Trump
entrou na eleição brasileira. Até onde ele irá?
Faltam
seis semanas para o primeiro turno da eleição presidencial e o Brasil continua
discutindo pesquisas, alianças, palanques, gafes, fofocas e estratégias de
campanha como se estivesse diante de mais uma eleição normal.
Lula
disputa a reeleição. Flávio Bolsonaro tenta levar novamente o bolsonarismo ao
Palácio do Planalto. Pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira, 21 de
agosto, mostrou Lula com 39% e Flávio com 33% no primeiro turno. Numa simulação
de segundo turno, 47% a 43%, diferença no limite da margem de erro. A disputa é
real e está aberta.
Mas
talvez os números não sejam, neste momento, a informação mais importante da
eleição. Pela primeira vez desde a redemocratização, uma eleição presidencial
brasileira transcorre com a maior potência militar do planeta transformada em
variável explícita do processo político. Os Estados Unidos de Donald Trump já
não são apenas espectadores interessados no resultado. Entraram no jogo.
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Uma cena provoca espanto
Talvez
nenhuma imagem simbolize melhor a excepcionalidade desta eleição do que o
lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro, em Copacabana, no domingo, 16 de
agosto. Em meio ao verde e amarelo dos bolsonaristas apareceram bandeiras dos
Estados Unidos e símbolos associados ao movimento MAGA de Donald Trump.
Flávio
transformou o pai no grande personagem ausente do comício. Reproduziu um áudio
de Jair Bolsonaro e apresentou sua candidatura como continuidade do projeto
político do ex-presidente. Uma bandeira americana numa manifestação brasileira
não prova interferência estrangeira. Mas a imagem ganha outro significado
quando colocada ao lado do que aconteceu nos últimos meses.
Flávio
Bolsonaro foi recebido por Donald Trump na Casa Branca como candidato à
Presidência. A família Bolsonaro construiu relações políticas com o trumpismo.
Marco Rubio, secretário de Estado e um dos principais formuladores da política
americana para a América Latina, passou a intervir publicamente nas
controvérsias brasileiras. E o governo Trump adotou tarifas contra produtos
brasileiros que entraram imediatamente no debate eleitoral.
A
Reuters resumiu a mudança com precisão ao noticiar, em julho, que as tarifas
impostas pela administração Trump haviam colocado Washington dentro da eleição
presidencial brasileira. A pressão externa sobre o ambiente eleitoral deixou de
ser uma abstração.
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Sinais de pressão
Foi
essa contradição que o Foro de Teresina, da revista piauí, colocou no centro de
seu programa divulgado nesta sexta-feira, 21.
Ao
discutir o lançamento da campanha de Flávio, Celso Rocha de Barros chamou
atenção para algo que deveria inquietar o país: enquanto aparecem sinais de
pressão americana sobre a eleição, grande parte da cobertura política continua
concentrada nas pesquisas, alianças, movimentações do Centrão e ocorrências
cotidianas de uma campanha convencional.
O
próprio Foro apresentou o primeiro bloco como uma discussão sobre os riscos da
pressão e da interferência do governo Trump na eleição brasileira e o
alinhamento de Flávio Bolsonaro aos interesses americanos. Será que estamos
olhando para a eleição errada?
Naturalmente
importam pesquisas, debates, programas, palanques e alianças. Mas existe uma
questão anterior a todas essas: em que condições de soberania o eleitor
brasileiro chegará às urnas?
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Eleições “livres e justas”
Não é
necessário recorrer a teorias conspiratórias. Os fatos estão à vista. Em julho,
o governo brasileiro negou vistos a dois altos funcionários do Departamento de
Estado que pretendiam vir ao país num momento de crescente tensão sobre o
processo eleitoral.
Washington
sustentou que a missão trataria de integridade eleitoral, liberdade de
expressão e liberdade religiosa. Autoridades brasileiras interpretaram a
iniciativa como interferência indevida. A “integridade” da eleição brasileira
tornou-se assunto de controvérsia entre Brasília e Washington antes que um
único voto tenha sido depositado nas urnas.
Ao
mesmo tempo, Flávio Bolsonaro voltou a questionar o sistema eleitoral. E
autoridades americanas afirmaram que respeitarão eleições brasileiras “livres e
justas”. A expressão pertence ao vocabulário tradicional da diplomacia. Em
outro contexto, talvez passasse despercebida. Neste, não. Porque o Brasil
conhece o mecanismo político de lançar dúvidas sobre uma eleição antes de ela
acontecer.
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Dois traumas de janeiro
Em
2020, Donald Trump começou a questionar antecipadamente a legitimidade da
eleição presidencial americana. Perdeu. Recusou-se a aceitar a derrota. Em 6 de
janeiro de 2021, seus seguidores invadiram o Capitólio enquanto o Congresso
certificava a vitória de Joe Biden.
Dois
anos e dois dias depois, o Brasil viveu seu próprio trauma. Jair Bolsonaro
havia passado meses atacando a confiabilidade das urnas eletrônicas. Perdeu
para Lula. Em 8 de janeiro de 2023, seus seguidores invadiram e depredaram o
Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto.
Não se
trata de afirmar que a história obrigatoriamente se repetirá. Trata-se de
reconhecer que ela aconteceu. Donald Trump voltou à Casa Branca. Jair Bolsonaro
foi condenado a 27 anos pela tentativa de golpe e está preso. Seu filho disputa
a Presidência apresentando-se como continuador do projeto político do pai. Por
isso, duas perguntas não podem ser consideradas alarmistas apenas porque são
incômodas. Se Flávio Bolsonaro perder, aceitará a derrota? E o que fará Donald
Trump?
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A pergunta chegou aos Estados Unidos
A
preocupação não existe apenas no Brasil. Neste sábado, 22 de agosto, a deputada
democrata americana Pramila Jayapal acusou Trump de tentar interferir na
eleição brasileira e afirmou que os democratas atuarão para que o resultado
seja respeitado.
Jayapal
relacionou a política americana para o Brasil à chamada “Doutrina Donroe”,
criticou tarifas e o apoio a candidatos específicos e lembrou o contraste com
2022, quando o governo Joe Biden reconheceu rapidamente o resultado da eleição
brasileira.
Jayapal
é parlamentar de oposição e sua manifestação não representa a posição oficial
dos Estados Unidos. Mas revela algo importante: a possibilidade de
interferência na eleição brasileira já se tornou objeto de disputa dentro dos
próprios Estados Unidos.
Em
2022, o governo americano reconheceu rapidamente a vitória de Lula e deixou
claro que não apoiaria uma ruptura institucional. Em 2026, a Casa Branca está
ocupada pelo homem que tentou reverter sua própria derrota eleitoral. A equação
se inverteu.
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A diferença entre Trump e Rubio
Também
seria um erro simplificar o quadro. Nesta sexta-feira, 21, Lula e Trump
conversaram durante cerca de uma hora e vinte minutos. A conversa foi
considerada cordial. Discutiram tarifas, comércio, crime organizado e abriram
caminho para novas negociações. Trump perguntou sobre as eleições e Lula
defendeu a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.
O
episódio mostra que a relação entre os dois governos é mais complexa do que uma
guerra política linear. O Financial Times chamou atenção neste sábado para uma
diferença importante: enquanto Marco Rubio mantém uma linha particularmente
hostil ao governo Lula, Trump alterna confrontação e negociação direta com o
presidente brasileiro.
Essa
nuance precisa ser registrada. Não há, até agora, prova de que Trump tenha
decidido desconhecer uma eventual vitória de Lula. Muito menos evidência
pública de que os Estados Unidos tenham decidido apoiar uma ruptura
institucional no Brasil. Afirmar isso como fato seria substituir investigação
por profecia.
Mas
ignorar os sinais existentes seria cometer o erro contrário.
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O Brasil é diferente
A
eleição brasileira integra uma reorganização política mais ampla das Américas.
Trump recuperou explicitamente a ideia de primazia americana sobre o Hemisfério
Ocidental. Rubio fez da América Latina o centro de sua atuação. Governos
conservadores e de extrema direita avançaram pelo continente.
Mas o
Brasil possui uma dimensão que nenhum outro país latino-americano reúne: maior
economia da região, mais de 200 milhões de habitantes, território continental,
alimentos, petróleo, minerais estratégicos, água e biodiversidade. Integra os
BRICS e tem na China seu principal parceiro comercial — justamente o principal
concorrente global dos Estados Unidos.
Por
isso a eleição brasileira interessa a Washington para além de simpatias
pessoais por Lula ou pelos Bolsonaro. Está em disputa também o lugar do Brasil
na nova geopolítica das Américas.
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E se fosse a China?
O Foro
de Teresina propôs uma comparação provocadora. Imagine Pequim adotando medidas
econômicas contra o Brasil durante uma campanha presidencial. Autoridades
chinesas questionando aspectos do sistema eleitoral. Lula sendo recebido por Xi
Jinping. E o lançamento de sua candidatura com apoiadores empunhando bandeiras
chinesas.
Qual
seria a reação brasileira? A comparação não equipara China e Estados Unidos nem
prova, por analogia, uma operação americana. Revela outra coisa: até que ponto
o Brasil se acostumou a considerar normal aquilo que provocaria escândalo
imediato se viesse de outra potência?
Talvez
por isso a excepcionalidade desta eleição ainda não tenha sido inteiramente
percebida.
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Não estamos numa eleição normal
Faltam
seis semanas. Em 4 de outubro, mais de 150 milhões de brasileiros estarão aptos
a escolher o próximo presidente da República. Talvez haja segundo turno. Talvez
Lula seja reeleito. Talvez Flávio Bolsonaro vença. Isso será decidido pelo
eleitor brasileiro. Ou deveria ser.
Porque
a pergunta que começa a pairar sobre esta campanha já não é apenas: quem
receberá mais votos? É também: o resultado será aceito por todos os atores que
já entraram nesta eleição?
O
Brasil carrega as cicatrizes do 8 de janeiro. Os Estados Unidos, as do 6 de
janeiro. Agora Trump voltou à Casa Branca e um Bolsonaro voltou às urnas. Não
sabemos o que acontecerá se Flávio perder. Não sabemos o que Washington fará se
Lula vencer.
Mas
sabemos algo que já deveria ter mudado a maneira como o país acompanha esta
campanha: não estamos numa eleição normal.
E
existe uma pergunta anterior ao que poderá acontecer depois da votação. Ela diz
respeito ao que acontece antes do voto. Quando tarifas, sanções e outras formas
de pressão econômica entram numa campanha presidencial, o eleitor escolhe
apenas entre dois candidatos ou começa também a calcular o preço que seu país
poderá pagar pela escolha?
Esta é
a próxima questão. Porque talvez a forma mais eficiente de interferir numa
eleição não seja alterar um voto depois que ele foi depositado.
Talvez
seja aumentar o preço de uma das escolhas antes que o eleitor aperte a tecla
confirma.
Fonte:
Por Gustavo Tapioca, em Brasil 247

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