As
176 medidas: o que o mercado não decidirá por Cuba
Em
resposta às 176 medidas aprovadas pelo governo cubano em junho de 2026, grande
parte do debate público gira em torno de um falso dilema. Ou o pacote é aceito
como uma abertura ao mercado que a crise tornou inevitável, ou é denunciado
como uma capitulação que equivale ao fim não declarado do processo iniciado em
1959. Ambas as interpretações, politicamente opostas, compartilham um erro
fundamental. Elas partem do pressuposto de que o fator decisivo nessa reforma
reside na quantidade de acesso ao mercado que ela introduz, e não no equilíbrio
de poder que essa mercantilização origina. A questão não é quanto acesso ao
mercado está contido nas 176 medidas, mas sim quem terá o poder, uma vez que
esse mercado se expanda, de decidir o que Cuba produz e quem se beneficia
majoritariamente dessa produção.
As
disposições do pacote surgiram como autorizações, não como regulamentos. Elas
estabelecem o que será permitido, mas não como, com que limites ou sob o
controle de quem, enquanto o cronograma legislativo que deveria especificá-lo —
138 normas legais, segundo o número oficial — está apenas começando a se
materializar. Essa lacuna está sendo preenchida mais rapidamente do que o
previsto. No final de julho, o primeiro-ministro informou que 110 das 121
transformações planejadas para junho e julho já haviam sido aprovadas. Essa
rapidez não significa que os regulamentos estejam sujeitos a controles
diferentes daqueles que geraram o pacote, porque cada norma provém do mesmo
circuito — Bureau Político, Comitê Central do Partido, Conselho de Ministros,
Assembleia Nacional — que elaborou as 176 medidas. A fronteira entre o que
permanece propriedade do povo cubano e o que já está sendo administrado como se
não o fosse depende menos de quanto tempo os regulamentos levam para serem
aprovados do que de quem os redige e implementa.
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O bloqueio não explica tudo
Seria
um erro politicamente custoso negar o peso do embargo dos EUA sobre a concepção
desta reforma. Com a administração Trump e sua política de “pressão máxima”, o
bloqueio assumiu a forma de uma guerra comercial, financeira e jurídica — tendo
o estrangulamento energético como peça central — com um impacto devastador
sobre o povo cubano.
Em 1º
de maio de 2026, Trump assinou a Ordem Executiva 14404, que ampliou as sanções
secundárias contra empresas estrangeiras que fizerem negócios com indivíduos ou
entidades proibidas, ou que operem em setores da economia cubana, como energia,
defesa, mineração, serviços financeiros e segurança. A ordem acelerou o
isolamento quase total de Cuba das redes comerciais e financeiras
internacionais. A isso se seguiu uma fuga maciça de investimentos estrangeiros
e o colapso do turismo, principal fonte de divisas da ilha.
O caso
da Sherritt International, documentado por
McMillen,
é o exemplo mais claro desse cerco ao metabolismo econômico de Cuba. A empresa
canadense — com mais de três décadas de operações conjuntas nas minas de níquel
de Moa — viu seu acesso ao sistema bancário internacional ameaçado e teve que
interromper seus embarques de níquel e cobalto; no final de maio, a Comissão de
Valores Mobiliários de Ontário também suspendeu a negociação de suas ações. O
resultado foi uma venda forçada, em regime de liquidação, para a Gillon
Capital, um fundo pertencente a uma família oligárquica de direita com fortes
laços com Trump e o Partido Republicano. Peter Hancock, CEO interino da
Sherritt, reconheceu posteriormente que o negócio foi fechado porque alguém com
acesso a Washington conseguiu convencer o Departamento de Estado. Esse episódio
demonstra que o bloqueio não se limita mais a impedir a entrada de capital em
Cuba, ou mesmo a forçar sua saída, mas sim a selecionar qual capital pode
entrar e sob quais condições. Isso representa uma nova forma de recolonização e
pilhagem imperialista de recursos soberanos, utilizando o poder do sistema
bancário internacional e da máquina regulatória dos EUA para forçar a
transferência de ativos estratégicos para atores alinhados com Washington. Cuba
está negociando essas reformas sob coerção, algo que nenhum país deveria ter
que suportar para reativar sua economia.
Isso
não implica que o embargo por si só explique a forma específica que a reforma
assumiu. A deficiência que Washington explora externamente — a falta de um
sistema de controle capaz de determinar as condições sob as quais o capital
entra no país e a quem ele deve prestar contas — é a mesma deficiência que
permite à elite administrativa cubana, internamente, apropriar-se do excedente
de qualquer oportunidade sem que ninguém seja formalmente acusado de violar
qualquer lei. A GAESA, o conglomerado militar ao qual várias estimativas
atribuem entre 40% e 70% da economia do país, não perde necessariamente
capacidade de gestão com esta reforma. O pacote também abre caminho para que
converta essa gestão em participação acionária por meio de um Programa Nacional
de Avaliação e Titulação de Ativos Empresariais Estatais (Medida 14), que, sem
auditoria independente ou transparência quanto aos beneficiários finais,
poderia acabar transformando gestores e funcionários militares em acionistas
legais daquilo que, até recentemente, administravam em nome do Estado. Com
algumas variações, isso já ocorreu durante grande parte da transição
pós-soviética. A demissão do ex-ministro da Economia, Alejandro Gil, e os
processos judiciais contra ele em 2024 foram um sintoma dessa falta de
mecanismos de controle e equilíbrio.
Conforme
documentado no estudo sobre conflitos sociais em Cuba, o aumento de protestos
dispersos — manifestações com panelas, protestos isolados, queixas de cidadãos
nas redes sociais e reclamações que não se consolidam em um ciclo sustentado de
mobilização — não se traduziu, até o momento, em uma crise de governança. O
Estado administra esse descontentamento por meio de regulamentações
restritivas, vigilância e repressão seletiva. Essa capacidade de contenção não
é alheia à reforma.
O
bloqueio, a democratização limitada e a contenção eficaz do descontentamento
não são explicações concorrentes para o que está acontecendo na ilha. São
interdependentes na produção do resultado que observamos hoje. Quanto mais
urgente se torna, devido ao bloqueio, encontrar soluções emergenciais, menos
espaço há para a participação cidadã; quanto menor esse espaço, maior a
discricionariedade daqueles que já gerenciavam a emergência antes mesmo de ela
começar; e quanto mais eficaz for a contenção do descontentamento gerado pela
crise, menor será o custo político de continuar a exercer essa
discricionariedade.
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Uma nova burguesia e uma velha pergunta sobre o excedente
Esse
padrão de captura não se restringe à liderança militar. O pacote permitirá que
uma empresa privada contrate mais de cem trabalhadores, que a mesma pessoa seja
proprietária de mais de uma empresa e que essa mesma pessoa detenha ações
simultâneas em várias delas (medidas 20, 21 e 23). Essas disposições
estabelecem as bases legais para uma acumulação de capital sem precedentes em
Cuba desde 1959, embora os prazos e critérios para essa abertura ainda não
tenham sido regulamentados. Nada define a origem desses novos empreendedores:
se do trabalho produtivo e da inovação ou da conversão de privilégios
administrativos existentes em títulos de propriedade privada.
Entretanto,
o que até alguns anos atrás podíamos chamar de força de trabalho estatal está
se fragmentando em trajetórias cada vez mais distintas. Os salários não serão
mais definidos por uma tabela salarial nacional, mas sim atrelados à saúde
econômica e financeira de cada empresa, negociados — segundo o texto — com a
participação sindical (medida 19). Essa participação é meramente formal e não
equivale à participação autônoma. A diferença é sentida com mais intensidade
porque a mesma reforma que vincula os salários à solvência da empresa estipula,
em outra medida, que as empresas que não resistirem à desvalorização cambial
planejada serão liquidadas.
Em
paralelo, o subsídio deixará de ser direcionado a produtos e passará a ser
direcionado a pessoas. A caderneta de racionamento, praticamente extinta e
destinada a todos, será substituída por uma plataforma (Soberania) que
classifica como vulneráveis aqueles
que receberão auxílio, excluindo todos
os demais (medidas 63 e 70). O próprio governo
informou, pouco mais de um mês após
a aprovação do pacote, que esse processo de classificação
já havia identificado mais de 876 mil pessoas nessa condição.
Substituir subsídios universais por subsídios direcionados altera a própria
natureza da igualdade. Ela deixa de ser entendida como um direito reconhecido a
todos e passa a ser administrada como uma condição a ser verificada, sujeita a
cadastro, cabendo ao requerente o ônus da prova.
Essa
desigualdade também apresenta dimensões territoriais, raciais e de gênero,
embora nenhuma das 176 medidas as mencione explicitamente. O capital disponível
para aproveitar o novo mercado imobiliário e as contas em moeda estrangeira
viriam desproporcionalmente de uma diáspora historicamente branca, com redes e
capital cultural que o mercado expandido só recompensaria. Um município sem
base industrial ou apelo turístico não ganhará autonomia com a descentralização
oferecida pelo pacote; pelo contrário, herdará o déficit que antes era mal
administrado no âmbito central. E o trabalho de cuidado não remunerado, que
sustenta uma parcela significativa da reprodução social que o Estado já não
garante, continua excluído da equação de quem pode ou não abrir um negócio.
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A palavra que faz todo o trabalho
Na
seção dedicada às relações de propriedade, o texto reconhece o crescimento
legítimo do patrimônio financeiro de pessoas jurídicas e físicas e promete
impedir a exploração do homem pelo homem. O que ele rejeita explicitamente é a
exploração “indiscriminada” (medida 36). A exploração discriminatória e
controlada é, por omissão, considerada permissível. A questão do que as pessoas
precisam para viver deixa de ser o ponto de partida da estratégia econômica, e
a riqueza nacional não é mais concebida como um meio de sustentar a vida.
O
alcance desse investimento se revela menos no que o texto exige do novo setor
empresarial do que naquilo que o próprio Estado abdica da sua responsabilidade
de garantir. A Medida 64 obriga todos os agentes econômicos — estatais e
privados, nacionais e estrangeiros — a participar, em nome da sua
responsabilidade social, de uma lista de treze funções que até então eram
inquestionavelmente da responsabilidade do Estado: ajudar a pagar pensões,
apoiar cozinhas comunitárias, financiar parcialmente lares para crianças sem
cuidados familiares e lares de idosos, apoiar hospitais e escolas, e até mesmo
arcar com despesas funerárias para famílias que não as podem cobrir. A proteção
social universal, durante décadas um dos principais argumentos da legitimidade
do Estado, depende agora de uma terceira parte que decide assumir, sem qualquer
obrigação vinculativa, aquilo que antes era da responsabilidade do Estado.
Até
mesmo o instrumento criado para mitigar o custo social do ajustamento reproduz
a mesma estrutura. O pacote cria um Fundo de Proteção Social como “pré-condição
para as transformações” (medida 71) e o capitaliza com as economias geradas
pela eliminação de subsídios para produtos e serviços. Essa eliminação é uma
das transformações que o fundo deveria preceder. A rede de proteção social só
será financiada depois que aquilo que ela se destinava a compensar já tiver
sido removido.
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A disputa por soberania
Essas
deficiências revelam que, por trás do acordo sobre o esgotamento do modelo,
existem concepções incompatíveis sobre quem deve exercer o poder, controlar o
excedente e definir a soberania.
O
debate público cubano permite identificar pelo menos três projetos possíveis
para se afastar da centralização planejada. Um deles é o aprovado pelo governo,
que separa a propriedade da gestão, abre a participação acionária sem afetar a
propriedade social e toma decisões utilizando o mesmo aparato que sempre o fez.
Outro propõe uma socialização efetiva do poder que subordina todas as formas de
gestão — estatal ou privada — ao controle vinculativo dos trabalhadores e das
comunidades organizadas. O terceiro postula uma transição para uma “economia
social de mercado” sob um “Estado de direito democrático”, com segurança
jurídica e pluralismo político como condições para a reforma econômica.
Todos
os três compartilham o diagnóstico e um certo reconhecimento do mercado como
mecanismo de alocação; nenhum compartilha com os outros a estrutura de poder
que deveria sustentá-lo. O primeiro conta com o aparato estatal para sua
implementação; o segundo circula principalmente como crítica e horizonte
normativo dentro do movimento político — como no documento preparado por membros do veículo de
mídia digital Punto y Aparte — sem um veículo institucional
que lhe permita influenciar a política estatal. A terceira opção possui um
documento técnico concreto, interlocutores reconhecidos e um canal de diálogo
com o capital da diáspora, além de termos de negociação que Washington parece
disposto a aceitar. O fato de a posição socialista radical ser atualmente a
mais frágil em termos de poder real não a torna menos válida; leva-nos a
questionar por que o campo das possibilidades está tão desigualmente dividido
entre as três.
A mesma
disputa reaparece, com vocabulário diferente, na concepção de soberania
reivindicada pelas três posições. O discurso oficial a define como a capacidade
da liderança política de adotar ferramentas de mercado sem abrir mão do
controle do sistema — o primeiro-ministro Marrero apresentou o pacote ao
parlamento sob o princípio de “fazer o necessário para preservar o essencial”.
Trata-se de uma soberania entendida como adaptação, na qual o mercado é aceito
porque preserva o sistema político, não porque o transforma. Para a abordagem
liberal, a soberania reside na cidadania e é exercida por meio de instituições
eletivas e responsáveis; portanto, não vê contradição entre reivindicar a
independência nacional e negociar com organizações financeiras internacionais
ou com Washington, ao mesmo tempo que considera a diáspora um “ativo
estratégico”. Para a posição socialista, a soberania não se esgota com a
retenção da propriedade pelo Estado ou com a existência de eleições se aqueles
que produzem a riqueza não decidem como ela é usada; sem esse controle direto,
a propriedade social é, na prática, um título sem exercício. Os três invocam o
mesmo conceito para legitimar estruturas de poder incompatíveis entre si, e a
questão decisiva passa a ser o que cada um entende por soberania e quem se
beneficia dessa definição.
A
disputa em torno da GAESA resume esse conflito. A proposta oficial não a
menciona porque, ao preservar intacto o núcleo econômico do poder político,
trata sua continuidade como condição para a reforma. O projeto liberal propõe
fragmentá-la e transferir seus ativos para o orçamento público e instituições
civis, sujeitas a uma tecnocracia civil, ao menos no papel, sob supervisão
estatal; a alternativa socialista a subordinaria, como qualquer outra forma de
gestão econômica, ao controle dos trabalhadores e das comunidades. A questão
central é se a soberania cubana permite um centro de poder econômico isento de
qualquer prestação de contas. As três posições respondem, respectivamente,
preservando, fragmentando ou subordinando-a.
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O que a reforma deixa de fora
Oque
ficou de fora das 176 medidas diz tanto quanto o que elas contêm.
Os
termos cogestão e autogestão não são mencionados em nenhum momento, assim como
não há qualquer mecanismo que permita aos trabalhadores de uma empresa
transformada em sociedade anônima opinar sobre a eleição de seus diretores ou
sobre a distribuição dos lucros. O texto fala em propriedade social, mas, na
prática, descreve um sistema de gestão orientado pelo mercado. Também não há
menção a redes de bancos cooperativos ou fundos de desenvolvimento municipal
capazes de captar remessas e reinvesti-las localmente — como proposto por Mok León — em vez de
canalizá-las para o enriquecimento privado de poucos. Essas são fórmulas
intermediárias entre a nacionalização rígida e a privatização total, que outras
experiências latino-americanas, com resultados variados, porém reais, ousaram
experimentar.
Também
está ausente a sequência recomendada por toda a experiência comparativa com
ajustamentos deste tipo, que este pacote ignora: primeiro estabilizar, depois
liberar. Eliminar os subsídios universais antes da capitalização e
operacionalização do Fundo de Proteção Social inverte essa ordem, deixando os
setores mais vulneráveis expostos justamente
quando mais precisam da rede de segurança que está
sendo retirada.
Por
fim, falta um realismo comparativo. O horizonte da reforma — um mercado
regulamentado, um Estado que retém o que é “estratégico”, o crescimento antes
da redistribuição — alude implicitamente à “reforma e abertura” da China em
1978 ou ao Doi Moi do Vietnã em 1986. A analogia falha em quase todos os
aspectos que a fizeram funcionar nesses países. A China e o Vietnã abriram suas
economias com uma população jovem e predominantemente rural, com mão de obra
abundante e barata, e usaram o mercado para expandir uma base agrícola e
industrial preexistente; Cuba está tentando se estabilizar por meio do mercado
após ter sofrido o colapso dessa base. Mais de um quarto de sua população tem
agora mais de sessenta anos, e ela caiu de 11,2 para 9,4 milhões de habitantes
em menos de uma década, principalmente devido à emigração. Além disso, a China
e o Vietnã se abriram durante a fase ascendente da globalização, enquanto Cuba
o faz sob coerção externa que já demonstrou seu alcance punitivo. E enquanto os
países asiáticos chegaram com Estados capazes de sustentar uma transição
gradual, o Estado cubano sofre de uma credibilidade já corroída por reformas
anteriores, turbulentas e reversíveis.
Nada do
que foi dito acima deve ser interpretado como um argumento para que Cuba
abandone seus esforços de reforma, nem como uma concessão àqueles que, do
exterior, passaram sessenta anos esperando que o país fracassasse para poderem
afirmar que estavam certos. O mesmo Departamento de Estado que elaborou as
sanções por trás dessa reforma publicou um relatório em 20 de julho que
redefine o conflito com Cuba como uma cruzada civilizacional contra o
“terrorismo de esquerda”, em vez de uma disputa sobre política econômica ou
soberania. Tal virulência lançaria suspeitas sobre qualquer posição de esquerda
que não se limite a denunciar o bloqueio, como se examinar criticamente essa
reforma fosse o mesmo que prestar um serviço a Washington. Exigir o fim do
estrangulamento imperialista e, simultaneamente, exigir que aqueles que
resistem a ele sejam responsabilizados por quem se beneficia dos métodos
específicos que escolhem para resistir fazem parte da mesma responsabilidade.
Fonte:
Por Wilder Pérez Varona - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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