Onde
está o SUS nos programas dos candidatos?
Em sua
fala durante a realização da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o
Progresso da Ciência (SBPC) em Niterói, no final de julho deste ano, a
professora da UFRJ Ligia Bahia refletiu sobre o detalhamento das
plataformas eleitorais de candidatos em eleições passadas e aquilo que é feito
depois que os vencedores tomam posse. Segundo ela, esses documentos teriam
pouca importância prática para os governos, pois nem todos os compromissos ali
elencados se tornam realidade. Mas, para a pesquisadora, eles são reveladores
pelo que não dizem. “O que não está previsto na plataforma não
acontecerá”, pontuou na ocasião.
Uma
visão geral dos programas registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
pelos cinco candidatos que melhor pontuam nas pesquisas, nesse sentido, pode
ser mais reveladora pelo que não diz do que por aquilo que prevê. Como citou a
pesquisadora em relação a programas pretéritos, existe uma convergência nas
propostas, em que todos prometem “mais, mais, mais”. São mais unidades, mais
ambulâncias, mais hospitais, mais médicos. Contudo, o “mais”, no que diz
respeito a investimentos, traz divergências conceituais, contradições e
omissões nas plataformas apresentadas.
O
programa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfatiza a
recuperação do papel do Estado no financiamento e a manutenção dos direitos
sociais e faz uma defesa do atual mandato, com números como o Novo PAC, que,
segundo o documento, financiou a construção de 2.734 unidades básicas de saúde
e a distribuição de 10 mil combos com equipamentos, além da renovação da frota
do SAMU, com a doação de 2.994 ambulâncias para estados e municípios.
“Adotamos
uma estratégia fiscal inovadora com o novo arcabouço fiscal, que controlou o
crescimento das despesas sem prejudicar a recomposição de gastos sociais.
Restabelecemos os pisos constitucionais da saúde e da educação, reorganizamos
as contas públicas”, diz um trecho. Mas se é verdade que a nova regra fiscal,
que substituiu o Teto de Gastos, permitiu a ampliação do orçamento da saúde e a
retomada do cumprimento do piso constitucional, estancando um quadro de
desfinanciamento do SUS, ela também limita novos investimentos e, em um um
futuro próximo, pode pôr o próprio piso em risco.
Segundo
estimativas da Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado, um
“gatilho” incluído em um Projeto de Lei (PL) aprovado pelo Congresso Nacional
pode gerar uma perda de R$ 4,7 bilhões para a área de saúde em 2027. O PL
permite ao governo usar a receita extra, com a venda de petróleo, para reduzir
impostos sobre combustíveis, e concede subsídios para a indústria de
fertilizantes e o setor de minerais críticos e estratégicos.
Contudo,
um dos dispositivos estabelece que, no caso de déficit primário neste ano, as
receitas da União com a comercialização do petróleo e gás natural não serão
incluídas no cálculo da chamada “receita corrente líquida” do governo. E o piso
constitucional é 15% dessa receita. Em outro estudo, a IFI projeta crescimento
anual médio de 3,9% das despesas com o Sistema Único de Saúde (SUS) nos
próximos 45 anos, o que representaria um acréscimo de aproximadamente R$ 10
bilhões por ano, superando o limite de crescimento da despesa previsto no
arcabouço.
Sobre o
regramento fiscal, contudo, o programa não projeta mudanças imediatas. “Para
impulsionar ainda mais os investimentos produtivos e o crescimento econômico de
longo prazo, vamos criar as condições para uma redução sustentada das taxas de
juros, com inflação controlada e assegurando uma política fiscal responsável.
Para isso, manteremos o novo arcabouço fiscal, que controlou o crescimento das
despesas sem prejudicar as políticas sociais e permitiu uma redução
significativa do déficit primário”, diz o texto.
O plano
de Lula também tem como foco um dos principais temas em discussão no setor
atualmente: o fomento ao Complexo Econômico e Industrial da Saúde (CEIS), não
só como forma de incentivar uma política pública de reindustrialização como,
principalmente, para reduzir a dependência externa de insumos e medicamentos, o
que é visto como uma forma de fortalecer a soberania sanitária e a
sustentabilidade financeira do sistema no longo prazo.
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O impasse da tabela do SUS
“Vamos
garantir as condições para que seja possível a correção efetiva da tabela SUS.
A lei de reajuste já existe, mas, presa ao orçamento, não enfrentou a defasagem
que asfixia hospitais, santas casas e clínicas, sobretudo no interior. Vamos
assegurar uma remuneração que cubra o custo real do atendimento, para que o
dinheiro público seja justo com quem atende e o cidadão tenha atendimento até
onde hoje falta”, promete em seu programa de governo o candidato à Presidência
e senador Flávio Bolsonaro (PL). Seria uma diferença grande em
relação ao governo de seu pai, quando a tabela federal permaneceu sem revisão
ou atualização ampla do valor dos procedimentos médicos e hospitalares.
Sancionada
pelo presidente Lula em 2024, a Lei 14.820 passou a prever
a atualização dos valores anualmente, sempre em dezembro, pondo fim a um longo
período de defasagem sem reajustes amplos que durava desde 2013. Isso não
impediu que Santas Casas e hospitais filantrópicos fossem ao Superior Tribunal de
Justiça (STJ) pedir equiparação de valores da Tabela Única Nacional de
Equivalência de Procedimentos (TUNEP) ou Índice de Valoração do Ressarcimento
(IVR), da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
Em uma nota enviada ao
site Futuro da Saúde, o Ministério da Saúde ressaltou que não
caberia comparação entre as tabelas de referência. “Uma eventual equiparação
entre as tabelas ameaçaria a sustentabilidade orçamentária do SUS. Somente em
2025, o impacto financeiro poderia ultrapassar R$ 12 bilhões – sem gerar
nenhuma melhoria ou ampliação dos serviços”, dizia o texto. Isso dá uma
dimensão de quanto custaria a promessa de Flávio, tocando mais uma vez na
questão do financiamento… que ele, ao mesmo tempo, promete enforcar.
Se o
atual arcabouço fiscal permite que as despesas cresçam apenas ligeiramente
acima da inflação, de acordo com o comportamento das receitas, a campanha do
candidato do PL acha pouco, avaliando que o modelo não impõe restrições suficientes nos
períodos em que a dívida aumenta. Um cenário mais restritivo para investimentos
do Estado. “Vamos construir o equilíbrio fiscal duradouro, entregando
superávits primários e limitando o crédito subsidiado com recursos do Tesouro,
mitigando pressões inflacionárias. E haverá uma regra clara de controle de
gastos discricionários dos três Poderes da União. Regras claras trazem
previsibilidade e credibilidade, tornando o país mais atrativo e competitivo”,
diz.
O plano
prevê também o pagamento pelo uso da capacidade ociosa de clínicas e hospitais
privados, ampliando uma relação já bastante questionada entre SUS e empresas.
“Para usar bem o que já existe, vamos contratar serviços e exames na rede
privada nos horários ociosos: há aparelho parado enquanto gente espera meses
pelo mesmo exame, e aproveitar essa capacidade é atender mais sem construir do
zero”, aponta.
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O modelo Caiado-Mandetta
Médico
de formação, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) ocupa 22
páginas das 100 que compõem seu programa de governo com a área de saúde. Seu
plano é estruturado em “missões” e “ações” com métricas definidas, remetendo
mais a um projeto de consultoria de gestão pública do que a um programa
eleitoral tradicional. Nele, propõe uma mudança no modelo de pagamento, saindo
do volume de procedimentos para o foco em desfechos clínicos. Assim, hospitais
e serviços seriam remunerados por qualidade e resultado, e não apenas por
volume de atendimentos.
Sem
maiores detalhamentos, não se debate como evitar que o modelo possa aprofundar
desigualdades já existentes na estrutura do SUS, penalizando financeiramente
serviços já precarizados, embora, em outro trecho, mencione a necessidade de
“reconhecer diferenças regionais” e “medir desempenho com justiça”, sem dizer
como. Boa parte do conteúdo tem como base a experiência do estado do
Centro-Oeste em um planejamento que teve como um dos coordenadores o
ex-ministro de Jair Bolsonaro, Luiz Henrique Mandetta, que saiu do cargo após
embates com o ex-presidente sobre as ações de isolamento defendidas pela
Organização Mundial de Saúde (OMS) e outras medidas debatidas durante a
pandemia de covid-19.
Caiado
busca, pela direita, se diferenciar do bolsonarismo em relação à saúde para
captar votos no segmento. A área foi sede de um dos primeiros pontos de
divergência entre ele e o ex-presidente, de quem foi aliado durante muito tempo
e, no lançamento de seu plano para o setor, o candidato criticou o negacionismo
de aliados de Flávio, que vêm retomando o discurso antivacina. “Tem que
acreditar em quem faz ciência, quem cuida das pessoas”, pontuou.
O
programa também menciona o desenvolvimento da indústria nacional no setor. “O
Brasil precisa usar a escala do SUS e a força de suas instituições científicas
para reduzir dependência externa, garantir abastecimento e participar das novas
fronteiras da medicina. A política 2027–2030 deve transformar o país de grande
comprador de tecnologia em desenvolvedor, produtor e parceiro estratégico”,
prevê.
Sobre a
sustentabilidade econômica, a plataforma fala em “fazer cada real produzir mais
acesso, qualidade e saúde”, com a formação de um “painel público nacional de
desempenho para redes e hospitais estratégicos; parcela crescente do
financiamento federal associada a qualidade e resultado; plano nacional de
força de trabalho com metas regionais e indicadores anuais de vazios
assistenciais”. Como o candidato também defende um arcabouço fiscal ainda mais
restritivo que o atual, os aportes de recursos à saúde são um tema ignorado.
Caiado
perfilou o que pretende na área fiscal, limitando parte das despesas do governo
federal a uma faixa de 40% a 50% do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB)
do ano anterior. “Estamos vendo o Lula falsificando um arcabouço fiscal,
liberando créditos extraordinários. Lula não acredita no equilíbrio fiscal.
Governo está fazendo um bypass no arcabouço fiscal, para gastar por fora”,
criticou, em evento com empresários nesta
segunda-feira (17).
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Privatizações e o fim dos pisos
Em sua
proposta de forma geral, Romeu Zema (Novo) defende abertamente a
redução do tamanho do Estado, a transferência de ativos públicos para o setor
privado e a delegação de serviços essenciais prestados pelo poder público à
iniciativa privada e ao terceiro setor. “Aumentar o investimento privado no
país por meio da ampliação das parcerias público-privadas em todos os setores
da administração pública, inclusive em projetos que geram impacto direto na
qualidade dos serviços e na vida da população, como saúde e educação”, diz o
texto de sua plataforma.
Ele
ainda fala sobre “expandir a rede de hospitais, UPAs e atendimentos com
especialistas por meio de concessões, PPPs e parcerias com OSs”, propondo
“ampliar o uso de parcerias público-privadas para construir e gerir as unidades
de saúde, garantindo maior eficiência operacional, melhor experiência para o
paciente e controle rigoroso de resultados por parte do poder público” em outro
trecho do texto apresentado ao TSE.
Zema
ainda tem como foco o que ele diz ser o combate a “interferências excessivas no
setor de saúde”, dispondo “combater entraves excessivos do marco regulatório da
ANS para permitir modelos diferenciados de planos de saúde, com variações de
cobertura, segmentação de serviços e mecanismos de compartilhamento de custos
flexíveis, ampliando a competição no setor e as opções disponíveis aos
beneficiários, para que o aumento da concorrência se traduza em mais escolhas e
melhor custo-benefício para os beneficiários”. Além disso, afirma querer
“revisar obrigações regulatórias que oneram desproporcionalmente hospitais,
clínicas e demais prestadores privados de saúde”.
Já Renan
Santos (Missão) quer acabar com o piso constitucional no setor por meio da
aprovação de uma “PEC do Equilíbrio Fiscal que promove a desindexação de
benefícios previdenciários e assistenciais do salário mínimo (corrigindo-os
apenas pela inflação), a desvinculação dos pisos de saúde e educação da
receita, a revisão do abono salarial e a redução de renúncias fiscais (gastos
tributários), com economia projetada de R$ 1,1 trilhão até 2031”.
Juntas,
a revisão dos pisos da saúde, da educação e da parcela da União no Fundeb, com
reajustes estabelecidos apenas pela inflação, poderia representar cortes de R$
97 bilhões em três anos.
Na
edição condensada do chamado Livro Amarelo, o plano de governo integral do
Partido Missão, ele defende a adoção da plataforma de inteligência artificial
para gestão da saúde pública promovida pelo governo do presidente de
ultradireita de El Salvador, Nayib Bukele. “Além deste objetivo, temos um
programa de integração entre saúde e tecnologia, inspirado parcialmente no que
foi operacionalizado em El Salvador, por meio do DoctorSV. O sistema deverá
oferecer integração entre laboratórios, farmácias e centros de imagem com
triagens”, descreve.
Contudo,
como mostra esta reportagem da BBC, a implementação da
inteligência artificial na saúde pública de El Salvador é alvo de críticas pela
falta de transparência dos resultados, com pesquisadores falando da população
sendo usada como um “experimento social”, em uma abordagem que especialistas
comparam à adoção do Bitcoin no país. Médicos apontam que há um foco
desproporcional de orçamento e atenção na plataforma DoctorSv, enquanto o
sistema público tradicional continua sofrendo com superlotação, longas esperas
e grave escassez de insumos básicos, obrigando pacientes a comprarem as
próprias seringas.
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Tecnologia e IA
O uso
da inteligência artificial e a intensificação da tecnologia são pontos em comum
de todos os programas. Além da plataforma salvadorenha defendida por Renan
Santos, os outros candidatos também abordam, de forma distinta, a introdução de
inovações no sistema de saúde pública.
Todos
defendem, por exemplo, a criação de uma infraestrutura integrada de dados de
saúde para que o histórico do paciente o acompanhe por toda a rede, conectando
diferentes unidades assistenciais. E também a aplicação de algoritmos e
inteligência artificial para otimizar, triar e gerenciar ativamente as filas de
espera na saúde, substituindo o modelo de fila cronológica por prioridade de
risco clínico.
Embora
todos também mencionem de alguma forma a privacidade e a segurança digital no
centro da governança tecnológica, estabelecendo o cumprimento de regras de
conformidade, esse é um ponto que mereceria um aprofundamento maior, inclusive
sob o aspecto da soberania tecnológica.
O Outra
Saúde continuará, nesse período eleitoral, abordando e detalhando os
programas e propostas dos candidatos, inclusive em relação a pontos omitidos ou
pouco discutidos, como a questão do financiamento do SUS, a continuidade de
políticas públicas em execução e as relações público-privadas na saúde. Como no
início da matéria, fica aqui outra reflexão de Ligia Bahia no evento da SBPC.
“Essas plataformas eleitorais do ‘mais’ também deveriam ter o ‘menos’”,
destacava na ocasião. “Por exemplo, menos subsídios públicos para o privado”,
ilustra.
Fonte:
Por Glauco Faria, em Outra Saúde

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