quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Irã aprendeu o jogo de Trump — e agora pressiona EUA na guerra, no petróleo e nos mercados

A estratégia do Irã já não é esperar os golpes nem as idas e vindas de Washington, mas agir por conta própria e preparar-se para uma guerra longa. Não é preciso acreditar em Teerã para chegar a esta conclusão. Basta ler o que a própria imprensa estadunidense vem publicando sobre seu governo nas últimas duas semanas.

O estreito de Ormuz não se reabrirá até que as forças estadunidenses se retirem completamente da zona do golfo Pérsico. O porta-voz da chancelaria iraniana, Esmail Baghaei, repetiu há poucos dias: “Corresponde à parte estadunidense deter-se e reparar suas ações ilegais e destrutivas”.

Recordemos que este conflito começou em meados de 2025 com um ataque estadunidense-israelense que o presidente dos Estados Unidos Donald Trump chamou de Guerra dos Doze Dias, e foi retomado em fevereiro em um novo ataque da potência norte-americana, que teve como resultado o martírio do líder supremo Ali Khamenei.

Essa segunda escalada atraiu o Paquistão como mediador do primeiro memorando de entendimento em um cenário de exigências maximalistas do Irã e concessões estadunidenses.

O controle de Ormuz é a carta forte do Irã: os pedágios e o manejo do fluxo energético e derivados que transitam pelo estreito de águas territoriais que compartilha com Omã puseram em xeque a economia mundial e permitiram ao Irã financiar o esforço bélico.

Além disso, mostra o ponto de sutura entre os interesses do governo dos Estados Unidos em frear as consequências do conflito, antes das eleições de metade do mandato em novembro, e os do governo de Israel, que necessita que o conflito se mantenha ativo antes de suas próprias eleições.

Irã fixou, para sentar-se à mesa de negociação, em um cenário de máximas em que está comodamente posicionado, seis demandas que podem ser lidas como a capitulação de Trump: cessar totalmente as ameaças e ofensas aos valores iranianos; fim das agressões no Líbano, Palestina, Iêmen e Iraque; retirada militar completa dos Estados Unidos do golfo Pérsico e suas bases navais e aéreas; reparação de danos no valor de 300.000 milhões de dólares pelo conflito; levantamento das sanções econômicas unilaterais, e liberação incondicional dos ativos iranianos bloqueados.

<><> Guerra de mercados

A república islâmica aprendeu a jogar o jogo de quem habita a Casa Branca e seus associados. Por exemplo, ataca navios cisterna minutos antes da abertura de mercados para mover o preço do petróleo e dos bônus, jogo que até agora só Trump jogava com seus vai e vens na imprensa e em Truth Social, sua rede social preferida, ganhando dinheiro com a especulação financeira da guerra. Segundo revelou Fortune a partir de sua própria declaração jurada ante o Departamento de Ética Governamental, Trump tirou proveito pessoal, comprando sistematicamente ações de petroleiras e empresas de defesa enquanto insistia em público em que a guerra terminaria logo.

Esta é uma pressão calculada sobre Trump, que teme uma crise econômica às vésperas de umas eleições em que os republicanos se arriscam a perder a maioria que têm em ambas as câmaras.

Um dado interessante é que em 22 de julho a Câmara de Representantes aprovou uma resolução sob a War Powers Act para forçar Trump a abandonar a guerra com o Irã, com um resultado de 214 a 208 graças a que quatro republicanos votaram junto com os democratas.

Naquele mesmo dia, o Senado a bloqueou por apenas dois votos, 49 a 47. Um Congresso ainda de maioria oficialista está, em consequência, a apenas dois votos de proibir a guerra a seu próprio presidente, em meio a um conflito que a Casa Branca continua apresentando da porta para fora como controlado e necessário.

<><> Sem munições 

O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais calculou que no fim de julho os Estados Unidos já tinham consumido entre dois terços e três quartas partes de seu estoque de interceptores Patriot (passou de 2.200 antes da guerra a menos de 830) e uma proporção similar de seu estoque de THAAD, o sistema de defesa antimísseis de maior altitude. Ambos estavam destinados em primeira instância à Europa para prover a Ucrânia e em segunda instância ao domo de ferro israelense e às bases militares estadunidenses no Oriente Médio.

Consultado pelo Wall Street Journal, Trump tentou desmentir estes dados, mas a evidência citada por seus próprios funcionários vai em sentido contrário: no fim de julho, o mesmo jornal e o New York Times coincidiram em que Trump decidira postergar uma nova ofensiva de grande escala contra o Irã, em meio ao cessar fogo, precisamente devido à escassez de mísseis de defesa aérea.

Não é um dado menor que as principais bases de Bahrein e Kuwait tenham sido praticamente desalojadas. É a principal potência militar do planeta reconhecendo a contragosto, por meio de seus próprios meios de referência, que não tem colchão logístico para manter uma guerra total sem arriscar suas capacidades em outras frentes (começando por Taiwan, que já monitora o desgaste com atenção, segundo reportou Asia Times, e seguindo-se a Ucrânia, como expressou seu presidente Volodimir Zelenski ao tentar vincular a guerra do Irã à da Ucrânia).

Trump busca uma saída, mas o Irã não lhe dá nenhuma vitória fácil, por mínima que seja. Tudo indica que, por ora, opta por deixar correr a pressão econômica antes de uma nova escalada militar, um sinal de que a margem de manobra é mais estreita do que Washington admite em público.

A decisão de fundo segue sendo a mesma: uma concessão humilhante ou uma escalada de consequências imprevisíveis. Alguns analistas consideram que existe uma terceira via: Trump poderia negociar com Omã uma porção dos ingressos que receba pela tarifa cobrada junto com o Irã, o que poderia dar-lhe uma espécie de desculpa propagandística.

<><> Fissura na inteligência 

Outro episódio bem recente, revelado pelo The Washington Post, foi o que aconteceu na cúpula da OTAN em Ankara. Trump foi retirado em segredo do avião presidencial e transferido em um carro de catering para uma aeronave militar alternativa por um alerta sobre um suposto plano iraniano para derrubar o Air Force One, o avião presidencial estadunidense.

O dado que trouxe o Post foi que esta informação de inteligência fora transmitido por Israel à CIA e, ainda que os analistas desta agência de inteligência o avaliassem como de baixa confiabilidade, decidiram comunicá-lo à administração, que por prevenção, decidiu tomar medidas. Seja como for, o secretário de Estado, Marco Rubio, decidiu viajar no Air Force One.

A própria imprensa estadunidense está documentando fissuras entre o que Israel aventa como uma ameaça e o que a inteligência dos Estados Unidos efetivamente confirma. É a mesma lógica que atravessa toda a guerra: decisões que são tomadas mais pela pressão do sócio regional do que por evidência própria.

<><> A aliança da Meca

Na sexta-feira 7, Arábia Saudita, Turquia e Paquistão assinaram o Acordo Conjunto de Defesa da Meca, pelo qual um ataque contra um será visto como uma afronta contra os três. É a primeira vez que uma potência nuclear, o Paquistão, se compromete formalmente com o segundo exército da OTAN, a Turquia, e com o peso financeiro saudita. Circulou a ideia de que este acordo estende o guarda-chuva nuclear paquistanês para a Arábia Saudita e a Turquia.

O texto estabelece a mesma fórmula de defesa coletiva que o artigo 5 da OTAN, que tampouco obriga a uma resposta automática nem nomeia um adversário, ou seja, cada signatário decide que atitude tomar. Esta ambiguidade, deliberada, habilita a leitura de que se estende de fato um guarda-chuva nuclear informal a Arábia Saudita e Turquia. O chanceler turco, Hakan Fidan, desmentiu, mas não desestimou o mecanismo.

O que não admite nuances é a leitura de que a região já não confia no guarda-chuva de segurança estadunidense. Autoridades de Israel declararam sua preocupação com isso, os iranianos saudaram a iniciativa. O ministro de Assuntos da Diáspora, Amichai Chikli, qualificou a aliança da Meca como “muito perigosa e muito preocupante”, e advertiu que leva Israel a aprofundar alianças alternativas com Grécia, Chipre, Emirados Árabes Unidos, Índia e Somália.

Nota do Editor: No fim de semana passado Donald Trump, com seu habitual matonismo já pouco crível, disse que os “Estados Unidos declarará proximamente Ormuz como sua propriedade”.

<><> Cruzamentos

Há um dado que organiza algo de tudo o que foi dito. De um lado, o eixo sunita que acaba de selar o acordo da Meca: Arábia Saudita, Turquia e Paquistão. Do outro, o eixo chiita liderado pelo Irã com as milícias do Hezbollah no Líbano, Al-Qaeda na Palestina e os huthis no Iêmen, o chamado eixo da resistência.

No papel, são blocos rivais, enfrentados no Iêmen, no Líbano e em cada fronteira quente da região. Mas os atores principais dos dois eixos sentam-se à mesma mesa. O Irã é membro dos Brics desde 2024, Arábia Saudita aderiu como membro pleno em julho de 2025 e a Turquia tem status de país sócio desde a cúpula de Kazan. Sócios na arquitetura geopolítica e financeira da ordem multipolar que compete com o Ocidente.

Os Emirados Árabes Unidos entram nesta leitura por outra porta: liberaram milhares de milhões de dólares em ativos iranianos congelados em bancos dos Emirados, em uma tentativa de comprar segurança frente a um eventual recrudescimento da guerra regional.

A consolidação do novo eixo da Meca deixou Abu Dabi em uma posição incômoda ao não ter continuidade geográfica com Israel, seu aliado, e estar cara a cara com o Irã, separado pelo estreito de Ormuz.

É paradoxal e será posto a prova em umas poucas semanas, já que os Brics, sob a presidência da Índia, têm sua décima oitava cúpula em 12 e 13 de setembro em Nova Delhi, à qual o presidente russo Vladimir Putin confirmou que assistirá. Ali se encontrarão representantes dos dois eixos da Ásia ocidental, junto com Rússia e China, o eixo euroasiático que Trump observa de longe.

Não se está diante de uma aliança prolixa nem de um bloco homogêneo. São alianças cruzadas, com rivalidades por resolver. O fundo é o mesmo em todos os casos: cada vez menos atores apostam sua segurança material e financeira exclusivamente na garantia estadunidense ou ocidental. E esta evidência é a que melhor descreve uma decadência ocidental que já não pode ser dissimulada com comunicados de imprensa ou tuites às cinco da manhã.

¨      Pezeshkian insta Washington a mudar abordagem e cumprir memorando de entendimento

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, cobrou dos Estados Unidos uma mudança de postura em relação a Teerã durante uma reunião, nesta segunda-feira (24/08), com o marechal Asim Munir, chefe do Exército do Paquistão, país que atua como mediador do confronto.

No encontro, Pezeshkian defendeu que Washington cumpra os compromissos assumidos no memorando de entendimento (MoU) e elogiou os esforços “construtivos” de Islamabad para mediar a atual crise, contribuindo com a paz e a segurança na região.

O presidente iraniano enfatizou que os Estados Unidos devem honrar seus compromissos com o Irã, respeitando os direitos legítimos do país e o direito internacional. Segundo ele, Washington precisa rever a forma como se relaciona com Teerã.

“Os Estados Unidos precisam corrigir o tom e a abordagem em sua interação com o Irã, pois recorrer à força e à intimidação só complicará os processos”, afirmou. Pezeshkian também destacou a continuidade da cooperação com o Paquistão, em busca dos objetivos definidos no acordo de paz.

<><> União entre países

O presidente iraniano ressaltou a coragem e resiliência do povo iraniano diante das pressões externas. Segundo ele, a força do país decorre da unidade e da coesão nacional. “Apoiada nessa solidariedade, a população iraniana será capaz de superar qualquer pressão ou ameaça”, afirmou.

Ele defendeu o estabelecimento de uma paz e segurança duradouras e uma maior articulação entre os países muçulmanos, reafirmando a disposição de Teerã de ampliar as relações com as nações islâmicas e os países vizinhos.

“O Irã está preparado para qualquer tipo de cooperação e interação nas esferas econômica, política e de segurança”, afirmou. Segundo o líder iraniano, a unidade entre essas nações constituem o mais importante fator de dissuasão contra os planos de Israel e dos “inimigos do Irã” na região.

“Se essa convergência for alcançada, os inimigos não conseguirão avançar com seus objetivos sinistros”, declarou.

<><> Paquistão

Munir, por sua vez, defendeu que os processos diplomáticos sejam discutidos e examinados cuidadosamente, com o objetivo de avançar em interesses comuns e alcançar um acordo abrangente, informa a agência Tasnim.

Ele destacou o avanço da cooperação entre Irã e Paquistão e afirmou que as profundas relações históricas, religiosas e culturais entre os dois países constituem um recurso importante para enfrentar a atual crise e construir perspectivas de cooperação.

Ao mencionar a experiência do Paquistão como mediador, Munir afirmou que Islamabad continuará desempenhando seu papel de facilitador.

Em sua avaliação, uma solução para a crise poderá representar “o início de um novo capítulo de cooperação abrangente”, voltado à reconstrução, ao desenvolvimento regional e à construção da segurança coletiva.

Nesta terça-feira (25/08), o ministro do Interior paquistanês, Syed Mohsin Raza Naqvi, que acompanhou Munir na visita a Teerã, classificou as conversas com as autoridades iranianas como positivas e construtivas.

<><> Trump diz que minas iranianas em Ormuz foram removidas

O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou, nesta terça-feira (25/08), na plataforma Truth Social, que todas as minas na rota marítima foram removidas ou detonadas.

“Acabei de ser informado pela Marinha dos EUA que todas as minas foram removidas ou detonadas nas águas internacionais do Estreito de Ormuz. O Irã foi notificado de que qualquer embarcação ou veículo que lançar novas minas será imediata e sistematicamente destruído”, escreveu ele.

Ele também observou que a Força Espacial dos EUA monitora “cada centímetro quadrado do estreito” e que Washington mantém “uma política de tolerância zero em relação à colocação de minas”.

Contudo, em Teerã, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, encontrou seu homólogo omanita, Badr Albusaidi, onde discutiram a implementação de um corredor de navegação temporário e um projeto de desminagem no Estreito de Ormuz.

Ambos líderes enfatizaram a importância de se chegar a um acordo que respeitasse a soberania de seus respectivos países, de acordo com um comunicado.

As discussões entre os dois países continuarão para chegar a um acordo “sobre um corredor de navegação permanente e arranjos futuros para a gestão do estreito, além de estabelecer um mecanismo para troca de informações, gestão do tráfego de navegação e prestação de serviços de navegação e segurança relacionados”.

Por fim, Araghchi e Albusaidi “afirmaram a importância de realizar discussões conjuntas com os Estados litorâneos do Golfo” para garantir que qualquer acordo alcançado esteja em conformidade com o direito internacional e respeite a soberania dos países vizinhos.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/Opera Mundi

 

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