quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Brics Pay e desdolarização: como o bloco avança para criar sistemas de pagamento independentes

Um deles é conhecido como Brics Pay, apresentado no ano passado, e poderá servir como um instrumento de aproximação dos sistemas de pagamentos instantâneos dos países, facilitando as transações. No início deste mês, o presidente do Banco Central da Índia, Sanjay Malhotra, reconheceu que o tema tem avançado e será discutido na próxima reunião de cúpula do Brics, marcada para acontecer em setembro em Nova Déli. A Índia, aliás, exerce a presidência temporária do grupo.

“A proposta é criar uma espécie de ponte digital para as liquidações diretas em moedas locais, sem intermediários como o dólar e o sistema SWIFT [Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication, sociedade internacional com sede em Bruxelas criada para facilitar transações entre bancos de diferentes países]”, explica ao Brasil de Fato o pesquisador Diego Pautasso, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), diretor de pesquisa do Centro de Estudos Avançados Brasil-China e criador da rede “Fios de China”.

Há pelo menos uma década, os países do Brics, internamente, têm avançado em mecanismos robustos de liquidação, expandindo o uso de moedas nacionais no comércio bilateral. O Brasil, por exemplo, tem no Pix uma ferramenta popular e solidificada. Nas transações comerciais com a China, o Brasil já passou a utilizar moedas locais, como o real ou o yuan.

Para Pautasso, o projeto do Brics Pay, do ponto de vista técnico, já é viável. “Nos países, já existem sistemas digitais próprios. Existe a tecnologia de blockchain, que permite transações seguras e rastreáveis. Cartões, QR Codes e todas essas tecnologias já estão disponíveis”, explica. 

O debate é econômico e tecnológico, mas é no plano político que ele se torna ainda mais denso. Como pano de fundo da discussão, está o imperativo de redução da dependência do dólar como referência principal nas transações comerciais. Essa nova postura frente à moeda estadunidense só é possível pelo aumento do vigor econômico dos países membros do Brics, cujo exemplo máximo é a China.

“É o único país que, de fato, tem um ecossistema digital soberano”, diz o cientista político. “É também o país que tem maiores pretensões e iniciativas de internacionalização do yuan. A China já tem o yuan digital e está expandindo os contratos de commodities em yuan, sobretudo no comércio de petróleo. Mas a China também não quer fazer uma internacionalização abrupta da sua moeda. Ela quer fazer isso de forma gradual, mantendo o controle sobre a sua moeda. É um processo lento”, pondera Pautasso. 

<><> No Brics, as opções estão sobre a mesa

No contexto do Brics, a discussão se propõe a tentar responder à seguinte pergunta: como integrar sistemas de pagamentos e de que maneira seria possível utilizar moedas digitais de bancos centrais dos países-membros (conhecidas como CBDCs, sigla em inglês para Central Bank Digital Currency)? Antes, o grupo chegou a cogitar a criação de uma moeda própria, o que não foi adiante. 

“Os pagamentos transfronteiriços são uma área de interesse para todos nós, incluindo os países do Brics, pois acreditamos que há grande potencial para reduzir custos”, disse o presidente do BC indiano em um evento do setor bancário, em Mumbai, na semana passada. “Várias opções estão em discussão, mas ainda estão em fase de debate, incluindo as CBDCs e as integrações entre sistemas de pagamentos rápidos”, explicou a autoridade.

Como os países do Brics possuem, juntos, mais de um terço do PIB global em Paridade de Poder de Compra (PPP), Pautasso considera que essa condição ajuda a fazer com que a iniciativa do bloco tenha lastro material. Segundo o pesquisador, tal lastro se explica “em função do domínio sobre comércio e recursos naturais, como petróleo, minérios, terras e outros recursos”. 

<><> Tempos novos, instrumentos renovados

Boa parte da arquitetura financeira refinada nas últimas décadas tem como princípio a noção de que os mecanismos de fluxos internacionais e comerciais são pensados, a princípio, para negócios em larga escala. Essa premissa segue verdadeira, mas o aumento da interdependência econômica e financeira estimulou maiores trocas de recursos entre indivíduos. O Brics, cujos países-membros concentram quase metade da população mundial, dá atenção especial a tais mudanças. 

Ao exercer a presidência do grupo, em 2024, a Rússia propôs a criação de uma plataforma de liquidação, a Brics Bridge. Basicamente, ela poderia viabilizar pagamentos internacionais sem depender da infraestrutura bancária dos Estados Unidos. A ferramenta se prestaria a ser uma alternativa ao sistema SWIFT. A Rússia, sancionada desde 2022 por conta da guerra na Ucrânia, sustenta máximo interesse na proposta.

Já durante a presidência brasileira do bloco, em 2025, a pauta sobre desdolarização e fortalecimento de mecanismos alternativos ao dólar avançou menos do que se esperava. Os motivos foram externos e internos. Brasília, ciente dos efeitos da artilharia tarifária do governo Donald Trump, apostou na cautela. Internamente, a Índia preferiu frear o entusiasmo com uma agenda mais abertamente anti-ocidental.

Seja como for, o fato de os Estados Unidos e da Europa, desde 2022, terem bloqueado mais de US$ 300 bilhões em reservas do Banco Central russo, além de terem excluído Moscou do principal sistema de pagamentos do mundo, escancarou uma noção, já sabida há décadas por aqueles que mais dependem de Washington, de que o dólar, mais do que uma moeda, é uma reserva de valor. Essa condição, não raro, faz com que os EUA usem a própria moeda como instrumento de coerção a países que não respondem ou ameaçam não responder aos seus interesses.

Ao tratar do tema, Pautasso inclui outro elemento importante: o domínio estadunidense “sobre os sistemas de compensação monetária, a respeito de uma série de mecanismos de financiamento, e sobre instituições como o FMI e o Banco Mundial”. 

É preciso ter condições para bancar um processo de independência em relação ao dólar. A China, em plena expansão econômica há décadas, já liquida mais de um terço do seu comércio exterior em yuan, segundo balanço do Banco Popular da China. Olhando para o outro lado da história, o mundo passa por uma crise de confiança em relação à economia estadunidense, resultado dos problemas de credibilidade instalados por Trump na sua volta à Casa Branca. Essa combinação de fatores tem levado o preço do ouro a patamares inéditos. Pequim, por exemplo, expande suas reservas de ouro ininterruptamente há quase dois anos. 

Além disso, a China já utiliza seu yuan digital (e-CNY) integrado a plataformas de pagamento como Alipay e WeChat Pay, e tem expandido programas piloto em transações comerciais internacionais. O Brasil, por sua vez, já trabalha a ideia de estabelecer um “Pix Internacional”. Atualmente, transferências desse tipo já são aceitas para países como Argentina, Estados Unidos e Portugal, mas o funcionamento é parcial. A Índia, por sua vez, utiliza o sistema de pagamentos UPI, enquanto testa a rupia digital (e-Rupee) em larga escala. 

No entendimento de Pautasso, o avanço do debate no Brics traria duas implicações diretas aos países-membros. “A primeira é retirar as taxas de 3% a 5% e reduzir o tempo de compensação que existe quando uma transação passa pelo dólar. A segunda é ter uma margem de manobra diante da capacidade de cerco e de sanção dos EUA, algo que ficou ainda mais evidente, não apenas no caso de Cuba e Venezuela, mas também na guerra no Oriente Médio”, diz. 

<><> Reação estadunidense?

Cogitar criar alternativas ao principal sustentáculo do império estadunidense é ação que não ocorre sem reação. Em mais de uma oportunidade, Trump já ameaçou aplicar tarifas a países que se alinharem às diretrizes do Brics. 

No caso brasileiro, a conta é ainda mais complexa. Já não bastando os motivos difusos usados por Washington para apresentar o conjunto de medidas contra o país desde 2025, os EUA viram no Pix, um sistema doméstico, uma ameaça aos interesses estadunidenses, e incluíram a ferramenta brasileira no rol de justificativas para a atual tarifa de 25%, que está sob a Seção 301. 

Esses movimentos de Washington não acontecem à toa: nos últimos tempos, o dólar tem diminuído a sua posição de principal reserva global, que se manteve inabalável por décadas. O movimento é gradual, mas significativo. Uma pesquisa da Official Monetary and Financial Institutions Forum (OMFIF), grupo de pesquisa sediado em Londres, mostrou que, pela primeira vez, há mais bancos centrais no mundo planejando reduzir suas reservas em dólar do que ansiando aumentá-las na próxima década. O dólar segue sendo o farol das reservas globais, mas esse percentual está em queda: de 71% em 2001 para pouco mais de 50% no ano passado. 

“Os EUA, com sua condição ainda de hegemonia, não me parecem dispostos a aceitar isso de maneira muito tranquila. Não só pela oposição ao PIX brasileiro, mas porque os EUA já deram declaração de que se opõem a qualquer tipo de sistema de pagamento dos Brics, e se opõem ao Brics, como um todo. Nós estamos diante de uma encruzilhada sistêmica, de uma queda de braço que vai determinar os rumos do sistema internacional”, reflete Pautasso.

¨      Posição da China prevalecerá sobre a pressão dos EUA na América Latina, dizem especialistas

O governo da China acusou os Estados Unidos de pressionarem países latino-americanos a cancelarem contratos com empresas de tecnologia da nação asiática. Especialistas consultados pela Sputnik observaram que, embora a hostilidade de Washington tenha bloqueado alguns projetos, Pequim pode esperar uma "mudança de ventos" na região.

O governo chinês criticou os Estados Unidos por pressionarem nações latino-americanas a impedir que empresas de tecnologia do gigante asiático investissem na região, usando a segurança como pretexto.

Em coletiva de imprensa, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, defendeu o compromisso com a segurança das empresas de tecnologia de seu país. Isso ocorreu após declarações da nova autoridade dos EUA para o Hemisfério Ocidental, Juan Pablo Segura, que classificou as empresas chinesas Huawei, ZTE, Hikvision, Hytera, Dahua e DJI como de "alto risco" devido aos seus vínculos com o governo chinês e aos riscos potenciais relacionados a "espionagem, ataques cibernéticos e apagões de rede".

"Instamos os parceiros dos EUA nas Américas a mudarem rapidamente para fornecedores confiáveis, a fim de protegerem seus povos e sua soberania", exigiu a autoridade americana.

A resposta da China foi imediata: "Quem é responsável pela vigilância e pelos ataques cibernéticos que geram insegurança nos países da América Latina e do Caribe? Certamente não as empresas chinesas, que são conhecidas como fornecedoras confiáveis, motores de crescimento e geradoras de empregos".

"Exigimos que certas autoridades dos EUA parem de demonizar as empresas de tecnologia chinesas e passem a respeitar a liberdade de escolha dos países da América Latina e do Caribe", concluiu Lin Jian.

<><> Projetos interrompidos

Em entrevista à Sputnik, a especialista argentina em relações internacionais Carla Oliva — coordenadora do Grupo de Estudos China-Argentina (GeChina) da Universidade Nacional de Rosario (UNR) — afirmou que o governo dos EUA vem "exercendo pressão" para impedir a participação de empresas chinesas em projetos de tecnologia na América Latina "desde o primeiro governo de Donald Trump".

Nesse sentido, ela observou que Washington se opôs fortemente à implementação de redes 5G pela empresa de telecomunicações Huawei na América Latina — particularmente na Argentina e no Brasil —, alegando que as empresas de tecnologia chinesas compartilham informações sensíveis com o governo chinês.

"É uma realidade de longa data que vem ganhando cada vez mais relevância, num momento em que o debate sobre tecnologia passou para o centro da política internacional atual. A rivalidade tecnológica é evidente e decorre da agenda contínua de inovação tecnológica da China, o que gera grande preocupação para os EUA."

Além disso, a especialista ressaltou que a apreensão de Washington deriva do fato de que essa disputa tecnológica não apenas afeta as economias latino-americanas, mas também "se estende ao âmbito da segurança militar".

Carlos Aquino, economista peruano e coordenador do Centro de Estudos Asiáticos da Universidade Nacional de San Marcos, observou em entrevista à Sputnik que a interferência dos EUA conseguiu, por exemplo, inviabilizar um projeto de cabo submarino que ligaria o Chile diretamente à China, forçando uma reformulação que redirecionou a conexão para passar pela Nova Zelândia e pela Austrália. Washington voltou a exercer pressão quando surgiu outro projeto potencial de cabo para a China, desta vez revogando os vistos de ministros envolvidos na iniciativa.

Na visão do especialista, ao contrário do que alegam os EUA, as empresas de tecnologia chinesas "buscam ser mais responsáveis ​​em relação ao uso de dados e informações", plenamente cientes de que essa questão ganhou destaque e será explorada pelos EUA para tentar deslegitimar seus projetos.

"A China está obviamente ciente das críticas e tomando medidas para evitá-las."

Aquino reconheceu que, particularmente na América do Sul, cresceu nos últimos anos o número de governos que parecem — pelo menos em sua retórica — alinhados aos EUA, o que significa que eles poderiam acabar se mostrando mais "maleáveis" à pressão de Washington. No entanto, ele questionou se o investimento chinês na região realmente diminuiu em decorrência desses esforços.

"Os governos podem ser de direita, mas obviamente reconhecem que [Pequim] é um ator muito importante, e negócios são negócios; portanto, não acredito que o investimento chinês vá cair. Eles podem estar sendo mais cautelosos e talvez estejam avaliando o cenário."

Oliva citou o caso de uma estação de espaço profundo estabelecida pela China na província argentina de Neuquén (região central) como exemplo da persistência chinesa, embora os EUA a tenham apontado como um risco de segurança para o país e a região, ela "permanece operacional" hoje, mesmo com o governo de Javier Milei alinhando-se à potência norte-americana.

<><> A paciência chinesa

Nesse contexto, a especialista argentina em relações internacionais destacou o potencial da "paciência chinesa" como uma ferramenta fundamental de política externa, capaz de permitir que o gigante asiático aguarde uma mudança no cenário regional antes de retomar certos projetos estratégicos.

"Estou convencida de que a paciência chinesa — que atravessa milênios — perdurará. Eles aguardarão uma mudança de governo ou uma alteração nos ventos regionais, pois a China possui a capacidade e a tradição de esperar, de exercer a paciência."

No entanto, ela observou que o fato de o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China ter abordado abertamente a pressão dos EUA na América Latina sinaliza uma postura mais firme de Pequim.

"Há bastante tempo, a China se posiciona como uma potência e age como tal", observou ela, acrescentando que "colocar essa questão em pauta indica que o país negocia e interage com os EUA em pé de igualdade".

Na mesma linha, Aquino enfatizou que a China é "o único país do mundo capaz de dizer 'basta'" aos EUA e que "demonstrou, nos últimos meses, que defenderá seus interesses quando necessário". Nesse sentido, ela apontou a defesa, por parte do governo chinês, da empresa CK Hutchison, cuja concessão no Canal do Panamá foi suspensa após pressão dos EUA.

¨      Canadá aprofunda laços com a China e irrita Washington em meio à disputa comercial, diz mídia

Vance acusou o Canadá de favorecer produtos chineses em meio à disputa comercial com Washington, enquanto dados recentes mostram que Ottawa aprofunda laços econômicos com Pequim por interesse próprio, atraída por um modelo de cooperação baseado em igualdade e benefício mútuo.

As declarações do vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, que acusou o Canadá de tratar produtos chineses com mais justiça do que bens norte-americanos, revelam tensões crescentes na relação comercial entre os dois países e expõem a disputa narrativa sobre modelos de cooperação econômica.

Embora direcionadas a um aliado histórico, suas críticas destacam o contraste entre a abordagem de confronto dos EUA e o modelo chinês, baseado em igualdade e benefício mútuo.

A relação comercial entre China e Canadá, longe de ser um gesto de favoritismo, é descrita como uma parceria normal entre Estados soberanos que buscam atender às suas próprias necessidades estratégicas. Para analistas consultados pelo Global Times, o Canadá não está sendo "mais amigável" com a China, mas sim adotando políticas que considera alinhadas aos seus interesses industriais em setores como agricultura, energia e tecnologia.

Os números reforçam essa lógica já que evidenciam que o comércio bilateral cresceu 18,7% no ano, com importações chinesas de produtos canadenses avançando 29%. Essa expansão também mostra ganhos concretos uma vez que o Canadá acessa mercados amplos para bens agrícolas e recursos estratégicos, enquanto a China amplia a presença de seus equipamentos eletromecânicos e produtos de novas energias. Trata-se de um modelo que gera benefícios diretos para empresas e consumidores de ambos os países, afirma a mídia asiática.

Em meio à instabilidade global, a postura chinesa, que está orientada no sentido de evitar coerções e não politizar o comércio, tratando parceiros de diferentes perfis como iguais, tem ampliado seu apelo. Essa abordagem contrasta com a de países que utilizam instrumentos comerciais como ferramentas de pressão geopolítica, criando tensões e incertezas para aliados e rivais.

Segundo a apuração, a tendência de aprofundamento das relações com a China não se limita ao Canadá. Países da União Europeia (UE) ampliam parcerias em novas energias e alta tecnologia, enquanto Austrália e China retomam mecanismos de diálogo que estavam congelados. Esses movimentos refletem escolhas pragmáticas baseadas em ganhos industriais e estabilidade de longo prazo.

A Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla em inglês), maior parceira comercial da China por vários anos consecutivos, reforça essa dinâmica. Os efeitos da Parceria Econômica Abrangente Regional consolidam um ambiente de previsibilidade e confiança, atraindo países com diferentes sistemas políticos e níveis de desenvolvimento para um modelo de cooperação que promete resultados tangíveis.

A mídia destaca ainda que em um cenário marcado por protecionismo e fragmentação das cadeias produtivas, muitos países buscam parceiros confiáveis.

Crescimento comercial sólido, ganhos industriais e melhoria das condições de vida são marcas que têm consolidado a China como opção preferencial para quem busca estabilidade e benefícios compartilhados, conclui o artigo.

 

Fonte: Brasil de Fato/Sputnik Brasil

 

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