Os
riscos do remédio para insônia mais consumido no Brasil
Na
manhã de 29 de junho de 2022, o médico Vitor Piva, de 34 anos, enfrentava
dificuldades para dormir após voltar de um plantão em um hospital de São Paulo.
"Tinha muito barulho, por causa da construção de uma linha de metrô",
conta.
Ele
precisava descansar, porque trabalharia em mais um plantão naquela noite. Piva
fez o que era rotina nos dias insones: tomou um comprimido de zolpidem. Ainda
sem conseguir dormir, tomou mais um, depois outro, outro… e apagou. "Até
onde me lembro, tomei quatro", conta à DW.
O
médico só acordou dias depois, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do
Hospital das Clínicas, em São Paulo. A sobrevivência dele foi considerada um
milagre. Na cama do hospital, após diversas cirurgias, amputação da perna
direita e sem conseguir enxergar, Piva descobriu o que havia acontecido: ele
caiu da sacada do sétimo andar do apartamento em que morava.
A
Polícia Civil de São Paulo investigou o caso, que a princípio foi tratado como
suspeita de tentativa de suicídio. "Eu sabia que não tinha tentado me
matar, mas não sabia o que tinha acontecido", conta o médico. "Era
uma sacada pequena e baixa, mas não sei exatamente como caí", completa.
Três
meses depois da queda, as autoridades policiais arquivaram o caso. Elas
concluíram que não havia sido tentativa de suicídio, muito menos crime. No
relatório final da polícia, a queda de Piva foi relacionada ao uso de zolpidem,
medicamento que, como o inquérito policial cita, tem "efeitos colaterais
como: alucinações e parassonias (sonambulismo)."
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Popularizado na década de 1990
A
família de Piva acredita que ele teve um episódio de sonambulismo, se
desequilibrou perto da televisão da sala, que era próxima à sacada, e
despencou. O caso dele ilustra um problema de saúde pública no país: o uso
inadvertido do zolpidem, medicamento mais popular para insônia no Brasil.
Lançado
no fim dos anos 1980 para quem tem dificuldades para dormir ou manter o sono, o
zolpidem faz parte de drogas sedativas e hipnóticas para tratamento de insônia
a curto prazo. A recomendação de uso é de, no máximo, quatro semanas. O remédio
chegou ao Brasil em meados dos anos 1990, mas foi popularizado a partir de
2007, quando a patente expirou e foram lançadas versões genéricas.
Um
estudo recente do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da
USP (FMUSP), publicado na revista Sleep Science, mostrou que a insônia, que
atinge até um em cada três brasileiros, costuma ser tratada na maioria das
vezes com remédios (60% dos entrevistados), seja por prescrição médica ou
automedicação.
Segundo
esse estudo, intitulado Uso de medicamentos para dormir e fatores associados
entre adultos com sintomas de insônia, os remédios mais consumidos são os
hipnóticos (44% dos participantes), classe que tem o zolpidem como o principal
medicamento.
"O
zolpidem é eficaz e tem lugar no tratamento da insônia quando há indicação
correta, dose adequada, orientação e acompanhamento. O problema foi a
progressiva banalização de seu uso, muitas vezes como se fosse um simples
indutor do sono de baixo risco, sendo prescrito de forma não cuidadosa",
explica o psiquiatra Alexandre Pinto de Azevedo, do Programa de Transtornos do
Sono do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo
(IPq-FMUSP).
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Um problema de saúde pública
Em
2020, início da pandemia de covid-19, a comercialização do zolpidem explodiu no
país. Naquele ano foram vendidas, segundo a Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa), 23,3 milhões de caixas. Foi a primeira vez que ultrapassou
a marca de 20 milhões de caixas comercializadas.
Os
profissionais da saúde acenderam um alerta e chegaram a classificar a situação
como uma epidemia de zolpidem.
O
medicamento pode provocar várias reações adversas, como dependência química,
crises de abstinência, amnésia, sonambulismo e delírios. Esses efeitos são
atípicos quando consumido no prazo e dosagem indicada. Mas especialistas dizem
que se tornaram corriqueiros porque muitos pacientes fazem consumo inadequado.
Esses
riscos aumentam quando o remédio é associado a álcool ou depressores do sistema
nervoso central, que são medicações que podem causar sonolência ou lentidão.
Por ser um remédio de curta duração, a tolerância ao zolpidem aumenta com
facilidade. Isso faz com que muitos pacientes tomem cada vez mais comprimidos.
Quanto
mais doses, mais riscos de efeitos adversos. "É muito comum um paciente
que toma cinco, seis ou até oito vezes a dose máxima recomendada, que é um
comprimido de 10 mg por dia", diz o psiquiatra Sérgio Tamai, membro da
diretoria da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).
"Um
dos principais efeitos adversos é a amnésia lacunar. A pessoa tem um ‘branco' e
não sabe o que fez durante um determinado período. Por exemplo, um paciente já
ficou com o carro amassado e mal estacionado, pensou que alguém tinha pegado o
veículo. Depois descobriu que havia sido ele mesmo", completa Tamai.
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As restrições da Anvisa
Diante
do cenário de alto consumo do remédio, a Anvisa adotou medidas para restringir
a venda do zolpidem no país. Desde agosto de 2024, o medicamento entrou na
lista daqueles popularmente conhecidos como "tarja preta".
Assim,
a comercialização, que antes era liberada com a receita branca de controle
especial, passou a ser feita somente por meio de receita azul, um documento da
Anvisa para medicamentos que podem causar dependência. Desde então, ele só pode
ser prescrito presencialmente.
Depois
dessa medida, os números oficiais de comercialização caíram. No ano passado, as
vendas reduziram para quase 13,5 milhões de caixas. Os dados, porém, escondem
um problema que já existia antes dessa mudança: o mercado ilegal de venda
desses medicamentos sem prescrição médica.
A
Anvisa tenta combater esse problema por meio de apurações sobre as origens
desse comércio irregular.
"No
Brasil, esse mercado paralelo é muito grande, diferente de outros países.
Então, aqueles que são dependentes dessa medicação, muitas vezes usam receitas
falsificadas ou buscam farmácias irregulares. Por causa desse mercado paralelo,
não dá para dizer que o problema de abuso do medicamento está resolvido",
explica a médica Sandra Doria Xavier, do Instituto do Sono de São Paulo.
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Novas diretrizes
No ano
passado, a Academia Brasileira de Neurologia (ABN) publicou uma nova diretriz
clínica nacional na qual classificou o uso inadvertido do zolpidem como
problema de saúde pública no Brasil. O documento cita os eventos adversos e o
uso inadvertido por pacientes que se tornaram dependentes do remédio.
Nessa
diretriz, assinada por especialistas de diferentes universidades brasileiras, o
tratamento indicado para a insônia é a terapia cognitivo-comportamental, como a
higiene do sono e a regulação de horários para dormir. Segundo os
especialistas, essas medidas são importantes porque tratam as causas do
problema.
No caso
do consumo do zolpidem, a orientação é que o paciente saiba que o tratamento é
temporário. Além disso, a retirada ou troca do remédio deve ser acompanhada por
um médico, porque pode levar a crises graves.
"O
zolpidem não é uma medicação que deve ser abominada, quando bem indicado e no
prazo correto é um ótimo remédio", afirma o neurologista Alan Eckeli,
professor da USP de Ribeirão Preto e um dos responsáveis pela diretriz.
Eckeli
afirma que o problema com o uso indevido é quase exclusivo do Brasil.
"Talvez haja algo em outro país, mas nada como aqui. Um dos motivos disso
é que a comunidade médica daqui recebe, muitas vezes, um treinamento muito
aquém do ideal quando se fala de queixas do sono", afirma o neurologista.
Os
especialistas apontam que é fundamental que haja orientações mais detalhadas
aos médicos brasileiros sobre o tratamento de insônia, além dos cuidados
adequados quando recorrerem aos hipnóticos.
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Pacientes mais atentos
Os
pacientes ficaram mais conscientes sobre os riscos do zolpidem após a medida da
Anvisa, avalia Eckeli. "Não foi uma mudança total, porque ainda é um
problema importante e complexo. Mas serviu como orientação. Hoje, os pacientes
que procuram os serviços especializados já têm receio dessa classe de
medicamentos. A maioria quer parar de usar", completa.
No caso
do médico Vitor Piva, as consequências do uso inadvertido do remédio são
sentidas diariamente, por causa das limitações causadas pela queda do sétimo
andar. Ele não recuperou a visão, passou por cerca de 20 cirurgias e faz
acompanhamento para reaprender a falar, pois teve inúmeras fraturas no rosto.
Para as
atividades diárias, Piva precisa do apoio dos pais e do irmão. Recentemente,
começou a trabalhar na área de assistência particular para perícias médicas.
"Ainda tenho esperança de que vai existir, mais pra frente, algum
tratamento que vai me ajudar a voltar a enxergar", diz.
Piva
admite que sabia dos riscos do zolpidem, mas ainda assim prescrevia os
medicamentos para si. "É aquilo, dizem que os médicos são os piores
pacientes. Eu acredito que é um pouco de culpa minha, por ter feito o uso
errado da medicação."
Piva
nunca mais tomou o zolpidem e hoje alerta sobre os riscos do remédio.
"Quando algum amigo diz que está tomando, já aconselho a parar", diz.
Fonte:
DW Brasil

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