quinta-feira, 24 de julho de 2025

Capital político, narrativas de perseguição e desafios eleitorais em 2026

Nos últimos anos, a extrema direita no Brasil tem desempenhado um papel central na configuração do cenário político, frequentemente “dando a linha” em questões sociais e políticas sobretudo pelo fato de ter ascendido na política institucional a partir das eleições de 2018. No entanto, esse panorama vem passando por transformações, especialmente diante do contexto atual do governo Lula, que, apesar de sua baixa popularidade, estratégias de comunicação questionáveis no primeiro ano de mandato e problemas econômicos, como o aumento do custo de alimentos, ainda exerce – muita – influência na dinâmica política do país. Ao analisar esse cenário, é fundamental considerar a disputa pela liderança da extrema direita em 2026. Quem será o representante desse espectro político? A questão central reside na possibilidade de o legado de Bolsonaro ser herdado por alguém de sua família, como seu filho, ou por um indivíduo que tenha sido apadrinhado por ele. Essa questão é crucial para compreender o futuro do movimento bolsonarista e sua continuidade.

No que tange ao capital político de Bolsonaro, é importante refletir sobre o que ainda permanece de sua influência. Apesar das controvérsias e do desgaste, uma base de apoio ainda se mantém, sustentando o bolsonarismo enquanto narrativa. Essa narrativa, por sua vez, se apoia na ideia de perseguição – uma estratégia discursiva que muitos utilizam para fortalecer sua posição e mobilizar seguidores. A política contemporânea muitas vezes se estrutura em torno de uma lógica de perseguição que mobiliza o imaginário de uma ameaça constante, reforçando identidades e a lógica do eu versus o outro: o inimigo que deve ser destituído.

Nas últimas semanas, a família Bolsonaro esteve em evidência por diversos motivos: seja pela fuga de Eduardo Bolsonaro para os Estados Unidos, pela viagem de Carlos Bolsonaro com sua família para Portugal ou pelo motivo principal: as medidas restritivas impostas por decisão do ministro Alexandre de Moraes, a pedido da PGR, e foram mantidas pela Primeira Turma do Supremo. As quais, se descumpridas, podem levar à prisão do ex-presidente. Desde então, Eduardo Bolsonaro tem adotado uma narrativa de perseguição política contra sua família e como repostas têm se atrelado ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump na tentativa de destituir a soberania brasileira, mobilizando assim práticas que são presentes na lógica miliciana.

As milícias, conforme analisa Bruno Paes Manso, são grupos que operam a partir da lógica da intimidação e do controle territorial, impondo suas próprias regras e lucrando com serviços que deveriam ser públicos ou acessíveis. Segundo Paes Manso, essas organizações funcionam como “empresas da violência”, cobrando por segurança, transporte, moradia e outros serviços básicos, ao mesmo tempo, em que reprimem e silenciam qualquer forma de oposição ou organização comunitária. Essas práticas milicianas geram um ambiente de insegurança e medo para a população, que se vê obrigada a pagar por serviços essenciais sob coerção. Além disso, esse domínio territorial impede o desenvolvimento econômico e social das áreas controladas, inviabilizando o empreendedorismo, a criação de empregos e a realização de atividades produtivas, ao mesmo tempo em que consolida o poder local de líderes criminosos.

Nesse contexto, as posturas de Jair Bolsonaro e de seu filho Eduardo Bolsonaro se tornam ainda mais preocupantes. Ambos mantêm um discurso ambíguo – e muitas vezes elogioso – em relação a práticas de segurança baseadas na violência e no controle territorial, práticas essas associadas historicamente ao modus operandi das milícias. Eduardo Bolsonaro, por exemplo, já fez declarações defendendo o uso da força como instrumento legítimo contra adversários políticos e sociais, reforçando uma visão autoritária e excludente do papel do Estado.

Apesar disso, parte de sua base política tenta construir uma narrativa de “perseguição política” contra Jair Bolsonaro, buscando desviar a atenção de investigações e denúncias que envolvem seu entorno político, inclusive com suspeitas de relações com milicianos no Rio de Janeiro. Essa retórica vitimista, no entanto, contrasta com a própria prática de poder da família Bolsonaro, marcada pelo apoio a agendas de endurecimento penal, pelo estímulo à militarização e pelo desprezo às instituições democráticas, tentando incansavelmente enfraquecer a democracia “estando dentro dela”.

A sobreposição entre discurso político e práticas milicianas revela um projeto de poder autoritário que se apoia na lógica da violência como forma de governar, controlando territórios, intimidando opositores e impedindo o livre exercício da cidadania e isso se alinha com diretamente com os últimos acontecimentos. No âmbito internacional, ações como a comemoração da senadora Damares Alves e da deputada federal bolsonarista Bia Kicis pela revogação do visto dos ministros do STF também possuem impacto. Essas ações envolvem relações internacionais, especialmente entre Brasil e Estados Unidos, podendo influenciar a percepção do Brasil no cenário global.

Mas voltemos a perseguição. Ao focar na teoria de Lacan, podemos compreender a narrativa de perseguição ao Bolsonaro como uma manifestação do desejo de reconhecimento. Lacan afirma que o sujeito busca no “Outro” esse reconhecimento para constituir sua identidade (Lacan, 1960). Nesse sentido, a perseguição pode ser interpretada como uma tentativa de afirmar uma posição no “Outro”, uma busca por validação ou reconhecimento que, muitas vezes, se manifesta por meio de ações ou discursos de ataque. Como Lacan explica, “o desejo do sujeito é o desejo do Outro” (Lacan, 1960), indicando que a luta por reconhecimento é fundamental na formação da subjetividade.

Essa narrativa de perseguição também reflete uma dinâmica de identificação com o “Grande Outro”, onde o sujeito busca afirmar-se ao confrontar aquilo que representa uma ameaça ao seu reconhecimento ou à sua imagem. Safatle (2018) complementa essa análise ao afirmar que “a política contemporânea se estrutura muitas vezes em torno de uma lógica de identificação com figuras de autoridade que simbolizam o reconhecimento desejado, mesmo que de forma conflituosa ou paranoica”. Assim, a discussão lacaniana nos ajuda a compreender que esse movimento não se limita ao campo político-institucional, mas revela uma tentativa de suturar a falta constitutiva do sujeito, falta essa intensificada pela perda de capital simbólico e político. Nesse cenário, o discurso de perseguição funciona como um mecanismo de reposição identitária e de reafirmação de pertencimento, diante do risco de desintegração do lugar de autoridade anteriormente ocupado.

Diante desse quadro, é preciso retomar a ideia de capital simbólico herdado por Jair Bolsonaro. Seu poder não se sustenta apenas nos cargos que ocupou, mas sobretudo na imagem construída junto a uma base que o reconhece como líder de um projeto antissistêmico, que se diz perseguido pelas instituições e que mobiliza afetos como ressentimento, medo e revolta. Esse capital simbólico – alimentado por uma estética da virilidade, pelo messianismo antipolítico e pela conexão com redes evangélicas, militares e digitais – é o que permite que, mesmo afastado formalmente da cena institucional, Bolsonaro ainda permaneça como figura de referência da extrema direita.

O desafio para 2026 reside exatamente na possibilidade de transferência ou esvaziamento desse capital. O bolsonarismo sobreviverá sem Bolsonaro? Seu legado poderá ser encarnado por figuras como seus filhos, como Tarcísio de Freitas ou Michelle Bolsonaro? Ou veremos uma fragmentação da extrema direita em múltiplas candidaturas, sem a mesma capacidade de unificação simbólica e mobilizadora?

Essas são questões centrais para o próximo ciclo eleitoral. O capital simbólico de Bolsonaro, embora ameaçado por investigações, restrições judiciais e pelo próprio desgaste político, ainda se mostra resiliente. A grande incógnita será a capacidade – ou não – de convertê-lo novamente em capital político eleitoralmente eficaz, especialmente diante de um cenário em que o bolsonarismo pode perder sua principal figura de identificação, mas ainda mantém sua estrutura de afetos, redes e estratégias de mobilização intactas. Portanto, compreender esse processo de transição entre a herança simbólica e a disputa por sua reapropriação será fundamental para analisar os rumos da extrema direita no Brasil e os contornos da democracia brasileira em 2026.

¨      Brasil, pátria livre e soberana. Por Marcelo Uchôa

A soberania é o fundamento principal da República brasileira, insculpida, não por acaso, no inciso I do artigo 1º da Constituição de 1988. O Brasil é um país independente, com Poderes autônomos, atribuições e dinâmicas definidas.

Não é propriamente espantosa a tentativa de ingerência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na soberania nacional. O país não é o único no mundo a sofrer ameaças oriundas do megalomaníaco que se imagina dono do planeta. Tampouco é a primeira vez que os Estados Unidos tentam interferir nos assuntos internos brasileiros, situação corriqueira desde a proclamação da independência de ambas as nações.

O que choca, neste momento, é que a justificativa de ingerência na soberania nacional tem como razão, assumida pelo próprio Donald Trump em carta reforçada pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, os processos judiciais movidos contra Jair Bolsonaro, um ex-presidente desprezível e covarde, que tentou, de maneira frustrada, aplicar um golpe de Estado no país e, por isso, responde à Justiça. Um sabujo que jamais poderia ter tido a honra de sentar-se na cadeira mais importante da República — fato que ele mesmo, despudoradamente e com singular naturalidade, reconheceu em público.

O filho do ex-presidente, Eduardo Bolsonaro, não só não nega que as ameaças de sanções estadunidenses contra o Brasil tiveram como motivação sua sabotagem internacional, articulada junto às autoridades da Casa Branca, como do conluio se orgulha, a ponto de dizer que não importa se o Brasil tiver que quebrar — o importante é garantir a impunidade do pai. Cometeu a indecência de afirmar que, se tal impunidade não se consumar, não haverá eleições em 2026. Assumindo a condição de agente dos Estados Unidos, descartou de vez retornar ao país para dar continuidade às ações pró-sanções contra o Brasil e o comércio brasileiro — punições que já começaram a se consumar (deportações em massa de brasileiros considerados marginais à parte) com o cancelamento unilateral de vistos de entrada de ministros da Suprema Corte do país nos Estados Unidos. Um escândalo contra a deferência institucional que nações devem manter entre si. Crime claro contra o Estado brasileiro que o lesa-pátria, deputado federal do país, comete no exterior. Deslealdade evidente contra sua própria condição de parlamentar, que tem como dever ético defender a soberania nacional. Que o futuro lhe reserve as punições administrativas e criminais merecidas.

De outra sorte, trata-se de mais uma tentativa indecorosa do ex-presidente Bolsonaro de garantir sua impunidade, já havendo ele próprio confessado financiar as atividades internacionais de traição do filho. Um lesa-pátria que, se hoje não está preso preventivamente, é por excesso de cautela do Supremo Tribunal Federal, pois há muito mandou às favas o respeito pelo povo, pelo Estado democrático brasileiro, pela Constituição e pelas regras nacionais.

Sua agremiação partidária, o Partido Liberal, que também não se furta de insistir na chantagem contra o Brasil ao escancarar apoio a Donald Trump, igualmente ignora que o resguardo da soberania é pressuposto básico para a existência de um partido político no Brasil, segundo está explícito no caput do artigo 17 da Constituição. A bem da verdade, desde as eleições de 2022 — quando, sob o inescrupuloso pretexto de fraude nas urnas utilizadas no escrutínio presidencial de segundo turno, mas não no de primeiro turno, quando se viu beneficiado em pleitos majoritários estaduais e proporcionais — deveria ter tido seu registro eleitoral cassado por má conduta contra a democracia do Brasil.

Embora hoje, com instituições mais sólidas do que em janeiro de 2023, novamente se faça necessária a defesa veemente do Estado Democrático de Direito, não apenas como precaução, mas como necessidade iminente diante das conspirações externas e internas contra o país.

Nação nenhuma pode dizer ao Brasil ou às suas instituições como devem agir. Se Donald Trump se considera o dono do mundo e lacaios brasileiros, por conveniência ou razão de vida, com tal absurdo concordam, este é um problema deles. O Brasil é do povo brasileiro, e quem quer que seja o nacional ordinário que se levante contra isso que assuma as consequências de ser um inimigo da República, opositor do país, vassalo a serviço da sabotagem nacional. Que se acomodem em seu lugar na lata do lixo da história e lá permaneçam, porque de lá jamais deveriam ter saído. Não, porém, sem antes pagarem caro pelo crime de traição ao Estado, porque não pode haver prova maior de desamor ao país do que a tentativa de entrega de sua liberdade e independência a outrem. Que trincheiras sejam erguidas em defesa do Brasil, pátria livre e soberana. À luta, compatriotas!

 

Fonte: Por Camila Galetti, no Le Monde/Brasil 247 

 

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