Retaliação
do Canadá às tarifas americanas testa os limites do poder de Trump
Dois
dias antes das negociações comerciais entre os Estados Unidos e o Canadá saírem dramaticamente dos trilhos, o vice-presidente
americano, J.D. Vance, declarava ao público em um evento privado de
levantamento de fundos que o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, é uma
"pessoa muito agradável".
Em uma
gravação de áudio privada que vazou para a imprensa canadense, Vance teria
prosseguido, dizendo que Carney "chega, estufa o peito e diz: 'Veja, vou
ser mais durão que Donald Trump'."
Ele
descreveu a estratégia como "hilária", pois os canadenses, no fim das
contas, "recuam em muitas questões".
Os
comentários receberam extensa cobertura jornalística no Canadá. Eles talvez não
tenham sido a principal razão para que os diplomatas de Carney fizessem as
malas e voltassem para casa no fim de semana passado, mas certamente também não
ajudaram.
A
decisão de Carney pôs fim abruptamente às negociações sobre um novo acordo
comercial e gerou uma nova onda de tarifas de importação entre os dois
países vizinhos. O comércio bilateral entre eles soma mais de US$ 872 bilhões
(cerca de R$ 4,5 trilhões) todos os anos.
As
sérias divergências que se aprofundam cada vez mais, ao lado dos comentários de
Vance, oferecem mais um exemplo de como o governo Trump está disposto a exercer
sua força no cenário global contra amigos e inimigos. E destaca novamente as
consequências potencialmente prejudiciais das suas ações.
Além
disso, se Trump pensava que os canadenses iriam ceder frente às pressões
americanas (como fizeram muitos aliados dos Estados Unidos nos últimos 19
anos), ele pode ter calculado mal a situação. E as consequências deste erro
podem perdurar até o fim do seu mandato na Casa Branca.
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Por que Trump está atacando o Canadá?
A
recente ruptura foi surpreendente, mas os atritos entre os Estados Unidos e o
Canadá datam do primeiro mandato de Donald Trump (2017-2021) e das negociações
que criaram o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA, na sigla em inglês).
Esse
tratado substituiu o Acordo Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta), dos anos
1990.
Os
conflitos pessoais entre Donald Trump e o então primeiro-ministro canadense,
Justin Trudeau (2015-2025), dificultaram as negociações.
Quando
se preparava para voltar à Casa Branca, no final de 2024, Trump se referiu
ironicamente a Trudeau como "governador" e ao Canadá como o "51° Estado" americano.
Por
trás dos insultos, havia uma visão geopolítica que posiciona os Estados Unidos
basicamente como uma potência hemisférica, destinada a exercer influência
política, militar e econômica sobre seu entorno imediato, que, certamente,
inclui o Canadá.
Autoridades
do governo americano consideravam que o Canadá contribuía muito pouco para a
defesa regional e se beneficiava desproporcionalmente do comércio com os EUA.
Na
visão de mundo de Trump, a segurança econômica e a segurança nacional são
indissociáveis. Com isso, o Canadá e o México, dois dos maiores parceiros
comerciais dos Estados Unidos, se tornaram alvos óbvios desde o princípio.
É por
este motivo que o presidente americano também declarou sua intenção de tomar
posse da Groenlândia.
"Se
você escutar realmente qualquer pessoa nos Departamentos de Estado, do Tesouro
ou do Comércio, irá ouvir a frase 'a segurança econômica é a segurança
nacional'", explica o chefe de política corporativa do centro de estudos
Kearney Foresight, Drew DeLong.
No
início do ano, enquanto as negociações comerciais americanas prosseguiam aos
trancos e barrancos, Trump desviou sua atenção do Canadá para suas intervenções
militares, primeiro na Venezuela e, depois,
no Oriente Médio.
Mas em
todas as regiões do planeta, a linha central da estratégia internacional do
presidente americano permanece inalterada: os Estados Unidos são uma potência
dominante, capaz de impor sua vontade para benefício nacional.
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Canadá e Irã testam o poder de Trump
Mas o
poder tem seus limites.
O
segundo mandato de Trump tem sido um teste contínuo desses limites. E, às
vezes, uma lição para descobrir exatamente onde eles estão.
Existem
diferenças óbvias entre uma guerra aberta no Irã e uma disputa comercial com o
Canadá. Mas as lições são parecidas.
Nos
dois casos, os Estados Unidos enfrentam um adversário que, mesmo tendo muito
menos poder, ainda detém meios de retaliação.
No Irã, este poder reside em atacar aliados americanos e interromper o
comércio global, ameaçando gargalos marítimos como o Estreito de Ormuz.
Já o
Canadá começa a testar sua própria capacidade de impor prejuízos econômicos.
As
tarifas anunciadas em retaliação na última terça-feira (25/8) marcam a primeira
etapa desse processo. Medidas futuras poderão incluir a restrição do acesso
americano à energia e minerais críticos canadenses, além do boicote de produtos
americanos por parte dos consumidores.
"À
medida que o mundo como um todo se move rumo a um cenário de maior segurança
econômica, vemos este jogo de gargalos e poder se espalhando pelas cadeias de
abastecimento", afirma DeLong. Os países só precisam procurá-los, segundo
ele.
No
momento, existem poucas soluções rápidas.
Trump
elevou sua retórica, acusando repetidamente o Canadá de "saquear" os
Estados Unidos. Já o primeiro-ministro da província canadense de Ontário, Doug
Ford, respondeu com insultos ao presidente americano.
"Sempre
que afastamos parceiros e aliados, acho que os incentivamos a procurar novas
relações e novas parcerias, sem que eles tentem ceder às exigências dos Estados
Unidos", afirma Imran Bayoumi, vice-diretor da Iniciativa GeoEstratégia do
centro de estudos Conselho do Atlântico.
Mas
ainda há tempo para que as cabeças se esfriem.
As
novas tarifas do Canadá entram em vigor em duas semanas e a retaliação mais
significativa dos Estados Unidos (a tarifa de 50% sobre a importação de
veículos e peças automotivas de fabricação canadense) só irá começar no início
de 2027.
Como
ocorre em qualquer conflito, econômico ou militar, pode ser difícil interromper
o ciclo da escalada. Mas o intervalo de vários meses antes da próxima onda de
tarifas americanas oferece aos negociadores a oportunidade de reiniciar os
diálogos.
E, até
a noite da última sexta-feira (21/8), havia ocorrido algum progresso.
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O dilema de Carney e do Canadá
Um
prazo mais próximo é o das eleições de meio de mandato nos
Estados Unidos,
em novembro.
Eventuais
vitórias dos democratas para o Congresso poderão reduzir significativamente a
autoridade de Donald Trump. Ou o inesperado sucesso republicano poderá
reforçá-la ainda mais.
No
momento, o Canadá parece satisfeito em apostar na primeira possibilidade.
Ottawa calcula que o temor de uma derrota no meio do mandato em importantes
campos de batalha nas regiões industriais, como os Estados de Michigan e Ohio,
poderá forçar Trump a ceder antes da votação.
"Não
acho que haja no Canadá o tipo de divisões políticas internas que o governo
Trump talvez esperasse", explica Bayoumi.
"Acredito
que Carney tenha muito espaço político para realmente conseguir um bom acordo
para o Canadá, sem aceitar nada menos do que isso."
Mas
existe outra possibilidade, levada a público por Carney desde que Trump voltou
à Casa Branca.
O
Canadá pode continuar se afastando dos Estados Unidos, traçando um curso que
amplie deliberadamente a distância entre os dois países.
"Não
podemos depender das alianças tradicionais quando as regras do jogo são
fundamentalmente alteradas", afirmou Carney.
A
proximidade geográfica garante que os dois países permaneçam entrelaçados, mas
a relação econômica profundamente integrada nas últimas décadas pode estar
chegando ao fim.
Neste
caso, em particular, o Canadá apresenta uma situação diferente do México, que
parece optar por uma integração econômica ainda mais próxima com os Estados
Unidos.
Paralelamente,
outros parceiros comerciais globais, como os aliados americanos na Europa e na
Ásia, vêm observando a determinada resistência canadense como um modelo
plausível para futuras negociações com Donald Trump.
"Daqui
a 10 anos, este processo será ensinado nas salas de aula", prevê DeLong.
"Você
tem caminhos se bifurcando na América do Norte e a questão é: eles irão se
reunir novamente ou continuarão se afastando? E, se isso acontecer, quem será o
maior beneficiado a longo prazo?"
Se os
supostamente pacatos canadenses conseguirem resistir ao seu poderoso e belicoso
vizinho, outras nações poderão concluir que também podem fazer o mesmo.
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Trump assina ordem executiva para renomear o Lago Ontário
como Lago América
Donald
Trump assinou na quinta-feira uma ordem executiva instruindo o governo federal
a renomear o Lago Ontário para Lago América, em meio à sua crescente guerra
comercial com o Canadá.
A ordem
determina que as agências federais adotem a mudança de nome em mapas,
documentos e bancos de dados dos EUA. Mas Trump não tem autoridade para
renomear a porção canadense do lago, nem para obrigar o Canadá , órgãos jurídicos internacionais,
cartógrafos internacionais ou o resto do mundo a adotar um novo nome.
A
medida segue uma ação semelhante tomada pelo presidente no primeiro dia de seu
segundo mandato, quando assinou uma ordem renomeando o
Golfo do México como "Golfo da América".
“Temos
um golfo e temos um lago – agora só precisamos de um oceano. Talvez tenhamos
que mudar o nome do Atlântico e/ou do Pacífico”, disse ele aos repórteres,
sentado na Mesa Resolute, no Salão Oval. “Talvez mudemos os dois.”
Inundação
repentina no Nepal e Tibete: número de mortos sobe para 543 com a retomada das
operações de resgate – últimas atualizaçõesUS Federal Reserve’s Kevin Warsh
gears up for key Jackson Hole conference as inflation fears mount – business
live
Atrás
do presidente dos EUA, havia um grande mapa da região dos Grandes Lagos, com a
inscrição "Lago América" em letras vermelhas acima do Lago Ontário.
Mark
Carney, primeiro-ministro do Canadá, rejeitou a tentativa dos EUA de renomear o
corpo d'água, explicando em uma publicação nas redes sociais que seu nome vem
da língua do povo indígena Wendat e é anterior tanto à Confederação Canadense
quanto à Declaração de Independência dos EUA.
“Sabemos
que os Estados Unidos estão mudando. Suas relações comerciais, suas políticas
externas, seus monumentos nacionais, seus hidrônimos”, escreveu ele no X. “Os
canadenses também sabem que nomear a realidade significa chamá-la de Lago
Ontário – ontem, hoje e sempre.”
Tim
Houston, o primeiro-ministro da Nova Escócia, respondeu: "Estamos entrando
numa verdadeira loucura. É o Lago Ontário, meu amigo."
Diversos
governadores dos EUA na região dos Grandes Lagos também rejeitaram a mudança de
nome.
“Nova
York não vai chamá-lo assim”, respondeu a governadora
do estado, a democrata Kathy Hochul . Nova York faz fronteira com o lago.
A
governadora de Michigan, Gretchen Whitmer, do Partido Democrata, lembrou que as crianças
aprendem na escola o acrônimo HOMES, que representa os nomes dos cinco Grandes
Lagos: Huron, Ontário, Michigan, Erie e Superior. Já o governador de Wisconsin,
Tony Evers, também do Partido Democrata, zombou da iniciativa
compartilhando um vídeo em que aparece mudando o nome do Lago Michigan para
Lago Wisconsin, com a assinatura feita em um guardanapo de restaurante.
A mais
recente provocação do presidente dos EUA ao Canadá ocorre em meio ao aumento
das tensões entre os EUA e seu vizinho do norte. No fim de semana, as
negociações comerciais entre Washington e Ottawa fracassaram e os EUA impuseram
uma tarifa de 50% sobre diversas importações canadenses, com Trump ameaçando
uma nova rodada de tarifas de 50% sobre aço, caminhões, carros e autopeças
canadenses, que entraria em vigor no ano que vem. Carney retaliou com tarifas
de 25% a 50% sobre centenas de produtos americanos.
“Eles
querem ser tratados como um estado, mas não são um estado”, disse Trump, numa
alusão às suas sugestões anteriores de que o Canadá deveria se tornar o “51º
estado” da União, uma perspectiva que enfureceu os canadenses. “Mas eles querem
ser tratados como se fossem um estado, e nós simplesmente não podemos mais
fazer isso.”
Trump
reclamou de um déficit comercial de US$ 60 bilhões entre os EUA e o Canadá,
que, segundo economistas, é atribuível quase inteiramente às importações
americanas de petróleo; sem essa troca, os EUA teriam um superávit comercial
considerável. Trump alegou que os agricultores americanos estavam sendo taxados
com uma tarifa de 400%; cerca de 97% das exportações agrícolas americanas para
o Canadá entram no país sem impostos, de acordo com o Acordo Estados
Unidos-México-Canadá (USMCA), embora ovos, leite e laticínios que excedam a
cota estejam sujeitos a tarifas canadenses de até 300%.
“Como
vocês sabem, o Canadá vem nos explorando há muito tempo no comércio.
Lamentável”, disse Trump após assinar a ordem executiva que atualiza as
convenções de nomenclatura do Departamento do Interior. “Até mesmo as Forças
Armadas: defendemos o Canadá de graça. Não recebemos nada em troca. Eles não
nos pagam para defender o Canadá. Mas nós o defendemos.”
Tanto o
Canadá quanto os Estados Unidos são membros da OTAN e têm obrigações de defesa
mútua previstas em tratados como o Tratado do Atlântico Norte, o Acordo de
Ogdensburg e diversos outros tratados.
Trump
afirmou que a mudança de nome era algo que ele vinha considerando "há
muito tempo".
“Já
notificamos todas as pessoas que precisávamos notificar”, disse ele após
assinar a ordem... “Isto é oficial e entra em vigor imediatamente.”
Um
funcionário do governo observou que o lago que faz fronteira com o Canadá e o
estado de Nova York tem a maior parte de seu volume nos Estados Unidos e que a
parte mais profunda do lago está em território americano.
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Guerra tarifária
Nesta
terça-feira, o Canadá anunciou tarifas retaliatórias de 15% a 50% sobre
produtos americanos, aprofundando a guerra comercial entre os dois países após
a entrada em vigor das novas taxas impostas por Washington.
As
medidas canadenses passarão a valer em 8 de setembro, conforme já havia
indicado o primeiro-ministro Mark Carney, depois que o governo do presidente
Donald Trump implementou, no sábado, tarifas de 50% sobre produtos canadenses.
Segundo
autoridades canadenses, a nova regra adota os mesmos níveis aplicados pelos
Estados Unidos e afetará setores como aço, laticínios e eletrônicos.
"Este
é um desafio sem precedentes imposto ao Canadá. Mas o Canadá estará à altura do
momento", disse o ministro das Finanças, François-Philippe
Champagne. "O Canadá precisa responder, e é exatamente o que estamos
fazendo hoje, de forma proporcional, direcionada e estratégica."
As
atuais tarifas americanas atingem cerca de 20 bilhões de dólares em produtos
canadenses (R$ 102 bilhões), o equivalente a aproximadamente 5,5% das
exportações do país para os Estados Unidos. As negociações comerciais entre os
dois governos fracassaram nas últimas horas antes da entrada em vigor das
medidas.
Fonte:
BBC News/The Guardian

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