Um
país polarizado e um repórter brincando com fogo
Escrevo
em 2026, quando as pessoas reclamam que o país está politicamente polarizado.
Eu me pergunto quando não esteve (talvez nos dois primeiros governos de Lula?).
Em setembro de 1961, depois da misteriosa renúncia de Jânio Quadros, João
Goulart assumiu a presidência da República obrigado pela direita golpista, com
respaldo da cúpula militar, a renunciar a parte de seus poderes e aceitar um
parlamentarismo improvisado. Mas isso não era pacífico. A maioria da população
apoiava Jango e as forças armadas estavam divididas entre legalistas e
golpistas num clima de radicalização.
Jango
era o herdeiro político do presidente Getúlio Vargas, que se suicidou em 24 de
agosto de 1954 para evitar mais um golpe militar. Homem de espírito conciliador
e bom negociador decidiu aceitar o parlamentarismo mesmo discordando de Leonel
Brizola. Os dois eram mais que aliados políticos e líderes varguistas. Eram
amigos e cunhados; Leonel havia se casado com uma irmã de Jango.
O
governador do Rio Grande do Sul havia corrido grandes riscos para garantir a
posse de Jango. Mobilizou e reforçou o armamento da Brigada Militar, organizou
a rede de rádio da legalidade, pela qual fez discursos inflamados e mobilizou o
país. Sob grande tensão e ameaça de atentado da direita militar que se opunha à
volta do vice-presidente, Brizola organizou seu retorno ao Brasil vindo de
Montevidéu a Porto Alegre. Divulgou que Jango viajaria por terra, mas veio num
voo secreto da FAB, de madrugada, com todas as luzes apagadas.
Lembro
que em 28 de agosto aviões da FAB sediados em Porto Alegre ameaçaram bombardear
o Palácio Piratini. Jornalistas que estavam ali me contaram (eu cheguei logo
depois) que ficaram em pânico. Entrementes os sargentos se rebelaram. Conta-se
que sabotaram as aeronaves pondo açúcar nos tanques de combustível. Em seguida,
o oficial comandante foi deposto e preso pelos outros oficiais, que aderiram à
legalidade.
Brizola
e a FAB viabilizaram um voo num Douglas DC-3 para os jornalistas (inclusive
alguns estrangeiros como o estadunidense Juan de Onis, do The New York
Times) e fomos esperar Goulart na capital uruguaia. Lá se encontravam
vários políticos, entre eles o deputado federal Tancredo Neves, negociando as
condições para o retorno. Anoiteceu e eu, que vestia roupa leve, comecei a
passar frio. Jango concedeu uma rápida entrevista coletiva, em tom conciliador.
Aproveitei para enviar um telegrama (tinha franquia de uma rede internacional,
um cable, que se comunicava por um cabo submarino) para o
jornal relatando os acontecimentos.
Frio
mesmo para valer eu e os outros jornalistas sofremos a bordo do DC-3 da FAB na
volta a Porto Alegre. Avião militar, assentos de madeira em espinha de peixe
encostados à fuselagem, na qual havia orifícios por onde entrava um vento
gelado. Nós ficamos entanguidos. Eu me enrolei em folhas de jornal e me deitei
no corredor. Apesar do gelo consegui dormir durante a maior parte do tempo do
voo, que demorou algo como uma hora. O que é ter 20 anos de idade!
Ao
chegar ao aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, mudança completa. Fazia um
tremendo calor abafado e saí suando do saguão para procurar um taxi na
madrugada. Não tenho a menor ideia de como cheguei ao hotel.
O
governador Brizola mostrou todo o tempo sua capacidade de liderança. Foi o
protagonista que concretizou a volta de Jango ao país. Sem sua atuação
determinada o vice-presidente não teria conseguido voltar e menos ainda assumir
a Presidência. Mobilizou sua equipe e a oficialidade da Brigada Militar, que
aderiu com entusiasmo e competência. E preparou-se para a resistência armada.
Além disso se aliou ao setor legalista do Exército. Seu palácio de governo
sofreu ameaça de ser bombardeado pela FAB. Se tivesse sido derrotado, no mínimo
teria sido enfurnado numa prisão.
As
negociações continuavam freneticamente com Goulart hospedado no Palácio do
governo. Brizola avaliava que a conjuntura era favorável e não via motivo para
recuos. Era momento de avançar. Jango argumentava que se não houvesse
concessões o país poderia ser levado a uma guerra civil. Consta que os dois
protagonizaram uma discussão tumultuada. Ao aceitar a imposição reacionária
para assumir a Presidência Jango justificou-se dizendo que não queria ver
derramado o sangue dos seus compatriotas.
O
presidente não estava sozinho. Tinha apoio popular, no forte movimento sindical
urbano, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), varguista, influenciado pelo
Partido Comunista Brasileiro, este liderado pelo prestigiado Luís Carlos
Prestes. Tinha apoio nas Ligas Camponesas, movimento rural radicalizado
defendendo reforma agrária “na lei ou na amarra”. Uma parte das forças armadas,
legalista, apoiara sua posse.
Contava
com a adesão do então poderoso movimento estudantil liderado pela UNE – União
Nacional dos Estudantes. No Congresso, era apoiado por uma bancada combativa
baseada no PTB (infiltrado pelo PCB, mantido na clandestinidade), do Partido
Socialista Brasileiro (PSB), e de setores da Democracia Cristã. Tinha
influência mesmo entre membros do Partido Social Democrata (PSD), de direita,
aliado da extrema direita golpista União Democrática Nacional (UDN). O debate
era intenso e se dava sob a sombra da Guerra Fria, na qual a União Soviética
apoiava movimentos anticoloniais e pela independência de países da África, Ásia
e América Latina, e os Estados Unidos rebatiam promovendo golpes de estado e
movimentos antiguerrilha como em Angola.
Habilidoso
negociador, Jango trabalhou pela retomada da plenitude de seus poderes, que
iria conseguir com a consulta ao eleitorado pelo plebiscito de 1962 e a volta
ao presidencialismo.
Na
imprensa ferviam as polêmicas envolvendo os jornais empresariais – Estado de S.
Paulo, Globo, Diários Associados, Folha, todos à direita, contra Jango,
acenando com a ameaça comunista. Em apoio a Jango a vitoriosa Última Hora, de
Samuel Wainer. Uma rede com jornais no Rio, em São Paulo, Recife e Porto
Alegre, que praticava um jornalismo popular, vibrante. E mais uma miríade de
jornais comunistas, socialistas, sindicais. Que apoiavam e criticavam Jango
defendendo avanços mais significativos.
E havia
avanços. Na verdade, o governo de João Goulart foi o mais progressista de nossa
história. Promoveu importantes benefícios para os trabalhadores, garantiu
amplas liberdades democráticas suportando calunias e críticas violentas vindas
da grande imprensa liderada pelo tão brilhante quanto maléfico Carlos Lacerda,
atuando com retórica inflamada tanto por meio de seu jornal Tribuna da
Imprensa como por programas em série pela televisão.
A
plataforma das Reformas de Base – agrária, urbana, universitária etc., e os
programas de organização sindical e de alfabetização no campo eram
revolucionários e foram alvo do ódio e repressão assassina da ditadura militar
desde o momento em que se implantou pela força. Mantido, o governo de João
Goulart teria transformado o Brasil.
A
radicalização estava presente em tudo. A direção do “Estadão” conspirou para
Jango não tomar posse e continuou conspirando contra o presidente desde o
primeiro dia de seu governo. Internamente começou a ocorrer um processo que era
novidade no jornal dos Mesquita. Insinuava-se o início de um “racha” entre
jornalistas de esquerda e de direita que algum tempo depois iria dividir a
redação e provocar demissões, inclusive do seu diretor e modernizador, Claudio
Abramo.
Em seu
livro A Regra do Jogo, na página 39, afirma: “a partir desse ponto
a equipe do jornal se dividiu entre esquerdistas e direitistas; a crise que o
país atravessava se instalou na redação, terminando com a saída gradativa de
todo um grupo”.
Eu, por
ser o mais bobo, fui o primeiro.
No
final de 1961 houve a histórica greve dos jornalistas, apoiada pelos gráficos.
Da qual participei parcialmente porque sofri um ataque de malária que havia
contraído durante uma reportagem no rio Paraná, logo no rio de minha paixão no
qual navegara tanto na infância e adolescência sem sofrer nada.
Na
verdade, eu não tinha a menor importância. Naquela redação de centenas de
funcionários era apenas mais um novato. Mas eu tinha ideias de esquerda, uma
espécie de inconformismo contra as desigualdades, inspirado em Alexandre Dumas,
Monteiro Lobato, Jorge Amado. Considerava-me nacionalista, defensor da
Petrobras desde a adolescência, típico de jovens de classe média. Num piquete
durante a greve falei mal dos Mesquita numa roda onde havia um dedo duro. Acho
que a partir daí direção do jornal ficou de olho em mim. Apesar disso, em
janeiro de 1962 eu ainda estava lá, entrevistando Osvaldo Dorticós Torrado,
então presidente de Cuba revolucionária.
No
livro, Abramo conta que ao enveredar para a conspiração contra João Goulart e a
esquerda o “Estado” publicou editoriais “típicos como um que dizia que ser
comunista ou esquerdista era um problema endocrinológico; as glândulas não
funcionavam bem no sujeito, ele ficava comunista”.
O
Departamento de Estado dos Estados Unidos estava envolvido através da CIA e da
USAID na conspiração. Temendo uma revolução no Brasil os EUA estavam
infiltrando espiões, consta que cerca de 6 mil, pelo país. Investiram pesado em
candidatos ao Parlamento nas eleições de 1962, através de um tal de IBAD, com
resultados pífios. E financiaram a criação do IPES – Instituto de Pesquisas e
Estudos Sociais, na verdade um órgão de espionagem e propaganda contra o
governo de Jango. Depois todos vimos o monstro em que ele se tornou a partir do
golpe de 1964.
Lembro
que em algum momento fui procurado pelo Ênio Pesce, um repórter político da
Folha com o qual às vezes conversava. Ele me contou que estava trabalhando num
tal de IPES, redigindo notícias de sua área. Estavam pagando bem. Não sei se
ele queria me convidar a participar. Mas eu desconfiava desse negócio que,
aliás, a esquerda estava denunciando como coisa do imperialismo. Mostrei
desinteresse. Então me perguntou se eu achava certo ele trabalhar nisso.
Percebi que estava querendo aprovação. Desconversei, disse que cada um deve
saber o que fazer.
A
situação estava ficando perigosa, mas eu não me dei conta. E vejam só como numa
espécie de Forrest Gump acabei vitimado, engolido nas engrenagens de uma trama
internacional da Guerra Fria. A USAID, a pretexto de apoiar a liberdade
sindical para confrontar o crescimento do sindicalismo que considerava
comunista, criou um chamado Movimento Sindical Democrático (MSD), que viria a
ser o motivo de minha demissão do “Estadão”. Era um movimento fantasma,
financiado pela USAID, que comprou pelegos e picaretas e existia mais nas
páginas do “Estadão” do que em qualquer lugar no movimento sindical.
O MSD
organizou o que seria uma grande demonstração de força e anunciou que iria
conduzir seus militantes em 200 ônibus a Aparecida do Norte no sábado 17 de
março de 1962. Como de costume, os repórteres “da casa”, e os mais experientes,
se escafediam nos finais de semana. Era um evento sindical, mas o setorista
sindical não assumiu. Coube a mim fazer a cobertura do evento. De manhã parti
para Aparecida numa kombi do jornal, acompanhado de Ivo Barretti, o mesmo
fotógrafo que esteve comigo na Semana da Legalidade, em Porto Alegre, no ano
anterior.
Chegando
lá pelo meio da manhã Ivo e eu observamos que havia numerosos ônibus no
estacionamento. Os seus passageiros, na maioria famílias, haviam confluído em
massa para a igreja e por lá ficaram. Descobrimos que simultaneamente se
realizava uma espécie de assembleia do MSD em um salão de um prédio vizinho.
Tinha todo jeito de uma reunião improvisada. Ali se encontravam alguns daqueles
pelegos e picaretas pagos pela USAID lendo moções de apoio de entidades
apelegadas, como sindicatos de comercio e semelhantes, para um público de uns
sessenta homens, todos em pé, pois não havia cadeiras. Um público desatento,
desinteressado, como se estivesse ali por obrigação.
Ivo
Barretti fotografou detalhadamente a “assembleia”. Ficamos algum tempo ali e,
sem maiores novidades, fomos embora. Lembro que paramos, se não me engano, no
Restaurante dos Quinhentos, à margem da Via Dutra para almoçar. Fui para o
jornal, fiz o texto contando o que havia observado, entreguei para a editoria e
fui encontrar a namorada.
Concordo
com Claudio Abramo quando em seu livro escreve que jornalismo objetivo é uma
falácia, não existe. Os fatos podem ser narrados objetivamente, mas sempre a
partir da subjetividade do jornalista que os registra. Acrescente-se que eu
tinha posição sobre o tal MSD. Era evidente e eu sabia que se tratava de uma
farsa descarada, uma ação imperialista. Reconheço que essa minha percepção me
levava a ter má vontade com aquele evento. O que influenciou o conteúdo do
texto que escrevi.
A
matéria foi publicada na edição de domingo. E eu tive mais um ataque de
malária, fiquei de cama com febre domingo e segunda-feira. Na terça-feira fui
para o jornal. Ao entrar na redação um daqueles velhos contínuos que ali
serviam me disse: “é para o senhor subir ao Departamento Pessoal”.
Subi as
escadas para o 6º. Andar. Estava pálido e abatido pela febre da malária. Entrei
na sala e um funcionário que eu não conhecia, em tom agressivo, me disse: “O
senhor está demitido! Aqui estão suas contas”. Eu já estava pálido, mas lembro
que amarelei tamanho foi o susto que levei!
Acho
que nem se falou mais nada, nem ele, nem eu!
Atordoado,
desci para a redação, Claudio Abramo estava sentado em sua mesa. Fui falar com
ele. “Claudio, o que aconteceu?” Ele, com ar indiferente, talvez porque
estávamos em público, me disse qualquer coisa que não lembro, mas era algo
assim como se eu não tivesse feito a coisa certa naquela matéria.
Ainda
argumentei: vocês viram as fotos do Ivo Barretti? Sem resposta. Mais tarde
Claudio Abramo escreveu em seu livro, A Regra do Jogo, que a
regra é a seguinte: como jornalista, ao vender sua força de trabalho ao dono do
jornal, você procura apresentar os fatos objetivos, ter ética. Não existe uma
ética do jornalista. A ética que existe é a mesma para todos, é a ética do
cidadão. Mas Claudio entra em contradição em seguida quando diz: “evidentemente
a empresa tem sua ética, que é a dos donos”.
Então a
empresa não precisa seguir a ética do cidadão. Ela segue suas opções políticas
ou econômicas negando quando lhe convém os fatos objetivos. Foi o que aconteceu
durante a Semana da Legalidade quando o “Estado” desmentiu em suas páginas a
matéria objetiva que eu havia enviado de Porto Alegre.
Ninguém
naquela redação se aproximou de mim, nem naquela ocasião nem depois. Nem Vlado,
nem Gambirásio, nem Weiss. Nem mesmo alguns que eu havia apresentado ao jornal,
como Antônio Pimenta Neves. Parecia que eu havia pegado uma doença contagiosa.
Também não procurei ninguém. Página virada.
No seu
livro Abramo me cita (página 33) entre os jovens entusiastas que ele havia
recrutado para renovar o jornal. Nos anos seguintes, toda vez que me encontrava
me agradava e oferecia um emprego. Parece que tinha um sentimento de culpa em
relação a mim. Nunca pude aceitar porque sempre estava empregado, mas também
porque faltava vontade de voltar a trabalhar com ele.
Naquela
ocasião fiquei possesso. Pedi a um amigo nissei, Massao Ono, dono de uma
gráfica, que fizesse um panfleto de denúncia do jornal, nem lembro do texto.
Peguei uma quantidade de panfletos, e na hora do almoço, quando a redação
estava vazia, iludi um daqueles velhos contínuos e com durex preguei muitos
pelas paredes. Percebi que Carlão Mesquita estava descendo do elevador, corri
para a escada e tomei o elevador no andar inferior. Soube que ele ficou
enfurecido quando viu.
Além
dessa revolta juvenil eu agora tinha uma preocupação: o jornal não havia
promovido meu registro como jornalista profissional no Ministério do Trabalho.
Então eu nem era jornalista. Com ajuda do Sindicato dos Jornalistas negociei na
Delegacia Regional do Trabalho tal registro que está lá na minha primeira
Carteira de Trabalho. Havia muita gente de esquerda que me ajudou nesse
episódio.
Fiquei
no “Estadão” quase dois anos, desde maio de 1960 a março de 1962, primeiro como
estagiário. Fui registrado em meados de1961. Na época o jornal era generoso,
antes da crise de confiança deu liberdade para eu aprender a profissão enquanto
a exercia. E forneceu os meios materiais para produzir as reportagens. Nunca
faltou dinheiro.
Minha
malária nunca mais voltou. E olha que depois disso andei pela Amazônia e vários
dos que me acompanhavam pegaram malária. Meu segredo: antes de entrar no mato
tomar muita vitamina B12. O pernilongo não suporta o cheiro.
Fonte:
Por Carlos Azevedo, em Outras Palavras

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