Gustavo
Tapioca: Pesquisas mostram que o golpe ainda respira
Há
pesquisas que medem intenção de voto. E há pesquisas que medem o estado de uma
democracia. A Atlas/Bloomberg divulgada nesta terça-feira, 28 de abril,
pertence ao segundo grupo. No cenário em que os candidatos de 2022 são
novamente apresentados ao eleitor, Lula aparece com 45,2% e Jair Bolsonaro com
45,0%.
A
diferença é irrelevante do ponto de vista estatístico. Mas é devastadora do
ponto de vista político. A pergunta feita ao eleitor era simples: “se as
eleições presidenciais fossem acontecer no próximo domingo e se os candidatos
fossem os mesmos de 2022, inclusive Lula e Bolsonaro, em quem você votaria?”
A
resposta é um retrato brutal do Brasil de 2026. Mesmo condenado pelo Supremo
Tribunal Federal a 27 anos e três meses de prisão por crimes ligados à
tentativa de golpe de Estado, Bolsonaro continua aparecendo no mesmo patamar
eleitoral do presidente que o derrotou nas urnas em 2022 e tomou posse em 1º de
janeiro de 2023.
O dado
é estarrecedor. Mas não é inexplicável. Ele mostra que a democracia brasileira
venceu juridicamente o golpe, mas ainda não derrotou socialmente a mentalidade
golpista.
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“Realidade estarrecedora”
Não por
acaso, a repercussão foi imediata. Em análise publicada pela TV Fórum no
próprio dia da divulgação da pesquisa, Antonio Mello definiu o resultado da
Atlas/Bloomberg como a revelação de uma “realidade estarrecedora” sobre a
política brasileira. A expressão é precisa.
O
estarrecedor não está apenas no empate técnico entre Lula e Jair Bolsonaro em
um cenário hipotético de repetição de 2022. Está no fato de que, mesmo
condenado, inelegível e identificado juridicamente como líder de uma trama
golpista, Bolsonaro continua funcionando como referência eleitoral para quase
metade do país.
A
pesquisa não mede apenas nostalgia eleitoral. Mede a profundidade da
intoxicação política produzida pela extrema direita. Mostra que a condenação
judicial do golpismo não foi suficiente para dissolver sua base social. Ao
contrário: em parte dela, a sentença foi convertida em prova de perseguição,
combustível de martírio e instrumento de mobilização.
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A condenação virou combustível
Em uma
democracia menos intoxicada, a condenação de um ex-presidente por crimes
ligados à tentativa de ruptura institucional deveria significar o encerramento
de sua viabilidade política. No Brasil de 2026, porém, a sentença não eliminou
Bolsonaro do imaginário de seus seguidores. Produziu, em parte da base
radicalizada, o efeito inverso.
Bolsonaro
deixou de ser apenas o ex-presidente derrotado. Passou a ocupar o lugar de
mártir. A extrema direita aprendeu, com Donald Trump, a converter derrota em
fraude, investigação em perseguição, condenação em prova de grandeza e prisão
em certificado de autenticidade política.
A
justiça deixa de ser justiça. Vira “sistema”. A sentença deixa de ser sentença.
Vira “vingança”. O crime deixa de ser crime. Vira “narrativa”. É assim que um
condenado por atentar contra a democracia ainda aparece empatado com o
presidente que derrotou o golpe nas urnas.
Bolsonaro
não sobrevive eleitoralmente apesar da condenação. Sobrevive, em parte de sua
base, também por causa dela. Esse é o mecanismo central da política extremista
contemporânea. O líder não perde força quando é acusado, julgado ou condenado.
Ele tenta transformar cada etapa da responsabilização institucional em
espetáculo de perseguição.
Não
responde aos fatos. Substitui os fatos por uma mitologia. Foi assim com Trump.
É assim com Bolsonaro. O resultado está na pesquisa: o golpe perdeu no Supremo,
mas ainda respira na sociedade.
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O pai como mito, o filho como instrumento
Mas há
outro dado, ainda mais importante para 2026. Bolsonaro pai está condenado,
inelegível e preso. Bolsonaro filho aparece como a tradução eleitoral possível
desse mesmo campo político. Na véspera da Atlas, a pesquisa BTG/Nexus já havia
mostrado Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados em eventual segundo
turno: 46% para Lula e 45% para Flávio.
A
diferença era pequena, dentro da margem de erro. Mas o sinal político era
claro: Flávio deixava de ser apenas herdeiro simbólico do bolsonarismo para se
apresentar como adversário real de Lula numa disputa presidencial.
No dia
seguinte, a Atlas/Bloomberg reforçou o alerta: Lula e Flávio aparecem novamente
em empate técnico, agora com Flávio numericamente à frente por apenas 0,3 ponto
percentual — 47,8% a 47,5%, diferença dentro da margem de erro. A diferença não
autoriza triunfalismo de nenhum lado. Mas confirma uma tendência essencial: a
transferência do capital político de Jair Bolsonaro para Flávio Bolsonaro está
em curso.
O pai
permanece como mito de mobilização. O filho surge como instrumento eleitoral.
Jair Bolsonaro concentra o ressentimento, a narrativa de perseguição, o ódio ao
sistema, a recusa da derrota, a memória do golpe e a promessa de revanche.
Flávio
Bolsonaro oferece a embalagem eleitoral: menos tosco no tom, mais palatável
para setores do mercado, mais aceitável para elites que têm horror a Lula, mas
também receio do bolsonarismo original em estado bruto. É a mesma mercadoria
política em embalagem nova.
Essa é
a diferença fundamental. Jair Bolsonaro representa a ruptura aberta, o
confronto frontal com o resultado das urnas, a recusa da alternância
democrática e a tentativa de permanecer no poder apesar da derrota.
Flávio
Bolsonaro tenta oferecer uma versão administrável desse patrimônio político: o
sobrenome, a base radicalizada, a guerra cultural, a aproximação com o
trumpismo e a promessa de restauração do bolsonarismo no comando do Estado.
Não é
uma candidatura autônoma. É uma candidatura de sucessão dinástica. Mais do que
isso: é uma candidatura de restauração.
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A filial brasileira do trumpismo
Como
publicamos recentemente no Brasil 247, a disputa que se desenha não é
simplesmente entre Lula e Flávio Bolsonaro. É entre Lula e a filial brasileira
do trumpismo.
Lula
representa, com todas as contradições de uma frente ampla, a preservação do
pacto democrático, a defesa da soberania nacional, a reconstrução social e a
negociação política como método de governo.
Flávio
Bolsonaro representa a sucessão dinástica de um projeto derrotado nas urnas,
condenado no Supremo e ainda vivo nas redes, nos púlpitos, nos quartéis
nostálgicos, nos grupos de WhatsApp, no mercado mais predatório e nas conexões
internacionais da extrema direita.
A
candidatura de Flávio tem uma função objetiva: preservar o pai como símbolo e
oferecer ao sistema político uma candidatura formalmente viável para carregar o
mesmo conteúdo histórico.
Bolsonaro
pai é o mártir. Bolsonaro filho é o operador. Trump é o espelho externo. Lula é
o obstáculo histórico. Essa é a fórmula.
Por
isso, a aproximação entre Lula e Flávio nas pesquisas não pode ser lida como
uma disputa eleitoral convencional. Ela indica que o bolsonarismo encontrou uma
forma de sobreviver à condenação do chefe: transformar a punição judicial em
combustível político e a herança familiar em projeto presidencial. A extrema
direita não está apenas procurando um candidato.
Está
tentando preservar uma linhagem de poder.
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O Brasil não esqueceu o golpe — parte dele o incorporou
O dado
mais duro da Atlas não é apenas Bolsonaro aparecer empatado com Lula. É o que
esse empate revela. O Brasil não esqueceu o golpe. Uma parte do país o
incorporou como identidade política.
Para
milhões de eleitores, o 8 de janeiro não foi um ataque à democracia. Foi
tratado como revolta legítima. A trama golpista não foi vista como crime. Foi
reinterpretada como resistência. A condenação de Bolsonaro não foi absorvida
como responsabilização institucional. Foi convertida em prova de perseguição.
A
extrema direita não disputa apenas votos. Disputa a interpretação da realidade.
Se Lula venceu em 2022, dizem que foi fraude. Se Bolsonaro tentou permanecer no
poder, dizem que foi vítima. Se o Supremo condena, dizem que há ditadura. Se
Flávio herda o espólio político do pai, dizem que é renovação.
A
mentira deixou de ser instrumento ocasional. Virou sistema de crença. O
bolsonarismo sobrevive porque não depende apenas de Bolsonaro. Ele se tornou um
ecossistema: redes digitais, canais de desinformação, lideranças religiosas,
ressentimento antipolítico, nostalgia militar, ódio ao PT, medo social,
interesses econômicos e submissão ideológica ao trumpismo.
É essa
engrenagem que mantém vivo um projeto derrotado nas urnas, desmoralizado pelos
fatos e condenado pela Justiça.
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A elite diante do impasse
Há
também uma contradição essencial no comportamento das elites brasileiras. Elas
não querem a volta do bolsonarismo tosco em sua forma mais descontrolada. Mas
também não querem Lula.
Rejeitam
a desordem explícita, mas temem qualquer projeto de distribuição de renda,
fortalecimento do Estado, soberania nacional e recomposição de direitos. Dizem
temer o autoritarismo, mas frequentemente se mostram mais incomodadas com
políticas sociais do que com ameaças à democracia. É nesse intervalo que Flávio
Bolsonaro tenta crescer.
Ele
oferece ao mercado e a setores conservadores uma promessa sedutora: manter o
conteúdo essencial do bolsonarismo, mas reduzir o ruído; preservar a agenda de
submissão internacional, guerra cultural, ataque às instituições e concentração
econômica, mas com aparência menos explosiva.
Não é
moderação. É maquiagem. A elite que se diz assustada com Jair Bolsonaro pode
acabar flertando com Flávio Bolsonaro pelo mesmo motivo de sempre: prefere o
risco autoritário ao risco democrático de um governo popular fortalecido.
Esse é
o velho drama brasileiro. Quando a democracia amplia direitos, parte das elites
começa a procurar atalhos. Quando o voto popular ameaça a concentração de
renda, a soberania nacional ou os privilégios históricos, o autoritarismo passa
a ser tratado como “alternativa”.
Primeiro
com constrangimento. Depois com naturalidade.
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A escolha real
A
sequência BTG/Nexus–Atlas/Bloomberg mostra que 2026 começa a se organizar em
torno de uma pergunta grave: o Brasil será capaz de transformar a condenação
judicial do golpismo em derrota política do golpismo? Até agora, a resposta
está longe de estar garantida.
A
condenação de Bolsonaro foi uma vitória institucional enorme. Mas a pesquisa
mostra que a sentença não bastou para desarmar a base social da extrema
direita. O bolsonarismo continua vivo porque é mais do que Bolsonaro. É um
ecossistema de ressentimento, religião instrumentalizada, desinformação,
antipetismo, militarismo, nostalgia autoritária e submissão ao trumpismo.
É por
isso que o empate entre Lula e Bolsonaro pai, somado ao empate entre Lula e
Bolsonaro filho, não pode ser tratado como rotina de pré-campanha. É um alarme.
A democracia brasileira derrotou o golpe nas urnas. Depois, derrotou o golpe no
Supremo.
Mas
ainda terá de derrotá-lo no território mais difícil: a consciência política de
uma sociedade dividida, intoxicada e bombardeada diariamente por uma máquina de
mentira. A eleição de 2026 não será apenas uma disputa entre Lula e Flávio
Bolsonaro. Será uma escolha entre a democracia e sua simulação autoritária.
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Pesquisam mostram que o golpe ainda respira
Entre
um presidente que chegou ao poder pelo voto, respeitou o resultado das urnas e
tenta concluir sua biografia política com a marca da reconstrução nacional, e
um herdeiro de um projeto que tentou impedir a posse do vencedor, atacou as
instituições e agora tenta voltar pela porta da frente com o sobrenome do
golpe.
A
pergunta, portanto, não é apenas por que Bolsonaro ainda tem 45%.
A
pergunta é mais profunda: como uma sociedade que viu a tentativa de golpe, viu
a condenação do líder golpista e viu a máquina autoritária operar por dentro do
Estado ainda admite reconduzir esse mesmo projeto ao poder, agora pela mão do
filho?
A
resposta talvez esteja na própria doença política do nosso tempo.
O
bolsonarismo perdeu a eleição. Perdeu no Supremo. Perdeu a máscara democrática.
Mas ainda não perdeu a capacidade de organizar medo, ódio e revanche em escala
nacional.
É esse
o desafio de Lula. É esse o desafio da democracia. E é esse o verdadeiro
sentido das pesquisas divulgadas nos últimos dois dias. Elas não mostram apenas
uma eleição apertada.
Mostram
que o golpe ainda respira.
• Tereza Cruvinel: Contra a normalização
do golpismo
A
extrema direita e o Centrão tramam para a derrubada do veto presidencial ao PL
da Dosimetria, que abranda penas para golpistas e também para condenados por
crimes hediondos e de feminicídio. Se forem vitoriosos, estarão impondo ao
Brasil democrático um repique afrontoso do próprio golpe. Não sua repetição
como farsa, pois isso representará, de fato, a anulação dos esforços feitos até
agora para responder adequadamente à tentativa de ruptura da ordem democrática.
E não falo apenas dos esforços do STF com o julgamento e condenação dos
golpistas, mas de tudo que todos nós fizemos, em todos os espaços, com os
menores ou os maiores gestos, para repudiar o golpismo e decretar seu
banimento.
Este é
o fato grave da semana, embora as atenções de hoje estejam voltadas para o
Senado, onde o AGU Jorge Messias será sabatinado na CCJ e, se aprovado lá,
ainda terá seu nome apreciado pelo plenário. Acredito que ele será aprovado,
mas por um quórum apertado. Talvez tenha menos de 50 votos, quando são
necessários 41. De todo modo, a questão do veto é mais preocupante, por seu
grave significado para o futuro da democracia.
A
eventual derrubada do veto fará com que a tolerância ao golpismo seja inscrita
na própria lei. Teremos o direito a serviço do autoritarismo, e não como meio
de sua contenção. Regimes onde isso acontece são chamados por alguns autores de
democracias iliberais. Outros falam em legalidade autoritária.
Certo é
que a complacência com o golpismo estará legalizada. A lei que foi votada no
ano passado, como resposta mitigada à anistia pedida pelo bolsonarismo, teve os
pontos mais aberrantes vetados pelo presidente Lula. Ela não se destinou apenas
a abrandar as penas aplicadas aos golpistas de 8 de janeiro, e a beneficiar, de
quebra, os facínoras e autores de crimes infames. Ela buscou inscrever em lei
que golpes de Estado, aqui, não constituem crime grave e intolerável, e que não
devem ser reservados a seus autores a mais severas penas do Código, como
acontece em democracias que se prezam.
Derrubando
os vetos, o Congresso, em sessão bicameral, não estará apenas legislando sobre
técnica penal. Estará criando um novo e perigoso “normal”, agravado pelo
contexto atual, em que as instituições da democracia são alvo permanente de
tentativas de desmoralização e esvaziamento, quiçá de fechamento. E não por
acaso, mas por ter sido o executor do julgamento e das condenações, o Supremo é
a instituição mais atacada neste momento.
Os que
defendem a derrubada do veto fazem discursos inflamados falando em garantia dos
direitos, em direito de defesa, em julgamentos arbitrários, em penas excessivas
e desproporcionais. Tudo isso foi observado e não é com isso que estão deveras
preocupados. O que desejam é evitar que se consolide uma legislação e uma
jurisprudência francamente refratária a golpes e violações do Estado de
Direito.
Entre
os pontos que a direita parlamentar deseja mudar pela derrubada de vetos está o
artigo que prevê a soma das penas para os diversos crimes cometidos pelo
condenado no processo golpista, como fez o STF no julgamento da tentativa de
golpe bolsonarista. Querem fazer valer apenas a pena para o crime mais grave
cometido. Querem restabelecer um tal crime de multidão, que anistiaria os
vândalos que depredaram os palácios dos Três Poderes em 8 de janeiro. Querem
quase perdoar aqueles que não tiveram, ou não venham a ter em futuros golpes,
papel de liderança. Como se define o papel de liderança? Aqui está uma brecha
larga para a impunidade de conspiradores.
De
quebra, querem premiar também os facínoras. Matador de mulher, com a derrubada
do veto, passaria a merecer a progressão de regime a partir do cumprimento de
55% da pena (e não 75%, como prevê a lei atual contra o feminicídio. Autores de
crime hediondos hoje só progridem de regime após o cumprimento de 70% da pena,
o que cairia para 40% com a derrubada do veto de Lula.
Por
tudo isso digo que planejam para amanha um repique do golpe. Vivemos, como diz
o jurista Lênio Streck, “num estado permanente de golpismo”. Mas desta vez
estamos todos sabendo do que está planejado. De hoje para amanhã, há tempo para
dizer em letras maiúsculas nas redes sociais, que eles sabem ouvir e ler: NÃO À
DERRUBADA DOS VETOS! NÃO À INDULGÊNCIA GOLPISTA. Bem, não sei fazer boas
hastags mas não falta quem seja bom nisso.
Fonte:
Brasil 247

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