Musculação
reduz pressão arterial se praticada dois ou três dias por semana com carga
moderada a alta
O
treinamento de força – praticado com carga de moderada a vigorosa, dois ou três
dias por semana – é uma boa estratégia para diminuir a pressão arterial. A
conclusão é de um estudo brasileiro publicado na revista Scientific Reports.
Os
mecanismos de diminuição da pressão arterial por meio de atividades aeróbicas
têm sido bem estudados. No entanto, existem poucas investigações sobre o
exercício de força, como essa conduzida por pesquisadores da Universidade
Estadual Paulista (Unesp).
Sob a
coordenação de Giovana Rampazzo Teixeira, professora do Departamento de
Educação Física da Unesp de Presidente Prudente, o grupo conduziu uma revisão
sistemática da literatura científica sobre o tema com meta-análise – tipo de
estudo considerado padrão-ouro em nível de evidência. O objetivo foi verificar
a intensidade, o volume e a duração do treinamento que garantiriam os melhores
resultados.
A
pesquisa contou com a colaboração de pesquisadores da Universidade de São Paulo
(USP) e foi financiada pela FAPESP por meio de três projetos (21/14514-2,
20/15324-0 e 19/11924-5).
As
doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no mundo e a
hipertensão arterial responde por 13,8% delas. A condição é considerada um
problema quando os níveis ficam acima de 140 milímetros de mercúrio (mmHg) de
pressão arterial sistólica e acima de 90 mmHg de pressão diastólica. Trata-se
de uma doença multifatorial, desencadeada por hábitos como sedentarismo, má
alimentação, consumo de álcool e tabagismo.
Já se
sabia que o treinamento de força era uma opção terapêutica, mas havia, até
então, pouca certeza sobre os protocolos mais eficientes. Com uma amostragem de
253 participantes, com média de idade de 59 anos, foi feita a análise com base
em uma série de ensaios controlados que avaliaram o efeito do treinamento por
oito semanas ou mais.
“Focamos
em estabelecer o volume e a intensidade que fossem suficientes para alcançar
uma redução significativa de valores da pressão arterial. Em média, o
treinamento de força realizado em oito a dez semanas foi suficiente para uma
redução de 10 mmHg sistólico e 4,79 mmHg diastólico”, conta Teixeira à Agência
FAPESP.
O
estudo mostrou que resultados efetivos eram observados por volta da 20ª sessão
de treinamento e os efeitos hipotensivos benéficos duravam até 14 semanas mesmo
depois que os exercícios eram interrompidos – fase chamada de destreinamento.
“Na
prática clínica ou até no dia a dia das academias, os profissionais que
depararem com um sujeito hipertenso poderão usar o treinamento de força como
tratamento não farmacológico para hipertensão arterial, sabendo quais são as
variáveis necessárias para que isso seja alcançado e sempre levando em
consideração os objetivos da pessoa”, explica a pesquisadora.
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Análise sistemática
Durante
muito tempo apenas o treinamento aeróbio era indicado para o tratamento da
hipertensão arterial e, por isso, os estudos moleculares eram quase que
inteiramente restritos a essa modalidade.
“Recentemente,
o treinamento de força entrou nas Diretrizes Brasileiras de Hipertensão
Arterial, mas muito ainda deve ser investigado para que tenhamos evidências
mais robustas. As perspectivas de novos estudos se baseiam nos mediadores
moleculares que são os responsáveis por essa redução da pressão arterial em
nível vascular e sanguíneo durante o treinamento de força”, pondera Teixeira.
A
revisão sistemática foi a forma como os pesquisadores puderam analisar a
amplitude e a robustez de evidências sobre o potencial do treinamento de força.
Revisões anteriores verificaram que havia algum efeito, porém, o trabalho agora
publicado fornece evidências adicionais importantes, como intensidade da carga,
volume e frequência semanal. Os pesquisadores reuniram inicialmente 21.132
artigos, dos quais 54 cumpriam critérios para análise de texto completo.
Destes, 14 foram considerados relevantes para a revisão.
O
efeito mais vantajoso foi observado em protocolos com intensidade de carga
moderada a vigorosa, acima de 60%
da carga usada para uma repetição máxima,
a mais intensa suportada pelo indivíduo. Ou seja, se a máxima
carga com a qual consegue fazer uma única repetição
é de 10 quilos, a carga mais vantajosa de treino estava
acima de 6 quilos. Outra observação importante foi
atestar que a frequência deve ser de pelo menos duas vezes por semana,
mantida por, no mínimo, oito semanas.
A
maioria dos estudos da revisão abrangeu pessoas entre 60 e 68 anos, com apenas
dois estudos incluindo uma população mais jovem (entre 18 e 46 anos). Sete
estudos incluíram pacientes de ambos os sexos, em outros sete estudos a amostra
foi composta apenas por mulheres e um dos trabalhos incluiu apenas homens.
Observando
os subgrupos, também foi descoberto que o efeito da intervenção está
relacionado à idade. Aqueles entre 18 e 50 anos apresentaram efeitos
hipotensores consideravelmente maiores em comparação à faixa etária entre 51 e
70 anos. “De toda forma, o treinamento de força pode ser realizado em qualquer
idade, pois mesmo em pessoas mais velhas há benefícios hipotensivos”, atestam
os pesquisadores.
Estudos
futuros devem desvendar os mecanismos celulares e moleculares responsáveis pela
diminuição da pressão arterial em decorrência do treinamento de força. O que se
sabe é que durante a atividade física há aumento da frequência cardíaca,
aumento do diâmetro dos vasos sanguíneos (vasodilatação), maior fluxo sanguíneo
e aumento da produção de óxido nítrico (composto com efeito vasodilatador). Em
longo prazo, o exercício promove adaptações, como diminuição da frequência
cardíaca de repouso, melhora da eficiência cardíaca e aumento do volume máximo
de oxigênio que o organismo consegue absorver a cada respiração (VO2máx).
Entre
as limitações destacadas pelos pesquisadores está a inclusão de pacientes que
faziam uso de anti-hipertensivos em 11 dos 14 estudos, como β-bloqueadores,
diuréticos, bloqueadores dos canais de cálcio e inibidores da enzima conversora
de angiotensina. Há também o fato de alguns artigos utilizarem homens e
mulheres no mesmo grupo de intervenção, o que impede a análise de acordo com o
sexo.
• Musculação reprograma células do fígado
e ajuda a reverter danos da obesidade. Por Maria Fernanda Ziegler
Estudo
desenvolvido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostra que os
benefícios da musculação vão além do ganho de músculos e da perda de gordura.
Em experimentos com camundongos, os pesquisadores observaram que o treinamento
de força induz uma verdadeira reprogramação molecular no fígado. A descoberta
ajuda a entender como a prática modula o funcionamento do genoma para mitigar a
doença hepática esteatótica – condição caracterizada pelo acúmulo de gordura no
órgão e intimamente ligada ao surgimento do diabetes tipo 2.
“Queríamos
entender como algo que ocorre nos músculos poderia interferir e beneficiar um
problema no fígado. Para isso, fomos investigar o cerne do metabolismo, que é o
nosso DNA. O objetivo foi compreender como a obesidade agride esse DNA e,
depois, como a musculação consegue protegê-lo”, relata Leandro Pereira de
Moura, professor da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA-Unicamp) e coordenador
da pesquisa, em entrevista à Agência FAPESP.
Os
resultados do estudo, apoiado pela FAPESP, foram divulgados em novembro na
revista Life Sciences.
Para
descobrir como o trabalho muscular impacta o fígado, a pesquisa focou na
epigenética. Essa área da ciência avalia de que forma fatores externos – como
hábitos de vida e condições ambientais – alteram o funcionamento dos genes sem
modificar o código do DNA.
Um dos
fenômenos epigenéticos mais estudados é a metilação do DNA. Ela consiste na
adição de uma molécula química (o grupo metil) na chamada região promotora do
gene, que funciona como o “botão de ligar”. Essa marcação química atua como uma
barreira física que torna o gene menos acessível para as enzimas da célula,
inibindo a sua atividade.
Nos
experimentos com roedores, os pesquisadores verificaram que oito semanas de
musculação foram suficientes para alterar a metilação do gene MTCH2 (homólogo 2
do transportador mitocondrial), que está fortemente envolvido na forma como o
fígado processa e utiliza a energia.
Como
explica Moura, a obesidade obriga o fígado a trabalhar em um ambiente tóxico. O
excesso de gordura se acumula nos hepatócitos – as principais células do fígado
–, desencadeando uma inflamação crônica e falhas nas mitocôndrias, que são as
“usinas de energia” celulares. O fígado busca se regenerar, mas, sem energia
suficiente, esse processo falha. O tecido sadio vai sendo substituído por
tecido cicatricial (fibrose) em um processo que destrói aos poucos a função do
órgão. É nesse cenário de estresse extremo que o corpo desregula o
funcionamento do gene MTCH2, acelerando ainda mais a progressão da doença.
Nos
experimentos com os camundongos treinados, os cientistas observaram algo
intrigante: embora as células do fígado até emitissem o comando genético (RNA
mensageiro) para ativar o MTCH2, a quantidade final da proteína ligada a esse
gene diminuiu. Segundo Moura, isso ocorre porque a musculação devolveu a
capacidade energética ao órgão e reduziu a inflamação. Ao perceber que o
ambiente não era mais tóxico, o organismo desligou o “modo de emergência”. Sem
o estresse celular e os sinais de autodestruição, o próprio corpo bloqueou as
etapas finais de formação dessa proteína.
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Resistência à insulina
Um dos
papéis do fígado é ajudar a manter estável o nível de açúcar no sangue
(glicemia) para garantir o funcionamento de todos os órgãos, principalmente do
cérebro. Sob o comando da insulina, o fígado armazena o açúcar excedente logo
após as refeições na forma de glicogênio; já nos períodos de jejum, ele libera
essa reserva de volta na corrente sanguínea. Em condições normais, a insulina
funciona como um mensageiro que avisa o fígado para parar de liberar glicose
quando o corpo já está abastecido. Mas quando o órgão está sufocado pela
gordura e inflamado, ele desenvolve resistência à insulina, ou seja, fica
“surdo” a esse aviso e continua mandando açúcar para a circulação. Um dos
achados da pesquisa é que, nos roedores obesos que praticaram treinamento de
força, o fígado recuperou a sensibilidade à insulina.
Os
resultados também indicam que a atividade física inibiu a ação de enzimas que
causam a fibrose e o crescimento celular desordenado. E impulsionou a produção
de ATP5, proteína essencial para a geração de energia mitocondrial. “Com
energia abundante, as células saem do estado de alerta e deixam de ativar o
gene MTCH2, favorecendo a regeneração do tecido”, resume Moura. “Levantar pesos
fortalece não só os músculos, mas também controla como o DNA do fígado
funciona.”
Fonte:
Por Ricardo Muniz em Agência FAPESP

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