Quem
pretende governar o Brasil tem que explicar ao público por que mentiu sobre
Vorcaro
Mentir
deliberadamente não pode ser tratado como uma pequena falha de comunicação,
sobretudo quando quem mente pretende ocupar a Presidência da República.
Tampouco basta substituir uma versão por outra quando a primeira se torna
insustentável.
A
responsabilidade ética exige algo mais difícil: reconhecer o erro, explicar o
que ocorreu, assumir suas consequências e submeter-se ao julgamento público. Um
candidato pode rever posições, mudar de opinião e até abandonar propostas que
antes defendia. O que não deveria fazer é negar fatos objetivos e, quando
confrontado com evidências, reorganizar suas explicações para acomodá-las ao
que já não consegue negar.
A
diferença não é meramente retórica: diz respeito ao compromisso com a verdade e
à confiança que se pode depositar em quem pretende exercer a mais alta função
pública do país.
É sob
esse aspecto que a candidatura de Flávio Bolsonaro precisa ser examinada com
especial rigor. Não porque candidatos devam ser infalíveis, nem porque seus
adversários estejam dispensados da mesma exigência, mas porque quem pede aos
brasileiros a Presidência deve estar preparado para responder claramente às
perguntas que sua própria trajetória suscita.
Flávio
não deve explicações apenas sobre suas propostas para o futuro. Deve
explicações sobre fatos do presente e do passado que dizem respeito à sua
credibilidade, à evolução de seu patrimônio e, especialmente, à sua relação com
Daniel Vorcaro e ao financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.
Os
números patrimoniais, por si sós, não autorizam acusações. Mas tampouco
deveriam ser tratados como assunto impertinente quando se examina a trajetória
de um candidato à Presidência. Flávio declarou à Justiça Eleitoral patrimônio
de R$ 1,74 milhão em 2018 e de R$ 8,18 milhões em 2026. Descontada a inflação,
o crescimento calculado foi de 211%.
Sua
campanha atribui essa evolução aos rendimentos como senador e advogado e à
renda profissional de sua mulher. Essas fontes podem perfeitamente explicá-la;
justamente por isso, cabe apresentá-las de maneira clara e compatível com o
crescimento registrado. Transparência não condena ninguém: é o melhor
instrumento de que dispõe um homem público para afastar dúvidas legítimas.
Mais
grave, do ponto de vista da relação com a verdade, é o episódio envolvendo
Daniel Vorcaro. Legitimamente questionado por um jornalista sobre sua relação
com o banqueiro, Flávio Bolsonaro negou conhecê-lo e acusou o repórter de agir
como militante.
Depois
que vieram a público mensagens e áudios relacionados à negociação do
financiamento do filme, reconheceu que conhecia Vorcaro e mantivera contato com
ele durante meses, alegando que uma cláusula de confidencialidade o impedia de
revelar a relação.
O
problema é elementar: confidencialidade pode limitar a divulgação de
informações sobre uma negociação, mas não transforma uma relação existente em
inexistente. O que não cabia era negar que conhecia alguém com quem negociava.
Nesse ponto, é difícil recorrer a eufemismos: diante de uma pergunta legítima
sobre matéria de interesse público, Flávio Bolsonaro mentiu.
O
episódio torna-se ainda mais grave porque à mentira se somou a tentativa de
desqualificar quem formulava a pergunta. Jornalistas existem também para
investigar o poder, confrontar versões e fazer perguntas incômodas. Um
candidato à Presidência precisa estar preparado para ser questionado sem
transformar o questionador em inimigo.
Mentir
diante de uma pergunta legítima e atacar quem a formulou revela uma maneira de
lidar com o escrutínio público incompatível com a seriedade, o equilíbrio e o
compromisso com a verdade que se devem exigir de quem pretende presidir o
Brasil.
Esse
comportamento encontra um precedente conhecido no ambiente político em que
Flávio se formou. Durante a Presidência de Jair Bolsonaro, perguntas incômodas
foram diversas vezes recebidas com hostilidade ou desqualificação.
Na
pandemia, diante do avanço das mortes por Covid-19, Bolsonaro respondeu a uma
cobrança: “Não sou coveiro, tá?”. Poucos dias depois, diante de novo recorde de
óbitos: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”.
Não
eram apenas frases grosseiras. Em meio à maior emergência sanitária de nossa
história recente, revelavam uma maneira de exercer o poder na qual cobranças de
responsabilidade eram tratadas como provocações. Flávio não responde pelos atos
do pai, mas reivindica explicitamente sua herança política; por isso, é
legítimo perguntar o que pretende preservar dela e o que reconhece que precisa
abandonar.
O caso
Dark Horse reforça essa cobrança. Depois das revelações sobre o financiamento
do filme, Flávio prometeu publicamente uma prestação de contas em 30 dias. Mais
de três meses depois, continuavam as cobranças pela transparência prometida,
enquanto o candidato passou a tratar o assunto como “página virada”.
Não
cabe a quem deve explicações decidir unilateralmente quando uma questão de
interesse público está encerrada. Uma página se vira quando as perguntas
relevantes recebem respostas claras e verificáveis. A ética republicana é mais
exigente do que o Código Penal: não é necessário demonstrar a existência de
crime para perguntar se alguém apresenta os requisitos de credibilidade,
transparência e responsabilidade compatíveis com a Presidência.
Essa
preocupação aumenta diante da facilidade com que Flávio Bolsonaro faz
afirmações de enorme gravidade sem demonstrar compromisso equivalente com sua
sustentação factual. Dizer que o Brasil vive numa ditadura, que o país está
quebrado ou atribuir ao governo brasileiro a responsabilidade por tarifas
decididas pelos Estados Unidos não são simples excessos de linguagem.
É
perfeitamente legítimo considerar o governo ruim, criticar duramente sua
política econômica e externa e defender uma mudança radical. O que não deveria
ser aceitável para quem pretende presidir a República é dissolver
deliberadamente a fronteira entre crítica e mentira, opinião e fato.
Divergência política não autoriza falsificação da realidade, e liberdade de
expressão não dispensa responsabilidade pelo que se afirma.
A
questão, porém, é mais ampla. O exercício da política não pode ser reduzido a
espetáculo, provocação permanente ou busca da frase capaz de produzir maior
repercussão nas redes. A política democrática pressupõe conflito, paixão,
interesses e valores distintos, mas também responsabilidade, argumentação e
algum compromisso com uma realidade comum.
Quando
essa fronteira se rompe, prospera aquilo que se convencionou chamar de
“lacração”: a frase concebida menos para esclarecer do que para humilhar o
adversário, provocar indignação, produzir aplauso imediato e circular nas
redes. O problema não está na contundência, mas na substituição do argumento
pela performance, da reflexão pela excitação permanente e, não raramente, da
verdade pela versão mais conveniente.
A
mentira deliberada é apenas uma das formas desse falseamento. Há outras, talvez
mais eficazes: meias verdades, fatos retirados de contexto, omissões relevantes
e relações de causa e efeito apresentadas de maneira enganosa.
Não é
preciso inventar tudo para falsear a realidade; muitas vezes basta selecionar o
que convém, esconder o que contradiz a narrativa e organizar fragmentos
verdadeiros de modo a produzir uma conclusão falsa. Medo, insegurança,
frustração e ressentimento possuem frequentemente causas concretas. Uma
política responsável deveria compreendê-los e oferecer respostas; outra coisa é
explorá-los como combustível para a hostilidade, oferecendo certezas fáceis
para problemas complexos.
Enfrentar
esse exercício nefasto da política não é responsabilidade apenas de candidatos
e partidos. A grande imprensa precisa resistir à tentação de transformar toda
provocação em notícia e toda mentira em mera “declaração”: cabe-lhe verificar,
contextualizar e confrontar versões com fatos.
Não
basta checar a mentira depois que ela já alcançou milhões de pessoas. É preciso
compreender o circuito que pode recompensá-la: o político mente ou provoca, a
imprensa repercute, as plataformas amplificam, os adversários reagem e, ao
final, todos discutem a agenda criada por quem falseou a realidade.
As
plataformas, por sua vez, não podem apresentar-se como neutras quando seus
algoritmos selecionam e ampliam conteúdos e seus modelos de negócios
recompensam indignação, medo e engajamento.
Também
a sociedade tem responsabilidade: cidadãos, universidades, entidades e
intelectuais precisam exigir argumentos em lugar de insultos e evidências em
lugar de invenções. A democracia também se deteriora quando aqueles que não
compactuam com sua degradação acabam se acostumando a ela.
Essa
lógica é especialmente perigosa quando praticada por quem pretende presidir o
país. A Presidência não é uma tribuna de rede social nem pode ser exercida
segundo a disputa permanente pela atenção.
Um
presidente enfrentará crises, tragédias, pressões internacionais e conflitos
entre Poderes, em situações nas quais suas palavras poderão acalmar ou
incendiar o país. Serenidade não é fraqueza, prudência não é covardia e
reconhecer a complexidade não significa fugir de uma resposta. A capacidade de
mobilizar ressentimentos pode ajudar alguém a ganhar uma eleição; não demonstra
que esteja preparado para governar uma República.
A
postura diante das instituições também precisa entrar nessa avaliação. Flávio
Bolsonaro afirmou recentemente olhar para o Supremo Tribunal Federal “com
nojo”. Um candidato tem todo o direito de criticar decisões do STF, apontar
abusos, questionar ministros e defender mudanças compatíveis com a
Constituição. Nenhuma instituição está acima da crítica.
Mas há
diferença entre criticá-la e contribuir para sua deslegitimação. Isso tampouco
significa supor que STF, TSE ou qualquer instituição sejam imunes a desvios:
instituições exercem poder, podem errar, ultrapassar competências ou ser
instrumentalizadas por interesses particulares. Uma democracia madura precisa
dispor de controles capazes de prevenir e corrigir esses desvios.
Exatamente
por serem graves, porém, acusações dessa natureza exigem responsabilidade
equivalente de quem as formula. Afirmar que uma instituição foi capturada, que
um tribunal atua para atender a interesses políticos ou que o país vive numa
ditadura não pode ser apenas uma palavra de ordem. Quanto mais grave a
acusação, maior a obrigação de demonstrá-la.
Ao TSE
cabe proteger com rigor a integridade do processo eleitoral e aplicar as regras
igualmente a todos; ao STF, defender a Constituição e a ordem democrática,
observando o devido processo legal, a proporcionalidade e os limites de sua
jurisdição. Nem complacência diante de abusos, nem deslegitimação das
instituições: o que se exige é o funcionamento firme, previsível e imparcial do
Estado de Direito.
Naturalmente,
a régua precisa ser a mesma para todos. Suspeitas fundamentadas, envolvam quem
envolverem, devem ser investigadas com independência; havendo provas, deve
haver responsabilização; não havendo, ninguém deve ser condenado para
satisfazer conveniências políticas ou eleitorais. É essa universalidade que
distingue justiça de perseguição e ética republicana de moralismo partidário.
Não
existe honestidade de esquerda ou de direita, assim como não deveria existir
verdade governista e verdade oposicionista. A credibilidade de qualquer
cobrança começa pela disposição de aplicar aos nossos os mesmos critérios que
exigimos dos adversários.
É por
tudo isso que Flávio Bolsonaro precisa dar mais explicações antes de pretender
oferecer respostas para o Brasil. Precisa explicar convincentemente sua
evolução patrimonial; esclarecer sua relação com Daniel Vorcaro; apresentar de
maneira verificável as contas que prometeu sobre Dark Horse; explicar por que
negou uma relação que posteriormente reconheceu; e demonstrar que compreende a
diferença entre mobilizar seguidores e assumir a responsabilidade institucional
de falar em nome da República. Fazer essas perguntas não significa condená-lo
antecipadamente. Significa levá-lo a sério como candidato à Presidência.
As
eleições de 2026 precisam discutir emprego, renda, desenvolvimento,
desigualdade, segurança, saúde, educação, meio ambiente, democracia e outros
grandes desafios nacionais. Mas precisam discutir também que padrões éticos e
republicanos estamos dispostos a exigir de quem pretende governar o Brasil.
Programas,
alianças e capacidade administrativa importam. Também importam verdade,
equilíbrio, transparência, serenidade e responsabilidade. Sem confiança mínima
na palavra de quem governa, deteriora-se a possibilidade de compartilhar fatos
a partir dos quais possamos divergir democraticamente.
A
Presidência da República é grande demais para ser tratada como prêmio
eleitoral, patrimônio familiar ou extensão de uma guerra permanente nas redes
sociais. Quem pretende ocupá-la deve aceitar o escrutínio, responder a
perguntas incômodas, respeitar a imprensa e as instituições, prestar contas e
compreender que a autoridade de um presidente começa pela credibilidade de sua
própria palavra.
Flávio
Bolsonaro quer ser presidente do Brasil. Antes de pedir ao país que confie nele
para governá-lo, precisa oferecer razões suficientes para que o país confie no
que ele diz. Chegar à Presidência depende dos votos; estar à altura dela exige
muito mais.
Fonte:
Por Carlos Fidelis, em Viomundo

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