quinta-feira, 24 de julho de 2025

Jornal britânico chama Trump de 'imperador do Brasil' e diz que ele ajuda mais Lula que Bolsonaro

O colunista do Financial Times (FT) Edward Luce publicou nesta terça-feira (22/07) um artigo intitulado "Trump, Imperador do Brasil", no qual faz duras críticas à imposição de tarifas de 50% contra o Brasil pelo governo de Donald Trump.

Para Luce, que é colunista e editor do jornal britânico, um dos padrões da política comercial de Trump tem sido o que ele chama de "incontinência imperial".

"Para ele [Trump], tarifas são algo lindo. Elas lhe dão poder sobre o acesso do resto do mundo ao vasto mercado consumidor dos EUA", escreve o colunista.

Luce diz que Trump está atuando para "promover autocracias", o que deixa "democracias-irmãs [como o Brasil] compreensivelmente alarmadas".

O jornalista traz como exemplo a Turquia, que apesar de ser superavitária em relação aos EUA, foi atingida por uma tarifa de apenas 10%.

"Não é pecado aos olhos de Trump que Erdogan [presidente da Turquia] tenha recentemente prendido vários prefeitos da oposição, incluindo Ekrem İmamoğlu, de Istambul, seu provável oponente presidencial. A inclinação de Erdogan para a autocracia pode até ter levado o presidente dos EUA a ter uma visão mais favorável da Turquia", escreveu o colunista.

"Isso ocorre apesar do fato de os EUA terem um déficit comercial com a Turquia, diferentemente de com o Brasil."

Para Luce, quando o governo Trump justifica as tarifas criticando as investigações e o processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, está "punindo o sistema legal de uma democracia-irmã por aplicar a lei".

De acordo com o colunista, os paralelos entre Trump e Bolsonaro são evidentes — "a diferença é que Bolsonaro está sendo responsabilizado" na Justiça, argumenta.

Além de Trump, Luce critica também a postura do secretário de Estado americano, Marco Rubio.

O texto lembra que Rubio anunciou a revogação do visto americano de Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) que é relator da ação penal em curso contra Bolsonaro e de outras investigações.

"O mundo presta atenção ao que os Estados Unidos fazem, não ao que dizem. Mas se existe um farol liberal democrático hoje em dia na área de Rubio, ele vem de Brasília e Ottawa. Por enquanto, Washington está fora", escreveu o colunista.

Ao se referir à capital canadense, Edward Luce traz o país vizinho aos EUA como um dos exemplos em que a guerra tarifária americana acaba contribuindo para a popularidade dos mandatários — como a de Lula.

"Em queda nas pesquisas? Rumo ao esquecimento eleitoral? Mark Carney, do Canadá, Anthony Albanese, da Austrália, e agora Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, têm uma solução para você. Faça com que Donald Trump lance uma guerra comercial contra o seu país. Poucas coisas unem os eleitores em torno da bandeira mais rápido do que um ataque de uma superpotência às suas receitas", ironiza o colunista.

Edward Luce, que já chefiou escritórios do FT em Washington e no sul da Ásia, diz que embora Trump se orgulhe de sua própria imprevisibilidade, esse é um de seus padrões.

"(...) Mesmo nos termos mercantilistas de Trump, suas ações não fazem sentido. Os Estados Unidos têm um superávit comercial com o Brasil. O país de Lula deveria, portanto, ter sido isento das tarifas do 'dia da libertação' de Trump", argumentou o colunista.

Se o objetivo das tarifas contra o Brasil fosse não econômico, como ajudar um colega seu "homem forte"— no caso, Bolsonaro —, ainda faltaria lógica, argumenta Luce.

"Entre as principais vítimas de uma tarifa americana de 50% sobre o Brasil estariam os pecuaristas e os exportadores de café do país. Ambos os setores são redutos de Bolsonaro. Trump está, portanto, ajudando Lula, não Bolsonaro. Não é surpresa que a sorte de Lula tenha sido recuperada", escreveu o colunista.

Para ele, os conselheiros de Trump para políticas protecionistas é que deveriam estar se colocando mais de frente ao presidente americano.

"Se eles conseguirem ser ouvidos, poderão apontar que Trump está atrapalhando sua própria agenda. Na visão deles, as tarifas visam aumentar a capacidade interna dos EUA. Trump, por outro lado, usa essa ferramenta para tudo o que lhe agrada. E, olha, homens durões o agradam."

¨      Tarifaço dos EUA pode desequilibrar mercado interno no Brasil, alerta Wellington Dias

O tarifaço de 50% anunciado pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros pode resultar em redução momentânea de preços para alguns alimentos no mercado interno brasileiro. No entanto, se, por um lado, isso pode ser positivo para o consumidor, com uma inflação menor para os alimentos, por outro pode desestimular produtores – o que, também, seria prejudicial para o país, disse nesta terça-feira (22/07) o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias.

A afirmação foi feita durante o Bom Dia, Ministro, programa produzido pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

Segundo Dias, nesse contexto o desafio do governo é o de trabalhar para garantir preço adequado de alimentos ao consumidor e também ao produtor.

“É buscar um preço adequado. Essa é a nossa missão”, disse o ministro.

<><> Tarifaço

Recentemente, o presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou o aumento tarifário a ser aplicado a partir de 1º de agosto sobre produtos brasileiros exportados para os EUA.

Nas manifestações, Trump tem associado a medida a supostas desvantagens comerciais na relação entre os dois países e, também, à forma como as investigações contra o ex-presidente Jair Bolsonaro têm sido conduzidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

<><> Influência momentânea

Perguntado sobre se a diminuição das exportações de produtos como laranja, café, carnes e frutas poderia resultar em um escoamento deles para o mercado interno, beneficiando o consumidor brasileiro, o ministro disse que sim, mas que o ideal é que essa redução de preços seja estimulada por outros fatores. Em especial, por uma maior competitividade da produção brasileira.

“As tarifas podem, sim, ter alguma influência momentânea [baixando a inflação dos alimentos], mas o que queremos é a redução dos preços por competitividade. Ou seja, pela capacidade de mais produção numa mesma área; por um financiamento com juros mais baixos. Esse é o ganho que queremos alcançar”, disse o ministro.

“Mas veja bem: assim como a gente quer proteger o consumidor nessa tarefa, temos de proteger o produtor. Caso contrário desestimularíamos a produção. Nesse caso, precisamos ter equilíbrio”, acrescentou.

De acordo com o ministro, a estratégia do governo é a de, por meio da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) e de algumas pastas ministeriais, buscar alternativas de mercado, de forma a ajudar produtores como, por exemplo, os de mel, frutas e carne.

<><> Investigação

Wellington Dias lembrou da boa relação histórica entre Brasil e Estados Unidos e reiterou que, comercialmente, essa relação sempre foi favorável aos norte-americanos. “Compramos mais do que vendemos para os EUA”, disse ele ao desmentir as alegações apresentadas por Trump, de que seu país estaria sendo prejudicado comercialmente na relação entre os dois países.

“O que o presidente Trump está fazendo não tem nada a ver com medida econômica ou comercial. Na verdade, são ataques especulativos fora do contexto. Por isso acho que tem que ter uma investigação internacional, e que os países atacados devem se proteger nessa direção, claro, mantendo a diplomacia e o diálogo”, argumentou o ministro.

Dias lembrou que tanto o Supremo Tribunal Federal como a Justiça norte-americana abriram investigações em meio à confirmação de que “espertos foram avisados antes”, e compraram dólar anteriormente ao anúncio, obtendo lucros bilionários.

¨      Senador republicano diz que quer destruir o Brasil

A bola da vez dos ataques dos EUA ao Brasil é a guerra entre Rússia e Ucrânia. O Senador Lindsey Graham, republicano eleito pelo estado da Carolina do Sul, afirmou em uma entrevista à Fox News na segunda-feira que os Estados Unidos vão “esmagar” as economias do Brasil, da China e da Índia.

A declaração veio em tom de um ultimato para que os países deixem de comprar o petróleo russo. Essa figura asquerosa da extrema direita americana declarou mais uma ameaça de ofensiva contra o Brasil e os países que compõem o BRICS, parte das pressões que Donald Trump está fazendo a Vladimir Putin e à Rússia pelo fim da guerra em 50 dias. O senador, que foi um militar nos anos 80 das forças aéreas, afirmou o seguinte para o canal de televisão: “Vamos impor tarifas pesadas contra vocês e vamos esmagar as suas economias, porque o que vocês estão fazendo é dinheiro manchado de sangue.”

Todos sabemos que a demagogia de Donald Trump e da OTAN é escancarada. Trump mancha de sangue as ruas da Califórnia com a polícia e o ICE, e mancha de sangue a Palestina financiando os bombardeios de Israel. É surreal imaginar que a maior potência imperialista do mundo, a única que já lançou uma bomba nuclear na história, buscaria justiça e paz quando na verdade busca a expansão de seus capitais, sendo para isso hoje o maior aliado de Israel e do sionismo. Nesse exato momento eles mantêm dois milhões de palestinos sobre fome e sede, atirando na cabeça dos palestinos que chegam perto dos recursos de ajuda humanitária. São mais de 70 mil mortos confirmados e 377 mil desaparecidos, segundo dados da Universidade de Harvard.

<><> Os interesses imperialistas no Brasil

Há pouco mais de uma semana, Donald Trump declarou 50% de tarifas aos produtos brasileiros se o Governo Lula e o STF não interrompessem o julgamento de Bolsonaro pela participação nas ações golpistas de dezembro de 2022 e janeiro de 2023. Essa tentativa de imposição pelo poder econômico, foi uma verdadeira tentativa de ingerência de Trump na política brasileira à moda antiga, como analisado neste artigo de Danilo Paris. Novamente, o Partido Republicano de Trump e Graham vem ameaçar mais uma vez a própria determinação do Brasil sobre a sua economia e política, o que significa mais um ataque do imperialismo buscando expandir seus mercados e influência política.

A resposta no Brasil e do Governo Lula foi de abraçar um discurso patriota, que rapidamente conformou uma frente com setores dos mais reacionários do país, exigindo conjuntamente “a defesa da soberania nacional”, discurso que veio tanto de Lula e do PT, como do Estadão, empresários do agronegócio e de partidos da direita e do centrão, como de deputados do PP. No Congresso dos Estudantes da UNE, em Goiânia, por sinal um dos centros agronegócio no país, Lula abusou das imagens nacionais e chamou o Trump de "gringo", com a burocracia da UJS/PCdoB gritando até mesmo que "A nossa bandeira é verde e amarela".

Há que se dizer, no entanto, que essa colaboração de classes é incapaz de realmente fazer frente ao imperialismo, apesar da retórica nacionalista momentânea. As classes dominantes brasileiras são subservientes ao imperialismo americano, hoje e no passado. O STF também foi parte da política imperialista durante a Lava Jato e o golpe de 2016, apoiados por Washington. A própria dívida pública, paga religiosamente por Lula e garantida pelo Arcabouço Fiscal, é um exemplo claro de ingerência imperialista no Estado brasileiro.

De conjunto, esse ataque busca mobilizar várias frentes em que os EUA buscam emplacar uma forte ofensiva imperialista, e que se choca no Brasil de outras formas além do lobby e pressão para salvar seu aliado político Bolsonaro. Pois, além de no contexto geral ser mais uma cartada para desmobilizar a Rússia e Putin e renovar seus votos com os interesses imperialistas da OTAN sobre a Ucrânia, é também um ataque contra o grupo de países dos BRICS. Além de buscar uma divisão interna e rechaço a economias que desafiam a hegemonia econômica e o alcance dos mercados americanos, assim como o dólar como moeda internacional.

<><> O cenário na Guerra da Ucrânia e no mundo

Essa política de Trump foi reforçada pela OTAN. Ambos os países, desde o início da guerra, investem armamento pesado e financiam o exército ucraniano. Aliás, o presidente da OTAN atestou e apoiou as ofensivas imperialistas de Trump da maneira mais constrangedora possível. Durante “A Guerra dos 12 dias”, disse que a intervenção de Trump no conflito Israel e Irã era fundamental e que “às vezes o papai tem que botar ordem na casa”. Agora, se pronuncia exigindo que as diplomacias da Índia, do Brasil e da China pressionem a Rússia para acabar com o conflito.

A invasão reacionária da Rússia na Ucrânia é uma das principais crises do equilíbrio capitalista. A guerra, junto com o genocídio na Palestina, são um dos principais fatores para o rápido rearmamento de potências como França e Inglaterra, buscando selar acordos a nível diplomático com interesses claros de defesa dos interesses imperialistas na Ucrânia. Diferente do que se pensava, a postura “pró-Rússia” de Trump caiu por terra e os EUA continuam travando uma batalha em nome do imperialismo pela região ao lado da OTAN, bem marcado pela encenação de Trump e Zelensky, com um primeiro ato na Casa Branca e o segundo no Vaticano, na cerimônia de morte do Papa Francisco.

A diminuição do preço do petróleo russo tem a ver com o conflito e a sua incapacidade de conclusão, além dessa taxação que reverbera-se nas ameaças de Graham ao Brasil. Entre esse jogo de aparências, Putin não consegue ter forças para encerrar o conflito, o que seria algo fundamental para o bonapartismo capitalista russo e sua influência e interesses de domínio da região contra o imperialismo na região da Ucrânia. E, como analisa Philippe Alcoy neste artigo, a estratégia anti-guerra de Trump que vem se mostrando um fracasso, e a partir disso, o presidente magnata acaba reproduzindo a mesma política de Biden que tanto condenava.

A mobilização contra o imperialismo e o genocídio em nosso tempo

É fundamental denunciar mais uma vez a ofensiva imperialista no Brasil e as ameaças do senador Graham, assim como a política trumpista. São sinais de mais ataques que os EUA querem realizar contra a classe trabalhadora brasileira, enquanto se acelera pelo mundo o rearmamento e o cenário de crises e guerras. A juventude, os trabalhadores e as populações oprimidas de todo o planeta buscam uma saída para as opressões de nosso tempo, como é a mobilização de milhões pelo mundo contra o genocídio na Palestina. É um momento em que é fundamental remobilizar os trabalhadores e os estudantes na rua exigindo o fim das guerras, embuído do sentimento da juventude contra a Guerra do Vietnã, e principalmente do genocídio na Palestina. É necessário organizar desde as bases um basta contra o imperialismo de Trump em colaboração com a extrema direita. É visível o reacionarismo da “internacional de extrema direita”, com políticos de países reféns dos ataques imperialistas, como Milei e Tarcísio, que apoiam a política de Trump e frequentemente visitam Israel, assim como fizeram os oito prefeitos brasileiros que foram a Israel no auge da ofensiva contra o Irã.

No entanto, o governo de Lula não apresenta um verdadeiro combate ao imperialismo. Os trabalhadores devem lutar contra Trump e sua tentativa de intervenção no Brasil, mas também pelo rompimento das relações com Israel e pelo fim da venda de petróleo para a máquina de guerra sionista, como tem denunciado o Sindipetro-RJ. Dessa forma, como vem se levantando os trabalhadores portuários na França, na Grécia e Itália; ou os estudantes nos EUA e no mundo todo pela Palestina, é necessário o crescimento de uma luta anticapitalista internacional para responder às ofensivas imperialistas que buscam degradar cada vez mais as condições de vida da classe trabalhadora em nome dos lucros dos bilionários.

 

Fonte: BBC News Brasil/Opera Mundi/Esquerda Diário

 

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