quinta-feira, 24 de julho de 2025

Ciro Gomes não vê o imperialismo… Só o rancor

Ciro Gomes, notável político, publicou em suas redes sociais (18/07/2025) um pequeno vídeo realizando um balanço sobre a atual conjuntura envolvendo os atores Lula, Bolsonaro e Trump. Em linhas gerais, suas reflexões chamam a atenção para o desemprego e a queda do PIB, que as tarifas anunciadas pelo governo Donald Trump, válidas a partir do dia 1º de agosto de 2025, trarão ao Brasil. Para Ciro, a culpa do tarifaço, imposto pelo imperialismo ianque, é do atual presidente Lula que, segundo ele, está utilizando este episódio para a promoção de sua campanha para 2026. Em linhas gerais, para o pensamento cirista o problema é eleitoral e não geopolítico. Tomaremos sua declaração como ponto de partida para reflexões sobre a atual situação do Brasil diante da economia-mundo.

Ciro erra. Pensar que as agressões do imperialismo ianque ao Brasil justificam-se pela polarização entre esquerda e direita é raciocinar com idealismo. Como o historiador Leo Humerman mostrou, em seu livro A história da riqueza do homem, o que, historicamente, faz com que uma moeda, de determinado país, seja colocada como universal no sistema de pagamento internacional, é a posse, via pilhagem, do ouro e da prata: “A Espanha foi, no século XVI, talvez o mais rico e poderoso país do mundo. Quando os homens inteligentes de outros países perguntavam a razão disso, julgavam encontrar a resposta nos tesouros que ela recebia das colônias. Ouro e prata. Quanto mais tivesse, tanto mais rico o país seria — o que se aplicava às nações e também às pessoas. O que fazia as rodas do comércio e indústria girarem mais depressa? Ouro e prata. O que permitia ao monarca contratar um exército para combater os inimigos de seu país? Ouro e prata. O que comprava a madeira necessária para fazer navios, ou o cereal para as bocas famintas, ou a lã que vestia o povo? Ouro e prata. O que tornava um país bastante forte para conquistar um país inimigo — que eram os ‘nervos da guerra’? Ouro e prata. A posse de ouro e prata, portanto, o total de barras que possuísse um país, era o índice de sua riqueza e poder” (Huberman,198, p. 130).

Dessa forma, foi a posse do ouro, em grande quantidade que, por exemplo, justificou a hegemonia da libra estrelinha durante o século XIX no sistema de pagamento internacional. Contudo, o que faz o dólar ser a moeda do sistema de pagamento internacional, atualmente? Segundo o acordo de Bretton Woods, ficou estabelecido que o dólar seria esta moeda seguindo o mesmo padrão-ouro que os sistemas de pagamentos anteriores. No entanto, a hegemonia dos Estados unidos rompe com o padrão moeda-ouro e passa a assumir o padrão dólar-dólar; trata-se do domínio do capital fictício (Marx, 1983) sobre as demais economias do sistema-mundo.

Sobre a hegemonia estadunidense, via globalização financeira, as palavras da saudosa economista Maria da Conceição Tavares são seminais. Diz ela: “O fenômeno da globalização financeira teve origem na ruptura do padrão monetário dólar-ouro (sistema de Bretton Woods) que foi o passo prévio que possibilitou a flutuação cambial e a mobilidade do capital financeiro. Este processo foi acelerado por um conjunto de políticas deliberadas dos EUA, que – a partir da forte reversão da liquidez internacional em sua direção, iniciada em fins de 1979, como resultado da ‘diplomacia do dólar’ – obrigaram o restante do mundo capitalista a liberalizar os fluxos internacionais de capital (a chamada desregulação financeira) e a financiar as crescentes dívidas pública e externa dos EUA. A liberalização dos mercados cambiais e financeiros e a elevação de patamar de juros internacional induziram por toda parte à adoção de políticas deflacionistas e inibidoras do crescimento, desorganizando parte da divisão regional do trabalho e provocando o desenraizamento da grande e da pequena indústria de muitos países, frequentemente deslocadas para áreas com condições momentaneamente mais favoráveis de produção e comercialização. A globalização financeira aumentou prodigiosamente os fluxos de capital financeiro desterritorializados (off-shore), sem registro na contabilidade dos bancos centrais” (Tavares, 2002, p. 24).

Penso, portanto, que a disputa pela moeda entre o Sul global, representado pelos Brics, contra a diplomacia do dólar, defendido pelos países da Otan, coloca-se no centro da discussão. A declaração do presidente Lula a respeito disso é pontual: “Eu acho que o mundo precisa encontrar um jeito de que a nossa relação comercial não precise passar pelo dólar. Quando for com os Estados Unidos, ela passa pelo dólar, mas quando for com a Argentina não precisa passar, quando for com a China não precisa passar, quando for com a Índia não precisa passar. Quando for com a Europa, discute-se em euro. Ninguém determinou que o dólar é a moeda-padrão. Em que fórum foi determinado?” (Lula, em discurso republicado pelo UOL, 2025)

A luta política pela moeda, portanto, é a luta geopolítica do século XXI. A luta pela técnica foi ganha pela China, atualmente a maior economia do mundo, combinando metamodo de produção e economia de projetamento (Jabbour; Gabriele, 2021). Trump sabe disso, não atoa reage de forma energética contra as insinuações dos Brics para a criação de uma moeda própria: “O Brics queria tentar dominar o dólar, o domínio do dólar, o padrão do dólar. E eu disse: qualquer um que esteja no consórcio de nações do Brics, vamos tarifar vocês em 10%. Eles tiveram uma reunião no dia seguinte, e quase ninguém apareceu. Eles não queriam ser tarifados, é incrível” (Trump, em discurso republicado pelo Globo, 2025).

Ciro Gomes desconsidera essa conjuntura geopolítica. Como os autores da teoria sistêmica, Braudel (1987) e Wallerstein (2001), aludiram, a economia mundial é dividida em Centro, Zonas Intermediárias e Periferia. Ao longo do século XX e até meados do XXI, os Estados Unidos mantiveram-se no Centro dessa economia através do que o geógrafo marxista, David Harvey (2004), chama de economia de espoliação, traço do novo imperialismo, onde dialética interior-exterior é traduzida na relação de exploração do outro seja por via de guerras, privatizações ou sanções econômicas.

Contudo, essa hegemonia está sendo contestada, em que pese os limites históricos, pelos países do Sul Global liderados pela China. O Brasil é uma potência regional, nesse sentido. Durante os governos Lula e Dilma, por exemplo, via BNDES1, e através de grandes programas como o PAC2 1 e 2 e o IIRSA3, subsidiou-se grandes obras na América Latina, o que ligou o sinal de alerta dos Estados Unidos levando, por conseguinte, a queda da presidenta Dilma Rousseff em 2016: “Os projetos de grande escala, como as hidrelétricas em construção no Brasil, no Peru e na Bolívia, ou as estradas, ferrovias e portos apresentados pelos governos como obras para o desenvolvimento e a integração nacional e sul-americana, são densos em investimento e, por isso, representam um modelo de intervenção no território, não apenas do Estado, mas também de grandes empresas, nacionais e internacionais” (Castro, 2012, p. 59).

Desse modo, não se pode desconsiderar o papel do imperialismo na luta de classes internas ao Brasil. Os ataques do governo Trump ao governo Lula são, no fundo, tentativas de minar a regionalização do Brasil enquanto potência na América Latina, similarmente ao que fizeram com as instalações nucleares iranianas. Mais que isso, incursões contra a influência chinesa na região, que assinou um acordo, junto ao Brasil, para a construção da Ferrovia entre Pacífico e Atlântico, ratificando o projeto de integração sul-americana, desta vez alicerçada à rota da seda, como estabelece o documento, redigido na última cúpula dos Brics: “Esperamos promover ainda mais o diálogo sobre transportes para atender às demandas de todas as partes interessadas e aprimorar o potencial de transporte dos países do Brics, respeitando, ao mesmo tempo, a soberania e a integridade territorial de todos os estados-membros no âmbito da cooperação em transportes, destacou o documento” (Declaração conjunta republicada pelo jornal Agência Brasil).

Ciro não menciona, mas o serviço que o bolsonarismo presta aos Estados Unidos é um serviço contra o país. O alinhamento do Brasil com os países do Brics, buscando novas rotas de comércio, é o que de fato anima a conspiração dos ianques. O bolsonarismo, pelo alinhamento ideológico, passa a ser, com isso, o catalizador dos interesses da burguesia nacional, e, ao mesmo tempo, do imperialismo dialeticamente à ela vinculado.

Em suma, a atual situação do Brasil vis a vis economia-mundo tem reflexos endógenos. As tarifas de Trump, como forma de chantagem ao governo Brasileiro para a anistiar os golpistas do 08 de janeiro, juntamente com o Bolsonaro, acompanham o adensamento interno da luta de classes. Penso que serão dias difíceis para a política nacional. Como lembra o sociólogo brasileiro Octavio Ianni (1988), a burguesia brasileira jamais tolerou ou preservou conquistas democráticas. Sob governos eleitos ou golpistas, civis, militares ou mesclado de militares e paisanos, sempre predominou na história do país o caráter autoritário do poder burguês: “[…] a verdade é que o autoritarismo predomina ao longo da história do Brasil […]. E subsiste a impressão de território ocupado; de povo conquistado. Subsiste a impressão de que os governantes são conquistadores” (Ianni, 1984, p. 21).

Assim, serão dias difíceis para a democracia brasileira; tentativas de golpes orquestradas pelos ianques; constrangimentos econômicos e diplomáticos; aumento da violência política ou mesmo militares, poderão ser as consequências futuras do país sob ameaça norte americana. Estamos passando por uma transição histórica onde o Sul Global, nos próximos anos (a China é o exemplo disso), será candidato ao Centro, ao passo que os atlantistas serão rebaixados à condição de periferia. Contudo, essa transição não será realizada sem o constrangimento e a violência dos Estados Unidos, financiando golpes de Estado e guerras – alinhados com a Otan – sobre os demais povos do mundo.

•        Nem Trump nem Lula querem acabar com essa briga. Por Alexander Busch

Já faz duas semanas que a briga entre o Brasil e os Estados Unidos sobe de tom quase todos os dias. Ela começou com a ameaça do presidente Donald Trump de impor uma tarifa de 50% a produtos importados do Brasil caso o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro não fosse encerrado.

A disputa ameaça virar a pior crise de política externa entre os dois países em um século. E por um motivo questionável: tanto Trump quanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva miram sobretudo ganhos políticos internos. As provocações calculadas beneficiam ambos, e ambos aceitam que haja danos econômicos colaterais.

Dá para resumir a disputa da seguinte maneira: Trump quer punir o Brasil, maior economia da América Latina, porque o país se volta cada vez mais para a China. Assim como já havia feito antes com a África do Sul, ele escolheu o mais fraco dos países do Brics para dar uma lição. Pois, ao contrário da China e da Índia, o Brasil praticamente não dispõe de opções para ameaçar os Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, Trump quer, com seu apoio a Bolsonaro, fortalecer os movimentos de extrema direita em todo o mundo.

Do lado brasileiro, Lula ganhou uma injeção de energia com o ataque de Trump. O presidente, um tanto enfraquecido no seu terceiro mandato, pôde puxar a carta da soberania nacional e rotular o clã Bolsonaro e apoiadores de traidores da pátria. A popularidade do petista, que andava em queda, voltou a subir.

<><> Efeitos

Ao fim, a conta vai ficar para os consumidores, sobretudo os mais pobres, tanto no Brasil como nos Estados Unidos. Num primeiro momento, porém, parece que os brasileiros vão pagar um preço mais alto, pouco importando no que esse imbróglio vai dar. Pois não são as tarifas ou sanções, mas sobretudo a reação de política econômica de Lula que mais pode afetar o Brasil no médio prazo.

Explico: os Estados Unidos querem elevar as tarifas para produtos brasileiros de exportação. Além de aço, petróleo e produtos agrícolas, isso atinge principalmente produtos industriais, como autopeças, motores elétricos e aviões. A Embraer, por exemplo, depende muito do mercado norte-americano. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos estão ameaçando os países que compram produtos da Rússia com sanções, e o Brasil importa diesel e fertilizantes da Rússia.

No Brasil, os investidores apostam que Trump, ao contrário do que anunciou, não vai impor uma tarifa de 50% em 1º de agosto. Afinal, se o suco de laranja, o café, a carne bovina e os jatinhos ficarem mais caros de uma hora para a outra, os mais prejudicados seriam os consumidores dos Estados Unidos.

<><> Resposta pode piorar quadro

Mas mesmo se essa tarifa for imposta, a consequência dela para a economia brasileira como um todo será bem pequena.

Bem piores, para a economia brasileira, seriam as consequências se o governo Lula resolver ajudar com subvenções os setores afetados pela tarifa de Trump – o governo já discute uma linha de crédito emergencial.

Lula percebeu a chance de melhorar a sua imagem entre empresários que, em sua maioria, apoiam políticos da direita, como Bolsonaro. Ele espera conseguir trazer para o seu lado uma parte do empresariado e do setor agroindustrial que tradicionalmente é conservadora.

Só que o aumento de gastos públicos, somado a um déficit já crescente, ameaça virar, no longo prazo, um fardo estrutural. Os juros iriam subir, o real iria se enfraquecer, e a inflação subiria.

Seria um retorno a uma mentalidade de política industrial que já custou caro para o Brasil no governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Ela também não conseguiu, com um programa bilionário de subvenções, garantir a simpatia do empresariado e levá-los a investir, e o preço que o Brasil pagou por essa política foram anos de estagnação.

 

Fonte: Por Marlon Kauã Silva Cardoso, em Outras Palavras/DW Brasil

 

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