‘Bancada
das bets’: quem são os aliados das casas de apostas no Congresso Nacional
Em meio
à guerra narrativa para a definição de “grupo terrorista” no projeto de lei
conhecido como “PL Antifacção”, em 18 de novembro de 2025, dois discursos
chamaram a atenção numa reunião horas antes da aprovação do texto. Naquele
mesmo dia, enquanto o projeto mobilizava a atenção da imprensa, os deputados
federais Dr. Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL), líderes de seus
partidos na Câmara, levantavam coro contra outro projeto, o PL 5.473/25, de
autoria de Renan Calheiros (MDB-AL), que propunha aumentar impostos sobre casas
de apostas digitais, fintechs e bancos – o texto só foi aprovado duas semanas
depois, na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado e, até o momento,
não entrou na pauta de votação do plenário. Não foi a primeira vez que Dr.
Luizinho e Isnaldo Bulhões estiveram juntos à frente de acordos para impedir
que casas de apostas pagassem mais impostos. Em fevereiro deste ano, a dupla
também articulou para retirar a Contribuição de Intervenção no Domínio
Econômico, a Cide-bets, do relatório do PL Antifacção. A relatoria estava a
cargo de Guilherme Derrite (PP-SP), que havia se licenciado da Secretaria de
Segurança Pública de São Paulo, apenas para assumir o papel no projeto. A
contribuição de 15% foi retirada do texto final, num placar simbólico após
acordo entre os partidos, preservando as empresas e jogos online e deixando de
arrecadar estimados R$ 30 bilhões por ano para a segurança pública.
Ainda
mais recentemente, em abril, a dupla também esteve unida em viagem à Ilha de
Saint Martin, paraíso fiscal caribenho, da qual também participaram o
presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o senador Ciro Nogueira
(PP-PI). Os políticos estavam acompanhados do empresário “Fernandin OIG”, dono
do avião, tido como um dos responsáveis pelo “Jogo do Tigrinho” e amigo de
Nogueira. A viagem ganhou notoriedade após a Polícia Federal (PF) identificar
que sete volumes de bagagem do voo passaram fora do raio x do aeroporto no
retorno ao Brasil. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de
Moraes arquivou a investigação sobre o caso após parecer da Procuradoria-Geral
da República. A Agência Pública apurou que a união de Isnaldo e Luizinho e,
coincidentemente, dos parceiros de viagem, não se limita aos episódios
destacados pela imprensa. Os quatro foram apontados por dezenas de
congressistas ouvidos pela reportagem como integrantes de uma bancada que,
embora informal, é influente e articulada nos bastidores: a “Bancada das Bets”.
Na dianteira dos esforços pró-bets também estariam o deputado Felipe Carreras
(MDB-PE) e o senador Ângelo Coronel (Republicanos-BA).
A
“Bancada das bets” atuaria diferentemente de setores como o agronegócio, que
conta com uma frente parlamentar própria, composta por 292 congressistas e com
ligações com o setor privado, a exemplo do Instituto Pensar Agro (IPA),
epicentro do lobby ruralista em Brasília. As bets mobilizam o Legislativo por
meio de conversas diretas com lideranças partidárias, fornecendo discursos em
defesa das apostas, que vão de argumentos relacionados ao “livre mercado” a
narrativas ideológicas que definem o governo como o “vilão cobrador de
impostos”. Ao menos outros 11 parlamentares integrariam essa bancada e já
incluíram entre suas atividades a elaboração de projetos de lei ou de emendas
que favorecem diretamente as bets. O mais recente deles, protocolado em 27 de
maio pelo líder da oposição na Câmara, Cabo Gilberto (PL-PB), quer revogar o
imposto de 15% sobre o valor líquido dos prêmios obtidos em apostas de loterias
e de bets, para que os vencedores de apostas recebam premiações sem desconto de
impostos. “Na minha opinião, [o projeto] não está favorecendo as bets, está
favorecendo o consumidor, favorecendo quem ganha”, respondeu Cabo Gilberto, que
negou atuar em favor das bets. Nos bastidores das articulações desses projetos,
são comuns convites a coquetéis com empresários e lobistas. A Pública ouviu
líderes partidários, assessores legislativos e congressistas, alguns sob
condição de anonimato, que, em comum, afirmam que vários convites a esses tipos
de evento patrocinados por casas de apostas são originados de uma tríade na
Câmara: Dr. Luizinho, Felipe Carreras e Isnaldo Bulhões.
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Amigos influentes
Doutor
Luizinho é apontado como grande articulador das bets pela proximidade com
outras lideranças do Centrão, sobretudo Hugo Motta. O reconhecimento do setor,
porém, ultrapassa os limites do Congresso. O líder do PP na Câmara foi um dos
participantes do “Gilmarpalooza”, apelido dado ao Fórum Jurídico de Lisboa,
organizado anualmente na capital portuguesa pelo ministro do STF, Gilmar
Mendes. No evento, ocorrido de 1 a 3 de junho, Luizinho assistiu justamente à
mesa de debate sobre jogos eletrônicos e apostas online e foi citado
nominalmente pela vice-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF),
a advogada Michelle Ramalho. “Temos que fazer uma diferença do que é
manipulação de resultado e do que é manipulação de jogo. Inclusive quero
cumprimentar ali o nosso deputado Doutor Luizinho, que acaba de chegar, e,
desde já, fazer uma provocação que é no que diz respeito a esse tema. Doutor
Luizinho, é importante legislar sobre essa distinção”, disse a vice-presidente
da CBF. Além de Ramalho, participavam o advogado Pietro Lorenzoni, diretor
jurídico da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e filho do
ex-ministro de Bolsonaro, Onyx Lorenzoni; e o presidente da ANJL e CEO da
empresa Superbet, Alexandre Fonseca. A Superbet é patrocinadora master do
Fluminense, cujo presidente, Mattheus Montenegro, também marcou presença no
evento.
Doutor
Luizinho se diz contra o aumento de impostos e a extinção das plataformas
online e afirmou nunca ter recebido qualquer contrapartida das empresas de
apostas para atuar no Congresso. O deputado, no entanto, faz questão de
destacar a importância da receita gerada pelas companhias. Ao responder
questionamentos da Pública, o parlamentar se irritou ao abordar os impostos do
setor. “Você não está fazendo essa pergunta, né? Você está de brincadeira. Não
taxar as bets, não? Nós estamos com as bets taxadas. As bets estão taxadas.
Estão arrecadando mais de 14 bilhões de impostos [no acumulado do ano]”,
pontuou. Dois lobistas que representaram plataformas de apostas no Congresso,
ouvidos em reserva pela Pública, foram categóricos ao apontar os nomes mais
procurados pela própria empresa e por outras companhias do setor de apostas
para negociar propostas legislativas, concordando em dois nomes: o senador Ciro
Nogueira e o deputado Dr. Luizinho. Um outro nome, no entanto, segundo
mediadores do governo Lula e representantes de casas de apostas ainda em
atividade no Congresso, também teria sido decisivo para a retirada do Cide-bets
do PL Antifacção: Hugo Motta, o presidente da Câmara. Isso porque, o
dispositivo foi inserido no projeto pelo Senado, em dezembro de 2025. A Pública
apurou que o presidente da Câmara se reuniu pessoalmente com o atual ministro
da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima, justamente para tratar
sobre o projeto de lei e discutir o apoio do Governo à nova derrubada do
dispositivo. O texto retornou à Câmara para nova apreciação e, em 24 de
fevereiro, os deputados voltaram a retirar o imposto sobre casas de apostas
antes de aprovar o projeto. Procurado, o Ministério da Justiça confirmou
oficialmente a reunião com Motta para tratar do PL Antifacção, mas não a pauta
que diz respeito às bets.
Tanto
na primeira quanto na segunda tramitação do PL Antifacção na Câmara, o nome de
Isnaldo Bulhões chamou a atenção pela articulação com outros parlamentares. A
atuação também se traduziu em posicionamentos quanto à questão em ambas as
oportunidades. Na apreciação original, o deputado não registrou voto em
requerimentos do governo para adiar a discussão do projeto em plenário, mas
votou a favor do relatório final do relator Guilherme Derrite. Na segunda
oportunidade, em fevereiro deste ano, o líder do MDB também não votou no
destaque apresentado pela Federação Rede/Psol para apreciar os itens do texto
separadamente. A aprovação final da matéria aconteceu de forma simbólica,
quando há consenso entre as bancadas e os votos não precisam de registro. Nos
corredores do Congresso, seis nomes são recorrentes quando o assunto são as
bets. Influência dos parlamentares já fez com que projetos sobre o assunto
sejam acelerados ou engavetados na Câmara e no Senado.
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O “cara” das bets grandes
Ao
longo de três meses, repórteres da Pública estiveram quase diariamente nos
corredores do Congresso abordando parlamentares e técnicos sobre a questão das
bets. Entrevistas formais, conversas informais, cafés agendados. Na rotina da
apuração, em vários momentos, pouco era revelado, mas surgiam pistas para os
próximos passos. Numa das entrevistas com um parlamentar influente no
Congresso, após quase uma hora, ao deixar o gabinete, a repórter Maira
Escardovelli foi acompanhada por um assessor até a porta. Eis que ao apertar
sua mão, percebeu um pequeno papel dobrado, que lhe fora entregue
discretamente. De um lado, rabiscado à caneta, o telefone de um lobista de
clubes de futebol e, de outro, o recado: “F. Carreras é o cara das bets
grandes”. Carreras é vocal sobre o setor de apostas, se posiciona a favor da
liberação de cassinos no país e não faz questão de esconder o seu argumento
quanto às bets quando questionado pela reportagem. “Sem dúvidas. Basta ver como
eu voto.” Relator do PL 442/91, que aprovou a possibilidade de jogos de apostas
e de cassinos, bingos e até o jogo do bicho operarem no país, o deputado diz
que visa “autorizar, depurar, fiscalizar e arrecadar”. “Sou defensor da
atividade de forma plural. Parte do setor de apostas já funciona há décadas,
sem arrecadar impostos e formalizar empregos”, afirmou à Pública e, apesar de
ser apontado como apoio das bets de empresas poderosas, o que ele descreve como
“lenda”, disse: “não vejo com seletividade nada do setor”.
O
diálogo com esse mesmo setor, no entanto, é descrito pelos colegas como um
ponto sensível na articulação do deputado perante os próprios aliados. Um
exemplo é um episódio de abril de 2024, durante almoço de reunião com líderes
na residência oficial do então presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), evento
do qual Carreras participava por se preparar, à época, para deixar a liderança
do “superbloco” criado por Lira, com nove partidos e mais de 170 deputados. À
época, o Ministério da Fazenda publicava cronogramas para aprimorar o processo
de regulamentação de prêmios e apostas online e o tema ganhava espaço na Câmara
com a repercussão da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Apostas
Esportivas, instalada no Senado naquele mês. Ao lançar o tema das bets no
encontro, Lira teria sido interrompido por Carreras, que informou que o então
presidente não precisaria se preocupar, pois já havia “conversado com o setor”
e “construído um acordo”. “Está tudo resolvido”, teria dito, segundo narrado
por três líderes diferentes presentes na reunião. “Foi o maior esculacho que vi
numa reunião de líderes”, afirmou um deles.
O
evento reuniu assessores e representantes de partidos como PP, Republicanos,
MDB, PRD e PSD. Lira teria subido o tom em reclamação que incluiu a acusação de
“molecagem” por parte do pernambucano, que, segundo Lira, não teria “autonomia”
ou “autorização” para construir acordos sem consultar a presidência da Casa.
O
momento, confirmado por funcionários da Câmara, foi negado por Carreras.
“Invenção”, resumiu, acrescentando que a relação com Arthur Lira “está ótima”,
assegurou. A assessoria do ex-presidente da Câmara negou haver “desavença”
entre os deputados. Sobre o setor de apostas, Lira afirmou que, enquanto
presidente da Câmara, “manteve interlocução institucional com diferentes
setores da sociedade” a respeito da regulamentação das bets e que “atuou no
exercício regular de suas funções públicas, sem vínculo particular com
empresas, grupos econômicos ou plataformas de apostas”. Em nota, a equipe do
deputado acrescentou ainda que “eventuais propostas sobre tributação, regulação
ou restrição do setor devem ser analisadas pelo Congresso Nacional de forma
técnica, transparente e dentro do devido processo legislativo”. Segundo apurou
a Pública, Lira teria se sentido “traído” por Carreras porque o ex-presidente
da Câmara trabalhou pela aprovação do novo Programa Emergencial de Retomada do
Setor de Eventos (Perse). O programa do governo federal concedeu isenção
fiscal, linhas de crédito e refinanciamento de dívidas ao setor de festas e
contou com uma lei criada por Carreras em 2020 e posteriormente reeditada para
manter e ampliar a medida.
Carreras
foi um dos beneficiados pela lei que criou, ao receber desoneração fiscal de
pouco mais de R$ 1,053 milhão em duas empresas das quais é sócio-investidor: a
Festa Cheia Produções e Propagandas LTDA e a Ruffo Comércio de Alimentos LTDA.
A informação sobre os benefícios das duas empresas foi revelada pelo Metrópoles
após a Receita Federal divulgar, em 2024, a lista de empresas beneficiadas. O
programa, encerrado em abril de 2025 ao atingir o teto de renúncia de R$ 15
bilhões, foi criado originalmente para amenizar os impactos econômicos da
pandemia de covid-19 no setor de eventos. Em entrevista à Pública, Carreras
usou discurso semelhante ao de representantes da CBF, lembrando que, no
Congresso, foi feita “uma CPI de manipulação de resultados, não de bets”, e
destacou o potencial arrecadatório e de geração de empregos das casas de
apostas. Sobre ter o nome apontado por colegas e lobistas, o deputado afirma
que há uma criação de narrativas para “tentar prejudicar” seu trabalho,
especialmente em período de eleições, sem, no entanto, esclarecer quem seriam
os autores da tentativa. Para explicar o ponto, Felipe Carreras diz ter sofrido
com falta de “sensibilidade” e caído em algumas ciladas por estar “desavisado”
e cita um episódio em que teria sido convidado para um jantar de um amigo e,
entre os convidados, estava um empresário. “Assim que saí, uma repórter do
Metrópoles já me ligou questionando. Tive que reclamar com meu amigo, e eu nem
sabia [da lista de convidados]”, comenta. Questionado sobre o ramo da empresa
durante a entrevista, Carreras mudou de assunto sem responder. O empresário em
questão era Ernildo Júnior de Farias, dono da PixBet, casa de apostas online da
Paraíba e uma das maiores patrocinadoras de tradicionais eventos realizados em
Pernambuco pela Festa Cheia Produções, empresa da qual Carreras é sócio e disse
estar licenciado.
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A [longa] articulação no Senado
No
Senado, o presidente nacional do PP, Ciro Nogueira, é, de longe, a figura mais
associada ao setor de jogos e apostas, tanto nos holofotes quanto nos
bastidores. Nos corredores do Senado, foi criticado pelos pares por articular
para que o relatório final da CPI das Bets fosse engavetado – a primeira
rejeição do tipo em 10 anos de CPIs no Senado. Fontes no Congresso
frequentemente lembram o depoimento de Fernandin OIG à CPI, em novembro de
2025. Então, o membro da comissão, Ciro Nogueira, fez questão de interceder em
favor do empresário em meio a alfinetadas da relatoria da CPI – que reclamava
da dificuldade de encontrar Fernandin OIG no Brasil para intimá-lo a depor. “O
Ciro [Nogueira] realmente tem visibilidade, defende, fala, não se envergonha”,
disse um membro da base do governo que participou da comissão. Além disso,
reportagem da Piauí apontou, em julho de 2025, que relatórios do Conselho de
Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apresentados na CPI das Bets
revelaram que Fernandin OG adquiriu em Teresina três apartamentos de um mesmo
edifício, construído pela incorporadora Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis,
da família do senador, que disse à revista não ter conhecimento da venda, que
totalizou R$ 1,55 milhão.
Colega
de CPI e um dos membros que votaram pela rejeição do relatório, o senador
Ângelo Coronel (Republicanos-BA) é apontado como um dos principais defensores
do setor de apostas no Senado. Ele fazia parte da base do governo no início da
atual gestão de Lula, o que foi um dos motivos pelos quais foi escolhido para
relatar o projeto de lei que regulamentou as bets no Brasil em 2023. Como
relator, o senador atuou para reduzir os tributos que seriam cobrados de casas
de apostas no processo de legalização junto ao governo, cortando parte do valor
aprovado na Câmara. Na prática, o parlamentar reduziu de 18% para 12% o valor a
ser cobrado anualmente das operadoras de bets em relação ao GGR (a receita
final das empresas com os jogos, já subtraídos os prêmios pagos aos
apostadores) e também enxugou o valor a ser pago de imposto de renda por cada
premiação – caindo pela metade, de 30% para 15%, num movimento que agradou às
casas de apostas e às associações que as representam. Na Comissão de Assuntos
Econômicos (CAE) do Senado, em novembro de 2025, Ângelo Coronel defendeu as
taxas já reduzidas como bastante elevadas para o setor, durante uma troca de
farpas com a colega Soraya Thronicke, ex-relatora da CPI das Bets, que defendia
que as empresas pagavam poucos impostos. “Acho que ela precisa fazer as contas
direitinho, porque não são somente 18% que as bets pagam, é só verificar que as
bets pagam hoje 12% de GGR, como eu disse, pagam PIS-Cofins, contribuição
social de 9%, Imposto de Renda de 15%, adicional de mais 10%. Vai dar uma carga
tributária de mais de 60%”, alegou o senador. Perguntado pela Pública sobre sua
posição sobre as bets no país, Coronel disse que continua “sendo favorável”,
mesmo reconhecendo o problema do vício. “Se hoje os casos de vício nos jogos
são mais evidentes, é porque existe um mercado legalizado, regulado e
fiscalizado. É preciso acabar com a falácia moralista de que a proibição do
jogo vai acabar com o vício como num passe de mágica. […] Só a legalização
permite a destinação de recursos arrecadados com impostos sobre os jogos para o
tratamento daqueles que perdem o controle das apostas”, defendeu.
Quando
o assunto são as bets, o Senado guarda grandes contradições, algumas que
ficaram evidentes a partir da instauração da CPI da Manipulação de Jogos e
Apostas Esportivas, em abril de 2024, uma segunda comissão sobre o assunto que
tramitou sem relação com os trabalhos da CPI das Bets. Para a CPI das Apostas
foi escalado como presidente o senador Jorge Kajuru (PSB-GO). Antes, ele já
havia feito propaganda para a BetEsporte durante um programa de entrevistas na
TV Meio, do Piauí, como destacou a Folha de S.Paulo. À época, ele disse se
tratar de um merchandising da emissora e ter feito pesquisa que indicou que a
empresa seria séria, mas se comprometeu a não fazer mais propaganda para
empresas de bets, tópico que viria a investigar na comissão que passou a presidir.
Já em 2025, durante a discussão da MP do IOF, Kajuru fez proposta de emenda
para evitar futuros aumentos de impostos ou criação de novos tributos sobre
essas empresas.
Para a
relatoria da CPI das Apostas foi designado o senador Romário. O ex-jogador tem,
até hoje, relação direta com ao menos uma bet, por meio de seu canal no
YouTube, a RomárioTV, que tem oferecimento da Superbet. A mesma empresa também
patrocina o America Football Club do Rio de Janeiro, do qual Romário é
presidente desde 2024. A parceria se manteve mesmo durante os trabalhos da CPI
das Apostas, como também revelou a Folha. A CPI foi encerrada pedindo o
indiciamento de Bruno Tolentino, tio do jogador da Seleção Lucas Paquetá, e dos
empresários William Pereira Rogatto e Thiago Chambó Andrade e propondo emendas
constitucionais para elevar pena por fraude em resultados esportivos e avisos
obrigatórios sobre o riscos das apostas, além do sistema para facilitar pedidos
de autoexclusão de jogadores nas plataformas. As casas de apostas não foram
penalizadas.
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Paciência e regulamento debaixo do braço
Pelo
fato do mandato no Senado durar oito anos, a articulação política na Casa tem
um ritmo diferente, ao feitio de lobbies mais discretos – como, por exemplo,
manter determinados projetos de lei contrários às bets e aos jogos online sem
tramitação ou mesmo sem análise pelos parlamentares. Exatamente a postura
apontada por fontes no Congresso em relação a alguns senadores. Um exemplo é o
líder do bloco formado por PP e Republicanos na Casa, Dr. Hiran (PP-RR),
ex-presidente da CPI das Bets, alvo de críticas por não ter pautado todos os
depoimentos aprovados. O senador é o atual presidente da Comissão de
Transparência, Governança, Fiscalização e Controle e Defesa do Consumidor
(CTFC) e ainda não deu início à tramitação de um projeto que aumenta impostos
sobre as bets após quase um ano do protocolo da proposta.
Outro
parlamentar bastante lembrado pelo mesmo recurso de não dar encaminhamento a
propostas contra o setor de jogos e apostas é o presidente do Senado, Davi
Alcolumbre (União-AP). Tal impressão foi mencionada por um dos senadores
ouvidos pela Pública, o oposicionista Eduardo Girão (Novo-CE), da bancada
evangélica e um dos principais críticos de jogos e apostas na Casa, que
qualificou Alcolumbre como um “defensor da jogatina”. Girão é um dos autores de
propostas contra as bets que estão paradas atualmente no Senado e também citou
o apoio do presidente da Casa a uma proposta que pode legalizar cassinos e o
jogo do bicho. “O próprio PL dos cassinos e bingos, quando passou pela Câmara,
se não me engano, foi votado na véspera do Carnaval por votação virtual, remota,
para excluir o debate. O que o Davi fez aqui na véspera do fim do ano? No
último dia [de trabalho do Senado em 2025], ele botou para votar no virtual.
Ele botou para votar com um requerimento de urgência… mas quando ele perdeu no
requerimento, ele tirou ‘de pau’, porque ele viu que ia perder”, disse Girão.
Vale lembrar que o mesmo projeto conta com a assinatura do próprio Alcolumbre,
como mostra o site do Senado.”
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Um longa batalha
Ao
relembrar da rejeição do relatório final e das pressões sofridas à época, em
entrevista à Pública, a relatora da CPI, senadora Soraya Thronicke (PSB-MS),
foi categórica: “ninguém ganha das bets”. A senadora conta que entrou com o
requerimento de criação da CPI sem ter conhecimento prévio sobre a atividade no
Brasil e, após o fim dos trabalhos, já propôs ao menos 18 projetos de lei para
aumentar o controle sobre as apostas esportivas no país. Legislar contra as
bets, no entanto, causa consequências. “Foi um processo muito difícil: ao longo
da CPI eu tive de andar com seguranças do Senado, para minha proteção e da
minha família. Isso porque recebi uma série de ‘recados’ e ameaças veladas, com
gente que me dizia no Congresso que eu ‘não sabia com quem estava mexendo’, que
devia ‘tomar cuidado’, ‘falar menos’, que devia ‘deixar quieto’”, disse
Thronicke. A senadora não foi a única parlamentar a dizer que “ninguém ganha
das bets”. O próprio presidente da CPI, senador Dr. Hiran (PP-RR), disse o
mesmo na derradeira sessão da CPI, ao rebater críticas sobre sua condução dos
trabalhos e atacar jogos que se baseiam em algoritmos (“esses joguinhos de
tigrinho, de zebrinha”), mas isentando apostas em modalidades esportivas – como
o futebol. Naquele dia, o relatório foi rejeitado em sessão esvaziada: 4 votos
a 3. “Calculamos um empate na votação, então tinha chances de ser aprovado.
Mesmo assim, eu sabia que se [o relatório] não passasse eu entregaria tudo para
as autoridades do mesmo jeito, nem que fosse sozinha… foi exatamente o que eu
fiz. Eu não iria prevaricar diante daqueles crimes”, afirmou Thronicke.
Um dos
membros da comissão mais críticos às bets, o senador Eduardo Girão (Novo-CE)
disse à reportagem que houve uma articulação política nos bastidores para
barrar o relatório. “A gente ia ganhar, indiciar essa turma e pedir mais
investigações, mas houve uma manobra do Centrão, com senadores que nunca
chegaram lá para perguntar e participar das oitivas, mas que foram só para
votar contra…”, afirmou Girão à Pública. Além da relatora e de Girão, apenas o
senador Alessandro Vieira (MDB-SE) votou a favor do relatório, enquanto os
senadores Ângelo Coronel (então no PSD, hoje no Republicanos-BA), Efraim Filho
(então no União Brasil, hoje no PL-PB), Eduardo Gomes (PL-TO) e Professora
Dorinha Seabra (União-GO) votaram contra, formando maioria para a rejeição do material.
Entre quem votou contra, somente Ângelo Coronel respondeu, em nota, o motivo de
seu voto: “falta de tempo para avaliar o relatório”. “Foram 541 páginas
disponibilizadas na véspera da votação, indiciando pessoas sem elementos
concretos que pudessem nos dar certeza de práticas criminosas”, alegou o
senador, que foi um dos mais favoráveis aos interesses das bets ao longo dos
trabalhos da comissão: “sou favorável aos jogos porque acho que o jogo é uma
fonte de receita”, afirmou na sessão final dos trabalhos. “O resto do mundo
joga. Então, será que nós brasileiros é que somos [sic] errados? Claro que você
gosta de cerveja, eu gosto de whisky, isso é natural. Você gosta de apostar em
cavalo, eu posso gostar de apostar em futebol”, diz o senador Ângelo Coronel
(Republicanos).
Inicialmente,
o senador baiano não fazia parte da CPI e também não assinou o requerimento de
criação dela, mas seu partido à época, o PSD, permitiu que ele fosse nomeado
como membro titular por sua proximidade com o tema, na condição de relator do
projeto de lei que regulamentou as bets no Brasil – aprovado no Congresso e
sancionado no fim de 2023. À Pública, Coronel não escondeu sua posição
“favorável” a jogos e apostas no país. “É preciso romper o paradigma de ordem
moral e enxergar as apostas de quota fixa [bets] como atividade econômica”,
segundo ele, que ainda afirmou que “é preciso acabar com a falácia moralista de
que a proibição do jogo vai acabar com o vício como num passe de mágica. […] O
vício independe da legalização ou não, mas só a legalização permite a
destinação de recursos arrecadados com impostos”.
Ainda
de acordo com a apuração da Pública, o membro da CPI mais atuante na defesa das
bets na comissão foi o senador Ciro Nogueira (PP-PI). Nogueira é amigo pessoal
do empresário Fernando Oliveira Lima, o ‘Fernandin OIG’, dono da One Internet
Group (OIG), apontado como o grupo por trás do ‘jogo do tigrinho’ no Brasil e
um dos principais alvos da CPI, como evidenciou a piauí em maio de 2025.
Durante o depoimento de OIG à CPI, Nogueira discursou: “Esse rapaz poderia aqui
não ter falado nada nesta CPI. Ele tem uma decisão da Justiça que o protege,
fez questão de tentar ajudar a CPI, demonstrando toda boa vontade, toda boa
intenção, é uma pessoa que está legalizada”. Na sessão, OIG negou ser o dono do
Jogo do Tigrinho. “A negativa de alguns depoimentos e a condução de outros já
mostrava que não havia chance de uma conclusão minimamente aceitável da CPI,
especialmente no depoimento daquele empresário do Piauí [Fernandin OIG]”, disse
à Pública, na condição de anonimato, um dos membros da CPI que faz parte da base
do governo Lula no Senado. “Ali ficou claro que um senador da República tinha
comparecido só para cumprir o papel de advogado do rapaz”, afirmou.
Os
bastidores da CPI das Bets no Senado ficaram marcados por acusações de
corrupção que, até o momento, carecem de comprovação oficial. A Polícia Federal
abriu investigação após denúncias de que um lobista teria cobrado R$ 50 milhões
de empresários do setor para evitar convocações e indiciamentos pela comissão.
O investigado teria se valido de uma suposta proximidade com senadores. O
contexto ganhou força considerando que na CPI anterior, na Câmara, também houve
denúncias de propina envolvendo um deputado federal, também em investigação
pela PF. O ex-assessor do Ministério da Fazenda José Francisco Manssur
confirmou à reportagem ter sido informado sobre uma suposta tentativa de
extorsão, mas ressaltou que nunca foi abordado por parlamentares com propostas ilícitas.
Além disso, a credibilidade da CPI também foi afetada pelos depoimentos de
influenciadores que fazem propaganda para bets e foram convocados para a
comissão, a exemplo de Virgínia Fonseca. O depoimento da influenciadora, que
tem cerca de 100 milhões de seguidores nas redes sociais, em maio de 2025,
ganhou notoriedade negativa quando os próprios senadores tiraram fotos com a
depoente. “Foi uma desmoralização”, afirmou membro da CPI, ouvido em reserva,
sobre o desfecho da comissão, que descreve como “melancólico”.
Fonte:
Por Caio de Freitas, Dyepeson Martins, Duda Sousa, Ed Wanderley, Maira
Escardovelli, Thiago Domenici – Agência Pública

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