Por
que a classe média defende os super-ricos e tem pavor de impostos? A psicologia
explica
inda
pouco problematizada, especialmente no Brasil, a riqueza extrema costuma ser
entendida por boa parte das pessoas como uma espécie de recompensa individual.
Conforme essa compreensão, pode ser resultado de fatores como um talento quase
único, da disposição para correr riscos e/ou de um trabalho ou descoberta
excepcional. Algo ligado ao mérito e que serviria de exemplo, não admitindo
muitos questionamentos, mas sim louvação. Contudo, quando uma fortuna alcança
uma escala capaz de influenciar eleições, moldar o debate público e controlar
empresas estratégicas ou plataformas de comunicação, a discussão passa a
envolver relações de poder e a própria noção de democracia.
“Nossa
deferência [aos muito ricos] geralmente não é comprada diretamente, mas
capturada por meio de um mecanismo psicológico”, afirma a professora de
Psicologia no College of Charleston Jen Cole Wright. Pesquisadora da área de
psicologia moral, ela é autora de quatro livros e tem mais de 50 artigos
publicados, sendo que o mais recente trata do paradoxo moral entre as pessoas
que condenam essa acumulação extrema de recursos mas mesmo assim relutam em
apoiar que os super-ricos sejam taxados.
O caso
de Elon Musk ajuda a dar forma concreta a esse paradoxo. Para Wright, ele
combina, de modo particularmente visível, “riqueza, propriedade de empresas
estratégicas, influência sobre o debate público e controle de uma plataforma”,
elementos que, em geral, também estão disponíveis para outras pessoas muito
ricas, ainda que de maneira menos explícita. A imagem do empresário como alguém
que “se fez sozinho” encobre, segundo ela, a infraestrutura coletiva que
permite a formação de grandes fortunas: dados e informações de pesquisas
públicas, legislação favorável, sistemas financeiros e, em muitos casos,
contratos com governos, empréstimos e subsídios estatais.
Mesmo
quando existe a percepção de que a desigualdade é injusta, este sentimento não
se transforma automaticamente em apoio político à taxação dos super-ricos ou à
priorização de medidas de redistribuição de renda. Wright explica que os danos
causados pela concentração de riqueza são difusos, graduais e difíceis de
associar a uma vítima específica. “Não é que as pessoas não vivenciem a pobreza
de forma direta e concreta; é que elas não conseguem vivenciar diretamente as
causas de sua pobreza”, diz.
Já a
criação de um novo imposto, por exemplo, é percebida como uma perda individual,
imediata e emocionalmente mobilizadora, mesmo se direcionado a quem dispõe de
muitos recursos. “(…) não é que as pessoas considerem o dano coletivo pouco
importante. Quando perguntadas diretamente, elas muitas vezes dirão que ele é
muito grave. O ponto é que considerar algo grave e sentir-se emocionalmente
mobilizado a agir são duas coisas diferentes — e o dano difuso frequentemente
perde na segunda dimensão, mesmo quando vence na primeira”, explica.
Em
entrevista concedida por e-mail, Wright analisa como crenças na meritocracia,
na liberdade individual e em um “mundo justo” ajudam a sustentar hierarquias
sociais profundas. Ela ressalva que o desejo de liberdade é um valor moral
real, e não apenas uma desculpa para o interesse próprio, mas alerta para o
desequilíbrio atual. “Está se tornando abundantemente claro que simplesmente
permitir que as pessoas acumulem riqueza contribui diretamente para níveis
maiores de desigualdade e para o empobrecimento da maioria.”
>>>>
Confira a íntegra da entrevista a seguir.
• Elon Musk é um caso particularmente
visível porque reúne riqueza imensa, propriedade de empresas estratégicas,
influência no debate público e controle de uma grande plataforma de
comunicação. O que o caso dele revela sobre a relação entre a imagem do “homem
que se fez sozinho”, a ideia de que alguém merece sua fortuna e o poder
político?
Musk é
um caso útil para refletir sobre o caráter destrutivo da riqueza extrema
justamente porque ele reúne, de forma tão visível e pública, várias coisas que
normalmente não reconhecemos como conectadas: riqueza, propriedade de empresas
estratégicas, influência sobre o debate público e controle de uma plataforma —
embora, é claro, pessoas ricas normalmente tenham esse tipo de influência; elas
apenas costumam ser mais discretas a respeito.
Quanto
à imagem do “homem que se fez sozinho”, ela é interessante porque há, pelo
menos nos Estados Unidos, duas versões desse personagem.
A
primeira é a do cowboy solitário, que trabalha duro o dia inteiro no rancho,
sob condições climáticas severas, vivendo da terra e sempre disposto a ajudar
quem precisa. Esse “homem que se fez sozinho” é o tipo trabalhador, honrado, de
colarinho azul, que ganha a vida honestamente por meio do trabalho físico
pesado. Essa imagem sugere que uma fortuna é resultado direto do esforço e da
genialidade de uma única pessoa — e, ao mesmo tempo, minimiza o fato de que
muito poucos desses homens realmente chegam a fazer uma fortuna.
Há
outra versão do “homem que se fez sozinho”: o magnata dos negócios, o
visionário que, por sua própria inteligência e engenhosidade, descobre como
acumular uma fortuna. Não é um homem conhecido por ser honrado ou caridoso, mas
por ser implacável e inflexível. Essa imagem também sugere que uma fortuna é
resultado direto do esforço e da genialidade de uma única pessoa — e, ao mesmo
tempo, minimiza o fato de que as fortunas que esses homens constroem, na melhor
das hipóteses, se aproveitam de uma enorme herança compartilhada: pesquisa
financiada publicamente, infraestrutura pública, sistemas jurídicos e
financeiros, todo o conhecimento acumulado de uma sociedade. Na pior das
hipóteses, são produto de subornos, demonstrações de força e manipulação
econômica e política. No caso de Musk, a base da Tesla e da SpaceX repousa
sobre contratos governamentais, empréstimos e subsídios — além de muita pressão
econômica e política.
Essa
fusão entre uma narrativa do “self-made man” e a outra é um poderoso truque
psicológico. Ela nos torna mais inclinados a sentir que pessoas como Musk devem
ter conquistado sua fortuna pelo mesmo trabalho árduo e esforço honesto; que
devem possuir a mesma sabedoria e capacidade de julgamento discretas — uma
espécie de efeito halo.
É por
isso que os muito ricos são tão facilmente recebidos como especialistas em
assuntos que jamais estudaram. Essa é a ponte entre riqueza e poder político.
Nossa deferência, em geral, não é comprada diretamente; ela é capturada por
meio de um mecanismo psicológico.
• Por que danos coletivos, como pobreza,
condições precárias de trabalho ou a captura de instituições democráticas por
interesses privados, muitas vezes parecem mais abstratos ou menos
emocionalmente imediatos do que a perda pessoal provocada por um imposto?
Essa é
uma assimetria importante de compreender, porque ela não exige que alguém seja
egoísta ou mal informado — ela está incorporada ao modo como funcionam as
respostas morais. E, como qualquer ativista que tente promover mudanças dirá, é
muito difícil combatê-la.
Danos
coletivos, como os provocados pela concentração de riqueza, são difusos —
espalham-se de maneira diluída por milhões de pessoas. Eles são adiados,
chegando na forma de uma erosão gradual do poder de negociação, em vez de uma
lesão única, datável. Também é difícil vinculá-los a uma vítima identificável:
não se pode apontar uma pessoa específica cujo salário foi reprimido por causa
da fortuna de outra pessoa.
Não é
que as pessoas não vivenciem a pobreza de forma direta e concreta; é que elas
não conseguem vivenciar diretamente as causas de sua pobreza. A analogia mais
clara, que mencionei no artigo, é a mudança climática: as pessoas podem
vivenciar intensamente uma enchente ou uma onda de calor específica, mas não a
“mudança climática” em si, que é abstrata e estatística.
Esses
danos também são enormes, o que, paradoxalmente, torna mais difícil, e não mais
fácil, senti-los. Sua magnitude produz uma espécie de “entorpecimento psíquico”
ou “fadiga da compaixão”.
A
ameaça de que o dinheiro que você ganhou com esforço seja retirado de você, por
outro lado, é uma experiência imediata e concreta. Ela é visceral e fortemente
evocativa do ponto de vista emocional, mesmo quando você tem mais dinheiro do
que precisa. Em geral, acabamos nos acostumando à perda — podemos deixar de
notar os valores que já são descontados de nossos salários, por exemplo. Mas a
ideia de uma nova perda, como um novo imposto proposto, recria todo esse ciclo.
Há uma
distinção que eu gostaria de tratar com cuidado: não é que as pessoas
considerem o dano coletivo pouco importante. Quando perguntadas diretamente,
elas muitas vezes dirão que ele é muito grave. O ponto é que considerar algo
grave e sentir-se emocionalmente mobilizado a agir são duas coisas diferentes —
e o dano difuso frequentemente perde na segunda dimensão, mesmo quando vence na
primeira.
• É possível identificar narrativas ou
mecanismos discursivos recorrentes usados por movimentos políticos,
especialmente pela extrema direita, para justificar a concentração extrema de
riqueza e a desigualdade?
Vou
responder talvez com mais cautela do que a pergunta sugere, porque sou
psicóloga moral, e não analista política.
Para
começar, as narrativas que justificam a concentração extrema não foram
realmente inventadas por um movimento específico, de direita ou de esquerda.
Elas recorrem a um conjunto de tendências psicológicas bastante gerais e bem
estudadas, que qualquer movimento empenhado em defender o status quo — seja ele
qual for — pode ativar.
As
principais são estas, mencionadas no meu artigo:
• Justificação do sistema: a tendência
documentada de defender as estruturas existentes como justas e legítimas — até
“naturais” —, algo que as pessoas fazem mesmo quando essas estruturas as
prejudicam.
• Crenças em um mundo justo: a necessidade
de enxergar os resultados como merecidos, com pessoas boas sendo recompensadas
e pessoas más sendo punidas, porque a alternativa é assustadora.
• Crença meritocrática: a ideia de que a
riqueza reflete trabalho árduo e talento, que, segundo pesquisas, prevê
tolerância à desigualdade independentemente de haver mérito de fato.
Essas
não são ideias marginais, mas proteções psicológicas que oferecem conforto em
muitos contextos diferentes, para além da questão da riqueza extrema.
O que
alguns movimentos políticos fazem é mobilizá-las de maneira mais deliberada e
mais pública, frequentemente combinando-as com narrativas sobre grupos
“merecedores” e “não merecedores” — dando às pessoas alguém para culpar. Mas as
alavancas em si pertencem à psicologia humana comum.
Acho
importante enfatizar isso porque significa que o desafio não é diagnosticar um
grupo como singularmente irracional, mas compreender por que essas histórias
parecem tão naturais e por que é tão fácil aceitá-las.
• Uma noção particular de “liberdade” é
central para a resistência política à taxação dos super-ricos? Como a defesa da
liberdade individual é usada para enquadrar — ou ocultar — as consequências
sociais da riqueza extrema?
Acho
que o enquadramento da liberdade é poderoso por uma razão frequentemente
ignorada. É tentador tratar os apelos à “liberdade” como uma cortina de fumaça,
uma justificativa para o interesse próprio. Mas o desejo por liberdade funciona
como um valor moral genuíno em si mesmo; ele não representa ausência de
preocupação moral. As pessoas defendem o direito de ficar com aquilo que
ganharam com verdadeira convicção moral. E o enquadramento da liberdade
funciona não porque as pessoas estejam sendo enganadas, mas porque ele ativa
uma intuição moral sincera.
Como
argumento no artigo, a moralidade diz respeito tanto à defesa do espaço de
autonomia pessoal — protegendo o direito das pessoas de viverem suas próprias
vidas livremente, sem interferência indevida — quanto à proteção contra danos,
muitos dos quais decorrem justamente de pessoas vivendo “livremente”.
Esse é
o antigo exercício de equilíbrio: você pode viver como quiser, e eu não
interferirei desnecessariamente nas suas escolhas, a menos que e até que essas
escolhas interfiram na minha própria capacidade de viver como desejo, e assim
por diante.
Tudo
isso ocorre dentro de comunidades humanas que experimentam formas diferentes de
regular esse equilíbrio: algumas erram por impor controles excessivos sobre as
escolhas; outras, por rejeitar esses mesmos controles. O problema do primeiro
caso é que ele pode facilmente começar a controlar coisas que não deveria —
coisas que de fato afetam a capacidade das pessoas de prosperar e viver vidas
singulares. O problema do segundo é que ele pode facilmente deixar de controlar
aquilo que deveria — coisas que, mais uma vez, afetam a capacidade das pessoas
de prosperar.
Portanto,
não acho que esteja em jogo uma noção particular de liberdade, mas uma postura
específica quanto à prioridade da liberdade sobre a restrição. Está se tornando
cada vez mais claro que simplesmente permitir que pessoas acumulem riqueza
contribui diretamente para níveis maiores de desigualdade e para o
empobrecimento da maioria. Isso é extremamente danoso.
Mas,
enquanto não estávamos olhando, as pessoas que acumulavam essa riqueza se
apoiaram em nossa lealdade à proteção da liberdade — e na crença no mérito —
para nos fazer olhar para o outro lado. Agora que talvez estejamos despertando
para o fato de que o dano aos demais é grande demais e que o equilíbrio moral
precisa se deslocar na outra direção, elas estão em uma posição de usar seu
enorme poder e influência para bloquear ativamente, ocultar e redirecionar
quaisquer tentativas de fazer isso.
• Quão poderosa é a narrativa da
meritocracia quando muitos indivíduos extremamente ricos se beneficiam não
apenas de esforço individual ou disposição para correr riscos, mas também de
heranças, subsídios públicos, contratos governamentais, regulações favoráveis
ou vantagens tributárias?
O mais
marcante é como a narrativa meritocrática sobrevive tão bem às próprias
evidências contrárias que você descreve. Seria de esperar que apontar o quanto
uma grande fortuna resulta de herança, subsídio público, regulação favorável ou
vantagens tributárias desmontasse essa narrativa — e, no entanto, em grande
medida, isso não acontece.
Há
algumas razões para isso.
Uma
delas é a distinção que pesquisadores fazem entre meritocracia descritiva e
meritocracia prescritiva: entre acreditar que as recompensas deveriam
acompanhar o mérito e acreditar que elas realmente acompanham o mérito.
A
maioria das pessoas apoia fortemente a primeira ideia. Em seguida, outros
mecanismos psicológicos — discutidos anteriormente — podem entrar em ação e
tornar mais difícil do que deveria ser rejeitar a segunda. A crença de que o
mérito deveria importar se transforma na crença de que ele de fato importa.
Isso
ocorre porque a crença meritocrática funciona menos como uma conclusão a que as
pessoas chegam a partir das evidências e mais como algo reconfortante ao qual
elas recorrem. O poder dessa narrativa não repousa realmente nos fatos. Ele
repousa no quanto desejamos que ela seja verdadeira.
Infelizmente,
isso significa que a informação muitas vezes não move as pessoas da maneira que
esperaríamos.
• No Brasil e, acredito, também nos
Estados Unidos, uma parcela da classe média frequentemente se identifica mais
com os super-ricos do que com pessoas pobres, apesar de estar muito mais
próxima destas em termos de renda e condições de vida. Que mecanismos
psicológicos, morais e políticos ajudam a explicar essa identificação?
Esse é
certamente um enigma interessante, e posso falar com mais segurança sobre os
Estados Unidos do que sobre o Brasil — eu deixaria a você os aspectos
específicos do caso brasileiro.
Alguns
mecanismos parecem estar em ação.
Um
deles é, novamente, a justificação do sistema: as pessoas são motivadas a
enxergar a hierarquia em que vivem como justa e legítima. E aqui está a parte
contraintuitiva: essa tendência não aparece apenas entre aqueles que se
beneficiam da hierarquia, mas também entre os que são prejudicados por ela. De
algum modo, acreditar que o sistema é basicamente justo é mais suportável do
que acreditar que se está preso em um sistema injusto.
Um
segundo mecanismo é aspiracional: as pessoas tendem a se identificar não com o
lugar onde estão, mas com o lugar para onde desejam ir. Nos Estados Unidos, as
pessoas superestimam sistematicamente o quanto a mobilidade social está ao seu
alcance. Assim, identificar-se “para cima” parece menos como tomar partido
contra os próprios interesses e mais como tomar partido em favor de seu eu
futuro.
Em
terceiro lugar está o efeito halo: os ricos são admirados, e seu sucesso é
interpretado como evidência de virtude, enquanto a pobreza é estigmatizada.
Portanto, identificar-se com os de cima protege a identidade. É mais agradável
vincular-se ao grupo admirado do que ao grupo culpabilizado.
É claro
que precisamos ter cuidado para não generalizar demais, e suspeito que o peso
desses mecanismos varie entre sociedades com estruturas de mobilidade,
histórias e ambientes midiáticos distintos. Mas o padrão geral — de que as
pessoas defendem e se identificam com aqueles que mais se beneficiam da
hierarquia, mesmo quando elas próprias estão próximas de sua base — está entre
os achados mais robustos dessa literatura.
Fonte:
Por Glauco Faria, na Fórum

Nenhum comentário:
Postar um comentário