O
problema geral da comunicação
A
comunicação pertence ao processo geral de reprodução da vida social e, por essa
razão, acompanha as relações pelas quais os homens produzem sua existência,
estabelecem vínculos, produzem suas instituições, distribuem funções e
organizam o poder. Cada sociedade produz também seus mecanismos de elaboração,
registro e transmissão da experiência acumulada, definindo quem dispõe das
condições necessárias para falar publicamente, quais conhecimentos recebem
legitimidade, quais acontecimentos merecem registro e quais interpretações
entram no patrimônio comum de uma determinada época.
Sob o
capitalismo, essas capacidades estão submetidas à divisão social do trabalho e
à propriedade privada, reproduzindo no campo comunicacional as desigualdades
existentes na produção material. A separação entre trabalhadores e meios de
produção encontra correspondência na separação entre aqueles que vivem
determinados conflitos e aqueles que dispõem dos instrumentos necessários para
interpretá-los publicamente. A produção material e a produção social da
interpretação estão, portanto, ligadas por relações de poder que atribuem a
grupos distintos capacidades desiguais de interferência sobre aquilo que uma
sociedade conhece de si mesma.
Essa
divisão tem consequências políticas. O trabalhador produz riqueza, participa
das relações econômicas que sustentam a sociedade, conhece concretamente a
exploração, as pressões do trabalho, o custo da moradia, as dificuldades de
transporte, o endividamento, o desemprego, a violência policial, a deterioração
dos serviços públicos e as inúmeras estratégias necessárias à sobrevivência
cotidiana, mas essa experiência não chega a encontrar meios próprios e
permanentes de elaboração coletiva.
O
conhecimento produzido no curso da existência está fragmentado, localizado,
disperso entre milhões de indivíduos que enfrentam problemas semelhantes sem
necessariamente reconhecê-los como componentes de uma mesma estrutura social.
Entre a experiência vivida e sua elaboração política instala-se então uma
extensa cadeia de mediações composta por jornalistas, pesquisadores, partidos,
parlamentares, organizações, comentaristas, produtores culturais e, mais
recentemente, influenciadores digitais, cada qual submetido a circuitos
específicos de financiamento, prestígio, carreira e autoridade.
A
divisão capitalista do trabalho favorece esse processo. Jornadas extensas,
deslocamentos cotidianos, insegurança profissional, precarização, desemprego
intermitente e endividamento reduzem drasticamente o tempo disponível para
estudo, reunião, pesquisa, produção cultural e atividade política. Ao mesmo
tempo, determinados segmentos sociais concentram tempo, escolarização, recursos
técnicos, acesso institucional, contatos e domínio dos códigos necessários à
intervenção pública.
Essa
desigualdade produz uma divisão intelectual que não decorre de qualquer
incapacidade intrínseca dos trabalhadores, mas de condições materiais desiguais
de participação na produção do conhecimento. A especialização comunicacional
nasce dentro dessa divisão e rapidamente pode cristalizar posições de
autoridade. O jornalista conhece os códigos da imprensa; o acadêmico domina uma
linguagem legitimada pelas instituições científicas; o dirigente partidário
dispõe dos contatos e estruturas de sua organização; o parlamentar tem acesso
privilegiado aos meios; o influenciador controla uma audiência acumulada. Aos
demais cabe frequentemente fornecer experiência, testemunho, voto, atenção e
engajamento.
A
transformação dessa diferença funcional em hierarquia política é um dos
problemas fundamentais da comunicação contemporânea. O domínio técnico
necessário à produção audiovisual, ao jornalismo, à pesquisa ou à administração
de plataformas pode ser conhecimento socialmente útil, desde que esteja
submetido ao controle coletivo e circule entre aqueles que participam do
processo. Sob relações hierárquicas, porém, a especialização tende a se
autonomizar e criar uma camada que administra a palavra pública.
A
divisão entre concepção e execução, tão característica da produção capitalista,
reaparece no interior da comunicação: alguns pensam, selecionam, editam,
interpretam e decidem; outros fornecem matéria social para essa elaboração e
recebem posteriormente o resultado acabado. A autonomia dos produtores depende
também do controle dos meios, das decisões e da circulação daquilo que
produzem; caso contrário, a independência continua restrita ao plano aparente.
Essa
separação nos ajuda a compreender por que sociedades desiguais conseguem
preservar por longos períodos determinadas interpretações do mundo mesmo diante
de crises recorrentes. A dominação burguesa não depende de uma unanimidade
ideológica absoluta. A própria burguesia tem suas frações determinadas pela
concorrência entre capitais, disputas econômicas, interesses regionais,
conflitos entre setores produtivos e financeiros e antagonismos no interior do
bloco dominante.
Essa
fragmentação, contudo, ocorre entre agentes que compartilham uma relação
fundamental com a propriedade, a exploração do trabalho e a reprodução ampliada
do capital. Existem instituições capazes de coordenar seus conflitos sem
colocar em risco o princípio geral da ordem social: empresas, associações
empresariais, bancos, aparelhos jurídicos, meios de comunicação, universidades,
fundações, institutos privados, partidos e o próprio Estado.
A
experiência histórica de aparelhos como IPES e IBAD, assim como a emergência
posterior de organizações como MBL e Brasil Paralelo, demonstra que diferentes
frações dominantes conseguem investir recursos consideráveis na produção de
quadros, narrativas, filmes, pesquisas, campanhas e instrumentos de intervenção
cultural quando percebem ameaças aos seus interesses.
Entre
os trabalhadores, a fragmentação tem consequências distintas. A classe se
organiza por ocupações, regimes de contratação, territórios, níveis salariais,
pertencimentos culturais, diferenças raciais, relações de gênero, gerações,
religiões, trajetórias educacionais e inúmeras experiências particulares
produzidas pela divisão capitalista do trabalho. Muitas dessas diferenças têm
raízes materiais profundas e não podem ser dissolvidas por proclamações
abstratas de unidade.
O
problema central está na ausência de instituições autônomas capazes de elaborar
essas experiências heterogêneas como partes de uma totalidade social comum. O
capital dispõe de mecanismos para administrar seus conflitos internos; os
trabalhadores frequentemente dependem de estruturas externas ou burocratizadas
para estabelecer conexões entre suas próprias experiências. A fragmentação
econômica encontra, assim, uma fragmentação comunicacional correspondente.
Essa
condição ganhou intensidade com a expansão das plataformas digitais. A internet
ampliou extraordinariamente a quantidade de pessoas capazes de emitir mensagens
publicamente, mas essa multiplicação de emissores ocorreu dentro de uma
infraestrutura concentrada em poucas corporações. A capacidade técnica de
publicar uma mensagem disseminou-se enquanto distribuição, visibilidade,
armazenamento, monetização, coleta de dados e ordenamento da atenção continuam
sob controle de centros privados de poder.
Cada
indivíduo dispõe de seu meio de comunicação enquanto todos dependem de sistemas
que não controlam. A contradição é relevante porque produz uma experiência
subjetiva de autonomia no interior de uma estrutura altamente centralizada. O
usuário fala, comenta, publica e compartilha, mas sua atividade alimenta
simultaneamente bancos de dados, métricas comerciais, sistemas publicitários e
mecanismos de segmentação que pertencem às empresas responsáveis pela
infraestrutura.
O
desenvolvimento desse modelo alterou também os critérios de autoridade
política. A audiência acumulada começou a funcionar como índice de relevância,
e números de seguidores, visualizações e engajamento ganhou peso crescente na
definição de quem merece ser ouvido. O mecanismo contém uma circularidade
poderosa: aquele que tem visibilidade recebe novos convites, participa de
grandes canais, amplia suas relações, fortalece sua autoridade e ganha ainda
maior visibilidade.
Quem
está em circuitos menores encontra obstáculos crescentes para interferir sobre
o debate público, independentemente da consistência de sua elaboração fazendo
com que a métrica digital tenha o lugar da inserção concreta nas lutas sociais
como critério de autoridade política. O algoritmo integra uma estrutura
anterior à internet: a concentração desigual da capacidade social de falar e
ser reconhecido.
A
comunicação vinculada às esquerdas incorporou amplamente essa racionalidade. O
desenvolvimento tecnológico ofertou novos recursos à velha estrutura da
representação política, aproximando dirigentes e audiência sem alterar
necessariamente a posição ocupada pelos sujeitos dentro da relação. O
parlamentar transmite ao vivo; o intelectual mantém canais próprios; o partido
atua em redes sociais; o militante profissional transforma análise política em
produção diária de conteúdo; o público comenta, compartilha, financia e
acompanha.
A
proximidade aparente pode esconder uma separação persistente entre produção da
orientação política e participação na elaboração dessa orientação. A velha
reunião de cúpula encontra novos meios de difusão, a propaganda partidária
assume linguagem audiovisual contemporânea e o profissional da política aprende
a administrar comunidades digitais. A tecnologia aperfeiçoa a circulação sem
resolver o problema da autonomia, sendo, portanto, necessário promover a
crítica da comunicação, que encontra a crítica da organização.
Uma
estrutura política baseada na separação entre dirigentes e dirigidos produzirá
uma comunicação compatível com essa divisão; uma organização cujo centro reside
na representação eleitoral tenderá a tratar comunicação como propaganda,
construção de imagem, disputa de narrativa e mobilização periódica da base; uma
organização que depende do protagonismo de determinadas personalidades tenderá
a concentrar recursos comunicacionais nessas figuras; uma estrutura orientada
pela competição eleitoral buscará alcance, persuasão e reconhecimento público.
O
modelo comunicacional expressa, portanto, o tipo de relação política que o
sustenta. Sua verticalidade tem raízes organizacionais e sociais muito mais
profundas do que escolhas estéticas ou técnicas. Esse é um dos pontos presentes
na crítica ao circuito do webcomunismo e da chamada esquerda radical, onde a
linguagem revolucionária pode conviver com práticas comunicacionais assentadas
na autoridade individual, na audiência e na integração institucional.
A
questão ganha maior gravidade porque a comunicação participa da constituição do
sujeito político. Quem está na posição de receptor aprende a reconhecer outros
como produtores legítimos da interpretação, podendo concordar, discordar,
comentar ou abandonar determinado canal, mas continua situado diante de uma
estrutura já pronta fazendo com que experiências desse tipo produzam hábitos
políticos como esperar que alguém explique a conjuntura, interprete uma
eleição, diga quais acontecimentos são relevantes, apresente os inimigos,
estabeleça prioridades e ofereça alguma projeção sobre o futuro.
A
dependência comunicacional encontra assim a dependência política. A ausência de
organizações próprias aumenta a demanda por representantes, enquanto a presença
contínua de representantes enfraquece a necessidade social de construir
instrumentos autônomos o que nos leva a entender a força contemporânea dos
gurus, influenciadores, especialistas e personalidades políticas.
Em
períodos marcados pela deterioração das referências coletivas, esses indivíduos
oferecem coerência a experiências sociais fragmentadas. Sua eficácia deriva da
existência real de uma demanda por interpretação em uma sociedade na qual
milhões de pessoas carecem de meios coletivos para elaborar aquilo que vivem. A
autoridade personalizada ocupa o espaço deixado pelo enfraquecimento das
instituições autônomas dos trabalhadores.
Por
isso, qualquer discussão séria sobre comunicação popular precisa começar antes
da mensagem, do canal ou da tecnologia. Seu problema inicial são as relações
sociais que estabelecem quem dispõe da capacidade de produzir conhecimento
público e quem depende da interpretação produzida por outros. A democratização
técnica do acesso à emissão é apenas uma dimensão dessa questão. Controle dos
meios, tempo disponível, formação, propriedade, financiamento, organização,
poder decisório, circulação e memória precisam ser examinados como elementos de
um mesmo processo.
Uma
comunicação vinculada à emancipação dos trabalhadores terá de enfrentar essa
divisão em sua estrutura, sob o risco de reproduzir internamente aquilo que
pretende combater.
É nesse
ponto que a pergunta sobre a comunicação popular deixa de ser uma discussão
abstrata sobre linguagem ou conteúdo e assume caráter organizacional. Se
trabalhadores devem ser os sujeitos de sua própria emancipação, precisam também
conquistar capacidade coletiva para conhecer, interpretar, registrar e
comunicar sua experiência histórica.
A
produção da consciência integra o processo pelo qual uma classe fragmentada
pode reconhecer relações comuns, elaborar divergências, acumular memória,
produzir critérios de decisão e construir poder próprio. A comunicação popular
começa precisamente nesse problema: quem produz a interpretação da experiência
dos trabalhadores e sob controle de quem essa interpretação circula?
Fonte:
Por Arthur Moura, em A Terra é Redonda

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