sexta-feira, 1 de maio de 2026

Quem é o 'grande lobo mau' nas relações com a América Latina: EUA ou China? Mídia explica

Washington está preocupado com a cooperação entre a China e os países da América Latina, que tem alicerces firmes e notáveis, e por isso tenta impedir a parceria abrangente, fazendo declarações sobre as supostas más intenções de Pequim na região, escreveu o jornal estatal chinês Global Times.

De acordo com a reportagem do jornal, embora Washington quisesse apresentar a China como um "grande lobo mau" para a América Latina, e para o Peru em particular, na verdade Pequim não aparece mal-intencionado nas relações com o continente e os próprios Estados Unidos, que não deixam de promover sua política hegemônica, deveriam "olhar-se no espelho".

De fato, trata-se de um incidente nas relações diplomáticas entre China e Peru, e entre Estados Unidos e Peru.

Segundo o jornal, em 27 de abril, o embaixador dos EUA no Peru, Bernie Navarro, comparou a China, sem qualquer razão, ao grande Lobo Mau do conto de Chapeuzinho Vermelho, em uma tentativa deliberada de denegrir a cooperação da China com o Peru e outros países da América Latina.

A resposta do embaixador chinês no Peru, Zhu Jingyang, não demorou. Ele afirmou que seu colega norte-americano, ao fazer tal comparação metafórica, deveria "se olhar no espelho".

"Vocês gritam por 'livre escolha', mas acenam com a vara das sanções; vocês fingem ser um 'país maduro', mas recorrem ao escárnio barato [...] assim, vocês apenas mostram claramente quem é realmente o grande Lobo Mau", citou o Global Times as palavras de Zhu Jingyang.

A publicação mencionou que, neste ano, os Estados Unidos proclamaram o Peru seu aliado maior que não faz parte da OTAN. Após isso, Lima enfrentou pressão de Washington para comprar caças norte-americanos F-16, com ameaças de retaliação contra o país em caso de recusa em adquirir essas aeronaves.

"A compra de armas é uma questão sob a jurisdição soberana de um Estado. O fato de o embaixador dos EUA ter feito declarações arrogantes ao interferir na soberania de outro país mostra claramente a natureza sinistra da hegemonia dos EUA", diz o texto.

Ao mesmo tempo, o jornal chinês mencionou que a China é o parceiro comercial mais importante do Peru e que no país, ao norte de Lima, com investimento chinês, foi construído o porto de Chancay, que rapidamente se tornou um importante centro logístico para todo o continente.

"Quando o capital norte-americano se retirou ou hesitou, o investimento e o comércio chineses em infraestrutura preencheram uma verdadeira lacuna de desenvolvimento. [...] Quem é o Lobo Mau na cooperação China-América Latina? Os EUA deveriam olhar-se no espelho", concluíram os autores da reportagem.

Nesta segunda-feira (27), a pesquisadora principal do Centro de Estudos Russos da Universidade Pedagógica do Leste da China, Chen Wenling, afirmou que os Estados Unidos estão transformando o Hemisfério Ocidental em seu "quintal" para expulsar a Rússia e a China de lá.

¨      Venezuela pode elevar patamar energético do Mercosul, mas traz pressão política na esteira

Em entrevista à Sputnik Brasil, analistas explicam relações jurídicas e questões administrativas para o fim da suspensão do status de membro pleno de Caracas, aprovada pelo grupo em 2016.

O vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, reacendeu na última semana os debates sobre o fim da suspensão da Venezuela no Mercosul, sancionada pelo grupo em 2016. De acordo com o político do PSB, Caracas está "em um momento diferente" e seu status diante da organização deve ser discutido.

A Venezuela foi integrada ao Mercosul em 2012, mas suspensa quatro anos depois, por não incorporar medidas comerciais comuns ao grupo, além de promover uma ruptura democrática, sob a ótica dos outros Estados-membros. Uma medida similar havia sido aplicada ao Paraguai em 2012, com a destituição de Fernando Lugo.

Dez anos após o congelamento do status venezuelano no Mercosul, Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e, agora, Bolívia deverão votar de maneira unânime pela volta de Caracas, que está sob o comando da presidente interina Delcy Rodríguez desde o sequestro do presidente Nicolás Maduro, em janeiro.

À Sputnik Brasil, especialistas explicaram que a volta da Venezuela ao Mercosul elevaria o patamar energético do grupo, uma vez que o país é o detentor das maiores reservas inexploradas de petróleo do mundo. Por outro lado, o capital petrolífero de Caracas, assim como seu passado recente, traz consigo uma pressão política à organização sul-americana.

Eduardo Galvão, professor de políticas públicas do Ibmec Brasília e diretor de relações públicas da consultoria global Burson, explica que, com a retomada gradativa do diálogo entre Caracas e outros órgãos internacionais, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), a reinserção venezuelana no Mercosul pode trazer uma maior estabilidade política ao país.

No entanto, o analista destaca que os interesses externos, como o das empresas petrolíferas capitaneadas por Washington, podem gerar turbulência ao grupo sul-americano.

"[O retorno da Venezuela] Traz decisões sobre produção e exportação de investimentos que acabam sendo definidas no âmbito regional, dentro do bloco. Isso pode gerar tensões internas, especialmente se esses interesses externos começarem a influenciar, de uma forma desequilibrada, as agendas econômicas e as agendas comerciais do próprio bloco."

Galvão ressalta que, se por um lado o Mercosul fica "mais exposto às disputas geopolíticas globais do que antes", abraçar Caracas pode ser lido como um sinal de robustez política da organização.

"Quando a gente olha no cenário regional, uma entrada da Venezuela pode representar, não só para o país, mas também para o bloco como um todo, um grande sinal de estabilidade, porque o bloco começaria a ser percebido como um instrumento de coesão política, de harmonização dos ânimos e de uma reestruturação, de fato, institucional."

No entanto, ele reforça que o fim da suspensão não se dê a partir da flexibilização das antigas exigências do bloco, uma vez que isso geraria descrédito internacional.

André Coelho, professor da Escola de Ciência Política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), vê com bons olhos o fim da suspensão da Venezuela no Mercosul.

"Com mais um país, você vai fortalecer o Mercosul como um grupo. Vai ficar mais forte, vai ter tanto mais habitantes e consumidores quanto poderá ampliar a diversificação do bloco, com novos bens, produtos a serem exportados, e fortalecer, de modo geral, as possibilidades de negociação do bloco."

Coelho relembra que a entrada da Venezuela, em 2012, aconteceu em um contexto político no qual os governos do Cone Sul eram de centro-esquerda. Agora, em 2026, o retorno ao Mercosul poderia fortalecer a retomada de autonomia de Caracas sobre o próprio petróleo, gerenciado pelos Estados Unidos desde o rapto de Maduro.

"O retorno da Venezuela ao Mercosul não incidiria automaticamente no controle dos seus hidrocarbonetos, mas isso com certeza reforçaria o pleito venezuelano desse controle e aumentaria a pressão política [sobre os Estados Unidos] para que isso acontecesse."

<><> Como fica o acordo com a União Europeia?

A retomada do status de membro pleno da Venezuela dará direito ao país de voltar a participar de votações e decisões do grupo, assim como trará o dever de adotar a tarifa externa comum ao grupo.

Ambos os especialistas entrevistados pela Sputnik Brasil não imaginam que haja uma mudança de status de Caracas dentro da organização. O Panamá, por exemplo, faz parte do Mercosul, mas como Estado associado — participa de acordos comerciais, mas não tem direito a voto ou é obrigado a aderir a todas as regras do grupo.

Galvão explica que é possível um retorno gradual venezuelano aos termos do grupo, como o acordo com a União Europeia. Entretanto, o especialista reforça que um instrumento deste tipo não existe no bloco: "Seria uma construção política".

O professor do Ibmec Brasília entende que o grande potencial energético de Caracas seja de grande interesse da Europa, mas a instabilidade política vivida nos últimos anos, catapultada pelo sequestro de Maduro, pode ser um entrave na construção jurídica de contratos.

"É possível que o acordo Mercosul-União Europeia mantenha sua vigência tal qual como está, porém [é possível que] a inserção da Venezuela nesse novo instrumento seja feita de forma gradativa, e não de forma automática; [será] negociada ponto a ponto."

Coelho destaca que países da União Europeia, em especial a França, foram contra o acordo com o Mercosul. Reinserir a Venezuela no grupo, em um contexto no qual nações estão ratificando o tratado, pode dificultar ainda mais sua homologação.

"Eventualmente, algum legislativo pode questionar o acordo, dizendo que a Venezuela não é democrática, ou qualquer questão desse tipo que possa eventualmente servir como um entrave, servindo de mais um complicador."

<><> Milei como os olhos de Trump

O principal parceiro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na América do Sul é o seu homólogo argentino, Javier Milei. A união cada vez maior entre Buenos Aires e Washington poderá ser vista, inclusive, nas discussões para o fim da suspensão venezuelana no Mercosul.

Para Coelho, os Estados Unidos não devem ser a favor do retorno de Caracas ao grupo. No entendimento do especialista, uma Venezuela isolada politicamente favorece as ambições da Casa Branca. E, apesar de Washington não ter se pronunciado sobre o retorno venezuelano ao Mercosul, para o especialista a visão norte-americana será descoberta a partir da boca de Milei.

"Milei talvez tenha um papel-chave nesse processo. É claro que a gente não sabe qual é necessariamente a posição dos Estados Unidos, mas com certeza a posição dos Estados Unidos será a posição de Milei."

¨      Venezuela dá guinada na política externa regional em busca de 'novo espaço de cooperação'

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, realizou recentemente visita de trabalho a Barbados, e frisou que a parceria pode garantir o futuro da nossa juventude, criar empregos [e] dar impulso produtivo aos setores industriais estratégicos.

Em um contexto geopolítico marcado pela guerra no Irã e seus efeitos nos mercados energéticos e financeiros, a visita foi interpretada por analistas como um movimento estratégico de dupla via: por um lado, busca consolidar alianças no Caribe e, por outro, posicionar a Venezuela como um parceiro indispensável para a segurança energética e o desenvolvimento produtivo da região.

Em entrevista à Spubtik, Yonny Hidalgo, engenheiro, escritor e pesquisador venezuelano, ofereceu à Sputnik analisou significado desses encontros e os desafios enfrentados pela diplomacia venezuelana.

A visita de Rodríguez a Barbados, segundo ele, tem um simbolismo profundo que vai além da simples cooperação bilateral. Segundo sua análise, tanto a Venezuela quanto o país caribenho têm necessidades de legitimação e reconhecimento internacional.

"Do lado da Venezuela, após os acontecimentos de 3 de janeiro de 2026 — quando o presidente Nicolás Maduro e sua esposa foram sequestrados —, o país conseguiu manter a ordem e a paz interna. Isso precisa do reconhecimento de outros países, especialmente dos vizinhos próximos, como Barbados", explicou o especialista.

Hidalgo destacou um dado geográfico que muitas vezes passa despercebido: regiões como Guiria, no leste da Venezuela, estão mais próximas de Barbados do que de Caracas, o que transforma a ilha em um vizinho natural e inevitável.

Do lado da ilha caribenha, o contexto é igualmente significativo. Barbados se constituiu como república em novembro de 2021, deixando para trás séculos de submissão à monarquia britânica. Nesse processo de consolidação de sua soberania, a ilha também precisa construir alianças que não estejam sob tutela das antigas metrópoles europeias.

O analista também situou a visita em um cenário global de turbulências:

"O mundo inteiro está em problemas. O mais evidente é a guerra no Irã. Os efeitos que essa guerra terá sobre a ordem financeira internacional fazem com que nossos países vejam a necessidade de se reunir para criar um espaço de cooperação que lhes permita atuar de forma conjunta diante dos problemas que virão de outras regiões".

<><> Lições do Petrocaribe

Um dos temas prioritários apresentados por Rodríguez em sua agenda é a cooperação energética, um campo no qual a Venezuela acumula décadas de experiência, não isenta de lições aprendidas.

"O Petrocaribe conseguiu construir uma plataforma jurídica e financeira que podia operar apesar das mudanças de governo", disse ele, ao mencionar o acordo, criado em 2005, que permitia que países do Caribe comprassem petróleo venezuelano em condições financeiras preferenciais .

No entanto, segundo Hidalgo, essa cobertura jurídica era viabilizada por meio dos órgãos executivos de cada país. A inovação que o analista identifica nessa nova visita é a intenção de envolver os poderes legislativos.

"Agora se propõe alcançar acordos em nível jurídico que possam ser executados apesar das mudanças de governo, mas envolvendo os órgãos legislativos para fortalecê-los", afirmou.

Essa visão busca proteger os acordos contra a volatilidade política, garantindo que os projetos de cooperação energética e produtiva tenham continuidade além dos ciclos eleitorais ou das mudanças no Executivo. Para Hidalgo, alcançar esquemas jurídicos que transcendam os governos de turno é o ponto central para relançar a integração regional.

<><> O fator Guiana

Um dos pontos mais delicados da política externa venezuelana para o analista é a disputa territorial pelo Essequibo e a relação com a Guiana. A visita a Barbados e Granada adquire uma dimensão estratégica fundamental, já que ambas as nações são membros influentes da Comunidade do Caribe (CARICOM).

"Precisamente, o fato de Barbados ter se tornado uma república lhe deu uma liderança forte dentro da CARICOM, e enquanto pudermos fortalecer relações com os países membros dessa organização, poderemos lidar melhor com a situação com a Guiana", explicou Hidalgo.

O engenheiro destacou um movimento diplomático significativo: o convite aberto a Barbados para participar de investimentos em campos petrolíferos venezuelanos. Essa manobra, segundo sua perspectiva, transforma a relação de uma dinâmica vertical de "fornecedor-cliente" em uma parceria horizontal entre sócios com interesses compartilhados.

"Isso retira da Venezuela a posição de fornecedora exclusiva de petróleo e permite criar um espaço de cooperação mais profundo", afirmou.

Hidalgo projeta um cenário futuro no qual Barbados, interessado em desenvolver sua própria produção offshore em águas próximas à fronteira com a Guiana, encontre na Venezuela não apenas um aliado energético, mas também um parceiro tecnológico e geopolítico.

"Quando Barbados quiser investir na produção de petróleo offshore, em águas próximas às fronteiras com a Guiana, todo esse contexto que está sendo construído favorecerá esse tipo de investimento", concluiu.

¨      Presidente do Equador declara que guerrilheiros colombianos entraram no país pela fronteira

O presidente equatoriano, Daniel Noboa, afirmou nesta quarta-feira (29) que guerrilheiros colombianos entraram no país pela fronteira, instigados por seu homólogo Gustavo Petro.

"Diversas fontes nos informaram sobre uma incursão de guerrilheiros colombianos pela fronteira norte, impulsionada pelo governo Petro", declarou Noboa em sua conta no X. "Presidente Petro, concentre-se em melhorar a vida do seu povo em vez de tentar exportar problemas para os países vizinhos", acrescentou.

A mensagem se soma à troca de farpas que os líderes têm mantido nas últimas semanas, em meio a uma guerra comercial bilateral desencadeada quando Noboa impôs uma tarifa sobre produtos colombianos, argumentando que Bogotá não estava fazendo o suficiente para proteger as fronteiras.

As tarifas, segundo o presidente equatoriano, são uma "compensação" pelo dinheiro que seu país investe na segurança da fronteira compartilhada. A taxa começou em 30%, depois subiu para 50% e, a partir de 1º de maio, chegará a 100%.

O Equador tem a maior taxa de homicídios da América Latina: 52 assassinatos por 100 mil habitantes, segundo o Observatório do Crime Organizado.

Em resposta, a Colômbia entrou com um processo contra o Equador por suposto descumprimento das normas comerciais no âmbito da Comunidade Andina.

Em 10 de abril, Noboa descartou a possibilidade de buscar um acordo com Petro e afirmou que aguardará a formação de um novo governo após as eleições colombianas, que ocorrem este ano.

A crise diplomática se intensificou em 16 de março, após um ataque aéreo em território colombiano. No local, após as explosões, foram descobertos 27 corpos carbonizados. Petro acusou o governo equatoriano de realizar os ataques.

O incidente, ainda sob investigação, motivou um pedido de mediação internacional, incluindo um apelo direto ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. "Nós não queremos guerra", declarou Petro, ao comentar o episódio.

Do lado equatoriano, Noboa negou qualquer incursão em território colombiano e afirmou que as operações militares em curso têm como alvo exclusivo grupos armados ligados ao narcotráfico dentro das fronteiras do próprio Equador.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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