sábado, 29 de agosto de 2026

Retaliação do Canadá às tarifas americanas testa os limites do poder de Trump

Dois dias antes das negociações comerciais entre os Estados Unidos e o Canadá saírem dramaticamente dos trilhos, o vice-presidente americano, J.D. Vance, declarava ao público em um evento privado de levantamento de fundos que o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, é uma "pessoa muito agradável".

Em uma gravação de áudio privada que vazou para a imprensa canadense, Vance teria prosseguido, dizendo que Carney "chega, estufa o peito e diz: 'Veja, vou ser mais durão que Donald Trump'."

Ele descreveu a estratégia como "hilária", pois os canadenses, no fim das contas, "recuam em muitas questões".

Os comentários receberam extensa cobertura jornalística no Canadá. Eles talvez não tenham sido a principal razão para que os diplomatas de Carney fizessem as malas e voltassem para casa no fim de semana passado, mas certamente também não ajudaram.

A decisão de Carney pôs fim abruptamente às negociações sobre um novo acordo comercial e gerou uma nova onda de tarifas de importação entre os dois países vizinhos. O comércio bilateral entre eles soma mais de US$ 872 bilhões (cerca de R$ 4,5 trilhões) todos os anos.

As sérias divergências que se aprofundam cada vez mais, ao lado dos comentários de Vance, oferecem mais um exemplo de como o governo Trump está disposto a exercer sua força no cenário global contra amigos e inimigos. E destaca novamente as consequências potencialmente prejudiciais das suas ações.

Além disso, se Trump pensava que os canadenses iriam ceder frente às pressões americanas (como fizeram muitos aliados dos Estados Unidos nos últimos 19 anos), ele pode ter calculado mal a situação. E as consequências deste erro podem perdurar até o fim do seu mandato na Casa Branca.

<><> Por que Trump está atacando o Canadá?

A recente ruptura foi surpreendente, mas os atritos entre os Estados Unidos e o Canadá datam do primeiro mandato de Donald Trump (2017-2021) e das negociações que criaram o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA, na sigla em inglês).

Esse tratado substituiu o Acordo Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta), dos anos 1990.

Os conflitos pessoais entre Donald Trump e o então primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau (2015-2025), dificultaram as negociações.

Quando se preparava para voltar à Casa Branca, no final de 2024, Trump se referiu ironicamente a Trudeau como "governador" e ao Canadá como o "51° Estado" americano.

Por trás dos insultos, havia uma visão geopolítica que posiciona os Estados Unidos basicamente como uma potência hemisférica, destinada a exercer influência política, militar e econômica sobre seu entorno imediato, que, certamente, inclui o Canadá.

Autoridades do governo americano consideravam que o Canadá contribuía muito pouco para a defesa regional e se beneficiava desproporcionalmente do comércio com os EUA.

Na visão de mundo de Trump, a segurança econômica e a segurança nacional são indissociáveis. Com isso, o Canadá e o México, dois dos maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos, se tornaram alvos óbvios desde o princípio.

É por este motivo que o presidente americano também declarou sua intenção de tomar posse da Groenlândia.

"Se você escutar realmente qualquer pessoa nos Departamentos de Estado, do Tesouro ou do Comércio, irá ouvir a frase 'a segurança econômica é a segurança nacional'", explica o chefe de política corporativa do centro de estudos Kearney Foresight, Drew DeLong.

No início do ano, enquanto as negociações comerciais americanas prosseguiam aos trancos e barrancos, Trump desviou sua atenção do Canadá para suas intervenções militares, primeiro na Venezuela e, depois, no Oriente Médio.

Mas em todas as regiões do planeta, a linha central da estratégia internacional do presidente americano permanece inalterada: os Estados Unidos são uma potência dominante, capaz de impor sua vontade para benefício nacional.

<><> Canadá e Irã testam o poder de Trump

Mas o poder tem seus limites.

O segundo mandato de Trump tem sido um teste contínuo desses limites. E, às vezes, uma lição para descobrir exatamente onde eles estão.

Existem diferenças óbvias entre uma guerra aberta no Irã e uma disputa comercial com o Canadá. Mas as lições são parecidas.

Nos dois casos, os Estados Unidos enfrentam um adversário que, mesmo tendo muito menos poder, ainda detém meios de retaliação.

No Irã, este poder reside em atacar aliados americanos e interromper o comércio global, ameaçando gargalos marítimos como o Estreito de Ormuz.

Já o Canadá começa a testar sua própria capacidade de impor prejuízos econômicos.

As tarifas anunciadas em retaliação na última terça-feira (25/8) marcam a primeira etapa desse processo. Medidas futuras poderão incluir a restrição do acesso americano à energia e minerais críticos canadenses, além do boicote de produtos americanos por parte dos consumidores.

"À medida que o mundo como um todo se move rumo a um cenário de maior segurança econômica, vemos este jogo de gargalos e poder se espalhando pelas cadeias de abastecimento", afirma DeLong. Os países só precisam procurá-los, segundo ele.

No momento, existem poucas soluções rápidas.

Trump elevou sua retórica, acusando repetidamente o Canadá de "saquear" os Estados Unidos. Já o primeiro-ministro da província canadense de Ontário, Doug Ford, respondeu com insultos ao presidente americano.

"Sempre que afastamos parceiros e aliados, acho que os incentivamos a procurar novas relações e novas parcerias, sem que eles tentem ceder às exigências dos Estados Unidos", afirma Imran Bayoumi, vice-diretor da Iniciativa GeoEstratégia do centro de estudos Conselho do Atlântico.

Mas ainda há tempo para que as cabeças se esfriem.

As novas tarifas do Canadá entram em vigor em duas semanas e a retaliação mais significativa dos Estados Unidos (a tarifa de 50% sobre a importação de veículos e peças automotivas de fabricação canadense) só irá começar no início de 2027.

Como ocorre em qualquer conflito, econômico ou militar, pode ser difícil interromper o ciclo da escalada. Mas o intervalo de vários meses antes da próxima onda de tarifas americanas oferece aos negociadores a oportunidade de reiniciar os diálogos.

E, até a noite da última sexta-feira (21/8), havia ocorrido algum progresso.

<><> O dilema de Carney e do Canadá

Um prazo mais próximo é o das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em novembro.

Eventuais vitórias dos democratas para o Congresso poderão reduzir significativamente a autoridade de Donald Trump. Ou o inesperado sucesso republicano poderá reforçá-la ainda mais.

No momento, o Canadá parece satisfeito em apostar na primeira possibilidade. Ottawa calcula que o temor de uma derrota no meio do mandato em importantes campos de batalha nas regiões industriais, como os Estados de Michigan e Ohio, poderá forçar Trump a ceder antes da votação.

"Não acho que haja no Canadá o tipo de divisões políticas internas que o governo Trump talvez esperasse", explica Bayoumi.

"Acredito que Carney tenha muito espaço político para realmente conseguir um bom acordo para o Canadá, sem aceitar nada menos do que isso."

Mas existe outra possibilidade, levada a público por Carney desde que Trump voltou à Casa Branca.

O Canadá pode continuar se afastando dos Estados Unidos, traçando um curso que amplie deliberadamente a distância entre os dois países.

"Não podemos depender das alianças tradicionais quando as regras do jogo são fundamentalmente alteradas", afirmou Carney.

A proximidade geográfica garante que os dois países permaneçam entrelaçados, mas a relação econômica profundamente integrada nas últimas décadas pode estar chegando ao fim.

Neste caso, em particular, o Canadá apresenta uma situação diferente do México, que parece optar por uma integração econômica ainda mais próxima com os Estados Unidos.

Paralelamente, outros parceiros comerciais globais, como os aliados americanos na Europa e na Ásia, vêm observando a determinada resistência canadense como um modelo plausível para futuras negociações com Donald Trump.

"Daqui a 10 anos, este processo será ensinado nas salas de aula", prevê DeLong.

"Você tem caminhos se bifurcando na América do Norte e a questão é: eles irão se reunir novamente ou continuarão se afastando? E, se isso acontecer, quem será o maior beneficiado a longo prazo?"

Se os supostamente pacatos canadenses conseguirem resistir ao seu poderoso e belicoso vizinho, outras nações poderão concluir que também podem fazer o mesmo.

¨      Trump assina ordem executiva para renomear o Lago Ontário como Lago América

Donald Trump assinou na quinta-feira uma ordem executiva instruindo o governo federal a renomear o Lago Ontário para Lago América, em meio à sua crescente guerra comercial com o Canadá.

A ordem determina que as agências federais adotem a mudança de nome em mapas, documentos e bancos de dados dos EUA. Mas Trump não tem autoridade para renomear a porção canadense do lago, nem para obrigar o Canadá , órgãos jurídicos internacionais, cartógrafos internacionais ou o resto do mundo a adotar um novo nome.

A medida segue uma ação semelhante tomada pelo presidente no primeiro dia de seu segundo mandato, quando assinou uma ordem renomeando o Golfo do México como "Golfo da América".

“Temos um golfo e temos um lago – agora só precisamos de um oceano. Talvez tenhamos que mudar o nome do Atlântico e/ou do Pacífico”, disse ele aos repórteres, sentado na Mesa Resolute, no Salão Oval. “Talvez mudemos os dois.”

Inundação repentina no Nepal e Tibete: número de mortos sobe para 543 com a retomada das operações de resgate – últimas atualizaçõesUS Federal Reserve’s Kevin Warsh gears up for key Jackson Hole conference as inflation fears mount – business live

Atrás do presidente dos EUA, havia um grande mapa da região dos Grandes Lagos, com a inscrição "Lago América" ​​em letras vermelhas acima do Lago Ontário.

Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, rejeitou a tentativa dos EUA de renomear o corpo d'água, explicando em uma publicação nas redes sociais que seu nome vem da língua do povo indígena Wendat e é anterior tanto à Confederação Canadense quanto à Declaração de Independência dos EUA.

“Sabemos que os Estados Unidos estão mudando. Suas relações comerciais, suas políticas externas, seus monumentos nacionais, seus hidrônimos”, escreveu ele no X. “Os canadenses também sabem que nomear a realidade significa chamá-la de Lago Ontário – ontem, hoje e sempre.”

Tim Houston, o primeiro-ministro da Nova Escócia, respondeu: "Estamos entrando numa verdadeira loucura. É o Lago Ontário, meu amigo."

Diversos governadores dos EUA na região dos Grandes Lagos também rejeitaram a mudança de nome.

“Nova York não vai chamá-lo assim”, respondeu a governadora do estado, a democrata Kathy Hochul . Nova York faz fronteira com o lago.

A governadora de Michigan, Gretchen Whitmer, do Partido Democrata, lembrou que as crianças aprendem na escola o acrônimo HOMES, que representa os nomes dos cinco Grandes Lagos: Huron, Ontário, Michigan, Erie e Superior. Já o governador de Wisconsin, Tony Evers, também do Partido Democrata, zombou da iniciativa compartilhando um vídeo em que aparece mudando o nome do Lago Michigan para Lago Wisconsin, com a assinatura feita em um guardanapo de restaurante.

A mais recente provocação do presidente dos EUA ao Canadá ocorre em meio ao aumento das tensões entre os EUA e seu vizinho do norte. No fim de semana, as negociações comerciais entre Washington e Ottawa fracassaram e os EUA impuseram uma tarifa de 50% sobre diversas importações canadenses, com Trump ameaçando uma nova rodada de tarifas de 50% sobre aço, caminhões, carros e autopeças canadenses, que entraria em vigor no ano que vem. Carney retaliou com tarifas de 25% a 50% sobre centenas de produtos americanos.

“Eles querem ser tratados como um estado, mas não são um estado”, disse Trump, numa alusão às suas sugestões anteriores de que o Canadá deveria se tornar o “51º estado” da União, uma perspectiva que enfureceu os canadenses. “Mas eles querem ser tratados como se fossem um estado, e nós simplesmente não podemos mais fazer isso.”

Trump reclamou de um déficit comercial de US$ 60 bilhões entre os EUA e o Canadá, que, segundo economistas, é atribuível quase inteiramente às importações americanas de petróleo; sem essa troca, os EUA teriam um superávit comercial considerável. Trump alegou que os agricultores americanos estavam sendo taxados com uma tarifa de 400%; cerca de 97% das exportações agrícolas americanas para o Canadá entram no país sem impostos, de acordo com o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA), embora ovos, leite e laticínios que excedam a cota estejam sujeitos a tarifas canadenses de até 300%.

“Como vocês sabem, o Canadá vem nos explorando há muito tempo no comércio. Lamentável”, disse Trump após assinar a ordem executiva que atualiza as convenções de nomenclatura do Departamento do Interior. “Até mesmo as Forças Armadas: defendemos o Canadá de graça. Não recebemos nada em troca. Eles não nos pagam para defender o Canadá. Mas nós o defendemos.”

Tanto o Canadá quanto os Estados Unidos são membros da OTAN e têm obrigações de defesa mútua previstas em tratados como o Tratado do Atlântico Norte, o Acordo de Ogdensburg e diversos outros tratados.

Trump afirmou que a mudança de nome era algo que ele vinha considerando "há muito tempo".

“Já notificamos todas as pessoas que precisávamos notificar”, disse ele após assinar a ordem... “Isto é oficial e entra em vigor imediatamente.”

Um funcionário do governo observou que o lago que faz fronteira com o Canadá e o estado de Nova York tem a maior parte de seu volume nos Estados Unidos e que a parte mais profunda do lago está em território americano.

<><> Guerra tarifária

Nesta terça-feira, o Canadá anunciou tarifas retaliatórias de 15% a 50% sobre produtos americanos, aprofundando a guerra comercial entre os dois países após a entrada em vigor das novas taxas impostas por Washington.

As medidas canadenses passarão a valer em 8 de setembro, conforme já havia indicado o primeiro-ministro Mark Carney, depois que o governo do presidente Donald Trump implementou, no sábado, tarifas de 50% sobre produtos canadenses.

Segundo autoridades canadenses, a nova regra adota os mesmos níveis aplicados pelos Estados Unidos e afetará setores como aço, laticínios e eletrônicos.

"Este é um desafio sem precedentes imposto ao Canadá. Mas o Canadá estará à altura do momento", disse o ministro das Finanças, François-Philippe Champagne. "O Canadá precisa responder, e é exatamente o que estamos fazendo hoje, de forma proporcional, direcionada e estratégica."

As atuais tarifas americanas atingem cerca de 20 bilhões de dólares em produtos canadenses (R$ 102 bilhões), o equivalente a aproximadamente 5,5% das exportações do país para os Estados Unidos. As negociações comerciais entre os dois governos fracassaram nas últimas horas antes da entrada em vigor das medidas.

 

Fonte: BBC News/The Guardian

 

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