Uma
análise psicológica do colapso ambiental
O
psicanalista espanhol analisa a catástrofe climática como um sintoma dos nossos
tempos e alerta para um sistema que transformou o consumo e a gratificação
instantânea em uma obrigação. Freud, Lacan e a negação como resposta social.
Há algo
profundamente paradoxal na crise climática: nunca antes houve tanta informação
disponível sobre a deterioração do planeta, e ainda assim a humanidade continua
a caminhar numa direção que sabe ser destrutiva. Sabe que o aquecimento global
está a acelerar, que os recursos naturais não são infinitos, que a
biodiversidade está a perder-se e que as consequências já fazem parte do
quotidiano. Mas saber não basta. O que leva a que as pessoas ignorem o
problema, adiem decisões e mantenham formas de produção e consumo que põem em
risco as próprias condições de vida?
Em A
Loucura do Progresso: Um Psicanalista Escreve sobre as Mudanças Climáticas
(Xoroi Edicions), o autor espanhol Josep Maria Panés propõe abordar essa
contradição a partir de uma perspectiva incomum: a psicanálise. Sua hipótese é
que a crise ecológica não pode ser entendida apenas como um problema
científico, tecnológico ou político. Ela é também um sintoma de nossa época,
uma manifestação de uma dinâmica social permeada por um senso de “ausência de
limites”: produzir mais, consumir mais, acumular mais, crescer indefinidamente
em um planeta que, por definição, tem limites.
Baseando-se
em Freud e Lacan, Panés estabelece um diálogo entre conceitos como pulsão de
morte, desejo, ansiedade, gozo e mal-estar na cultura e a emergência climática.
O capitalismo contemporâneo, argumenta ele, não oferece apenas objetos para
satisfazer necessidades: produz insatisfação perpétua e transforma o consumo em
um meio privilegiado de gratificação instintiva. O problema é que essa lógica
não só exaure os indivíduos, mas também os recursos do planeta. A devastação
ambiental e a deterioração dos laços sociais são duas faces da mesma moeda.
Um dos
conceitos centrais do livro é “não querer saber”. Não se trata de ignorância ou
falta de informação: diante de uma realidade muito angustiante, surge uma
resistência subjetiva ao conhecimento, o que força os indivíduos a mudarem seu
modo de vida.
O
desafio não é encontrar uma fórmula mágica para salvar o planeta a partir do
consultório. O próprio autor alerta para as limitações da psicanálise.
Trata-se, de forma mais modesta, porém radical, de tentar compreender o que
mantém os seres humanos presos a uma lógica que ameaça destruir aquilo de que
dependem para sobreviver. E de resgatar, diante do fatalismo, a possibilidade
de estabelecer limites onde o capitalismo parece ter transformado o “mais” em
uma exigência permanente.
• Em A Loucura do Progresso, você
argumenta que a mudança climática pode ser interpretada como um sintoma. O que
a psicanálise nos permite ver onde outros discursos — científicos ou políticos,
por exemplo — parecem falhar?
Essa é
uma ótima pergunta que toca no que me motivou a pensar, refletir e escrever
sobre o tema, e a enquadrá-lo nesses termos. Dada a gravidade das mudanças
climáticas e da crise ecológica, e a incapacidade política dos cidadãos, e
também da ciência, de responder adequadamente, pensei que a psicanálise poderia
lançar alguma luz sobre por que não estamos fazendo nada em relação àquela que
é provavelmente a crise mais séria que a humanidade enfrenta. António Guterres,
o Secretário-Geral das Nações Unidas, já disse isso, cientistas já disseram
isso, muitas pessoas já disseram isso… Então, a ideia de que isso é um sintoma,
no sentido de que é algo que escapa à racionalidade, algo que opera fora das
intenções conscientes, fora dos ideais.
Os
cientistas podem proclamar suas descobertas, apresentar-nos suas curvas de CO2
e temperatura, mas parecemos surdos a isso; parece que o cotidiano engole tudo.
E assim, isso me levou a pensar que há algo na lógica do sintoma, no sentido de
que existe um prazer oculto, um prazer que opera além da vontade consciente do
sujeito, que também operava na atitude coletiva em relação à questão das
mudanças climáticas.
• Ele relaciona a crise ecológica ao
funcionamento descontrolado do impulso. Como essa lógica pulsional se relaciona
com o modelo capitalista contemporâneo?
Não
estou dizendo nada que Freud, Lacan e Miller já não tenham dito. Lacan
praticamente dizia isso no final dos anos 60 e início dos 70. O público
argentino em geral (na Europa, mesmo na França, infelizmente, a psicanálise não
pode ser considerada mainstream hoje em dia) está familiarizado principalmente
com o Lacan clínico. Mas o Lacan que analisa não apenas o mal-estar na cultura,
mas também os becos sem saída, falava do discurso capitalista, comparando-o à
psicose no sentido de um funcionamento ilimitado, condenado a um excesso que,
por um lado, fomenta um estilo de vida viciante em todos nós: mais consumo,
mais trabalho e, portanto, mais destruição, mais devastação ecológica.
Outro
dia, durante uma palestra em Barcelona, percebi algo: em 1972, foi publicado o
chamado “Relatório Meadows“, encomendado pelo Clube de Roma a uma equipe de
cientistas do MIT, em Massachusetts. Eles publicaram esse relatório em 1971,
fazendo projeções com base nos recursos técnicos disponíveis na época. E o que
ele previu — o aumento do efeito estufa, a elevação da temperatura, eventos
climáticos extremos e o impacto na produção de alimentos — vem se concretizando
há décadas.
• E o que Lacan disse sobre isso?
Lacan,
que era muito atento não só aos clássicos, à psiquiatria e à ciência, mas
também à política, creio que leu o Relatório Meadows em 1972, pois pouco depois
fez uma declaração, uma série de reflexões sobre a ilimitação, a inviabilidade
do capitalismo, apontando para essa questão de ser governado pela pulsão bruta,
quando a pulsão não é governada pelo desejo. O capitalismo funciona segundo
essa ilimitação da pulsão, que pode transformar qualquer pulsão em uma pulsão
de morte. Lacan captou essa questão da ilimitação no funcionamento do
capitalismo e expressou-a desta forma: “Não critico o capitalismo; é a coisa
mais astuta que já foi inventada. Vai rápido, rápido, rápido… A única coisa
destinada a explodir.” Ele tinha essa ironia característica.
• Retomando Freud, você fala da mudança
climática como uma possível manifestação da pulsão de morte. Como essa dimensão
destrutiva se expressa no cotidiano atual?
Esse
lado viciante — que Jacques-Alain Miller enfatizou amplamente — esse vício em
produção, na acumulação de mais-valia que rege o discurso capitalista, nos
tornou todos viciados: viciados em trabalho, em sexo, em dinheiro, em jogos de
azar. E o vício é uma máquina regida pela pulsão de morte. Não trabalhei
extensivamente com vícios, mas colegas que trabalharam têm uma compreensão
muito clara desse ponto. Em clínicas de tratamento de dependência, percebe-se a
pulsão de morte em ação. Percebe-se que essa pulsão atua em direção a algo além
dos interesses do sujeito, em direção a algo sem cabeça, um sempre-mais, que
desconsidera até mesmo a sobrevivência do indivíduo.
Creio
que a questão da pulsão de morte também se reflete em outro ponto levantado por
Lacan na década de 1960, no Seminário sobre a Ética da Psicanálise: a função do
lixo. Ele disse: “Que espécie estranha e insensata, que enche seu ambiente com
lixo indestrutível que torna a vida materialmente impossível e nos impede de
respirar simbolicamente. Essa acumulação de objetos produzidos e impostos a nós
pelo sistema capitalista nos sufoca, nos impede de respirar, em todos os
sentidos”. Essa também é a ação da pulsão de morte.
• E o livro contém uma ideia subjacente:
sabemos o que está acontecendo, mas ainda assim não agimos. Como a psicanálise
explica essa negação coletiva diante de uma ameaça tão óbvia?
Hoje
alguém me lembrou que o psicanalista francês Dominique–Octave Mannoni já usava
essa expressão: o “eu já sei”, mas a negação, a repudiação. Refiro-me a essa
falta de vontade de saber, relacionando-a a uma afirmação de Lacan: existem
três paixões fundamentais. Amor e ódio são muito óbvios, mas a terceira é
surpreendente: a ignorância, a falta de vontade de saber. Não se trata apenas
de não querer aprender certas coisas, mas de negar apaixonadamente coisas que
já se viu, mas que se tem de negar porque confrontam algo insuportável, algo
sobre os limites da existência humana, o que chamamos de “castração” em
psicanálise: nem tudo é possível, não viveremos para sempre, a felicidade é
escassa e passageira, há muita dor no mundo e na vida das pessoas. Essa ideia
de que nem tudo é possível.
• A negação das mudanças climáticas não é
apenas uma estratégia política, mas também uma resposta a mecanismos
psicológicos mais profundos?
Claro,
o problema é que existe uma cumplicidade oculta muito poderosa, porque sabemos
que esse relatório foi publicado na década de 1970, mas vinte anos antes, as
grandes companhias petrolíferas já tinham relatórios exaustivos sobre os
efeitos da queima de combustíveis fósseis e como isso teria repercussões ao
longo de décadas. E elas se dedicaram a investir enormes quantias de dinheiro
para promover o negacionismo. A questão é que, do outro lado, encontraram uma
humanidade ansiosa para acreditar nessas mentiras: ‘Bem, não é tão ruim assim’,
‘a ciência vai resolver’, porque todos preferiam pensar no ‘efeito Papai Noel’,
sobre o qual Lacan também falou: ‘Algo fantástico acontecerá para resolver
isso’. Não, nada de fantástico acontecerá.
• Uma espécie de procrastinação coletiva,
não é?
Exatamente,
muito intenso porque envolve não só adiar para amanhã, mas também ignorar, não
querer saber, e aí vale tudo para encobrir as evidências. Na Espanha e na
França, estamos tendo incêndios florestais horríveis. Toda a costa atlântica da
França sofreu um inverno de inundações com enormes custos ecológicos e humanos,
e agora os incêndios estão chegando. Esses megaincêndios de sexta geração, que
são impossíveis de combater depois de iniciados. É um desastre que vem sendo
previsto há décadas. Está acontecendo muito mais rápido do que os especialistas
previram.
Haverá
um salto qualitativo a partir de 2023 em todos os parâmetros das mudanças
climáticas e da crise ecológica. Então, por que isso não é notícia de primeira
página em todos os canais? Por que não é o assunto principal de todos os
noticiários? Certamente há linhas editoriais em jogo, porque a mídia, em geral,
é governada por redes de interesses particulares. Poucos expressam suas
opiniões livremente, e atendem a um público que prefere ouvir histórias
fantasiosas: “Bem, não é tão ruim assim, eles estão exagerando, tudo vai se
resolver. Vamos pensar em outra coisa.” Essa questão de não nos deixarmos
traumatizar, de não aceitar o que é tão doloroso perguntar: Como será a vida
daqui a cinco anos? Como viverão as futuras gerações?
• Qual o papel da ansiedade nessa
dificuldade de reação?
Acredito
que essa seja a força motriz por trás dessa dificuldade, porque se eu digo que
evitamos ser traumatizados, significa que evitamos confrontar algo que nos
aflige profundamente. Trauma é ser confrontado com algo que excede nossa
capacidade de compreensão e resposta, algo para o qual não temos nenhum ponto
de referência, algo que transcende as coordenadas do nosso mundo e que
vivenciamos como uma ameaça. Penso que a questão da ansiedade é a força motriz
frequentemente ignorada, porque nossa capacidade de evitar ser traumatizados,
de nos distrairmos, de usar narrativas reconfortantes e entorpecentes, é muito
forte. Portanto, a ansiedade não se manifesta.
• Há ansiedade?
Sim,
existe muita ansiedade que, na França, em consonância com a história de seus
cidadãos, está se transformando em um movimento político. Há uma espécie de
clamor global para que a crise climática seja politizada. Ou seja, ela precisa
ser colocada em pauta, na agenda política, como prioridade absoluta, e os
governos precisam ser pressionados a abordá-la, a tomar medidas que vão além
dos grupos de pressão aos quais obedecem. Quando essa ansiedade vem à tona, ela
é desestabilizadora, causa danos psicológicos, mas também pode ser uma força
motriz para dizer: “Vamos acordar”.
• E, diferentemente de outras abordagens
que se concentram em soluções técnicas ou regulatórias, sua proposta visa
questionar o desejo. O que exatamente implicaria reorientar o desejo em termos
psicológicos?
Lacan
traçou uma analogia entre a mais-valia de Marx e seu conceito de gozo
excedente, que é uma forma de nomear essa busca errante por satisfação nos
seres humanos que sempre querem, de forma desprovida de consciência, mais. Tem
que haver um excedente no gozo. E ele disse, brincando com a terminologia
política: “Isso nos torna proletários do nosso inconsciente, dos nossos modos
de gozo”. Então, eu estava sugerindo — e não sou original nesse sentido — que
as coisas que podemos fazer individualmente diante dessa catástrofe são muito
poucas. Temos que agir em um nível macro, mas agir individualmente pode nos
permitir nos desvencilhar um pouco desse vício ao qual o discurso capitalista
tende a nos prender, nos tornar um pouco menos proletários aos ditames do nosso
inconsciente, do nosso superego que nos impulsiona rumo a esse colapso. Estar
menos acorrentados a esse gozo pelo qual trabalhamos. E já sabemos que o
antídoto para o prazer é o desejo, é redescobrir algo do próprio desejo que
ajuda a organizar a vida com mais significado e a impor um pequeno limite a
essa dimensão que acaba sendo muito superegoica, porque não é o prazer de
desfrutar e o princípio do prazer, é um prazer que no final sempre acaba
arruinando a vida do sujeito.
• O livro propõe evitar tanto o fatalismo
quanto projetos irrealistas. Onde você colocaria um possível ponto de
intervenção hoje?
Não sei
se existe um meio-termo. A psicanálise não endossa nenhuma opção ideológica
específica, nem propõe ou promove uma versão ideal de sociedade, mas possui uma
bússola para detectar as idealizações que obscurecem a realidade. Ela contribui
para a tarefa de nos impedir de continuar acreditando em soluções impossíveis,
em soluções ideais, em mentiras como todas essas estratégias: “Vamos investir
quantias astronômicas no sequestro de carbono, CO2, e então vamos limpar a
atmosfera”, “Vamos eletrificar toda a produção mundial e o PIB continuará
crescendo”. Não, isso não pode acontecer. Apenas cerca de 20% das necessidades
energéticas mundiais podem ser supridas pela eletricidade. Portanto, se não
houver uma redução no tamanho geral da economia, essa máquina que envenena a
atmosfera, os mares e os campos não vai parar.
Por um
lado, a psicanálise pode contribuir para um certo despertar, apontando que
estamos presos a essa posição de não querer saber e que, portanto, devemos
fazer um esforço consciente para despertar e desacreditar os enganos que nos
contam. Que devemos nos esforçar para nos libertar dessa atração viciante e que
não devemos acreditar nas histórias fantasiosas que nos são oferecidas como
soluções mágicas.
Fonte:
Entrevista com Josep Maria Panés, para Oscar Ranzani, em Página|12/IHU

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