Leonardo
Boff: Um Brasil subserviente ou um Brasil soberano?
O
debate político entre Lula e Flávio Bolsonaro na TV Bandeirantes (Band), no
domingo, foi de péssima qualidade. Flávio Bolsonaro não queria discutir
problemas, mas apenas, comportando como um moleque, desestabilizar Lula.
Parecia uma intriga de botequim. Lula despertou tarde demais. E teve que
suportar uma inimaginável falta de respeito e de civilidade. As urnas dirão.
Em
todos os casos, nestas eleições de 2026, joga-se o destino do Brasil. Um dos
candidatos à Presidência, de forma antipatriótica, propõe um Brasil
desavergonhadamente subserviente aos Estados Unidos de Donald Trump. Aplaudiu o
tarifaço contra nossa economia. Caso ganhe a eleição – que a desgraça não
aconteça – propôs que técnicos norte-americanos ajudem na fase de transição do
governo Lula ao seu. Deste modo, o alinhamento à política e aos interesses
norte-americanos estaria garantido. Ademais entregaria de bandeja nossas terras
ricas e outros minerais com funções estratégicas.
Uma
pessoa com intenções neocoloniais e entreguistas jamais poderia apresentar-se
como candidato ao mais alto cargo da nação. Se nossa justiça realmente
funcionasse menos para os interesses das elites e mais para os coletivos do
povo brasileiro, o lugar deste pretendente seria a prisão por crime se
corrupção, de lesa-pátria e de traição: Flávio Bolsonaro.
Se esse
candidato de viés conservador e até fascista como seu pai – preso por tentativa
de golpe – sair eleito, preparemo-nos para o pior, especialmente os submetidos
à pobreza, os operários e funcionários públicos. Sofreriam as universidades, os
centros técnicos e de pesquisa que veriam seus subsídios encurtados ou
anulados. A ecologia, os indígenas, os quilombolas e as mulheres seriam temas
rebaixados ou ausentes. Sem falar nas artes e na liberdade de expressão.
Voltaríamos à situação de colônia, um país subalternizado, cuja identidade lhe
fora sequestrada.
É ponto
de honra e sinal de amor à pátria derrotar esse inimigo da pátria, e o projeto
antinacional que representa.
O outro
candidato, vindo dos fundões do Brasil e sobrevivente da fome e da miséria, já
cuidou de nossa gente por três vezes, introduzindo mudanças, jamais feitas em
nossa país, em favor dos mais marginalizados com políticas sociais eficazes a
ponto de tirar, segundo a ONU, o Brasil do mapa da fome, pois seu antecessor
golpista deixara 33 milhões passando fome e vivendo na miséria.
Desmontou
em termos culturais, educacionais e trabalhistas e outras políticas públicas
quase tudo o que se havia conquistado durante séculos.
O
presidente Lula, opositor de Flávio Bolsonaro, comparece como um dos
protagonistas do multilateralismo e do conjunto dos países do Grande Sul que
compõe os BRICS. Consciente de nossa soberania e da importância
estratégico-ecológica de nosso pais, foi, inicialmente, o primeiro chefe de
Estado que se opôs à arrogância de Donald Trump,cuja estratégia consiste em
submeter os demais países com ameaças econômicas e eventualmente militares.
Lula deixou claro que o “Brasil não cabe como quintal de nenhum país”.
Com
senso de equilíbrio sustenta relações diplomáticas e comerciais com os EUA e
simultaneamente com a China, sem dar nenhum sinal de submissão, mas de
soberania e de liberdade ao estabelecer o caminho brasileiro rumo à sua
autonomia e desenvolvimento sustentável, preservando o mais que pode a floresta
da Amazônia que regula os climas da maioria dos países. Sua proteção é
fundamental para o equilíbrio ecológico de todo o planeta.
Negocia
com liberdade com dezenas de países. Na arena internacional grangeou mais e
mais admiração por sua capacidade de diálogo e de respeitabilidade face às suas
sugestões dos problemas da humanidade.
Não
poderemos de forma alguma que essa herança política e humanitária se perca e o
destino do país seja entregue a alguém que não ama o Brasil e preferiria que
fosse parte do destino dos EUA, hoje posto em discussão por seu processo
irrefreável de decadência.
A nossa
luta é romper com a dependência colonial e neocolonial de outros centros de
poder e de fortalecer a fundação de um outro tipo de país, que albergue a todos
os seus habitantes com dignidade e esteja aberto, dadas as ameaças que pesam
sobre o planeta Terra, às fomes e sedes do mundo inteiro. Daí a importância
decisiva da reeleição de Lula. Não é uma questão apenas nacional, mas de
dimensões planetárias.
Nossa
missão é manter essa luz acessa, alimentá-la e não permitir que trilhemos um
caminho que nos levará a um abismo. Esta seria a tragédia, caso seu opositor
vencer e que nada fez para o povo brasileiro, senão colocá-lo sob a canga de
uma potência militarmente poderosíssima, mas paupérrima em termos de
humanidade, de colaboração para um destino feliz para o planeta Terra, para os
povos e para o nosso país.
Votarei
em Lula 13.
• Brasil – Lula ou barbárie. Por André
Márcio Neves Soares
Se se
mantiver a tendência do primeiro turno, de vitória de Flávio Bolsonaro,
perderemos muito como sociedade! Pois a questão, na presente eleição, não é de
pura e simples derrota democrática do governo atual, e sim de qual projeto de
civilização terá se sagrado vencedor na eleição.
Confesso
que fiquei baqueado, chocado mesmo, com o resultado do primeiro turno! Apesar
de as pesquisas eleitorais nunca apresentarem um favorito, eu esperava que Lula
tivesse alguma margem de votos, para ter chance de repetir o feito de 2022.
Infelizmente, eu estava errado.
Eu sei
que essas últimas quase três semanas foram intensas, com a população
mobilizando-se com o objetivo de evitar a barbárie. As forças progressistas não
deram o braço a torcer e continuam lutando, ainda mais desesperadamente.
Afinal, se Lula conseguir a façanha de virar o jogo, afastaremos o espectro do
fascismo por mais alguns anos. Mas ainda que isso aconteça, a expressiva
votação em Flávio Bolsonaro é prenúncio de turbulências futuras. Lula está em
sua última jornada, e o lulismo se encerra com ele. Não existe herdeiro. Isso,
por si só, já muito preocupante.
É fato
que todas as vitórias de Lula em eleições anteriores – salvo a sua reeleição,
em 2006 – foram revestidas de algum senso de urgência civilizatória. E essa
urgência só aumentou com o passar das eleições. Com efeito, em 2002, contra
José Serra, e em 2006, contra Geraldo Alckmin, a vitória do candidato petista
foi contra a direita nacional e o projeto econômico-financeiro do
neoliberalismo, capitaneado pelos Estados Unidos. No entanto, após o
“impeachment” de Dilma Rousseff, em 2016, a direita brasileira retornou ao
poder e preparou o caminho para ascensão de um ator até então pouco conhecido
no cenário nacional: a ultradireita.
A
eleição de Jair Bolsonaro, que somente foi possível após o fenômeno
estadunidense “Donald Trump”, dois anos antes, confirmou a existência de algo
muito sinistro na alma de nossa nação, já conceituado por Sérgio Buarque de
Holanda décadas atrás, a saber, que o homem cordial brasileiro possui um ardil
psicológico e comportamental que revela uma dubiedade de caráter, muito além do
temperamento emotivo.
Já
sabíamos disso. O que não sabíamos era que o caráter nacional, pelo menos parte
dele, não pode mais ser traduzido apenas pelas categorias de cordialidade
“buarquianas”, como a repulsa às regras formais, a mistura entre o público e o
privado e a violência disfarçada, tudo envolto em um sentimento ambíguo que vem
do coração, para o bem ou para o mal.
De
fato, desde a ascensão do bolsonarismo, boa parte da sociedade brasileira está
envolta na ambiguidade emocional para o mal. Assim, o ódio ao nordestino, ao
ser humano de cor, às comunidades LGBTQUI+, aos defensores do clima etc. faz
parte de uma racionalidade orgânica da ultradireita que vê na pessoa diferente
de si uma ameaça. O show de horrores dos eleitos para cargos do Poder
Legislativo confirma essa perspectiva.
Então
pergunto: e agora? Existe uma frase, falsamente atribuída a Winston Churchill
(1874 – 1965), primeiro-ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra
Mundial, que diz: “Se entrares no inferno, permaneça nele”. Obviamente, ninguém
quer permanecer no inferno. A ideia da frase seria a de ter resiliência, de
permanecer vivo e atuante para sair dele. Será que, mais uma vez, vamos
precisar ter resiliência para superar o governo do zero um? Porque não resta
dúvida de que um novo governo Bolsonaro nos levará de volta ao inferno. Como o
pai, Flávio Bolsonaro colocará o Brasil de volta ao mapa da fome, em menos de
dois anos. E ficaremos de joelhos!
Definitivamente,
não precisa ser assim. Será que já esquecemos das mais de 700.000 mortes pela
Covid-19, ocorridas enquanto Bolsonaro pai fazia chacota e andava de
motocicleta? Será que esquecemos que seu infame Ministro do Meio Ambiente,
Ricardo Salles, queria desmatar e garimpar sem limites, passando a boiada?
Será
que esquecemos que o miliciano Adriano da Nóbrega, morto covardemente pela
polícia baiana, foi condecorado com a medalha Tiradentes, a maior condecoração
do Poder Legislativo fluminense, enquanto estava preso, acusado de homicídio,
em 09 de setembro de 2005, por iniciativa de Flávio Bolsonaro? Será que
esquecemos que Bolsonaro pai tentou dar um golpe de Estado, com planos para
matar Ministro do STF, Lula e seu vice? Esquecemos das cenas dantesca de
invasão dos três poderes em Brasília por uma horda de fanáticos? Esquecemos que
o esquema do Banco Master beneficiava diretamente a família Bolsonaro, apesar
de não apenas a ela?
Concordo
com o texto mais devastador de Luís Felipe Miguel sobre “O povo e sua vontade”.
A ignorância política das massas é um fato, e a esquerda brasileira nunca atuou
efetivamente para combatê-la. É claro que não é só por burrice, mas também
perversidade. Eu acrescentaria dois componentes, extraídos de John Gray: o
primeiro histórico, que estabelece que, “Sem dúvida a intolerância à realidade
é inata ao espírito humano. Cada era tem uma imagem alucinatória de si mesma,
que persiste até ser dispersada pelos acontecimentos” (p. 8); e o segundo, de
cunho político-religioso, segundo o qual “…o declínio da religião que se deu no
século XX fez-se acompanhar da ascensão da política fundada na fé, uma
continuação da religião por outros meios que provou ser tão destrutiva como a
religião em seus piores momentos” (p. 9). É possível introduzir, ainda, um
componente psicológico, qual seja, o da persistência da mentalidade colonial.
Ora,
seria um erro afirmar que, desde que fomos “descobertos”, nossas elites jamais
abandonaram a subserviência e a imitação da principal potência mundial? De
fato, primeiro Portugal, depois a Inglaterra e, mais recentemente, os Estados
Unidos, sempre exerceram o poder simbólico e material aqui dentro.
Nesse
sentido, um tema muito pouco pesquisado, e que me parece de extrema relevância,
é, como dito acima, a emergência do bolsonarismo como fenômeno de massa, em
paralelo à ascensão do trumpismo. O fenômeno daqui não teria se criado sem o de
lá. Parece que estamos sempre a reboque dos acontecimentos na vida do país
susserano, atualmente nos Estados Unidos.
É claro
que essa imitação tem interesses próprios aqui dentro. Lula é odiado, pela
elite da “Faria Lima”, por tentar mitigar a sanha devoradora de recursos
públicos pelos mais abastados. Mas também é detestado pela metade de um povo
que necessita de um mito para dar sentidos às suas vidas. Afinal, Lula pode ter
sido tudo até agora, menos um mito. Pelo contrário. Lula traduz o simples que
deu certo.
Em
outras palavras, Lula é o ser-comum que conseguiu, pelas próprias forças,
superar as barreiras impostas pelo “status quo” nacional. O mito em si não,
conforme as palavras de Nancy e Lacoue-Labarthe: “O mito sempre foi o mito de
um evento e de um advento, o mito do evento absoluto, fundador” (p. 15).
Segundo esses autores, onde o mito é procurado, é o evento que é desejado. Mas
qual evento os eleitores de Bolsonaro filho perseguem? O evento de submissão e
imitação, de maneira autoritária ou não, da potência máxima do planeta,
atualmente os Estados Unidos, que rege, e sempre regeu, nosso porvir.
Concordo,
em parte, com Ruy Castro, quando disse que “Não é só a tentativa de volta a um
passado que nunca existiu, mas a promessa de um futuro que também não
existirá”. O passado que metade do eleitorado brasileiro deseja ver de volta
pode, realmente, nunca ter se sido vivido por uma boa parcela dos que agora o
desejam. Mas a outra parte, sim.
Afinal,
não só de jovens estamos falando. Ainda que os anseios pela família, pelos
costumes, pela tradição, pela ordem, pela religião, pela defesa da liberdade e,
vejam só, até pela defesa da democracia, sejam discursos de ordem imaginária, é
justamente desse tipo de discurso que se nutre o mito.
Por
outro lado, seria necessário investigar qual futuro não existirá, se o
bolsonarismo voltar com toda a força. A emancipação política; a defesa do fim
da exploração dos trabalhadores – notem o fim da escala 6×1 –; a luta pelo fim
da devastação predatória da natureza – vejam que nunca se desmatou tão pouco a
região amazônica como agora –; a manutenção do ganho real e progressivo, ainda
que pequeno, do salário mínimo etc., não serão prioridade e serão prejudicados
nesse cenário.
Esse é
o futuro que desejam os eleitores bolsonaristas? Se sim ou não é irrelevante,
pois esse certamente é o futuro que todos teremos, em repetição ao já existiu
no governo de Bolsonaro pai.
É
importante refletir sobre o que disse Nancy e Lacque-Labarthe: “A crença não
surge por si, ela deve ser despertada e mobilizada nas massas” (p. 62). Nestas
circunstâncias, a história serve como balizador sobre o que existirá ou não no
futuro. A ultradireita nacional, assim como a mundial, conhece os ensinamentos
de Hitler sobre como pôr as massas em movimento em direção a ela.
A
esquerda tupiniquim parece esquecer completamente disso, para só lembrar, de
tempos em tempos, quando precisa salvar o país da catástrofe, como aconteceu em
2002 e em 2022, na tentativa de reeleição de Bolsonaro pai. Nem sempre dá
tempo…
É
difícil prever o que acontecerá no dia 25/10/2026. A reação progressista se fez
maior do que muitos esperavam no campo ultraconservador, após a vitória de
Bolsonaro filho no primeiro turno. Todas as pesquisas estão dando empate
técnico. Ao meu ver, a única chance que Lula tem é engajar os ausentes e os que
votaram em branco ou nulo no primeiro turno. Eles somam mais de 33 milhões de
pessoas. É gente suficiente para evitar a barbárie!
Fonte:
A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário