RACISMO
FRANCÊS: O cadáver não desceu das minhas costas aqui na França
O
escritor afro-americano Richard Wright, autor do famoso livro Filho Nativo,
para a revista francesa Ebony, de 1953, escreveu um artigo intitulado The black
boy in France (Um rapaz negro na França) em que descreve a sensação ao deixar o
país de origem, sob o jugo da segregação racial, e pisar na França, mais
especificamente, em Paris. Ser negro nos Estados Unidos, nas suas palavras, era
como carregar um cadáver nas costas o tempo todo e, na cidade das luzes sentiu,
pela primeira vez, o cadáver escorregar de si, pois provara algo novo: não ser
julgado o tempo todo pela sua raça, não ter que fazer as contas com isso a cada
segundo da vida. Mas, quando embarcou de volta, assim que desceu do navio, o
cadáver montou nele novamente.
Pensei
nisso por muito tempo e acredito que ele se deixou vislumbrar pelos encantos
parisienses a ponto de não sentir o peso da matéria morta sobre si, pois,
outros escritores, artistas e intelectuais negros, no mesmo espaço e na mesma
época, disseram o contrário. Aimé Césaire, por exemplo, pai do movimento
Negritude, conta dos ataques nas ruas e da descoberta de ser negro (no sentido
social) somente na França. Eu estou aqui há sete anos e, a cada dia, deparo-me
com o racismo ala francesa, que tem as suas peculiaridades. Não é como o
racismo nos EUA, no Brasil ou na África do Sul. É um racismo que impede até
mesmo o uso desta palavra, que nem sequer pode ser pronunciada. Ao contrário do
meu país que a nega, na França, se não há espaço no léxico, qualquer prática
racista permanece inominável. A mera pronunciação da palavra pode colocar em
crise a República.
O
último episódio de racismo que vivenciei se passou na fila do cinema Zola, em
Lyon. Fui assistir a um filme chileno e, enquanto esperava a abertura, com
tantas outras pessoas, um senhor idoso, voluntário de uma associação,
distribuía o folhetim da semana com todos os filmes em cartaz. Recusei, como
algumas pessoas antes de mim. Ele, diante do meu gesto disse, em tom de
deboche: “Você não sabe ler?” Retruquei imediatamente, o que nem sempre
acontece, pois, ainda me paraliso diante de algumas situações: “É a minha cara
que te faz pensar que não sei ler?”. O homem sorriu, sorriso amarelo
literalmente, e completou: “É porque você não o pegou”. Virei-me para o outro
lado, furiosa, com mais uma agressão gratuita à única mulher negra ali. Não
adianta discutir com pessoas brancas sobre racismo, quando a própria palavra
deve ser expulsa da vida quotidiana.
Alguns
meses antes deste episódio, fui a um bairro de grande presença africana e lojas
de produtos típicos da África e, ao passar na frente de uma escola de ensino
médio, muitos estudantes estavam na calçada, o que impedia a minha passagem. Ao
aproximar-me, pedi educadamente excuse-moi. Um rapaz, depois que me distanciei,
gritou nas minhas costas, não para mim, mas para divertir o grupo: “Mas
senhora, tem muito lugar para passar, a rua, por exemplo”. Depois das
gargalhadas, voltei e o encarei: “Você quer que eu caminhe na rua porque você
não pode se mover, é isso?” O grupo deu risada, o que, provavelmente o ofendeu,
afinal, era ele quem queria usar-me para divertir os colegas. A resposta foi:
“Puta, o que você quer?” Nesta hora, o cadáver pesou. Um adolescente, pouco
mais velho que o meu filho, despejando em mim o duplo ódio, de gênero e de
raça. Não, não tentem fazer como os franceses, convencer-me de que a sua reação
foi aleatória, que não dependeu do meu fenótipo, pois o que mais ouço neste
país é: “Ah! Não ligue, é só uma pessoa frustrada que te encontrou por acaso e
descontou em você a sua frustração.”
Sim,
foi o acaso quando, ao dirigir-me a um fotógrafo para renovar o passaporte, com
o meu cabelo crespo e volumoso, ele, com ar de desprezo, disse: “Com este
cabelo não se pode tirar foto, vai ter que prender”. Tirei da bolsa algo para
amarrar e, ao sentar-me na cadeira, diante da câmara, o mesmo olhar pousou-se
sobre mim, seguido de um bufar de boca, como se soprasse o ar para fora, típico
dos franceses quando expressam irritação. Ele veio tocar os fios que não
puderam ser domados com tanto ódio e força que eu poderia ter escapado dali,
mas o cadáver nas minhas costas pesou tanto que fiquei. A foto saiu horrível.
Cheguei no trabalho com ela em mãos e contei a uma colega francesa, com quem
ainda posso falar de certas coisas. “Talvez ele tenha discriminação contra
cabelos como o seu”, apontou olhando a foto achando que me consolaria.
Retruquei: “Não é discriminação, é racismo”. Ainda consigo ver claramente a sua
face desorientada ao ouvir a palavra, como se fosse um tabu: “Não, racismo
não.” Em março de 2024, a Assembleia Nacional francesa votou uma resolução
contra a “discriminação capilar”. É isso mesmo! A lei foi votada depois de
muita luta de negros e negras constantemente humilhadas, impedidas de trabalhar
ou até conseguir emprego por causa do tipo de cabelo. Mas, segundo a França,
não é racismo, é somente contra os cabelos crespos, não com o todo da pessoa.
Pasmem! O cabelo, segundo o país, não faz parte de um fenótipo que sofre
racismo, ele, sozinho, que é “discriminado”. Algumas semanas depois, quando a
raiva passou, fui em outro fotógrafo, desta vez num bairro árabe e disse-lhe
não querer prender o cabelo, mostrando-lhe uma foto antiga do meu passaporte,
em que o crespo estava livre. Ele respondeu: “Não precisa prender”. E, é esta
mesma foto que hoje estampa o meu atual documento.
Quando
cheguei neste país e mal falava a língua, era sempre confrontada com o meu
sotaque e os erros de pronúncia em lojas e restaurantes. Mesmo que os franceses
entendessem muito bem o que eu queria dizer, era práxis, como demonstração de
poder, perguntar: “Pardon?”, para eu repetir e, em seguida, ser corrigida. Com
uma amiga brasileira, também negra, num restaurante magrebino no 19
arrondissement de Paris, bairro com muitos africanos, árabes e
latino-americanos, disse-lhe estranhar o fato de não ser corrigida o tempo
todo. Ela confirmou acontecer com ela e que via isto como exercício de poder e
humilhação dispensado apenas a nós, gente racializada, do “terceiro mundo”,
pois quando chegam os europeus do Norte ou os estadunidenses falando errado, a
gentileza com que são tratados é um show patético, digno de um retrato do
colonizador, precedido do retrato do colonizado, parodiando Albert Memmi,
grande conhecedor das artimanhas francesas em suas colônias e na
metrópole.
E as
entrevistas de emprego? Um calvário. Você pode ter doutorado e a entrevistadora
apenas um curso profissionalizante; pode ser leitora assídua, conhecer Proust e
Sartre, gostar de madeleine com café, ser escritora — ainda assim, ela
encontrará maneiras de colocá-la abaixo dela, intelectual e culturalmente.
Geralmente substituindo a palavra raça por “exótico”. Não, não é levantando a
voz como fazem os italianos com os imigrantes, não é debochando ou pisando
descaradamente em gente negra como fazem os brancos brasileiros, é no tom de
voz baixo e educado, te chamando de “madame”, após um “bonjour” gentil.
Eric
Fassin, sociólogo e professor da Universidade Paris 8, diz que falar de raça na
França é: “nadar na contracorrente da retórica nacional dominante.” No artigo
intitulado Sou um homem branco? Epistemologia política do paradoxo majoritário
ele sublinha:
(…)
desde finais dos anos 1980, assistimos, no espaço público francês, ao forte
retorno de um discurso que invoca a cultura política nacional para celebrar um
universalismo cego às diferenças, sejam de gênero, sexualidade ou de raça. A
República (Francesa) só reconhece cidadãos abstratos e assim relega suas
propriedades singulares ou particulares à esfera privada. Questões minoritárias
seriam, portanto, incompatíveis com a tradição francesa.
O
sociólogo lembra um texto do presidente Emmanuel Macron, no jornal Le Monde, em
que denuncia os estudos sobre questões raciais e os culpam por gerar divisão no
país. Ora, a culpa do racismo seria, então, das universidades e dos/das
estudiosas do tema, não da sociedade racista e, ainda, colonialista.
Na
minha página de Instagram postei um vídeo de uma cena clara de racismo dentro
de um bar. Ao entrar, um homem, em alto e bom som disse: “La diversité!” Notei
ser para mim, pois todos me encararam. Sentei-me para mostrar que não estava
intimidada com a “calorosa recepção”. O homem, então, começou a fazer gestos
supremacistas e a encarar-me até que comecei a filmá-lo. Deixei o bar logo em
seguida e dirigi-me ao trabalho, que fica ao lado. Mostrei o vídeo aos colegas
e a reação foi unânime: “Mas olha para ele, é visível que tem algum problema
mental”. René Descartes, considerado um dos fundadores da filosofia moderna
(daquela ocidental, viu?) na célebre frase “penso, logo existo”, cria uma
proposição fundante da autoimagem do europeu. Parafraseando-o, na França, “não
digo, logo inexiste.”, é o modo sui generis de lidar com o racismo. Uma
francesa, professora da língua para brasileiros aqui, famosa por seu racismo
enrustido, idolatrada por brancos latinos, escreveu a uma amiga brasileira
negra o seguinte comentário, depois que ela reivindicou dados sobre raça no
país:
“Mas o
simples seria NUNCA aparecer em nenhum documento a pergunta sobre a cor! Os
documentos oficiais como carteira de identidade ou passaporte já tem foto,
então porque perguntar a cor? E aí ninguém precisa falar de branco, pardo ou
negro. Seria uma vergonha a menos, acho! Agora com certeza as pessoas que andam
na rua vão saber que não são brancas por causa do racismo em toda parte,
inclusive na cabeça dos pais, às vezes!”
O
comentário é tão absurdo que sublinho algumas coisas: em primeiro lugar, o
“seria uma vergonha a menos” se falarmos de brancos, pardos ou negros, mostra
que a diversidade racial é, sim, um problema para os franceses e, não falar
desta “vergonha” é a solução encontrada. A frase que sublinhei, vindo de alguém
que estudou, que vive nos círculos intelectuais é ainda mais aberrante, pois, é
preciso dar a ilusão às pessoas negras de que são brancas, silenciando a raça
para deixar confortáveis os franceses, pois, desse modo, não precisam prestar
contas do racismo. Se alguém reivindicar ser negra vai mexer com a francesa,
pois ela teria que assumir-se branca e isso comporta tudo o que os brancos
fizeram (e ainda fazem) às demais raças, inclusive assumindo o privilégio de se
veem e se colocarem como universais.
No ano
passado, um episódio de racismo no meu ambiente de trabalho deixou-me bastante
perplexa. Almoço todos os dias na cantina da escola e todos os funcionários têm
o direito de se servir e comer o que quiserem. Naquele dia, peguei duas fatias
de queijo, fiz o meu prato e dirigia-me ao espaço em comum onde almoçamos. Ao
passar pela responsável do restaurante, ela parou-me na frene de outras pessoas
para reprovar os dois pedaços que eu havia colocado na bandeja. Incrédula,
deixei tudo na mesa e dirigi-me à direção para manifestar a minha indignação.
Sabendo ser racismo, pois todas as professoras pegam 2, 3 ou quantos pedaços de
queijo quiseram, precisei omitir a palavra para ser ouvida. A diretora também
achou uma situação absurda e comprometeu-se a resolver o que ela chamou de
“exagero”. Sem falar nos alunos, nas piadinhas e deboches que não ousam fazer
com outros profissionais, pois arriscam suspensão ou mesmo expulsão. Um deles
trancou o colega numa sala e segurou a porta e, ao ver-me aproximar, correu. Fui
atrás e o toquei no braço, para me acompanhar. Neste momento, ele gritou: “tire
as tuas mãos sujas de mim”. Vejam bem, alguns dias antes, um aluno chamou uma
professora de “você”, ao invés de “senhora” e foi parar na sala da diretora.
Comigo, ao levar o caso à coordenação, ouvi de outras educadoras: “Estranho,
comigo ele é tão gentil”. Pois é, o branco francês é o modelo, o centro, o
núcleo, se não acontece com ele, se ele não ver, ouvir ou interpretar como um
ato de racismo, o racismo não existe. Mas como entender tratar-se de racismo
quando não se pode usar a palavra?
O país
é todo racializado, desde a divisão social do trabalho, até os bairros. Nas
bordas das cidades, os trabalhadores das ex-colônias, nas áreas centrais, os
franceses. O documentário de Sarah El Attar, Je suis la France (Eu sou a
França) escancara a violência policial contra jovens negros das periferias, a
partir do testemunho das famílias e dos rapazes que sobreviveram às abordagens
nos banlieuses de Paris. Um deles diz que é comum os meninos negros e árabes, a
caminho da escola, serem parados por uma viatura e, em seguida, levar tapas na
cara, ter o material jogado no chão, enquanto os agentes riem e ameaçam. Os que
reagem terminam mal e, os laudos das mortes são, quase sempre de “confronto” e
“resistência”.
A
França está tão atolada na sua autoimagem de superioridade moral, cultural,
artística e material que nada, nem ninguém, pode perturbar isso. Introduzir ou
ousar apontar racismo nas relações quotidianas é mexer com esta imagem, com os
fundamentos da república francesa, com o seu “paternalismo libertador”, como
aponta o escritor senegalês, Elgas, no livro Les Bons Ressentiments. Essai sur
le malaise post-colonial. A França até financia os contradiscursos, segundo o
autor, desde que ela esteja ao centro promovendo as discussões. O que a França
gosta, e o presidente Emmanuel Macron bem exprimiu, é que lhe sejamos gratas:
“Os dirigentes africanos esqueceram-se de dizer ‘obrigada’ à França. A
ingratidão é uma doença não transmissível” (2025).
A
França, durante a sua história de colonização (e ainda hoje tem colônias)
produziu os cadáveres, colocou-os nas costas das pessoas negras e, hoje, ao
deparar-se com eles, nega-os, tão grande é o horror que isso provoca. Joséphine
Baker foi sagaz. Ela pegou o cadáver que carregava, o vestiu, o maquiou e
apresentou-se com ele nos espetáculos das noites parisienses. Os franceses
lotavam os cabarés onde ela dançava com as bananas amarradas no corpo e os
gestos “selvagens”, levando a plateia ao êxtase, sem se dar conta que ria e
mirava o cadáver que o país produziu. Em 2005, a juventude racializada dos
banlieuses escancarou o peso da matéria morta botando fogo na cidade e, 20 anos
depois, em 2025, durante uma grande manifestação contra o racismo em Paris, a polícia
reprimiu violentamente os manifestantes, afinal, os cadáveres aqui não podem
ser mostrados ao mundo.
Fonte:
Por Fabiane Albuquerque, no Le Monde

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