sexta-feira, 1 de maio de 2026

3 em cada 5 casos de câncer de fígado poderiam ser evitados, mostra estudo

A maioria dos casos de câncer de fígado poderia ser evitada com medidas como vacinação contra hepatites virais, redução do consumo de álcool e tratamento de doenças hepáticas. É o que indica um novo estudo publicado nesta segunda-feira (28) na revista científica The Lancet.

Projeções indicam que os números de casos de câncer de fígado quase duplicarão de 870 mil, em 2022, para 1,52 milhões em 2050, principalmente devido ao crescimento populacional e ao envelhecimento da população. A previsão é de que o número de mortes também cresça, de 760 mil, em 2022, para 1,37 milhão em 2050.

"O câncer de fígado é um problema de saúde crescente em todo o mundo. É um dos cânceres mais difíceis de tratar, com taxas de sobrevida de cinco anos variando de aproximadamente 5% a 30%. Corremos o risco de ver quase o dobro de casos e mortes por câncer de fígado no próximo quarto de século sem uma ação urgente para reverter essa tendência", afirma Jian Zhou, professor da Universidade de Fudan, na China, e presidente da Comissão Lancet, que realizou o estudo.

Segundo a nova análise, a estimativa é de que pelo menos 60% dos cânceres de fígado poderiam ser evitados por meio do controle de fatores de risco, como a vacinação contra a hepatite B, a prevenção contra hepatite C, controle da doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD) -- uma condição hepática de longo prazo causada pelo excesso de gordura no fígado -- e redução do consumo de álcool.

De acordo com os pesquisadores, a MASH (esteato-hepatite associada à disfunção metabólica), uma forma grave de MASLD, é a causa de câncer de fígado que mais cresce no mundo, seguida pelo abuso de álcool. O estudo projeta que a proporção de tumores hepáticos associados à MASH aumente de 8%, em 2022, para 11%, em 2050, e que os casos de câncer de fígado associados ao álcool aumentem de 19%, em 2022, para 21%, em 2050.

Por outro lado, espera-se que a proporção de casos de câncer associados à hepatite B e à hepatite C diminua de 39% e 29%, em 2022, para 37% e 26%, em 2050, respectivamente.

"Uma abordagem para identificar pacientes com alto risco de câncer de fígado seria introduzir a triagem de danos hepáticos, na prática de saúde de rotina para pacientes com alto risco de MASLD, como indivíduos que vivem com obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares", avalia o professor e autor Hashem B El-Serag, da Baylor College of Medicine, nos Estados Unidos.

"Os profissionais de saúde também devem integrar o aconselhamento sobre estilo de vida aos cuidados de rotina para apoiar os pacientes na transição para uma dieta saudável e atividade física regular. Além disso, os formuladores de políticas devem promover ambientes alimentares saudáveis por meio de políticas como impostos sobre o açúcar e rotulagem clara de produtos com alto teor de gordura, sal e/ou açúcar", completa.

Os autores do estudo estimam que, se os países puderem reduzir a incidência de casos de câncer de fígado em 2 a 5% a cada ano até 2050, isso poderá prevenir de nove a 17 milhões de novos casos de câncer de fígado e salvar de oito a 15 milhões de vidas.

<><> Gordura abdominal aumenta risco de câncer colorretal, mostra estudo

Além das doenças cardiovasculares e do diabetes, o câncer engrossa a lista de danos atrelados ao excesso de peso. Na literatura científica há vários trabalhos comprovando essa ligação.

Inclusive uma meta-análise (método que analisa resultados vindos de diversas pesquisas) revela que indivíduos com obesidade têm um risco de 25% a 57% maior de desenvolver câncer colorretal.

Outro estudo recente, publicado no periódico Jama Network, chama a atenção para o acúmulo de gordura na região da barriga, a chamada obesidade central, que estaria relacionada ao risco de tumores intestinais.

O trabalho foi realizado por pesquisadores alemães, que analisaram dados de 458.543 participantes do UK Biobank – pesquisa britânica que avalia condições de saúde de meio milhão de pessoas – com idades entre 40 e 69 anos.

“Esse artigo destaca a importância da medida da circunferência abdominal como parâmetro para avaliar o aumento do risco de câncer colorretal”, comenta a endocrinologista Cláudia Schimidt, do Einstein Hospital Israelita.

O excesso de gordura abdominal – entremeado nos órgãos – é considerado como um tecido endócrino, ou seja, que produz diversas substâncias, inclusive algumas pró-inflamatórias.

Há evidências de que pequenas e constantes inflamações podem desencadear danos celulares e o desenvolvimento do câncer. Também há indícios de que desequilíbrios hormonais, comuns na síndrome metabólica, contribuam para a gênese de tumores. Nesse sentido, estudos ainda apontam para um elo com a resistência à insulina, distúrbio relacionado com o desajuste no metabolismo da glicose.

“Hoje a obesidade é considerada como o segundo maior fator de risco evitável para o câncer”, afirma o oncologista Alexandre Palladino, chefe do setor de Oncologia Clínica do Instituto Nacional de Câncer (Inca). De acordo com estimativas, a obesidade só fica atrás do tabagismo.

<><> Para reduzir o risco

Daí que estratégias para prevenir a obesidade também podem contribuir para reduzir o risco de câncer, embora em ambos os casos a predisposição genética seja um fator importante.

O excesso de peso já se tornou uma espécie de epidemia em muitos países e a incidência continua em crescimento “Há a necessidade urgente de políticas de saúde públicas para intervenções eficazes”, diz a endocrinologista do Einstein. Ela ressalta que o ideal seria ter quadras, praças e parques seguros e disponíveis para a prática cotidiana de atividade física, por exemplo.

E existe comprovação científica de que combater o sedentarismo é fundamental para afastar todos os tipos de câncer.

<><> O que vai ao prato

Não custa reforçar que a alimentação saudável conta muitos pontos nesse contexto. Grande parte dos estudos recomenda priorizar itens vegetais e reduzir a carne vermelha no dia a dia. Um dos mais recentes, que aponta o elo com os bifes, foi publicado no periódico científico Frontiers in Medicine.

A dieta mediterrânea, recheada de hortaliças, grãos integrais, legumes, feijões, frutas, sementes, com espaço para lácteos magros e pescados, é um exemplo a ser seguido. Uma dica é optar por alimentos regionais e sazonais que, além de mais frescos e saborosos, tendem a ser mais nutritivos.

“Para reduzir o risco do câncer colorretal, as fibras são essenciais”, reforça o oncologista do Inca. Aliás, grande parte dos alimentos mencionados acima – à exceção dos laticínios e dos peixes – oferecem o nutriente que zela pela integridade do intestino.

Além de favorecer o trânsito intestinal, combatendo a constipação e reduzindo o contato de mucosas do órgão com moléculas perigosas, as fibras colaboram para a saúde da microbiota.

Diversos trabalhos mostram danos relacionados à disbiose, que é o desequilíbrio na população de bactérias, com maior concentração de micróbios patogênicos em comparação com os benéficos. Nesse cenário, a permeabilidade do intestino acaba prejudicada, permitindo que micro-organismos nocivos viajem pela circulação e desencadeiem inflamações, entre outros distúrbios.

As fibras, junto dos probióticos – leite e iogurtes com bactérias benéficas – favorecem a harmonia, ajudando a manter a população de micro-organismos responsáveis pelo metabolismo dos ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs). Há indícios, vindos de diversas pesquisas, de que esses compostos teriam ação anti-inflamatória e protegeriam as células intestinais.

Por fim, um recado importante é o de ficar em dia com o check-up. “As últimas diretrizes recomendam fazer a colonoscopia a partir dos 45 anos”, avisa Palladino. Para quem tem histórico familiar de câncer, vale conversar com seu médico e, se for o caso, antecipar o exame. O diagnóstico precoce é uma estratégia crucial para o sucesso no tratamento.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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