sexta-feira, 1 de maio de 2026

Gustavo Tapioca: Pesquisas mostram que o golpe ainda respira

Há pesquisas que medem intenção de voto. E há pesquisas que medem o estado de uma democracia. A Atlas/Bloomberg divulgada nesta terça-feira, 28 de abril, pertence ao segundo grupo. No cenário em que os candidatos de 2022 são novamente apresentados ao eleitor, Lula aparece com 45,2% e Jair Bolsonaro com 45,0%.

A diferença é irrelevante do ponto de vista estatístico. Mas é devastadora do ponto de vista político. A pergunta feita ao eleitor era simples: “se as eleições presidenciais fossem acontecer no próximo domingo e se os candidatos fossem os mesmos de 2022, inclusive Lula e Bolsonaro, em quem você votaria?”

A resposta é um retrato brutal do Brasil de 2026. Mesmo condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses de prisão por crimes ligados à tentativa de golpe de Estado, Bolsonaro continua aparecendo no mesmo patamar eleitoral do presidente que o derrotou nas urnas em 2022 e tomou posse em 1º de janeiro de 2023.

O dado é estarrecedor. Mas não é inexplicável. Ele mostra que a democracia brasileira venceu juridicamente o golpe, mas ainda não derrotou socialmente a mentalidade golpista.

<><> “Realidade estarrecedora”

Não por acaso, a repercussão foi imediata. Em análise publicada pela TV Fórum no próprio dia da divulgação da pesquisa, Antonio Mello definiu o resultado da Atlas/Bloomberg como a revelação de uma “realidade estarrecedora” sobre a política brasileira. A expressão é precisa.

O estarrecedor não está apenas no empate técnico entre Lula e Jair Bolsonaro em um cenário hipotético de repetição de 2022. Está no fato de que, mesmo condenado, inelegível e identificado juridicamente como líder de uma trama golpista, Bolsonaro continua funcionando como referência eleitoral para quase metade do país.

A pesquisa não mede apenas nostalgia eleitoral. Mede a profundidade da intoxicação política produzida pela extrema direita. Mostra que a condenação judicial do golpismo não foi suficiente para dissolver sua base social. Ao contrário: em parte dela, a sentença foi convertida em prova de perseguição, combustível de martírio e instrumento de mobilização.

<><> A condenação virou combustível

Em uma democracia menos intoxicada, a condenação de um ex-presidente por crimes ligados à tentativa de ruptura institucional deveria significar o encerramento de sua viabilidade política. No Brasil de 2026, porém, a sentença não eliminou Bolsonaro do imaginário de seus seguidores. Produziu, em parte da base radicalizada, o efeito inverso.

Bolsonaro deixou de ser apenas o ex-presidente derrotado. Passou a ocupar o lugar de mártir. A extrema direita aprendeu, com Donald Trump, a converter derrota em fraude, investigação em perseguição, condenação em prova de grandeza e prisão em certificado de autenticidade política.

A justiça deixa de ser justiça. Vira “sistema”. A sentença deixa de ser sentença. Vira “vingança”. O crime deixa de ser crime. Vira “narrativa”. É assim que um condenado por atentar contra a democracia ainda aparece empatado com o presidente que derrotou o golpe nas urnas.

Bolsonaro não sobrevive eleitoralmente apesar da condenação. Sobrevive, em parte de sua base, também por causa dela. Esse é o mecanismo central da política extremista contemporânea. O líder não perde força quando é acusado, julgado ou condenado. Ele tenta transformar cada etapa da responsabilização institucional em espetáculo de perseguição.

Não responde aos fatos. Substitui os fatos por uma mitologia. Foi assim com Trump. É assim com Bolsonaro. O resultado está na pesquisa: o golpe perdeu no Supremo, mas ainda respira na sociedade.

<><> O pai como mito, o filho como instrumento

Mas há outro dado, ainda mais importante para 2026. Bolsonaro pai está condenado, inelegível e preso. Bolsonaro filho aparece como a tradução eleitoral possível desse mesmo campo político. Na véspera da Atlas, a pesquisa BTG/Nexus já havia mostrado Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados em eventual segundo turno: 46% para Lula e 45% para Flávio.

A diferença era pequena, dentro da margem de erro. Mas o sinal político era claro: Flávio deixava de ser apenas herdeiro simbólico do bolsonarismo para se apresentar como adversário real de Lula numa disputa presidencial.

No dia seguinte, a Atlas/Bloomberg reforçou o alerta: Lula e Flávio aparecem novamente em empate técnico, agora com Flávio numericamente à frente por apenas 0,3 ponto percentual — 47,8% a 47,5%, diferença dentro da margem de erro. A diferença não autoriza triunfalismo de nenhum lado. Mas confirma uma tendência essencial: a transferência do capital político de Jair Bolsonaro para Flávio Bolsonaro está em curso.

O pai permanece como mito de mobilização. O filho surge como instrumento eleitoral. Jair Bolsonaro concentra o ressentimento, a narrativa de perseguição, o ódio ao sistema, a recusa da derrota, a memória do golpe e a promessa de revanche.

Flávio Bolsonaro oferece a embalagem eleitoral: menos tosco no tom, mais palatável para setores do mercado, mais aceitável para elites que têm horror a Lula, mas também receio do bolsonarismo original em estado bruto. É a mesma mercadoria política em embalagem nova.

Essa é a diferença fundamental. Jair Bolsonaro representa a ruptura aberta, o confronto frontal com o resultado das urnas, a recusa da alternância democrática e a tentativa de permanecer no poder apesar da derrota.

Flávio Bolsonaro tenta oferecer uma versão administrável desse patrimônio político: o sobrenome, a base radicalizada, a guerra cultural, a aproximação com o trumpismo e a promessa de restauração do bolsonarismo no comando do Estado.

Não é uma candidatura autônoma. É uma candidatura de sucessão dinástica. Mais do que isso: é uma candidatura de restauração.

<><> A filial brasileira do trumpismo

Como publicamos recentemente no Brasil 247, a disputa que se desenha não é simplesmente entre Lula e Flávio Bolsonaro. É entre Lula e a filial brasileira do trumpismo.

Lula representa, com todas as contradições de uma frente ampla, a preservação do pacto democrático, a defesa da soberania nacional, a reconstrução social e a negociação política como método de governo.

Flávio Bolsonaro representa a sucessão dinástica de um projeto derrotado nas urnas, condenado no Supremo e ainda vivo nas redes, nos púlpitos, nos quartéis nostálgicos, nos grupos de WhatsApp, no mercado mais predatório e nas conexões internacionais da extrema direita.

A candidatura de Flávio tem uma função objetiva: preservar o pai como símbolo e oferecer ao sistema político uma candidatura formalmente viável para carregar o mesmo conteúdo histórico.

Bolsonaro pai é o mártir. Bolsonaro filho é o operador. Trump é o espelho externo. Lula é o obstáculo histórico. Essa é a fórmula.

Por isso, a aproximação entre Lula e Flávio nas pesquisas não pode ser lida como uma disputa eleitoral convencional. Ela indica que o bolsonarismo encontrou uma forma de sobreviver à condenação do chefe: transformar a punição judicial em combustível político e a herança familiar em projeto presidencial. A extrema direita não está apenas procurando um candidato.

Está tentando preservar uma linhagem de poder.

<><> O Brasil não esqueceu o golpe — parte dele o incorporou

O dado mais duro da Atlas não é apenas Bolsonaro aparecer empatado com Lula. É o que esse empate revela. O Brasil não esqueceu o golpe. Uma parte do país o incorporou como identidade política.

Para milhões de eleitores, o 8 de janeiro não foi um ataque à democracia. Foi tratado como revolta legítima. A trama golpista não foi vista como crime. Foi reinterpretada como resistência. A condenação de Bolsonaro não foi absorvida como responsabilização institucional. Foi convertida em prova de perseguição.

A extrema direita não disputa apenas votos. Disputa a interpretação da realidade. Se Lula venceu em 2022, dizem que foi fraude. Se Bolsonaro tentou permanecer no poder, dizem que foi vítima. Se o Supremo condena, dizem que há ditadura. Se Flávio herda o espólio político do pai, dizem que é renovação.

A mentira deixou de ser instrumento ocasional. Virou sistema de crença. O bolsonarismo sobrevive porque não depende apenas de Bolsonaro. Ele se tornou um ecossistema: redes digitais, canais de desinformação, lideranças religiosas, ressentimento antipolítico, nostalgia militar, ódio ao PT, medo social, interesses econômicos e submissão ideológica ao trumpismo.

É essa engrenagem que mantém vivo um projeto derrotado nas urnas, desmoralizado pelos fatos e condenado pela Justiça.

<><> A elite diante do impasse

Há também uma contradição essencial no comportamento das elites brasileiras. Elas não querem a volta do bolsonarismo tosco em sua forma mais descontrolada. Mas também não querem Lula.

Rejeitam a desordem explícita, mas temem qualquer projeto de distribuição de renda, fortalecimento do Estado, soberania nacional e recomposição de direitos. Dizem temer o autoritarismo, mas frequentemente se mostram mais incomodadas com políticas sociais do que com ameaças à democracia. É nesse intervalo que Flávio Bolsonaro tenta crescer.

Ele oferece ao mercado e a setores conservadores uma promessa sedutora: manter o conteúdo essencial do bolsonarismo, mas reduzir o ruído; preservar a agenda de submissão internacional, guerra cultural, ataque às instituições e concentração econômica, mas com aparência menos explosiva.

Não é moderação. É maquiagem. A elite que se diz assustada com Jair Bolsonaro pode acabar flertando com Flávio Bolsonaro pelo mesmo motivo de sempre: prefere o risco autoritário ao risco democrático de um governo popular fortalecido.

Esse é o velho drama brasileiro. Quando a democracia amplia direitos, parte das elites começa a procurar atalhos. Quando o voto popular ameaça a concentração de renda, a soberania nacional ou os privilégios históricos, o autoritarismo passa a ser tratado como “alternativa”.

Primeiro com constrangimento. Depois com naturalidade.

<><> A escolha real

A sequência BTG/Nexus–Atlas/Bloomberg mostra que 2026 começa a se organizar em torno de uma pergunta grave: o Brasil será capaz de transformar a condenação judicial do golpismo em derrota política do golpismo? Até agora, a resposta está longe de estar garantida.

A condenação de Bolsonaro foi uma vitória institucional enorme. Mas a pesquisa mostra que a sentença não bastou para desarmar a base social da extrema direita. O bolsonarismo continua vivo porque é mais do que Bolsonaro. É um ecossistema de ressentimento, religião instrumentalizada, desinformação, antipetismo, militarismo, nostalgia autoritária e submissão ao trumpismo.

É por isso que o empate entre Lula e Bolsonaro pai, somado ao empate entre Lula e Bolsonaro filho, não pode ser tratado como rotina de pré-campanha. É um alarme. A democracia brasileira derrotou o golpe nas urnas. Depois, derrotou o golpe no Supremo.

Mas ainda terá de derrotá-lo no território mais difícil: a consciência política de uma sociedade dividida, intoxicada e bombardeada diariamente por uma máquina de mentira. A eleição de 2026 não será apenas uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Será uma escolha entre a democracia e sua simulação autoritária.

<><> Pesquisam mostram que o golpe ainda respira

Entre um presidente que chegou ao poder pelo voto, respeitou o resultado das urnas e tenta concluir sua biografia política com a marca da reconstrução nacional, e um herdeiro de um projeto que tentou impedir a posse do vencedor, atacou as instituições e agora tenta voltar pela porta da frente com o sobrenome do golpe.

A pergunta, portanto, não é apenas por que Bolsonaro ainda tem 45%.

A pergunta é mais profunda: como uma sociedade que viu a tentativa de golpe, viu a condenação do líder golpista e viu a máquina autoritária operar por dentro do Estado ainda admite reconduzir esse mesmo projeto ao poder, agora pela mão do filho?

A resposta talvez esteja na própria doença política do nosso tempo.

O bolsonarismo perdeu a eleição. Perdeu no Supremo. Perdeu a máscara democrática. Mas ainda não perdeu a capacidade de organizar medo, ódio e revanche em escala nacional.

É esse o desafio de Lula. É esse o desafio da democracia. E é esse o verdadeiro sentido das pesquisas divulgadas nos últimos dois dias. Elas não mostram apenas uma eleição apertada.

Mostram que o golpe ainda respira.

•        Tereza Cruvinel: Contra a normalização do golpismo

A extrema direita e o Centrão tramam para a derrubada do veto presidencial ao PL da Dosimetria, que abranda penas para golpistas e também para condenados por crimes hediondos e de feminicídio. Se forem vitoriosos, estarão impondo ao Brasil democrático um repique afrontoso do próprio golpe. Não sua repetição como farsa, pois isso representará, de fato, a anulação dos esforços feitos até agora para responder adequadamente à tentativa de ruptura da ordem democrática. E não falo apenas dos esforços do STF com o julgamento e condenação dos golpistas, mas de tudo que todos nós fizemos, em todos os espaços, com os menores ou os maiores gestos, para repudiar o golpismo e decretar seu banimento.

Este é o fato grave da semana, embora as atenções de hoje estejam voltadas para o Senado, onde o AGU Jorge Messias será sabatinado na CCJ e, se aprovado lá, ainda terá seu nome apreciado pelo plenário. Acredito que ele será aprovado, mas por um quórum apertado. Talvez tenha menos de 50 votos, quando são necessários 41. De todo modo, a questão do veto é mais preocupante, por seu grave significado para o futuro da democracia.

A eventual derrubada do veto fará com que a tolerância ao golpismo seja inscrita na própria lei. Teremos o direito a serviço do autoritarismo, e não como meio de sua contenção. Regimes onde isso acontece são chamados por alguns autores de democracias iliberais. Outros falam em legalidade autoritária.

Certo é que a complacência com o golpismo estará legalizada. A lei que foi votada no ano passado, como resposta mitigada à anistia pedida pelo bolsonarismo, teve os pontos mais aberrantes vetados pelo presidente Lula. Ela não se destinou apenas a abrandar as penas aplicadas aos golpistas de 8 de janeiro, e a beneficiar, de quebra, os facínoras e autores de crimes infames. Ela buscou inscrever em lei que golpes de Estado, aqui, não constituem crime grave e intolerável, e que não devem ser reservados a seus autores a mais severas penas do Código, como acontece em democracias que se prezam.

Derrubando os vetos, o Congresso, em sessão bicameral, não estará apenas legislando sobre técnica penal. Estará criando um novo e perigoso “normal”, agravado pelo contexto atual, em que as instituições da democracia são alvo permanente de tentativas de desmoralização e esvaziamento, quiçá de fechamento. E não por acaso, mas por ter sido o executor do julgamento e das condenações, o Supremo é a instituição mais atacada neste momento.

Os que defendem a derrubada do veto fazem discursos inflamados falando em garantia dos direitos, em direito de defesa, em julgamentos arbitrários, em penas excessivas e desproporcionais. Tudo isso foi observado e não é com isso que estão deveras preocupados. O que desejam é evitar que se consolide uma legislação e uma jurisprudência francamente refratária a golpes e violações do Estado de Direito.

Entre os pontos que a direita parlamentar deseja mudar pela derrubada de vetos está o artigo que prevê a soma das penas para os diversos crimes cometidos pelo condenado no processo golpista, como fez o STF no julgamento da tentativa de golpe bolsonarista. Querem fazer valer apenas a pena para o crime mais grave cometido. Querem restabelecer um tal crime de multidão, que anistiaria os vândalos que depredaram os palácios dos Três Poderes em 8 de janeiro. Querem quase perdoar aqueles que não tiveram, ou não venham a ter em futuros golpes, papel de liderança. Como se define o papel de liderança? Aqui está uma brecha larga para a impunidade de conspiradores.

De quebra, querem premiar também os facínoras. Matador de mulher, com a derrubada do veto, passaria a merecer a progressão de regime a partir do cumprimento de 55% da pena (e não 75%, como prevê a lei atual contra o feminicídio. Autores de crime hediondos hoje só progridem de regime após o cumprimento de 70% da pena, o que cairia para 40% com a derrubada do veto de Lula.

Por tudo isso digo que planejam para amanha um repique do golpe. Vivemos, como diz o jurista Lênio Streck, “num estado permanente de golpismo”. Mas desta vez estamos todos sabendo do que está planejado. De hoje para amanhã, há tempo para dizer em letras maiúsculas nas redes sociais, que eles sabem ouvir e ler: NÃO À DERRUBADA DOS VETOS! NÃO À INDULGÊNCIA GOLPISTA. Bem, não sei fazer boas hastags mas não falta quem seja bom nisso.

 

Fonte: Brasil 247

 

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