quinta-feira, 2 de julho de 2026

MAIS DIPLOMAS, MENOS FUTURO: Por que a geração dos 30 anos não alcançou o padrão de vida dos pais?

A ideia de que cada geração viveria melhor que a anterior, e de que o estudo seria o instrumento dessa passagem, não descreve uma regularidade natural da economia. Corresponde a uma expectativa socialmente construída, formada em condições históricas determinadas e sustentada por arranjos de trabalho, salário e proteção que tornaram plausível, para parte da população brasileira, projetar autonomia adulta a partir do diploma. Tomar essa expectativa como objeto, e não como pressuposto, permite comparar dois grupos concretos. De um lado, integrantes da geração X que chegaram aos 30 anos entre 1997 e 1999. De outro, millennials que atingiram a mesma idade entre 2022 e 2024. O que está em jogo não é um juízo moral sobre esforço individual, mas a investigação das condições materiais que organizam a entrada na vida adulta e decidem se a escolaridade se converte, ou não, em renda, moradia e estabilidade.

A economia analisada como instituição socialmente organizada oferece o primeiro fio dessa investigação. A obra clássica de Karl Polanyi sobre a sociedade de mercado mostra que a economia de mercado só se realiza plenamente quando trabalho, terra e dinheiro são incorporados ao mecanismo mercantil, o que subordina a própria substância social às exigências do mercado. O trabalho, tratado como mercadoria, corresponde na verdade à vida das pessoas, e, por isso, a sua mercantilização exige contrapesos institucionais capazes de conter os efeitos destrutivos do mercado. Quando os mecanismos de proteção que ancoravam o trabalho se afrouxam, a relação entre esforço educacional e segurança material deixa de ser estável. O ponto interessa de modo direto ao caso brasileiro. A escolarização ampliada dos millennials ocorreu num mercado de trabalho que multiplicou formas de contratação e transferiu risco ao trabalhador. A promessa de mobilidade pressupunha proteção, e é a erosão dessa proteção que ajuda a explicar por que o diploma passou a render menos.

O segundo fio vem da sociologia da reprodução. A análise de Pierre Bourdieu sobre a distinção social indica que a posse de diplomas perde valor relativo à medida que se generaliza, num processo em que a expansão do acesso à educação convive com a desvalorização dos títulos. A escolaridade que antes distinguia passa a ser condição mínima de entrada, sem garantir a posição que prometia. Aplicada ao Brasil, a observação desfaz a leitura ingênua segundo a qual mais anos de estudo produziriam, por si, mobilidade. A geração mais escolarizada disputa postos num mercado que incorporou a escolaridade como exigência básica e deslocou para outros recursos, herança, redes e capital econômico de origem, a diferenciação efetiva. O resultado é uma escolaridade ampla em quantidade e deprimida em retorno.

A sociologia econômica acrescenta que os resultados no mercado de trabalho não derivam apenas de atributos individuais de qualificação. A formulação de Mark Granovetter sobre o enraizamento da ação econômica sustenta que o acesso a oportunidades depende de redes e posições sociais que distribuem informação e confiança de modo desigual, de sorte que quem parte de posições subalternas encontra menos pontes para empregos protegidos e mais bem remunerados. No caso brasileiro, a pesquisa de Nadya Araujo Guimarães sobre desemprego e mercados de trabalho evidencia que o ingresso e a permanência no emprego se organizam por segmentações que reservam estabilidade a alguns e rotatividade a muitos. A mesma escolaridade gera, assim, retornos distintos conforme a posição social de origem, o que recoloca a desigualdade no centro da explicação.

A formação histórica brasileira deu a essa segmentação contornos particulares. Maria Sylvia de Carvalho Franco identificou uma formação social peculiar de homens livres e expropriados, que não estavam submetidos ao trabalho forçado nem integrados como proletariado moderno. Nessa ordem, a posição social se reproduzia por mecanismos de dominação pessoal que definiam de antemão os alvos de ascensão e bloqueavam o caminho de quem vivia do próprio trabalho. Virgínia Fontes mostrou que a produção social de trabalhadores livres, isto é, expropriados, é condição e resultado da expansão das relações capitalistas, qualquer que seja a forma jurídica assumida pela atividade laboral. A autora associa, ademais, a expropriação de direitos, a mercantilização de bens antes garantidos e o uso da força de trabalho sem contrato a formas contemporâneas de superexploração. Marcelo Badaró Mattos reconstituiu a trajetória dos trabalhadores e de suas organizações e mostrou que conquistas sociais resultaram de conflito, e não de concessão automática do crescimento. Lidas em conjunto, essas contribuições afastam a tese de uma escada social que subiria sozinha com a escolaridade e indicam uma estrutura que reitera desigualdade enquanto incorpora parcelas da população ao consumo.

Gênero e raça atravessam essa estrutura e não funcionam como acréscimos posteriores. Helena Hirata e Danièle Kergoat (2007) demonstram que a divisão sexual do trabalho organiza de modo persistente quem ocupa as funções menos remuneradas e mais precárias, hierarquia que se atualiza mesmo quando cresce a escolaridade das mulheres. A discussão proposta por Nancy Fraser e Axel Honneth sobre redistribuição e reconhecimento oferece um modo de articular essas dimensões sem reduzir a desigualdade racial e de gênero a um efeito secundário da renda. A partir desse quadro, a comparação entre as duas gerações deixa de ser exercício estatístico isolado e exige leitura simultânea de classe, raça e gênero. É com esse instrumental que os dados da seção seguinte podem ser interpretados sem se transformarem em descrição de médias.

<><> Renda, moradia e direitos diante da vida adulta adiada

Os resultados do estudo conduzido por Daniel Duque, Michael França e Fillipi Nascimento, do Insper, divulgados por Castro e Fernandes em O Globo, fornecem a base empírica para examinar esse processo. A análise compara integrantes da geração X nascidos entre 1967 e 1969 com millennials nascidos entre 1992 e 1994, observados todos aos 30 anos, e conclui que a geração mais nova chegou a essa idade com renda superior à da anterior, porém com avanço insuficiente para alterar posições. Em nenhuma faixa de renda o crescimento anual dos millennials, em relação à geração X, ultrapassou 2%, patamar que os autores associam à baixa mobilidade social do país. O dado central não é a ausência de ganho, e sim a sua insuficiência para converter escolaridade em mudança de status.

A distribuição desses ganhos por faixa de renda revela um avanço limitado no seu alcance. Os ganhos concentraram-se na base da pirâmide, com crescimento próximo de 2% ao ano entre os 25% mais pobres e cerca de 1,3% ao ano entre os 5% mais pobres, enquanto no topo o movimento foi quase nulo, inferior a 0,5% ao ano entre os 25% mais ricos e próximo de zero entre os 10% mais ricos. Os próprios autores indicam que a mobilidade efetiva exigiria crescimento da ordem de 3% ao ano, com variação entre 2% e 4%, e avanço das camadas inferiores em ritmo ao menos duas vezes superior ao dos estratos mais altos da geração anterior. As crises de 2015 e 2016 e a pandemia comprimiram rendimentos e ajudam a explicar por que mesmo os grupos com maior avanço não mudaram de posição.

O paradoxo se enuncia com clareza quando se cruzam escolaridade e retorno. A geração que mais estudou na história do país obteve, na faixa etária analisada, ganhos de renda que não acompanham o esforço educacional acumulado. A desvalorização relativa dos diplomas, discutida na primeira seção, opera num mercado que generalizou a exigência de escolaridade sem ampliar na mesma proporção os postos capazes de remunerá-la. O diploma deixou de ser instrumento de distinção e tornou-se condição de elegibilidade, deslocando a competição para credenciais adicionais, idiomas, pós-graduações e estágios pouco ou nada remunerados, que dependem de tempo e dinheiro disponíveis sobretudo a quem já parte de melhor posição. A escolaridade ampliada, nesse arranjo, redistribui credenciais sem redistribuir oportunidades.

A moradia expõe outra face do mesmo processo, e nela aparece uma inversão significativa. Entre a geração X, a probabilidade de constituir domicílio fora da casa dos pais crescia com a renda, de cerca de 30% entre os mais pobres a mais de 80% entre os mais ricos, de modo que a autonomia residencial funcionava como marca de ascensão. Entre os millennials, o padrão se inverte, com a saída do domicílio familiar mais forte nos estratos de menor renda e a permanência prolongada na casa dos pais difundindo-se inclusive entre setores de renda mais alta.

A reportagem associa parte da maior saída entre os mais pobres a programas habitacionais, sem que isso configure ascensão, enquanto a permanência no topo sinaliza que constituir domicílio próprio se tornou mais custoso e mais adiado.

O acesso a bens duráveis cresceu no mesmo período, mas não deve ser lido como prova de mobilidade. Entre famílias de renda intermediária, o acesso a itens como geladeira, fogão e máquina de lavar subiu de pouco mais de 30% para cerca de 75%, movimento que reflete a queda relativa de preços desses produtos, a produção em escala e a expansão do crédito, e não a reorganização das posições sociais. Possuir eletrodomésticos tornou-se comum sem que a renda, a moradia ou a estabilidade acompanhassem o mesmo ritmo. As desigualdades raciais e de gênero tornam ainda mais nítida essa dissociação, pois o estudo registra que homens brancos da geração X, aos 30 anos, dispunham de renda superior à de todos os demais grupos identitários entre os millennials, o que significa que mulheres e pessoas negras da geração mais nova e mais escolarizada não alcançaram, na média, o patamar ocupado três décadas antes pelo grupo socialmente favorecido.

O ordenamento constitucional tratou como direitos justamente aquilo que os dados mostram comprometido. A Constituição de 1988 inscreveu entre os direitos sociais a educação, o trabalho e a moradia, no art. 6º, fixou como objetivo da República reduzir as desigualdades sociais e erradicar a pobreza, no art. 3º, III, e organizou a ordem econômica sobre a valorização do trabalho humano, a função social da propriedade, a redução das desigualdades e a busca do pleno emprego, no art. 170, caput e incisos III, VII e VIII. O direito ao trabalho digno encontra base no art. 1º, IV, e no art. 7º, e a educação, no art. 205, enquanto o Estatuto da Juventude reconheceu a condição juvenil como objeto de políticas próprias. Confrontados com os números, esses dispositivos funcionam menos como descrição da realidade e mais como medida da distância entre a promessa normativa e as condições materiais de quem chega aos 30 anos sem moradia autônoma, sem retorno proporcional à escolaridade e diante de uma igualdade material que a hierarquia de raça e gênero contradiz. A defasagem não é retórica, e sim social.

Desigualdade, trabalho e futuro social

O conjunto dos dados desautoriza a leitura que atribui à geração mais nova acomodação ou falta de esforço. A frustração que a acompanha tem origem estrutural, e não psicológica. Uma geração foi formada para esperar que o estudo abrisse caminho de autonomia e chegou à vida adulta num arranjo que reorganizou as condições de entrada, encarecendo a moradia, fragmentando o trabalho e diluindo as proteções que tornavam previsível a passagem para a vida independente. O descompasso entre o que foi prometido e o que se realizou não mede um defeito de caráter coletivo. Mede a transformação das bases materiais sobre as quais a vida adulta se constrói.

No centro dessa transformação está o mundo do trabalho. A renda que não cresce o suficiente expressa um mercado que multiplicou vínculos instáveis, transferiu ao trabalhador riscos antes partilhados e fez da rotatividade a norma para grande parte da população. Quando o emprego protegido se torna exceção e a remuneração estagna, a escolaridade adicional não encontra onde se converter em ganho material proporcional. O trabalho deixou de funcionar como ponte segura entre o esforço educacional e a estabilidade e passou a operar como filtro que reserva as posições melhores a quem já dispõe de recursos anteriores. A insuficiência de renda, longe de ser acidente conjuntural, é efeito de uma forma de organizar o trabalho que distribui de modo desigual segurança e remuneração.

A moradia condensa esse adiamento de maneira especialmente nítida. Sair da casa dos pais, constituir domicílio próprio e projetar alguma permanência deixaram de ser etapas previsíveis e passaram a depender de uma combinação de renda, crédito e preço que escapa ao controle de quem trabalha. A inversão observada, com a autonomia residencial deslocando-se de marca de ascensão para resultado da necessidade entre os mais pobres e adiamento entre os mais ricos, mostra que o acesso ao espaço próprio se desorganizou como horizonte comum. Permanecer mais tempo na casa de origem não é escolha geracional por conforto. É consequência de um custo de vida adulta que cresceu mais rápido do que a capacidade de financiá-lo pelo próprio trabalho.

O acesso ampliado a bens duráveis não corrige esse quadro e pode encobri-lo. Possuir geladeira, fogão ou máquina de lavar tornou-se comum porque esses itens ficaram relativamente mais baratos e o crédito se expandiu, não porque as posições sociais se reorganizaram em favor de quem trabalha. Confundir consumo de bens com mobilidade social leva a subestimar o problema, porque um domicílio pode acumular eletrodomésticos e seguir sem renda estável, sem moradia própria e sem proteção diante do desemprego ou da doença. A ausência de uma rede sólida de proteção material é o elo que falta para transformar escolaridade em autonomia. Sem ela, o diploma rende credencial, e não segurança.

A desigualdade que estrutura esse processo não é neutra quanto a raça e gênero. O fato de o grupo socialmente favorecido de uma geração anterior ainda superar, em renda, os demais grupos da geração seguinte e mais escolarizada revela uma hierarquia que o tempo não desfez. Mulheres e pessoas negras carregam, sobre a estagnação geral, um peso adicional que antecede o mercado de trabalho e se reproduz dentro dele. Reconhecer isso impede que a frustração geracional seja tratada como experiência homogênea. Há quem chegue aos 30 anos com escolaridade acumulada e ainda ocupe o lugar que a estrutura reservou de antemão, e há quem encontre menos obstáculos por partir de uma posição que a própria desigualdade preservou.

O que os números brasileiros descrevem guarda relação com um movimento mais amplo, em que gerações mais escolarizadas, em diferentes países, enfrentam crescimento lento, encarecimento da vida adulta e proteção social em recuo, mas é no caso brasileiro que esse movimento encontra uma estrutura que reiterou desigualdade enquanto incorporava parcelas da população ao consumo. O resultado é uma escolaridade que cresceu sem a correspondente expansão das condições materiais de autonomia. Encarar o problema exige tratá-lo onde ele se produz, na organização do trabalho que estagna a renda, no custo da moradia que adia a independência, na proteção social insuficiente que não converte estudo em segurança e na reprodução das hierarquias de raça e gênero que distribuem de modo desigual os poucos ganhos disponíveis. A frustração de quem estudou mais e alcançou menos não pede consolo nem exortação ao esforço. Pede o reconhecimento de que a passagem para a vida adulta foi reorganizada contra a maioria, e de que devolver sentido à promessa de mobilidade depende de decisões sobre trabalho, renda, moradia e proteção, e não da resignação de uma geração diante daquilo que não escolheu.

 

Fonte: Por Erik Chiconelli Gomes, em Le Monde

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário