quinta-feira, 1 de maio de 2025

Anistia: Golpista Temer articula o "grande acordo" para enterrar Bolsonaro e alçar Tarcísio como anti-Lula

Em março de 2016, o então ministro do Planejamento, Romero Jucá (MDB-RR), e o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, tramaram um "grande acordo nacional"

"Tem que resolver essa porra... Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria", diz Jucá, em meio às pautas-bomba de Eduardo Cunha (MDB) no Congresso, que minavam o governo Dilma Rousseff (PT).

"É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional", responde Machado. "Com o Supremo, com tudo", emenda o então ministro, concordando que "a solução mais fácil era botar o Michel".

A conversa sobre o grande acordo foi tornada pública de forma tardia pela Folha de S.Paulo apenas em 23 de maio, 11 dias depois que Dilma havia sido afastada da Presidência, deixando em seu lugar Michel Temer (MDB), que assumiria definitivamente o posto no dia 31 de agosto do mesmo ano, quando o golpe parlamentar foi concretizado.

Passados 9 anos, em um hiato de tempo em que se abriu a Caixa de Pandora do fascismo brasileiro com a eleição de Jair Bolsonaro (PL) em 2018, as mesmas forças que atuam no submundo da política se aglutinam em um novo "grande acordo nacional", "com o Supremo, com tudo", para, desta vez, alçar Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) como candidato da terceira via anti-Lula em 2026.

A mesma Folha de S.Paulo, divulgou nesta segunda-feira (28) que "os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, estão finalizando uma negociação com o Supremo Tribunal Federal (STF) para aprovar uma lei no parlamento que diminua as penas dos condenados do 8 de Janeiro e que, por outro lado, aumente as punições para lideranças de tentativas de golpe de Estado no Brasil".

Onze dias antes, a Fórum havia antecipado as negociações do "novo golpe" articulado por Michel Temer, que se elevou das catacumbas da burguesia paulista para aglutinar forças no Centrão, Faria Lima, Forças Armadas e mídia liberal e ressuscitar um velho projeto que alimenta a sanha de endinheirados do Brasil.

<><> Enterrar o PL da Anistia e de Bolsonaro

Diferentemente do que quer fazer acreditar a mídia liberal, que é parte da nova trama golpista, o movimento não foca apenas na redução das penas dos golpistas, mas de um projeto eleitoral, com vistas a consolidar a terceira via anti-Lula para a disputa presidencial em 2026.

E, para isso, é preciso enterrar definitivamente a possibilidade de Jair Bolsonaro de retomar os direitos políticos acabando com a única pauta que lhe resta no Congresso Nacional: o PL da Anistia.

O desespero de Bolsonaro, que convocou de dentro da UTI do Hospital DF Star um novo ato pela "anistia", desta vez em Brasília no dia 7 de maio, se dá pela percepção de que ele foi, definitivamente, jogado às traças por não mais servir ao projeto neoliberal da burguesia - que só permitiu sua eleição em 2018 quando Paulo Guedes foi escalada para assumir o "super" Ministério da Economia.

Agora, esse mesmo movimento, que une setores do Centrão e da cúpula do Judiciário, mídia liberal e Faria Lima, flerta com Tarcísio, que despertou a paixão da burguesia ao mostrar sua virilidade com o martelo leiloeiro na privatização da Sabesp.

A negociata em torno do grande acordo foi anunciado com pompas por Michel Temer em evento na Universidade de Harvard, nos EUA, onde esteve na companhia de Gilmar Mendes, do banqueiro André Estevez - "herdeiro" de Guedes no BTG Pactual - e do empresário Jorge Paulo Lemann, que levou a Eletrobras ao apoiar o golpe em 2016.

Ao falar sobre a anistia aos condenador pelo quebra-quebra em 8 de janeiro de 2023, o ex-presidente golpista afirmou que os ministros do Supremo estariam "sensibilizados" e que ele, pessoalmente, está "propondo uma mediação, um meio termo”.

"É possível fazer uma nova dosimetria. Punição houve, tinha de haver, mas também a pena deve ser de menor tamanho. É uma solução conciliatória. O que estou propondo é uma mediação, um meio termo”, afirmou, se colocando como principal articulador do acordo.

Ao voltar dos EUA, Temer concedeu uma longa entrevista ao jornal O Globo, da família Marinho, em que afirma que Alexandre de Moraes, a quem alçou ao STF, "é um ministro moderado, sensível e que sabe o que fazer. Não é um sujeito cheio de rancores".

“O Congresso tem o direito de editar uma lei referente à anistia, não se pode negar isso, mas talvez para não criar nenhum mal-estar com o STF, o melhor seria que o próprio STF fizesse uma nova dosagem das penas”, emendou.

Para atuar na proposta de Lei que está sendo negociado junto ao Supremo, Alcolumbre escalou três senadores com "notório saber jurídico": Rodrigo Pacheco (PSD-MG), Alessandro Vieira (MDB-SE) e - pasme! - Sergio Moro (União-PR).

<><> Com o Supremo, com tudo

Das catacumbas da burguesia paulista, Temer já havia se reunido com os governadores Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos), de São Paulo; Ratinho Jr. (PSD), do Paraná; Ronaldo Caiado (União), de Goiás; e Romeu Zema (Novo-MG), de Minas Gerais. Nos encontros, pregou sobre a importância de unificar a direita - sem Bolsonaro - para fazer o enfrentamento a Lula.

A proposta foi batizada por ele como "Movimento Brasil", na prática uma releitura do programa Uma Ponte para o Futuro, criado nas hostes do MDB em 2015, baseado em uma série de preceitos neoliberais para destruir projetos sociais e entregar as riquezas do país, como o petróleo, nas mãos dos financistas. Logo após o impeachment, Temer chegou a admitir que o golpe contra a presidenta se deu porque ela se recusou a adotar a cartilha.

No novo levante, Temer propôs aos governadores que, após o descarte de Bolsonaro, eles sigam com suas pré-candidaturas à Presidência e seria estipulado um prazo para definir quem encabeçará a chapa, baseado em pesquisas. Tarcísio é o favorito da Terceira Via e, em especial, da Faria Lima em razão da privataria selvagem imposta por ele em São Paulo.

<><> Implosão no Congresso

Em outra frente, Temer escalou um amigo e aliado histórico como porta-voz para implodir o PL e a base bolsonarista que se articulam em torno do projeto da Anistia. 

Representante lendário da burguesia paulista, o deputado Antônio Carlos Rodrigues (PL-SP) iniciou um motim dentro do PL. Após convencer 8 colegas da sigla a traírem Bolsonaro e votarem a favor do PL 769/2024, que cria 160 cargos no Supremo Tribunal Federal (STF) e foi apelidado de "PL do Moraes" pelo guru Silas Malafaia, Rodrigues se recusou a assinar a proposta de regime de urgência para o PL da Anistia.

"O texto atual do projeto de lei não distingue com clareza entre autores, intelectuais e executores de meros participantes, tratando de forma igual condutas gravemente distintas", leu em seu discurso no plenário, em linha com a proposta negociada por Temer e pelo Senado de impor penas rígidas aos articuladores de golpe e abrandar a punição às pessoas manipuladas por eles, colocando em xeque os planos de Bolsonaro.

Rodrigues ainda rebateu os ataques de Silas Malafaia, que o classificou como "traíra" e "amissíssimo de Moraes".

"Lamento que no momento em que o país clama por seriedade e equilíbrio, ele [Malafaia] opte por adotar um discurso que contribui para o acirramento dos ânimos", leu Rodrigues, novamente alinhado com o discurso de "pacificação" do amigo Temer.

Incumbido por Temer de implodir a base bolsonarista na Câmara, Rodrigues ainda contará com o apoio involuntário do governo, que pretende punir deputados de partidos do Centrão com assento em ministérios que votaram a favor da urgência da Anistia.

Líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA) classificou como "ótimo" o projeto de anistia sem Bolsonaro, negociado com o STF.

"Eu acho ótimo, desde que não se fale em anistia para mandantes e financiadores do crime. E não estou olhando para o Bolsonaro, que já está inelegível e, se depender de mim, pode ser candidato porque não me incomoda", declarou o senador, que negou a participação do governo.

Já o líder do PT na Câmara, deputado Lindbergh Farias afirmou que é contra a anistia, mas que poderia existir uma "saída negociada" com relação aos presos do 8 de janeiro.

"Para Bolsonaro, nada. Para os generais que estiveram à frente, nada. Mas para quem cometeu crime menor, não tem problema o Supremo fazer isso", declarou.

Com pressão dos dois lados e colocada por Hugo Motta (Republicanos-PB) no final da fila das mais de mil propostas que se encontram em regime de urgência, a bandeira bolsonarista foi definitivamente para a gaveta.

<><> O novo smoking do velho projeto burguês

Na prática, Temer tenta reeditar, juntamente com o fiel escudeiro Gilberto Kassab, o projeto da terceira via, que se inviabilizou em 2022 devido à polarização política entre Jair Bolsonaro (PL) e Lula, que aglutinou boa parte dessa via na Frente Ampla.

O plano de Michel Temer já teria a adesão de uma parcela dos principais partidos do Centrão: MDB, PSD, Republicanos e União Brasil, além de uma parte do Novo, que virá a reboque de Zema e da pauta ultraliberal.

Além disso, conta com a simpatia da Faria Lima, que tem em Tarcísio uma das principais apostas para aprofundar as privatizações e a agenda neoliberal, onde orbita também a mídia liberal.

Temer ainda aglutina uma parcela considerável da burguesia paulista e conta com apoio de militares na cúpula das Forças Armadas, onde mantém forte interlocução a partir do general Sérgio Etchegoyen, que articulou com Eduardo Villas Bôas o apoio da caserna ao golpe de 2016.

Embora muitos acreditem que o ex-presidente habite as trevas após deixar a linha de frente da política, Michel Temer segue atuando na realpolitik em torno dos interesses da burguesia brasileira e dos ditames transnacionais do sistema financeiro que cultivam uma sanha sanguinária para retomar o poder em 2026 e sugar, até a última gota, as riquezas do Brasil.

¨      Bolsonaro se irrita com silêncio de Tarcísio e governadores que são parte do pacto

Fabricando bizarrices dentro da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital DF Star para aparecer nas redes sociais, Jair Bolsonaro (PL) parece ser o último a saber do grande acordo que o descartou totalmente do cenário político para alçar seu ex-ministro e governador de São Paulo, Tarcísio Gomes de Frente (Republicanos) como candidato da terceira via para enfrentar Lula nas eleições de 2026.

O ex-presidente estaria irritado com o silêncio de Tarcísio e de outros governadores que estivaram no ato pelo PL da Anistia na avenida Paulista diante da negociação entre o Senado e o Supremo Tribunal Federal (STF) na proposta de uma "anistia sem Bolsonaro".

A proposta negociada por David Alcolumbre, presidente do Senado, com ministros da corte, tem como objetivo reduzir penas dos golpistas condenados pelo 8 de Janeiro sem alterar, no entanto, a punição entre as lideranças da tentativa de golpe, como o ex-presidente e os militares do "núcleo crucial" da organização criminosa, que já estão sendo julgados pela primeira turma do Supremo.

Esse grande acordo, que une além do Senado e STF, o centrão, a mídia liberal e a Faria Lima, enterra o PL da Anistia e, consequentemente, a possibilidade de Bolsonaro reverter a inelegibilidade e sair candidato em 2026. Tarcísio é o favorito para assumir o posto de candidato anti-Lula que coube ao ex-presidente em 2022.

Segundo Bela Megale, no jornal O Globo, Bolsonaro e aliados próximos estariam irritados principalmente com o silêncio dos governadores aliados com a atitude de Hugo Motta (Republicanos-PB) de por fim à tramitação do regime de urgência do PL da Anisita, que será engavetado. "Um dos silêncios que mais têm incomodado é o do governador Tarcísio de Freitas (São Paulo), que chegou a discursar nos dois atos pela anistia", escreve a colunista.

<><> Último a saber

Tarcísio, governador de São Paulo, assim como Ratinho Jr. (PSD), do Paraná; Ronaldo Caiado (União), de Goiás; e Romeu Zema (Novo-MG), de Minas Gerais, estiveram no ato da Paulista e são alvos da ira de Bolsonaro.

No entanto, os quatro fazem parte do grande acordo, articulado pelo ex-presidente golpista Michel Temer (MDB), para enterrar Bolsonaro e unir a direita em torno de um projeto anti-Lula em 2026.

Temer se elevou das catacumbas da burguesia paulista para aglutinar forças no Centrão, Faria Lima, Forças Armadas e mídia liberal e ressuscitar um velho projeto que alimenta a sanha de endinheirados do Brasil.

Temer se reuniu com os quatro governadores e pregou sobre a importância de unificar a direita - sem Bolsonaro - para fazer o enfrentamento a Lula.

A proposta foi batizada por ele como "Movimento Brasil", na prática uma releitura do programa Uma Ponte para o Futuro, criado nas hostes do MDB em 2015, baseado em uma série de preceitos neoliberais para destruir projetos sociais e entregar as riquezas do país, como o petróleo, nas mãos dos financistas. Logo após o impeachment, Temer chegou a admitir que o golpe contra a presidenta se deu porque ela se recusou a adotar a cartilha.

No novo levante, Temer propôs aos governadores que, após o descarte de Bolsonaro, eles sigam com suas pré-candidaturas à Presidência e seria estipulado um prazo para definir quem encabeçará a chapa, baseado em pesquisas. Tarcísio é o favorito da Terceira Via e, em especial, da Faria Lima em razão da privataria selvagem imposta por ele em São Paulo.

<><> UTI da Fuleragem

O circo de horrores de Jair Bolsonaro (PL) na já apelidada “UTI da Fuleragem” do hospital DF Star, em Brasília, onde tudo acontece e nada se assemelha a um setor de tratamento intensivo de uma unidade de saúde, foi elevado agora à enésima potência. Nesta terça-feira (29), o ex-presidente gravou, e depois postou em seus perfis nas redes sociais, a retirada de sua sonda nasogástrica, um procedimento aflitivo e que para qualquer pessoa normal seria um momento de intimidade e privacidade.

Bolsonaro aparece deitado na cama da UTI do DF Star e um profissional, aparentemente um médico, então dá início à remoção do item invasivo. A sonda nasogástrica tem a finalidade de drenar secreções do aparelho digestivo em pacientes que estão sem os movimentos naquela região, o que dá alívio na sensação de pressão na área. Na postagem, ele próprio faz o alerta de “cenas fortes”, mas pede aos seguidores que “assistam”. Sim, um verdadeiro show abjeto que lança por terra sua dignidade como paciente e que explora ao extremo sua doença, para um homem que é réu no Supremo Tribunal Federal e que muito em breve deve ser condenado à prisão.

Na postagem bizarra, no entanto, Bolsonaro não perde a oportunidade de fazer politicagem baixa e barata e ainda arranja tempo para atacar “a esquerda”, segundo suas palavras. “Cirurgia ainda em consequência da real tentativa de homicídio de Adélio Bispo (lulista, antigo militante do Psol, o homem mais protegido do Sistema do Brasil)”, escreveu na legenda do Instagram onde o vídeo foi publicado.

<><> UTI do DF Star na mira do CRM-DF

Na última semana, o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal anunciou que abriu um processo investigativo para olhar mais de perto o que anda acontecendo na UTI onde o ex-presidente de extrema direita está internado, no hospital DF Star.

Na Unidade de Terapia Intensiva onde Bolsonaro permanece há 17 dias acontece de tudo. Dezenas de visitantes se aglomeram, o entra e sai é constante, vídeos são gravados o dia inteiro e até uma live foi transmitida do local, com direito a ex-piloto de Fórmula 1 vendendo capacetes e o filho Eduardo fazendo ameaças a ministros do STF. A gritaria e a baderna constantes, com direito até a ex-ministro sanfoneiro, tem gerado burburinho nas redes sociais, com internautas se perguntando que tipo de UTI é aquela em que uma verdadeira “zona” pôde se instalar sem encontrar resistência dos responsáveis pelo hospital.

<><> Tarcísio em campanha

Enquanto Bolsonaro ladra ao ser abandonado pelos aliados, Tarcísio coloca a caravana da Terceira Via na estrada. As redes sociais do governador estão inundadas com publicações em tom eleitoreiro.

Nesta terça-feira (29), o governador publicou um vídeo tocando berrante - cena que era comum com Bolsonaro - na Agrishow, em Ribeirão Preto, feira que reúne a nata dos ruralistas.

"Nosso agro tem força! E a Agrishow 2025 já é um sucesso! Já esse que vos fala tocando berrante", escreveu na publicação.

O pré-candidato da terceira via reforçou a presença nas redes, com vídeos sobre inaugurações e ações do governo paulista. Sobre Bolsonaro e a pauta da anistia, Tarcísio segue em silêncio, cumprindo o acordo com o movimento articulado por Michel Temer e seu assessor, Gilberto Kassab (PSD).

¨      Saída à anistia de Alcolumbre deve beneficiar Bolsonaro, avalia Lenio Streck

Fórum Onze e Meia desta quarta-feira (30) recebeu o jurista Lenio Streck para comentar a proposta de redução das penas dos golpistas condenados pelo 8 de janeiro, que seria uma saída ao PL da Anistia, que é inconstitucional e está sendo barrada na Câmara dos Deputados. 

A proposta alternativa foi anunciada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e pelo líder do governo no Congresso, o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), nesta terça-feira (29). Eles afirmaram que estão analisando a possibilidade de redução das penas. O texto estaria sendo elaborado pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) e não atingiria aqueles que planejaram e financiaram os atos golpistas, como é o caso do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado. 

No entanto, na avaliação de Streck, o projeto "vai beneficiar inexoravelmente o Bolsonaro". Para ele, a proposta é uma "cortina de fumaça". 

"Isto vai beneficiar Bolsonaro, vai beneficiar todos os mandantes e essa gente toda", disse. Ele ressaltou que o governo federal foi "fraco" ao conduzir o debate da anistia e acabou deixando "tudo nas costas do Supremo".

"E houve um momento em que o Supremo se entregou. A entrevista do Barroso foi, digamos, o código, a chave que desencadeia todo o processo. Mas tudo começa com o truque narrativo do caso da moça do batom. Aquilo ali foi o elemento desencadeante, foi a coceira que virou essa gangrena", analisou o jurista.

Ele também afirmou que houve "pouca reação" da ala progressista, que chegou a ter pena de alguns condenados. "O resultado está aí. É uma coisa bem brasileira, nós não conseguimos levar algo desse tipo até o final, a gente não conseguiu fazer justiça de transição", declarou Streck. 

"Tudo isso está na conta do débito republicano nosso e vem o momento que a conta chega, a conta vem com juros de cartão de crédito. Nós não conseguimos fazer justiça e transição, nós não conseguimos deixar os fantasmas do passado e chegou tudo junto, com Executivo, Legislativo, Judiciário, para fazer um acordo para, de algum modo, perdoar os que quase acabaram com a democracia", acrescentou.

Streck avaliou que, por posturas como a do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), o Supremo pode ter "se sentido meio solo" e recuado em alguns pontos. "Não sei bastidores ainda, mas o governo tinha que ajudar nessa história toda. Porque o governo foi a vítima. Veja, a vítima é a democracia representada pelo governo. Portanto, é como alguém que sofre uma violência e fica olhando de fora, não se importando", afirmou Streck. 

"Se o governo nada diz, há um determinado momento em que a vítima, numa espécie de síndrome de Estocolmo tardia, acaba concordando com o algoz", comparou. 

Isso é negociar o inegociável. Não se negocia o inegociável, isto é um harakiri institucional, um erro histórico, não se perdoa golpista em lugar nenhum do mundo. A democracia não pode ser autocontraditória e autofágica.

Por fim, o jurista alertou que é preciso estar atento aos detalhes do novo projeto de redução de penas, porque nas entrelinhas podem estar as possibilidades de beneficiar Bolsonaro. "O diabo mora nos detalhes, entendeu? O direito é tão complexo que essas coisinhas passam despercebidas. É como na medicina, uma costurinha ali, um ponto fora do lugar, mata o cara. No direito, uma vírgula acaba ou beneficia. É impossível um projeto desse tipo não beneficiar Bolsonaro e companhia", ressaltou. 

 

Fonte: Fórum

 

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