PETRÓLEO
NA FOZ DO AMAZONAS: Quem fica com o lucro e quem paga o prejuízo?
A
descoberta de hidrocarbonetos no poço Morpho, na Bacia da Foz do Amazonas,
trouxe de volta uma antiga promessa brasileira: transformar novas reservas de
petróleo em riqueza, desenvolvimento, arrecadação pública e segurança
energética. Mas, em plena emergência climática, há uma pergunta anterior que
precisa ser feita: riqueza para quem – e prejuízo para quem? Da forma como a
extração de petróleo e sua lucratividade vêm sendo anunciadas, podem
representar uma verdadeira armadilha para a sociedade.
Quando
um barril é extraído e vendido, seu valor aparece imediatamente na economia.
Produz receita empresarial, dividendos, impostos, royalties, empregos e
participação no Produto Interno Bruto. Há instituições preparadas para medir
cada dólar produzido por essa atividade.
Quando
esse mesmo barril é queimado e seu carbono chega à atmosfera, começa outra
contabilidade. Ela aparece na intensificação das ondas de calor, nas secas,
enchentes e incêndios; na perda de produtividade; nos impactos sobre a
agricultura; no aumento da demanda sobre os sistemas de saúde; na destruição de
infraestrutura; nos custos de adaptação das cidades e na perda de vidas
humanas.
Mas
essa segunda conta raramente é debitada de quem produziu o petróleo, pelo
simples fato de que o prejuízo é socializado.
É sob
essa perspectiva que deve ser examinada a descoberta anunciada pela Petrobras
no poço Morpho, no bloco FZA-M-59, e a estratégia mais ampla de expansão
petrolífera na Margem Equatorial, para a qual a empresa prevê investimentos de
US$ 2,5 bilhões e a perfuração de 15 novos poços nos próximos cinco anos.
Não se
trata, portanto, apenas de discutir novos poços. Estamos diante de uma decisão
sobre a abertura de uma nova fronteira de combustíveis fósseis que poderá
produzir efeitos econômicos no curto prazo e consequências climáticas que se
prolongarão por muitas gerações.
O
problema começa pela maneira como definimos economicamente o que é lucro e o
que é prejuízo. Tomemos um cenário hipotético de 10 bilhões de barris de
petróleo. Esse volume tem sido mencionado como referência para o potencial
petrolífero regional, mas não corresponde a uma reserva comprovada do Morpho,
cujo potencial comercial ainda está em avaliação. Aqui, é utilizado apenas como
escala de referência para tornar visível uma externalidade que normalmente
permanece fora dos balanços.
Considerando
aproximadamente 450 kg de CO₂ associados à utilização de cada barril, teríamos
cerca de 4,5 bilhões de toneladas de CO₂ lançadas na atmosfera. Suponhamos que
a comercialização desses 10 bilhões de barris represente US$ 600 bilhões de
resultado econômico bruto. Na contabilidade convencional, o número impressiona.
Mas falta o outro lado do balanço: quanto custa à humanidade uma tonelada de
CO₂?
A
economia climática procura responder a essa pergunta por meio do chamado custo
social do carbono: uma estimativa monetária dos danos provocados à sociedade
pela emissão adicional de uma tonelada de CO₂. Esses danos não são abstratos.
Manifestam-se na produtividade, na agricultura, na saúde, na infraestrutura, no
consumo, na disponibilidade de recursos e nas perdas decorrentes do aumento da
temperatura e da intensificação dos eventos climáticos extremos.
Pesquisas
recentes indicam que essa conta pode ser muito maior do que se imaginava.
Adrien Bilal e Diego Känzig, em estudo divulgado pelo Stanford Institute for
Economic Policy Research, estimaram um custo social do carbono de US$ 1.367 por
tonelada de CO₂. Em versão posteriormente revisada, os pesquisadores concluíram
que os danos macroeconômicos das mudanças climáticas são uma ordem de magnitude
superiores às estimativas anteriores, mantendo o custo social acima de US$
1.200 por tonelada de CO₂. Adotando, portanto, o valor mais conservador de US$
1.200, a conta é simples: 4,5 bilhões de toneladas de CO₂ × US$ 1.200 = US$ 5,4
trilhões em danos climáticos estimados.
De um
lado, US$ 600 bilhões de resultado econômico bruto. Do outro, US$ 5,4 trilhões
de custo social climático. A relação é de nove para um. Para cada dólar de
riqueza bruta considerado nesse cenário, corresponderiam aproximadamente nove
dólares de danos climáticos estimados. É nesse momento que a pergunta do título
deste artigo atinge sua dimensão mais concreta: quem fica com os US$ 600
bilhões e quem pagará os US$ 5,4 trilhões?
O lucro
tem endereço. O prejuízo, não.
O
resultado econômico da exploração petrolífera possui destinatários
identificáveis. Empresas recebem receitas. Acionistas recebem dividendos.
Governos arrecadam impostos e royalties. Trabalhadores recebem salários.
Cadeias econômicas são movimentadas.
O custo
climático possui outra geografia. Uma parcela será paga por agricultores
atingidos por secas e alterações dos regimes de chuva. Outra aparecerá nos
sistemas públicos de saúde durante ondas de calor. Outra será suportada por
famílias atingidas por enchentes e deslizamentos.
Governos
gastarão recursos reconstruindo infraestrutura. Cidades precisarão investir
bilhões em adaptação climática. E parte substancial desse custo será
transferida para pessoas que jamais receberam qualquer benefício da exploração
daquele petróleo, inclusive pessoas que ainda não nasceram.
Essa
assimetria transforma a discussão sobre combustíveis fósseis em uma questão de
justiça climática. Quem produz a emissão não necessariamente sofre suas
consequências. Quem obtém o benefício não necessariamente paga pelo dano. E
quem sofrerá o dano frequentemente não participou da decisão que o produziu.
Essa
distorção torna-se ainda mais evidente quando comparamos o custo social do
carbono com os valores praticados pelos mecanismos de precificação e pelos
mercados de créditos. Se estudos recentes estimam danos superiores a US$ 1.200
por tonelada de CO₂, os preços econômicos atribuídos ao carbono permanecem, em
muitos casos, extraordinariamente inferiores.
O Banco
Mundial informa que o preço médio ponderado das emissões abrangidas pelos
instrumentos de precificação direta está próximo de US$ 21 por tonelada de CO₂
equivalente. A diferença em relação a US$ 1.200 é de aproximadamente 57 vezes.
Em segmentos do mercado de créditos de carbono, a discrepância pode ser ainda
maior. Créditos negociados por US$ 10 representam apenas 1/120 daquele valor
estimado de dano social.
É
preciso fazer aqui uma distinção essencial: preço do carbono não é custo social
do carbono, assim como o preço de um crédito de carbono não equivale ao valor
econômico integral do dano provocado por uma tonelada emitida. Um crédito pode
financiar conservação, restauração, redução ou remoção de emissões e exercer
função importante na política climática. Sua integridade depende de critérios
próprios, como adicionalidade, permanência, mensuração e ausência de dupla
contagem.
Mas
comprar um crédito por alguns dólares não significa que o prejuízo econômico
causado pela tonelada emitida também valha alguns dólares. Essa diferença
revela uma das maiores falhas de mercado da economia contemporânea: estamos
atribuindo preços extremamente baixos a uma externalidade cujo custo para a
humanidade pode ser extraordinariamente elevado. E isso sem considerar que
existem impactos sobre a vida, sobre os ecossistemas e sobre as futuras
gerações que são simplesmente imprecificáveis.
Assim,
o mercado precifica o carbono, mas a sociedade paga o dano climático.
É sob
essa perspectiva que os 15 novos poços previstos pela Petrobras para a Margem
Equatorial precisam ser considerados. Não são 15 descobertas, mas 15
perfurações previstas dentro de uma estratégia de exploração. Essa distinção é
importante, mas não diminui a dimensão da decisão.
Um poço
pode ser analisado como empreendimento. Quinze poços representam uma política
de expansão da fronteira petrolífera. E políticas dessa magnitude precisam ser
avaliadas também por seus impactos cumulativos.
O
licenciamento ambiental tradicionalmente examina riscos sobre ecossistemas,
biodiversidade, recursos pesqueiros, comunidades e capacidade de resposta a
acidentes. Esses aspectos são indispensáveis. A emergência climática, porém,
acrescentou outra dimensão que não pode continuar invisível: qual é o impacto
climático potencial do carbono que uma nova fronteira petrolífera poderá
colocar à disposição da economia durante as próximas décadas?
Se
avaliamos o benefício econômico potencial da descoberta, por que não avaliar
também o passivo climático potencial de sua utilização? Excluir essa dimensão
significa realizar uma análise de custo-benefício na qual contabilizamos
cuidadosamente os benefícios e deixamos grande parte dos custos fora da
planilha. A discussão torna-se ainda mais profunda quando abandonamos por um
instante os trilhões de dólares e perguntamos o que esses números representam.
O custo
social do carbono é uma tentativa de traduzir economicamente perdas que, no
mundo real, possuem outra natureza. Por trás da redução do PIB existem pessoas;
por trás dos gastos com saúde existem doenças e mortes; por trás das perdas
agrícolas existe insegurança alimentar; por trás da reconstrução de cidades
existem famílias que perderam casas e patrimônio; e por trás dos custos de
adaptação existem sociedades obrigadas a utilizar seus recursos para se
defender de impactos pelos quais pouco ou nada contribuíram.
É por
isso que a externalização climática não constitui apenas uma falha econômica.
Ela representa uma transferência humanitária de prejuízos: dos beneficiários
presentes para populações dispersas pelo planeta, atingindo especialmente as
mais vulneráveis, e da geração atual para as gerações futuras.
Essa é
a contabilidade que precisamos mudar. Durante dois séculos, a economia
industrial tratou a atmosfera como se ela não tivesse preço, proprietário ou
limite. O petróleo retirado do subsolo entrava na contabilidade como ativo. O
carbono colocado na atmosfera praticamente não entrava como passivo.
Essa
lógica permitiu enorme expansão econômica, mas produziu uma dívida que agora
começa a ser cobrada sob a forma de instabilidade climática. A abertura de uma
nova fronteira petrolífera brasileira ocorre justamente quando a ciência e a
economia começam a dimensionar essa conta.
Por
isso, a discussão sobre o Morpho não deveria limitar-se à pergunta sobre quanto
petróleo existe no fundo do oceano. Precisamos perguntar quanto carbono poderá
chegar à atmosfera, quanto isso custará à sociedade, quem receberá os
benefícios e quem assumirá os prejuízos.
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Petróleo na Foz do Amazonas: lucro × prejuízo climático
No
cenário utilizado neste exercício, a desproporção é perturbadora: US$ 600
bilhões de resultado econômico bruto diante de US$ 5,4 trilhões de danos
climáticos estimados. Uma relação de nove para um.
Aquilo
que aparece como extraordinária oportunidade econômica quando observado apenas
pelo balanço do petróleo assume outra dimensão quando incorporamos à
contabilidade seus impactos sobre a humanidade.
Esse é
o desafio colocado pela Foz do Amazonas: não decidir simplesmente se somos
capazes de extrair o petróleo, mas se ainda podemos considerar desenvolvimento
uma atividade cujo benefício, apropriado por poucos, lega um prejuízo muito
maior a ser distribuído entre todos.
A
diferença entre quem recebe os benefícios e quem paga os custos do petróleo já
se tornou uma das grandes questões de justiça do nosso tempo.
Fonte:
Por Carlos Bocuhy, em Le Monde

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