quinta-feira, 27 de agosto de 2026

A universidade diante do espelho e da sociedade

Escrevo estas linhas de volta do XXXV Congresso da Associação Latino-Americana de Sociologia (ALAS), no Rio de Janeiro, com o tema “Entre a policrise e as alternativas: horizontes da sociologia crítica latino-americana”. E pelo menos, para mim, foi impossível separar o que penso sobre a universidade nesse momento em que se desenham no Brasil uma articulação de intervenção externa conduzida pelos EUA de Donald Trump.

Em um contexto de neoliberalismo autoritário em que a instituição universitária volta a figurar, como em outras horas sombrias da nossa história, entre os primeiros alvos de quem teme o pensamento e o questionamento crítico. É com esse pano de fundo e pensando no que vivi nesse Congresso, inclusive diante da situação infraestrutural do Campus Praia Vermelha – UFRJ, que reli o debate recente sobre o pluralismo acadêmico, e porque, pelo menos para mim ele ganha um sentido distinto da intencionalidade e bastidores das disputas acadêmicas que possam o ter motivado.

Em abril de 2026, um grupo interdisciplinar de docentes e pesquisadores(as) reuniu-se no Centro Universitário Maria Antônia, da Universidade de São Paulo, para redigir o Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica, subscrito por mais de mil e quinhentas assinaturas, oriundas de vinte e seis estados e do Distrito Federal, e vinculadas a quase duzentas instituições de ensino superior. O documento parte do que entendi como hipótese, não como diagnóstico, de que as universidades públicas viveriam hoje um ambiente de conformidade ideológica, de autocensura e de intolerância ao dissenso e propõe, como caminho de reconstrução, por um viés liberal, a partir de três pilares: neutralidade institucional, liberdade acadêmica e o pluralismo.

O manifesto não permaneceu sozinho por muito tempo, e provocou respostas de matizes diversas, por exemplo, dentre as quais, mais me chamaram a atenção, com meus limites, foi o texto de Roberto Leher “A desqualificação das universidades públicas” e entende que “a análise do texto não apenas retira do foco os citados problemas que afetam e ameaçam as universidades, como evidencia uma agenda que ganha magnitude a partir de think tanks vinculados à extrema direita estadunidense.

Depois veio a resposta de um contra manifesto intitulado “Em defesa do pluralismo encarnado”, que mobiliza Wendy Brown, Melinda Cooper, Ernesto Laclau e a genealogia nietzschiana do ressentimento para argumentar que o pluralismo defendido na Maria Antônia, resumindo aqui, seria um pluralismo desencarnado, desligado da história e da sociedade, que não pluraliza o poder e apenas multiplica o ressentimento. E em alternativa a isso, propõe em seu lugar um pluralismo encarnado na história, na sociedade e na ética da igualdade democrática.

Quem acompanhou a discussão sobre o pluralismo tende a reconhecer de imediato à estrutura da cena, uma vez que ela tende a reproduzir, quase ponto por ponto, a geometria, não o teor, das grandes controvérsias universitárias das últimas décadas, com um manifesto que se apresenta como portador da defesa da pluralidade e um contra manifesto que reinscreve a disputa na longa história das lutas por igualdade. A meu ver, cada uma das duas posições trouxe um debate acadêmico que repercutiu como há muito não se observava no espaço acadêmico e que inclusive gerou debates e muitos textos que se somaram a controvérsia, como esse aqui que escrevo (mesmo quando ele aparentemente possa ter aferrecido).

No entanto, quem sabe não possa também ser instigante ao debate, no caminho do texto de Roberto Leher, propor além da pergunta que os dois lados consideram decisiva e sobre quem tem razão, para formular outra pergunta anterior, que a intensidade da disputa talvez esteja a encobrindo. Por que a universidade brasileira, que produz tanto conhecimento, em que seus pares publicam tantos artigos, que participam de tantos congressos internacionais e que avaliam de forma tão intensa a sua própria produtividade em revistas, comitês etc., precisa hoje justificar a sua existência diante da sociedade que a sustenta?

Cabe lembrar, que a própria democracia, e com ela a instituição universitária, estão sob ataque aberto da extrema direita na América Latina e no Brasil. E é nisso que talvez resida uma problemática social e sociológica, pois é no mínimo curioso que o debate que mobilizou nesse momento parte da comunidade acadêmica sobre a própria universidade e suas disputas internas, que são legítimas, não discuta também os riscos objetivos que passam a própria universidade e a própria sociedade que a mantém.

<><> Cada geração herda uma universidade em crise

Quando estava pensando sobre a questão em si dos manifestos e da dinâmica interna do meio universitário-acadêmico na atualidade me veio em mente o arcabouço de Patricia Hill Collins que permite acrescentar outra dimensão a esse problema, que passa pela diversidade nas questões de gênero, raça e classe na universidade, pois sua formulação, inclusive da condição de outsider within a meu ver é particularmente sugestiva para pensar intelectuais/ideias marginais, a partir de intelectuais negras, que participam de uma instituição, conhecem suas regras e linguagens, mas não ocupam integralmente as posições a partir das quais essas regras são definidas.

Essa localização pode produzir limites, mas também perspectivas específicas sobre relações que, para grupos estabelecidos, tendem a aparecer como naturais ou simplesmente como critérios técnicos de excelência. Patricia Hill Collins, produzindo a crítica permite perguntar como essas posições interferem também nas condições de produção e reconhecimento do próprio conhecimento, leia-se, campo acadêmico.

Mas, dando um passo atrás, e ao contrário do caminho que eu próprio pretendia seguir inicialmente, talvez o exercício mais pertinente seja perguntar se, para enfrentar as questões evocadas pelos manifestos, precisamos necessariamente esperar pela incorporação de novos referenciais, sejam eles provenientes de um arcabouço decolonial ou mesmo eurocentrado, anglo-saxão ou de outras vertentes.

Parte dos problemas colocados nesse debate, especialmente pelo Manifesto pelo Pluralismo, pode começar a ser examinada com ferramentas analíticas há muito presentes nas Ciências Sociais e, em muitos casos, bastante conhecidas por quem participa dessa controvérsia. Há Os cânones na sociologia em algumas de suas obras clássicas, conhecidos por muitos(as) dos(as) que participam desse debate, já não ofereceriam ferramentas instigantes para que a universidade examine a si mesma? (ou evitáveis por serem incômodos?).

Talvez esteja aí uma das contradições mais interessantes desse debate. O conhecimento científico, inclusive nas ciências sociais, dispõe de um amplo repertório intelectual para analisar poder, hierarquias, desigualdades, formação de grupos, disputas por legitimidade, reprodução social, gerações e produção do conhecimento, mas nem sempre submete suas próprias relações a esse mesmo exercício de reflexividade.

O problema não está somente naquilo que ainda falta incorporar, recuperar ou inventar, mas também na distância entre o conhecimento que a instituição produz e ensina cotidianamente e sua capacidade de utilizá-lo para compreender suas próprias práticas. Ou seja, além de uma questão epistemológica, há também uma dimensão ontológica entre pares, diria até praxiológica, a ser enfrentada, mesmo que elas sejam inter-relacionadas.

Vamos a um exemplo básico. Karl Mannheim, no clássico “O problema sociológico das gerações” compreendeu que a experiência de uma geração não se define apenas pela contemporaneidade cronológica, e sim pela partilha de um mesmo horizonte histórico de problemas, pela vivência comum de acontecimentos que marcaram a entrada de cada grupo na vida pública e que passaram a organizar a sua maneira de interpretar o mundo. Sob essa perspectiva, há uma percepção que acompanha as grandes transformações da vida acadêmica brasileira, e que pode passar despercebida devido a sua recorrência.

Observo e estudo que cada geração universitária acredita ter herdado uma universidade com algum tipo de crise e acredita que caberá a ela, e não às gerações anteriores, e nem às seguintes, a tarefa histórica de reconstruí-la sobre bases que a seu ver seriam mais justas. As gerações precedentes teriam acumulado equívocos, acomodações e cegueiras, ao passo que a geração presente traria consigo um tipo de lucidez que faltava.

O manifesto da Maria Antônia, com intelectuais e pesquisadores(as), inclusive muitos(as) com mais de três décadas de atuação universitária, expressam essa estrutura ao se apresentar como a voz de uma comunidade que nomeia um mal-estar silenciado. O contra manifesto do pluralismo encarnado a expressa em sentido inverso, ao se apresentar como a memória histórica que devolve à discussão a profundidade que a outra posição não teria (o que particularmente concordo em partes).

<><> A disputa pelos rumos da Universidade

Os conflitos universitários e acadêmicos geralmente são complexos e não ocorrem apenas porque existem ideias diferentes. Reduzi-los a divergências teóricas seria perder de vista aquilo que os torna tão intensos e tão pouco solúveis pela mera argumentação.

Os conflitos ocorrem porque diferentes grupos disputam o direito de definir quais ideias passarão a representar e organizar o funcionamento da própria universidade e do campo acadêmico, bem como em legitimar quais concepções de ciência serão reconhecidas, além de quais trajetórias serão consagradas como exemplares e quais serão “discretamente” empurradas a margem do que cada geração e seus grupos de poder reconhecem como legítimo e passível de valorização.

A disputa na universidade é, ao mesmo tempo, uma disputa de ideias e uma disputa por poder, e discutir que apenas o primeiro plano existe costuma ser a maneira, digamos, mais “elegante” e “cordata” (quando é) de impor e consensuar o segundo.

A meu ver, é nesse ponto a sociologia de Pierre Bourdieu se torna incontornável, ainda que não pelas razões que tenho visto serem invocadas em seu nome. Bourdieu descreveu o mundo científico como um campo, isto é, como um espaço de forças e de lutas em que pesquisadores(as), grupos, Programas de Pós-graduação, Departamentos, Centros etc. competem pelo monopólio da autoridade científica, entendida como a capacidade socialmente reconhecida de dizer o que conta como ciência legítima.

Nesse espaço circulam formas distintas de capital, o científico, o cultural, o social, o econômico e, sobretudo o simbólico. E a acumulação desse capital não coincide necessariamente com a contribuição efetiva e substantiva[i] de cada pesquisador(a) ao conhecimento científico, uma vez que o reconhecimento acadêmico depende de networking e de mecanismos de consagração repetidos cotidianamente (às vezes a exaustão), e não apenas da suposta qualidade intrínseca do conhecimento produzido, da qualidade intelectual de um debate e das pesquisas que são feitas e que tem uma repercussão substantiva na sociedade.

<><> A reflexividade que corta dos dois lados

Entendo que uma sociologia do conhecimento que não se converte também em uma sociologia do(a) próprio(a) pesquisador(a) permanece incompleta, e talvez até pior do que incompleta, porque se transforma em um instrumento de dominação, capaz de denunciar a posição do adversário no jogo enquanto se imagina, ela mesma, situada em um ponto supostamente neutro de onde se enxergaria o tabuleiro inteiro.

A reflexividade, entendida com esse rigor, não é um refinamento metodológico opcional, e sim um pressuposto de que quem analisa o campo reconheça que também ocupa uma posição nele, que dispõe de capitais a defender e que também tem interesse no desfecho da disputa que descreve. Ou seja, exercitar a reflexividade para que se altere o campo acadêmico, conforme enunciado em ambos os manifestos, não tem a ver com ter razão ou se omitir, é se questionar sobre suas próprias ações e “cortar na própria carne”.

Esse exercício poderia alcançar primeiro, o manifesto da Maria Antônia, que apresenta a neutralidade institucional como se fosse à ausência de posição, quando a defesa da neutralidade é ela própria uma posição, historicamente datada e socialmente interessada, que produz determinados efeitos e favorece determinados grupos no interior da universidade brasileira. A meu ver, esse mesmo manifesto acerta ao lembrar que a homogeneidade ideológica de um ambiente pode estreitar o debate e alimentar a autocensura, pois esse é um risco em qualquer comunidade intelectual que confunda consenso e fantasias de poder de um grupo com os fatos.

No entanto, no caminho do que Roberto Leher aponta, o problema começa quando se examina em que terreno o manifesto assenta o seu diagnóstico, uma vez que a evidência principal da suposta intolerância generalizada é uma pesquisa de opinião que capta, antes de tudo, a percepção pública fabricada por anos de campanha de desqualificação da universidade pública.

Uma universidade que se declara neutra diante das disputas do seu tempo não suprime a política, apenas transfere para o silêncio institucional o poder de decidir, e convém lembrar que a universidade brasileira jamais foi neutra, tendo sido, ao longo da sua história, elitista, socialmente seletiva e ajustada a uma ordem colonialista e capitalista-dependente que foi apresentada como natural porque não entendia que precisava se declarar ou porque não era oportuno diante da posição de poder que ocupa na sociedade.

Invocar agora uma neutralidade que nunca existiu não devolve à instituição um equilíbrio perdido, e sim a desarma no instante exato em que ela mais precisaria tomar partido da democracia e da soberania de seu país diante de um inimigo que tem um projeto neocolonial autoritário e que tem apoiadores que desejam a ruína da universidade pública, gratuita e socialmente referenciada. Isto é, a neutralidade não protege o pluralismo e nem nada parecido com isso, apenas assegura que o “consenso” e o silenciamento institucional trabalhem a favor da dominação de quem está mais forte dentro e fora da universidade em determinado momento da história.

Reconhecer que nos dois manifestos não se fala de um ponto exterior a essa disputa não impede que se reconheça que a lucidez de cada posição sobre a outra convive com uma sombra sobre si mesma. É essa zona de sombra que talvez permita entender por que um debate tão intenso e tão bem armado pode, ainda assim, deixar de fora questões sobre como a universidade pública deve ser mantida, defendida e financiada publicamente no próximo período.

A avaliação que a sociedade pode formular sobre a defesa da universidade pública, quando invocada por algum governo, não será só pelos seus critérios internos de poder e consagração. E ok na universidade, termos o nosso próprio ritmo, mas vivemos também tempos, como em outros, em que a universidade como conhecemos está em risco iminente.

Chega-se, por esse caminho, àquilo que, além das suas potencialidades e do debate público, me parece ser o limite comum do manifesto e o contra manifesto. Cada um à sua maneira permanecem voltados para o espelho, pois disputam quem tem razão sobre a universidade perante a própria universidade, quando nesse momento a ameaça mais grave à instituição não vem do interior das suas disputas, e sim do avanço de um projeto neoliberal autoritário que faz da universidade pública um dos seus alvos preferenciais.

As evidências recentes disso, vem desde a falácia do Escola Sem Partido, da Ideologia de Gênero, das buscas e apreensões de livros e cartazes em campis durante o segundo turno de 2018, a retórica da balbúrdia empunhada por um ministro da Educação no governo de Jair Bolsonaro para justificar cortes e os anos de asfixia orçamentária que vem até hoje no governo Lula 3 e, no cenário internacional, a chantagem econômica que o governo de Donald Trump passou a exercer sobre as universidades estadunidenses, tudo isso compõe uma ofensiva que não é metáfora nem exagero retórico, e que trata da existência universidade, pelo menos como ela ainda é.

Não se trata de ameaça encerrada no passado, pois, no momento em que escrevo, a própria democracia brasileira volta a ser testada, com uma intervenção externa no Brasil conduzida pelos Estados Unidos e seus asseclas na América latina.

A universidade torna-se mais capaz de se proteger de arroubos autoritários e de crises quando forma pessoas capazes de voltar o pensamento contra as próprias certezas, o que é o oposto tanto da neutralidade e da inação que se recusa a lidar com a problemática da política e analisar a sua própria crítica quando ela é centrada na posição do adversário, não na criação de uma alternativa transformadora.

Nenhum dos dois manifestos enfrenta, pelo menos, perguntas, como: De que maneira, com as nossas características, podemos ampliar de forma substantiva o apoio popular a universidade? E a extensão universitária? E o seu financiamento? Como vamos nos organizar a um possível cenário de intervenção externa pós-eleições ou de mais cortes de recursos? Como a reforma administrativa vindoura vai afetar o cotidiano do servidor público docente?

Em ciclos de ascensão fascista, ou em uma situação em que a extrema direita e grupos autocráticos ascendem socialmente (nem me refiro ao governo em si), como estamos vivendo no Brasil e no mundo, a gente já poderia ter aprendido que essas forças tendem a se alimentar menos das ideias que circulam dentro da universidade e mais das ideias que separam a universidade da sociedade.

Uma instituição percebida como distante, autorreferente e debilitada ao mostrar sua missão social se torna um alvo fácil, porque poucos sairão em sua defesa quando o ataque vier. Nesse momento, ao mesmo tempo em que precisamos da universidade que forma professores(as) para a escola pública, que leva atendimento e conhecimento aos que dela precisam, que se alimenta de questões e devolve em pesquisa aplicada pela extensão universitária aquilo que recebe em recursos, precisamos também de uma universidade que constrói para si uma legitimidade social que dificilmente uma think tank a serviço dos EUA conseguiria nos fragilizar (ver mais também no texto de Leher).

A reflexividade também começa nesse ponto, quando na universidade deixamos de perguntar quem está certo em suas disputas corporativas internas e volta a se perguntar para quem de fato ela existe. Já diria Marilena Chaui “a Universidade nasce como uma instituição social – em outras palavras, uma prática social –, autônoma diante de outras instituições sociais, com ordenamentos, regras, normas e valores próprios, inseparável das ideias de formação, reflexão, criação e crítica”.

 

Fonte: Por Sérgio Botton Barcellos, em A Terra é Redonda

 

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