficiar, de um lado, do preço elevado [do petróleo] e do outro lado de
sustentar [esse preço]", argumenta o professor da USP.
Sauer
pondera ainda que o potencial das descobertas no litoral do Amapá exploratória
não terá impacto imediato sobre crises internacionais, como eventuais tensões
envolvendo o Estreito de Ormuz, por onde passa uma parcela significativa do
petróleo mundial.
"A
Margem Equatorial ainda é um pássaro voando", afirmou, em referência ao
fato de que a descoberta ainda precisará ser confirmada e desenvolvida antes de
produzir petróleo em escala comercial.
Fonte:
BBC News Brasil

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