Saneamento:
assim age o racismo ambiental na Amazônia
O
saneamento básico no Brasil não é somente um desafio técnico ou orçamentário:
trata-se de uma profunda ferida social que revela um país ainda marcado por
desigualdades históricas, racismo estrutural e negligência institucional. Na
Amazônia, em particular, o déficit de infraestrutura sanitária representa mais
que ausência de políticas públicas: simboliza a continuidade de um modelo
excludente que desumaniza populações inteiras com base em sua origem étnica e
localização geográfica.
O
acesso à coleta e tratamento de esgotos; água potável; e a coleta e destinação
adequada de resíduos sólidos não podem ser desvinculados dos direitos humanos
fundamentais. A precariedade nesses serviços compromete a saúde, a educação, a
moradia, o meio ambiente e, por consequência, a cidadania plena de milhões de
brasileiros. No entanto, não se trata apenas de um problema de infraestrutura:
trata-se da forma como o Estado escolhe, consciente ou inconscientemente,
tratar diferentes grupos populacionais. A prova disso é que os locais onde
vivem as populações em processo de vulnerabilização social são os que mais
carecem dos serviços de saneamento básico.
Ao
analisarmos o saneamento à luz da teoria das capacidades de Amartya Sen
[economista e filósofo indiano, com importantes estudos a pobreza e o
subdesenvolvimento], percebemos que a ausência desses serviços básicos
compromete o desenvolvimento humano e social. Mas quando adicionamos à equação
a dimensão racial, o cenário se agrava. O conceito de racismo ambiental, como
apontam autores como Bullard, Selene e Filgueira, revela que as populações
negras, quilombolas, indígenas e ribeirinhas são desproporcionalmente mais
afetadas pelas mazelas ambientais e urbanas — não somente por ações diretas,
mas também por omissões sistemáticas do poder público.
O
racismo ambiental se manifesta quando comunidades não-brancas são submetidas a
viver em áreas degradadas, sem acesso a recursos essenciais. Como bem aponta
Milton Santos, essa lógica é também espacial: o território é usado como
marcador de exclusão. A periferia urbana e a zona rural se tornam territórios
de sacrifício, nos quais o Estado age menos — ou age em favor do capital,
promovendo deslocamentos forçados e negligência institucional.
No
Pará, os dados confirmam o que os olhos veem: municípios com as piores taxas de
acesso à água potável e esgotamento sanitário têm população majoritariamente
negra. Essa realidade se repete tanto nos menores municípios quanto nos mais
populosos. A ausência de políticas para a zona rural, agrava ainda mais a
exclusão, ao privilegiar áreas com maior potencial de retorno econômico.
O
modelo de desenvolvimento imposto à Amazônia, desde o período colonial até o
atual ciclo de grandes obras e exportações de commodities, tem sistematicamente
deslocado e empobrecido suas populações originárias. A modernização, neste
contexto, tem sido uma cortina de fumaça para aprofundar desigualdades e
transferir riqueza para fora da região. Como lembra Violeta Loureiro, a
Amazônia segue sendo tratada como “celeiro da nação” enquanto sua população
permanece excluída dos direitos mais elementares.
A
realidade amazônica, marcada por desapropriações, migrações forçadas e
urbanização caótica, resulta em um quadro alarmante de injustiça ambiental.
Famílias negras e indígenas são alocadas em áreas sem qualquer infraestrutura,
tornando-se alvos fáceis da degradação ambiental e da violência urbana. E o
Estado, ao ignorar a especificidade dessas populações, contribui ativamente
para esse ciclo de exclusão. Quando não é obrigada a migrar, convive com a
violência no campo, capitaneada por grandes prioritários de terras. Enfrentam o
garimpo ilegal em terras indígenas e áreas de preservação ambiental com uso de
mercúrio e outras substâncias tóxicas. Tudo isso associado ao trabalho análogo
à escravidão, tráfico de pessoas e exploração sexual.
É
preciso, portanto, descolonizar o pensamento e reconstruir as políticas
públicas sob uma perspectiva verdadeiramente inclusiva. Isso exige reconhecer
que o saneamento é, antes de tudo, uma questão de dignidade humana. E que todas
as pessoas, independentemente da capacidade de pagamento e dos locais e
condições de moradia, têm pleno direito a acessar o saneamento básico.
A
pergunta que se impõe, diante de tanta evidência, é: estamos dispostos a
cartografar, nomear e enfrentar o racismo ambiental no saneamento básico? Ou
continuaremos a mascarar a injustiça sob o véu da tecnocracia?
A
resposta exigirá coragem política, compromisso ético e ruptura com um modelo de
desenvolvimento que, até hoje, produz riqueza para poucos e miséria para
muitos. Enquanto isso não acontecer, o saneamento seguirá sendo um espelho
cruel de quem somos — e de quem escolhemos deixar para trás.
Fonte:
Por Luiz Alberto Rocha, em Outras Palavras

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