Ciro
Gomes não vê o imperialismo… Só o rancor
Ciro
Gomes, notável político, publicou em suas redes sociais (18/07/2025) um pequeno
vídeo realizando um balanço sobre a atual conjuntura envolvendo os atores Lula,
Bolsonaro e Trump. Em linhas gerais, suas reflexões chamam a atenção para o
desemprego e a queda do PIB, que as tarifas anunciadas pelo governo Donald
Trump, válidas a partir do dia 1º de agosto de 2025, trarão ao Brasil. Para
Ciro, a culpa do tarifaço, imposto pelo imperialismo ianque, é do atual
presidente Lula que, segundo ele, está utilizando este episódio para a promoção
de sua campanha para 2026. Em linhas gerais, para o pensamento cirista o
problema é eleitoral e não geopolítico. Tomaremos sua declaração como ponto de
partida para reflexões sobre a atual situação do Brasil diante da economia-mundo.
Ciro
erra. Pensar que as agressões do imperialismo ianque ao Brasil justificam-se
pela polarização entre esquerda e direita é raciocinar com idealismo. Como o
historiador Leo Humerman mostrou, em seu livro A história da riqueza do homem,
o que, historicamente, faz com que uma moeda, de determinado país, seja
colocada como universal no sistema de pagamento internacional, é a posse, via
pilhagem, do ouro e da prata: “A Espanha foi, no século XVI, talvez o mais rico
e poderoso país do mundo. Quando os homens inteligentes de outros países
perguntavam a razão disso, julgavam encontrar a resposta nos tesouros que ela
recebia das colônias. Ouro e prata. Quanto mais tivesse, tanto mais rico o país
seria — o que se aplicava às nações e também às pessoas. O que fazia as rodas
do comércio e indústria girarem mais depressa? Ouro e prata. O que permitia ao
monarca contratar um exército para combater os inimigos de seu país? Ouro e
prata. O que comprava a madeira necessária para fazer navios, ou o cereal para
as bocas famintas, ou a lã que vestia o povo? Ouro e prata. O que tornava um
país bastante forte para conquistar um país inimigo — que eram os ‘nervos da
guerra’? Ouro e prata. A posse de ouro e prata, portanto, o total de barras que
possuísse um país, era o índice de sua riqueza e poder” (Huberman,198, p. 130).
Dessa
forma, foi a posse do ouro, em grande quantidade que, por exemplo, justificou a
hegemonia da libra estrelinha durante o século XIX no sistema de pagamento
internacional. Contudo, o que faz o dólar ser a moeda do sistema de pagamento
internacional, atualmente? Segundo o acordo de Bretton Woods, ficou
estabelecido que o dólar seria esta moeda seguindo o mesmo padrão-ouro que os
sistemas de pagamentos anteriores. No entanto, a hegemonia dos Estados unidos
rompe com o padrão moeda-ouro e passa a assumir o padrão dólar-dólar; trata-se
do domínio do capital fictício (Marx, 1983) sobre as demais economias do
sistema-mundo.
Sobre a
hegemonia estadunidense, via globalização financeira, as palavras da saudosa
economista Maria da Conceição Tavares são seminais. Diz ela: “O fenômeno da
globalização financeira teve origem na ruptura do padrão monetário dólar-ouro
(sistema de Bretton Woods) que foi o passo prévio que possibilitou a flutuação
cambial e a mobilidade do capital financeiro. Este processo foi acelerado por
um conjunto de políticas deliberadas dos EUA, que – a partir da forte reversão
da liquidez internacional em sua direção, iniciada em fins de 1979, como
resultado da ‘diplomacia do dólar’ – obrigaram o restante do mundo capitalista
a liberalizar os fluxos internacionais de capital (a chamada desregulação
financeira) e a financiar as crescentes dívidas pública e externa dos EUA. A
liberalização dos mercados cambiais e financeiros e a elevação de patamar de
juros internacional induziram por toda parte à adoção de políticas
deflacionistas e inibidoras do crescimento, desorganizando parte da divisão
regional do trabalho e provocando o desenraizamento da grande e da pequena
indústria de muitos países, frequentemente deslocadas para áreas com condições
momentaneamente mais favoráveis de produção e comercialização. A globalização
financeira aumentou prodigiosamente os fluxos de capital financeiro
desterritorializados (off-shore), sem registro na contabilidade dos bancos
centrais” (Tavares, 2002, p. 24).
Penso,
portanto, que a disputa pela moeda entre o Sul global, representado pelos
Brics, contra a diplomacia do dólar, defendido pelos países da Otan, coloca-se
no centro da discussão. A declaração do presidente Lula a respeito disso é
pontual: “Eu acho que o mundo precisa encontrar um jeito de que a nossa relação
comercial não precise passar pelo dólar. Quando for com os Estados Unidos, ela
passa pelo dólar, mas quando for com a Argentina não precisa passar, quando for
com a China não precisa passar, quando for com a Índia não precisa passar.
Quando for com a Europa, discute-se em euro. Ninguém determinou que o dólar é a
moeda-padrão. Em que fórum foi determinado?” (Lula, em discurso republicado
pelo UOL, 2025)
A luta
política pela moeda, portanto, é a luta geopolítica do século XXI. A luta pela
técnica foi ganha pela China, atualmente a maior economia do mundo, combinando
metamodo de produção e economia de projetamento (Jabbour; Gabriele, 2021).
Trump sabe disso, não atoa reage de forma energética contra as insinuações dos
Brics para a criação de uma moeda própria: “O Brics queria tentar dominar o
dólar, o domínio do dólar, o padrão do dólar. E eu disse: qualquer um que
esteja no consórcio de nações do Brics, vamos tarifar vocês em 10%. Eles
tiveram uma reunião no dia seguinte, e quase ninguém apareceu. Eles não queriam
ser tarifados, é incrível” (Trump, em discurso republicado pelo Globo, 2025).
Ciro
Gomes desconsidera essa conjuntura geopolítica. Como os autores da teoria
sistêmica, Braudel (1987) e Wallerstein (2001), aludiram, a economia mundial é
dividida em Centro, Zonas Intermediárias e Periferia. Ao longo do século XX e
até meados do XXI, os Estados Unidos mantiveram-se no Centro dessa economia
através do que o geógrafo marxista, David Harvey (2004), chama de economia de
espoliação, traço do novo imperialismo, onde dialética interior-exterior é
traduzida na relação de exploração do outro seja por via de guerras,
privatizações ou sanções econômicas.
Contudo,
essa hegemonia está sendo contestada, em que pese os limites históricos, pelos
países do Sul Global liderados pela China. O Brasil é uma potência regional,
nesse sentido. Durante os governos Lula e Dilma, por exemplo, via BNDES1, e
através de grandes programas como o PAC2 1 e 2 e o IIRSA3, subsidiou-se grandes
obras na América Latina, o que ligou o sinal de alerta dos Estados Unidos
levando, por conseguinte, a queda da presidenta Dilma Rousseff em 2016: “Os
projetos de grande escala, como as hidrelétricas em construção no Brasil, no
Peru e na Bolívia, ou as estradas, ferrovias e portos apresentados pelos
governos como obras para o desenvolvimento e a integração nacional e
sul-americana, são densos em investimento e, por isso, representam um modelo de
intervenção no território, não apenas do Estado, mas também de grandes
empresas, nacionais e internacionais” (Castro, 2012, p. 59).
Desse
modo, não se pode desconsiderar o papel do imperialismo na luta de classes
internas ao Brasil. Os ataques do governo Trump ao governo Lula são, no fundo,
tentativas de minar a regionalização do Brasil enquanto potência na América
Latina, similarmente ao que fizeram com as instalações nucleares iranianas.
Mais que isso, incursões contra a influência chinesa na região, que assinou um
acordo, junto ao Brasil, para a construção da Ferrovia entre Pacífico e
Atlântico, ratificando o projeto de integração sul-americana, desta vez
alicerçada à rota da seda, como estabelece o documento, redigido na última
cúpula dos Brics: “Esperamos promover ainda mais o diálogo sobre transportes
para atender às demandas de todas as partes interessadas e aprimorar o potencial
de transporte dos países do Brics, respeitando, ao mesmo tempo, a soberania e a
integridade territorial de todos os estados-membros no âmbito da cooperação em
transportes, destacou o documento” (Declaração conjunta republicada pelo jornal
Agência Brasil).
Ciro
não menciona, mas o serviço que o bolsonarismo presta aos Estados Unidos é um
serviço contra o país. O alinhamento do Brasil com os países do Brics, buscando
novas rotas de comércio, é o que de fato anima a conspiração dos ianques. O
bolsonarismo, pelo alinhamento ideológico, passa a ser, com isso, o catalizador
dos interesses da burguesia nacional, e, ao mesmo tempo, do imperialismo
dialeticamente à ela vinculado.
Em
suma, a atual situação do Brasil vis a vis economia-mundo tem reflexos
endógenos. As tarifas de Trump, como forma de chantagem ao governo Brasileiro
para a anistiar os golpistas do 08 de janeiro, juntamente com o Bolsonaro,
acompanham o adensamento interno da luta de classes. Penso que serão dias
difíceis para a política nacional. Como lembra o sociólogo brasileiro Octavio
Ianni (1988), a burguesia brasileira jamais tolerou ou preservou conquistas
democráticas. Sob governos eleitos ou golpistas, civis, militares ou mesclado
de militares e paisanos, sempre predominou na história do país o caráter
autoritário do poder burguês: “[…] a verdade é que o autoritarismo predomina ao
longo da história do Brasil […]. E subsiste a impressão de território ocupado;
de povo conquistado. Subsiste a impressão de que os governantes são
conquistadores” (Ianni, 1984, p. 21).
Assim,
serão dias difíceis para a democracia brasileira; tentativas de golpes
orquestradas pelos ianques; constrangimentos econômicos e diplomáticos; aumento
da violência política ou mesmo militares, poderão ser as consequências futuras
do país sob ameaça norte americana. Estamos passando por uma transição
histórica onde o Sul Global, nos próximos anos (a China é o exemplo disso),
será candidato ao Centro, ao passo que os atlantistas serão rebaixados à
condição de periferia. Contudo, essa transição não será realizada sem o
constrangimento e a violência dos Estados Unidos, financiando golpes de Estado
e guerras – alinhados com a Otan – sobre os demais povos do mundo.
• Nem Trump nem Lula querem acabar com
essa briga. Por Alexander Busch
Já faz
duas semanas que a briga entre o Brasil e os Estados Unidos sobe de tom quase
todos os dias. Ela começou com a ameaça do presidente Donald Trump de impor uma
tarifa de 50% a produtos importados do Brasil caso o julgamento do
ex-presidente Jair Bolsonaro não fosse encerrado.
A
disputa ameaça virar a pior crise de política externa entre os dois países em
um século. E por um motivo questionável: tanto Trump quanto o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva miram sobretudo ganhos políticos internos. As provocações
calculadas beneficiam ambos, e ambos aceitam que haja danos econômicos
colaterais.
Dá para
resumir a disputa da seguinte maneira: Trump quer punir o Brasil, maior
economia da América Latina, porque o país se volta cada vez mais para a China.
Assim como já havia feito antes com a África do Sul, ele escolheu o mais fraco
dos países do Brics para dar uma lição. Pois, ao contrário da China e da Índia,
o Brasil praticamente não dispõe de opções para ameaçar os Estados Unidos.
Ao
mesmo tempo, Trump quer, com seu apoio a Bolsonaro, fortalecer os movimentos de
extrema direita em todo o mundo.
Do lado
brasileiro, Lula ganhou uma injeção de energia com o ataque de Trump. O
presidente, um tanto enfraquecido no seu terceiro mandato, pôde puxar a carta
da soberania nacional e rotular o clã Bolsonaro e apoiadores de traidores da
pátria. A popularidade do petista, que andava em queda, voltou a subir.
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Efeitos
Ao fim,
a conta vai ficar para os consumidores, sobretudo os mais pobres, tanto no
Brasil como nos Estados Unidos. Num primeiro momento, porém, parece que os
brasileiros vão pagar um preço mais alto, pouco importando no que esse
imbróglio vai dar. Pois não são as tarifas ou sanções, mas sobretudo a reação
de política econômica de Lula que mais pode afetar o Brasil no médio prazo.
Explico:
os Estados Unidos querem elevar as tarifas para produtos brasileiros de
exportação. Além de aço, petróleo e produtos agrícolas, isso atinge
principalmente produtos industriais, como autopeças, motores elétricos e
aviões. A Embraer, por exemplo, depende muito do mercado norte-americano. Ao
mesmo tempo, os Estados Unidos estão ameaçando os países que compram produtos
da Rússia com sanções, e o Brasil importa diesel e fertilizantes da Rússia.
No
Brasil, os investidores apostam que Trump, ao contrário do que anunciou, não
vai impor uma tarifa de 50% em 1º de agosto. Afinal, se o suco de laranja, o
café, a carne bovina e os jatinhos ficarem mais caros de uma hora para a outra,
os mais prejudicados seriam os consumidores dos Estados Unidos.
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Resposta pode piorar quadro
Mas
mesmo se essa tarifa for imposta, a consequência dela para a economia
brasileira como um todo será bem pequena.
Bem
piores, para a economia brasileira, seriam as consequências se o governo Lula
resolver ajudar com subvenções os setores afetados pela tarifa de Trump – o
governo já discute uma linha de crédito emergencial.
Lula
percebeu a chance de melhorar a sua imagem entre empresários que, em sua
maioria, apoiam políticos da direita, como Bolsonaro. Ele espera conseguir
trazer para o seu lado uma parte do empresariado e do setor agroindustrial que
tradicionalmente é conservadora.
Só que
o aumento de gastos públicos, somado a um déficit já crescente, ameaça virar,
no longo prazo, um fardo estrutural. Os juros iriam subir, o real iria se
enfraquecer, e a inflação subiria.
Seria
um retorno a uma mentalidade de política industrial que já custou caro para o
Brasil no governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Ela também não conseguiu,
com um programa bilionário de subvenções, garantir a simpatia do empresariado e
levá-los a investir, e o preço que o Brasil pagou por essa política foram anos
de estagnação.
Fonte:
Por Marlon Kauã Silva Cardoso, em Outras Palavras/DW Brasil

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