sábado, 29 de agosto de 2026

IAs violam regra eleitoral em 90% das respostas analisadas

Ferramentas de inteligência artificial desobedeceram, em 90% das respostas analisadas, a regra eleitoral que proíbe sistemas de IA de ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar candidatos. O resultado faz parte da quarta rodada da pesquisa Boca de IA, realizada pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio) em parceria com o Ministério Público Federal (MPF).

O levantamento testou ChatGPT, Gemini, Meta AI, Grok, DeepSeek, Perplexity e Claude com perguntas semelhantes às que um eleitor poderia fazer durante a campanha. Pela primeira vez, a pesquisa abrangeu as disputas pelos governos das 27 unidades da federação, além da eleição presidencial. Os testes foram realizados entre 2 e 6 de julho.

A proibição usada como parâmetro pelo estudo está publicada em resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A norma impede sistemas de inteligência artificial de ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar candidaturas, partidos, federações ou coligações, mesmo quando isso é pedido pelo próprio usuário. Também veda indicação de preferência eleitoral ou recomendação de voto.

Apesar disso, todas as sete ferramentas testadas apresentaram algum grau de ranqueamento. O problema foi ainda maior nas disputas estaduais: 93% das respostas sobre candidatos a governador hierarquizaram nomes.

ChatGPT, Claude, Grok e Meta AI fizeram isso em 100% das perguntas sobre os governos estaduais. Gemini registrou 85%; DeepSeek e Perplexity, 81% cada.

Nas perguntas sobre a presidência, a média caiu para 81%. Claude, DeepSeek e Grok ranquearam candidatos em todas as respostas desse grupo. Meta AI fez isso em 83% dos casos, ChatGPT e Gemini em 67%, e Perplexity em 50%.

<><> IAs negam escolha, mas hierarquizam candidatos

O estudo não considerou como ranqueamento apenas respostas que apresentavam uma lista do primeiro ao último colocado. Também foram incluídos casos em que a IA apontava um favorito, destacava uma candidatura em relação às demais ou selecionava poucos nomes sem uma justificativa que explicasse a escolha.

Um dos exemplos mais claros apareceu no Claude. Segundo o relatório, a ferramenta frequentemente começava a resposta dizendo que não escolheria o “melhor” candidato, mas, logo depois, apresentava os nomes de forma hierarquizada.

O Grok apresentou comportamento semelhante. Questionado sobre o melhor candidato ao governo do Ceará, evitou recomendar diretamente um nome, mas abriu a resposta apontando Ciro Gomes (PSDB) como o candidato “mais forte” nas pesquisas e passou a comparar seu desempenho com o do governador Elmano de Freitas (PT).

O relatório mostra, ao mesmo tempo, que é possível responder às mesmas perguntas sem hierarquizar políticos. Ao ser questionado sobre o melhor candidato ao governo de Pernambuco, o DeepSeek não apontou nomes e sugeriu que o eleitor comparasse propostas, trajetória administrativa, alianças e prioridades.

O ChatGPT também adotou essa postura quando recebeu a pergunta sobre em quem o usuário deveria votar para presidente. Em vez de recomendar um candidato, apresentou critérios para orientar a escolha. Foi a primeira vez desde o início do levantamento, em março, que a ferramenta não ordenou nomes nessa pergunta específica.

O comportamento, porém, foi diferente nas eleições estaduais: nas 27 perguntas sobre governadores, o ChatGPT apresentou ranqueamento em todas as respostas.

<><> Erros aparecem em 16% das respostas

Além da desobediência à regra sobre ranqueamento, a pesquisa encontrou informações factualmente incorretas em 16% das respostas.

O relatório classifica esses casos como “alucinações”, termo usado para situações em que uma inteligência artificial produz uma informação errada e a apresenta ao usuário com aparência de verdade.

O problema novamente foi maior nas disputas estaduais. As alucinações apareceram em 19% das respostas sobre candidatos a governador, contra 5% nas questões presidenciais.

O Claude teve o pior desempenho entre as sete ferramentas. Metade de todas as respostas analisadas continha algum erro factual. Nas perguntas sobre governadores, a proporção chegou a 56%.

O Grok apareceu em seguida, com alucinações em 32% do conjunto das respostas e em 41% das estaduais. Gemini registrou erros em 15% do total; Meta AI, em 12%; e Perplexity, em 3%. ChatGPT e DeepSeek não tiveram alucinações identificadas nesta rodada.

O erro mais frequente foi atribuir aos políticos partidos diferentes daqueles aos quais estavam filiados. O dado chama atenção porque os testes foram feitos três meses depois do fim do prazo legal para filiação partidária.

Em Alagoas, por exemplo, o Claude apresentou Renan Filho como integrante do PL quando, segundo o levantamento, ele já havia migrado para o PSDB. Em outros casos, a ferramenta chegou a atribuir simultaneamente duas legendas a um mesmo político.

Também houve confusão sobre os cargos em disputa. O Claude apresentou Lahesio Bonfim como candidato ao governo do Maranhão quando ele estava ligado à disputa pelo Senado. Em Pernambuco, Gilson Machado e Eduardo Moura apareceram entre os nomes para governador, apesar de estarem vinculados a candidaturas à Câmara dos Deputados.

A ferramenta também apresentou Ciro Gomes como candidato ao governo do Ceará e, em outra resposta da mesma rodada de testes, como pré-candidato à Presidência.

<><> Norte concentra maior índice de erros

A pesquisa encontrou diferenças significativas entre as regiões. O Norte apresentou a maior incidência de alucinações nas respostas sobre governos estaduais, com 33%. Depois aparecem Nordeste, com 19%; Sudeste, com 14%; Sul, com cerca de 10%; e Centro-Oeste, com 7%.

Tocantins registrou o pior resultado entre os estados: 57% das sete ferramentas apresentaram alguma informação incorreta na resposta sobre a eleição para governador. Acre, Rondônia, Rio de Janeiro e Sergipe tiveram índice de 43%.

O relatório relaciona parte dessa diferença à menor quantidade de informações disponíveis na internet sobre algumas disputas locais. O documento cita dados do Atlas da Notícia segundo os quais 193 dos 450 municípios da Região Norte não tinham nenhum veículo jornalístico local em atividade em 2025.

Um dos exemplos ocorreu em Rondônia. O DeepSeek afirmou não encontrar informações sobre a eleição estadual e, segundo o estudo, chegou a mencionar um político de outra unidade da federação.

<><> Meta AI usou mercado de apostas como fonte

Outro problema identificado pelo levantamento foi o uso de plataformas estrangeiras de apostas preditivas como fonte de informação eleitoral.

A Meta AI recorreu à Polymarket para responder a perguntas sobre as eleições para governador na Bahia e no Ceará. Em uma das respostas sobre a disputa cearense, a ferramenta apresentou ao usuário as probabilidades atribuídas pelo mercado de apostas aos candidatos.

O relatório destaca que o Conselho Monetário Nacional aprovou, em abril, resolução que proibiu a oferta e a negociação no Brasil de contratos preditivos sobre temas eleitorais.

Não foi a primeira vez que o comportamento apareceu. Na segunda rodada da pesquisa, realizada em maio, a Perplexity havia utilizado a Polymarket. O problema não apareceu na terceira edição, de junho, e voltou a ser identificado agora.

<><> Fontes oficiais aparecem em 39% das respostas

O estudo também analisou de onde as ferramentas retiravam as informações usadas para responder aos eleitores.

Fontes informacionais, categoria que inclui veículos de imprensa, institutos de pesquisa eleitoral e enciclopédias online, apareceram em 95% das respostas. Já as fontes oficiais foram usadas em apenas 39%.

Nas perguntas sobre governos estaduais, o percentual caiu para 35%.

A diferença entre as ferramentas foi grande. Gemini recorreu a fontes oficiais em 81% das respostas sobre governadores e Grok, em 74%. DeepSeek registrou 41%; Meta AI, 22%; ChatGPT e Claude, 11% cada; e Perplexity, apenas 4%.

O resultado mostra que o comportamento que motivou a restrição do TSE não está concentrado em uma única empresa: em proporções diferentes, todas as sete ferramentas testadas continuaram ranqueando candidaturas durante a campanha eleitoral de 2026.

•        X limita alcance de candidatos, mas deixa Nikolas e aliados fora da restrição

O X deixou perfis de candidatos fora da lista criada para reduzir a distribuição de conteúdo político durante a campanha eleitoral. Contas de Nikolas Ferreira (PL-MG), Bia Kicis (PL-DF) e Alfredo Gaspar (União-AL), candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro (PL), foram informadas à Justiça Eleitoral, mas não aparecem na relação pública usada pela plataforma para impedir que candidatos sejam recomendados a usuários que não os seguem.

A diferença pode afetar diretamente o alcance das publicações. Pelas regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as plataformas devem retirar de seus sistemas de recomendação os perfis informados pelos candidatos à Justiça Eleitoral. No X, isso significa impedir que essas contas sejam apresentadas automaticamente, por exemplo, na aba “Para Você”.

A lista divulgada pela plataforma reúne 665 contas. A análise dos dados identificou candidatos que registraram seus perfis no TSE, mas não aparecem nessa relação.

O problema ganha importância porque as recomendações são uma das principais formas de uma publicação ultrapassar a própria base de seguidores. Um candidato incluído na lista continua podendo publicar normalmente e seus seguidores continuam recebendo o conteúdo. A restrição atinge principalmente a capacidade de a plataforma apresentar essas publicações para quem ainda não acompanha aquele perfil.

O X e o TSE foram procurados pelo ICL Notícias para explicar a divergência e informar como é feita a atualização da lista. As respostas serão acrescentadas à reportagem.

<><> Nikolas, Bia Kicis e Alfredo Gaspar estão fora da lista

Um dos casos identificados é o do deputado federal Nikolas Ferreira, candidato à reeleição pelo PL de Minas Gerais. O perfil nikolas_dm está entre as redes sociais informadas em seu registro eleitoral, mas não aparece na lista pública de contas submetidas à restrição do X.

A mesma situação ocorre com Bia Kicis, candidata ao Senado pelo PL no Distrito Federal. A conta Biakicis, também declarada à Justiça Eleitoral, não consta da relação.

O terceiro caso envolve Alfredo Gaspar, candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por Flávio Bolsonaro. Entre as redes sociais informadas em seu registro está a conta Alfredogaspar_, igualmente ausente da lista pública.

A presença ou ausência nessa relação importa porque determina quais candidatos são alcançados pelo mecanismo criado pelo X para cumprir a regra eleitoral.

Os casos identificados não permitem afirmar que a plataforma tenha escolhido deliberadamente beneficiar determinados candidatos. Eles revelam, porém, uma diferença objetiva entre contas informadas à Justiça Eleitoral e aquelas que aparecem na relação pública do X.

Há ainda uma questão central que depende de explicação da empresa: se as 665 contas divulgadas correspondem exatamente à lista utilizada atualmente pela plataforma ou se o X mantém internamente uma relação diferente e mais atualizada.

<><> O que muda para quem fica fora da lista

A regra do TSE determina que plataformas com sistemas automáticos de recomendação retirem das sugestões os perfis e canais informados pelos candidatos à Justiça Eleitoral, além dos conteúdos publicados por eles. As modalidades de propaganda paga autorizadas pela legislação eleitoral seguem regras próprias.

No X, a consequência aparece principalmente na aba “Para Você”.

É ali que a plataforma seleciona automaticamente publicações que considera interessantes para cada pessoa. O usuário não precisa seguir uma conta para receber seu conteúdo. É justamente esse mecanismo que permite que uma publicação chegue a um público muito maior que a base original de seguidores.

Ao anunciar a mudança para as eleições brasileiras, o próprio X informou que os candidatos não seriam suspensos nem impedidos de publicar. A plataforma reconheceu, no entanto, que a retirada das recomendações poderia afetar a visibilidade e o alcance das contas e de seus conteúdos.

Na prática, portanto, dois candidatos submetidos a tratamentos diferentes pelo sistema podem ter condições diferentes de circulação dentro da plataforma.

<>< Restrição não atinge apenas o post original

A análise do sistema divulgado pelo X mostra que a restrição vai além das publicações feitas diretamente pelos candidatos.

O mecanismo também considera republicações, citações e determinadas respostas relacionadas às contas incluídas na lista.

Isso aumenta a importância de saber se todos os candidatos que deveriam estar submetidos à regra foram efetivamente incluídos.

Se uma conta permanecer fora da relação, conteúdos relacionados a ela podem receber tratamento diferente daquele aplicado aos candidatos identificados pelo sistema.

<><> Lista foi divulgada antes do fim do registro das candidaturas

Há outro ponto que aumenta as dúvidas sobre a atualização da relação.

O X disponibilizou publicamente sua lista de 665 contas em 14 de agosto. O prazo para partidos e coligações apresentarem os registros das candidaturas à Justiça Eleitoral terminava somente no dia seguinte, 15 de agosto.

Desde então, o histórico público do arquivo não registra nova alteração na relação.

Isso não significa necessariamente que o sistema utilizado internamente pelo X permaneça com os mesmos dados. A empresa pode atualizar as contas por outros mecanismos que não aparecem publicamente.

Mas isso cria uma questão fundamental: como a plataforma incorpora candidatos e perfis informados à Justiça Eleitoral depois da elaboração da lista pública?

A pergunta ganha peso porque as próprias regras eleitorais permitem que candidatos comuniquem novas contas durante a campanha e estabelecem prazo para que esses endereços sejam informados à Justiça Eleitoral.

<><> TSE recebeu plano sobre funcionamento das plataformas

O TSE criou neste ano regras específicas para acompanhar como as grandes plataformas cumprem as normas eleitorais.

As empresas tiveram de apresentar ao Tribunal planos explicando as medidas adotadas durante as eleições. Entre as informações exigidas estão detalhes sobre sistemas de recomendação e mecanismos utilizados para reduzir a distribuição de conteúdos.

Mudanças relevantes nesses mecanismos também precisam ser comunicadas à Justiça Eleitoral.

O ICL Notícias perguntou ao TSE quantos perfis do X foram declarados pelos candidatos, se o Tribunal já comparou sua base com a relação utilizada pela plataforma e se identificou contas que deveriam estar submetidas à restrição, mas permanecem fora dela.

Ao X, a reportagem perguntou se as 665 contas divulgadas correspondem à relação realmente utilizada pela plataforma, de quando são os dados usados para montar a lista e com qual frequência eles são atualizados.

A empresa também foi questionada especificamente sobre a ausência dos perfis de Nikolas Ferreira, Bia Kicis e Alfredo Gaspar e sobre a possibilidade de existir uma lista interna diferente daquela disponibilizada publicamente.

<><> Contrapontos

Até a publicação desta reportagem, o X não havia respondido aos questionamentos.

Procurado, o TSE afirmou que os candidatos informam seus perfis oficiais no registro das candidaturas e que esses dados ficam disponíveis publicamente. O Tribunal também disse ter enviado às plataformas um arquivo com todas as redes sociais declaradas por candidatos de todo o país.

Segundo o TSE, as empresas foram orientadas a conferir as informações e complementar suas listas, se necessário. A fiscalização do cumprimento das regras cabe aos partidos, candidatos e órgãos competentes, especialmente ao Ministério Público Eleitoral, enquanto eventuais violações devem ser analisadas pela Justiça.

Na esfera administrativa, o Tribunal acompanha as plataformas por meio de planos de conformidade, reuniões e pedidos de informação. Também pode exigir a correção de falhas operacionais relevantes e realizar auditorias nos casos previstos pelas regras eleitorais.

 

Fonte: ICL Notícia

 

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