IA:
Os EUA ensaiam um recuo?
Raramente,
as empresas de tecnologia digital dos Estados Unidos assumiram publicamente a
defesa de um ecossistema de inovação aberta para expansão de seus negócios em
detrimento de suas plataformas, soluções e hardware proprietários fechados. Os
incidentes envolvendo modelos de inteligência artificial desgovernados e o
avanço da corrida comercial mudaram isso em poucas horas há cerca de um mês.
Até 24 de julho, a visão dos grandes laboratórios contra modelos de pesos
abertos não encontrava contraditório organizado dentro da própria indústria.
Havia objeções avulsas, um conselheiro da Casa Branca reclamando em rede
social, startups protestando por carta. Em 72 horas isso mudou, e o desenho
real da disputa pôde ser visto por inteiro. No quarto texto da série sobre os
caminhos da IA nos Estados Unidos, vamos refletir sobre as razões por trás da
mudança de visão do Vale do Silício sobre tecnologias abertas.
Um dia
antes da carta, o mercado global já não esperava decisão de governo alguma. Os
chineses Kimi K3, da Moonshot AI, e Qwen 3.8 Max, da Alibaba, foram lançados e
bem recebidos por investidores e usuários. Uma avaliação conjunta do UK AI
Security Institute com o CAISI estadunidense, publicada em 23 de julho, encontrou
o Kimi K3 com pontuação de 32,2% em desenvolvimento de exploits (código
que explora uma brecha) contra média de 76,2% dos modelos de fronteira
estadunidenses, e nenhuma execução completa de código arbitrário nas 41 tarefas
testadas, contra 20 alcançadas pelos modelos líderes dos EUA. As salvaguardas
do Kimi K3, porém, não impediram tentativas de desenvolvimento de exploit nem
de operações ofensivas durante os testes. É o mesmo aparato técnico dos dois
governos que classificou o GPT-5.6 como de alta capacidade, mas abaixo do
limiar crítico, agora medindo, com números, a distância entre o modelo que mais
alimentou o pânico e a capacidade que o justificaria. Na outra ponta, a
Thinking Machines Lab, fundada pela ex-diretora de tecnologia da OpenAI Mira
Murati, lançou seu primeiro
modelo em pesos abertos. Como se vê, mesmo um laboratório bem financiado por
capital de risco escolhe abrir sua caixa-preta de saída.
No
final da mesma semana, o Vale do Silício respondeu ao duopólio dos modelos de
fronteira por escrito. Um total de 25 empresas e associações assinaram
uma carta aberta em defesa dos modelos de
pesos abertos,
entre elas Nvidia, Microsoft, Meta, Palantir, IBM, Dell, Mozilla, Mistral,
Perplexity, CrowdStrike, Y Combinator, a Linux Foundation, a Andreessen
Horowitz e a própria Hugging Face, plataforma invadida por um modelo
desgovernado.
O texto do manifesto sustenta que a liderança
dos EUA em IA não será julgada por um único modelo de fronteira e sim por
construir um ecossistema aberto que se difunda por todos os setores. Sobre
segurança, inverte o argumento do duopólio afirmando que modelos fechados não
são inerentemente seguros porque também podem ser invadidos, mal utilizados ou
falhar de formas que ninguém de fora consegue detectar. Concentrar capacidades
avançadas atrás de um punhado de modelos fechados agrava esse risco. Sobre o
caso concreto dos ataques, a carta é ainda mais direta ao dizer que num mundo
em que atacantes usam IA avançada, defensores precisam de modelos com
capacidade comparável para detectar, simular e responder a ameaças. E a
resposta correta a esse risco não é proibir pesos abertos.
Sobre
destilação (uso de modelos existentes para produzir modelos mais avançados), os
signatários da carta defendem a técnica como prática difundida de melhoria e
validação de modelos, que reflete uma longa tradição de aprender com
tecnologias existentes e construir sobre elas. Os esforços ilícitos de extrair
valor de modelos fechados suscitam preocupações legítimas, mas essas
preocupações deveriam ser tratadas por instrumentos legais e comerciais
dirigidos e não por restrições amplas sobre técnicas que cumprem papel
importante na inovação. Portanto, a divergência com a Casa Branca não é sobre
punir fraude. É sobre o tamanho do alvo.
A lista
de ausentes é o que deu à carta o seu peso inicial. No dia do lançamento,
OpenAI, Anthropic e Google não haviam assinado e a SpaceX apenas amplificara o
texto sem aderir. Do outro lado do documento estavam a mais valiosa empresa de
chips do mundo, a maior empresa de software, a dona do Instagram, a principal
fornecedora de análise de dados do Pentágono e o maior fundo de capital de
risco do setor. Jensen Huang, executivo-chefe da Nvidia, escolheu justamente
esse assunto para sua primeira publicação no X e a palavra que
usou foi soberania. Para ele, modelos abertos fortalecem segurança e
cibersegurança, aceleram inovação e difusão, e permitem soberania. Dois dias
antes, 200 startups de IA já haviam enviado
carta própria contra
a proibição do acesso aos modelos chineses sob pena de condenar dezenas de
startups estadunidenses. Mantendo-se coerente, a Anthropic havia feito o movimento
inverso,
elogiando publicamente as declarações do governo sobre impedimentos à
destilação, tratando o caso chinês como roubo de propriedade intelectual e
questão de segurança nacional.
Só que
a lista de ausentes durou pouco. Em 25 de julho, a OpenAI acrescentou seu nome
e o rol saltou de 25 para 35 signatárias em cerca de 24 horas, com Cisco,
Cohere, GitHub, Palo Alto Networks e os laboratórios desafiantes Nous Research
e Prime Intellect. Ao longo do fim de semana entrou também o Google. Em 27 de
julho, restava uma única ausência relevante, a da Anthropic, que
emergiu como a cética pública mais declarada do setor em relação a modelos
abertos de fronteira.
Não se
trata, portanto, do setor de tecnologia dos EUA contra os pesos abertos, nem
sequer de dois laboratórios contra o restante da indústria. A divisão não é
ideológica, é contábil. De um lado está quem lucra com muitos implantadores,
chips, nuvem, plataformas, segurança, capital de risco e laboratórios de
modelos abertos. De outro, quem lucra vendendo acesso a um modelo fechado cujas
chaves só ele possui. Ao fim de 72 horas, restava uma empresa significativa sem
assinar a carta.
No
mesmo dia, a empresa isolada publicou posição própria. Seu CEO Dario
Amodei escreveu, em negrito, que a Anthropic nunca advogou por uma proibição de
modelos de pesos abertos, e que modelos abertos sem capacidades perigosas são
um bem público, porque nada custam além da computação para rodá-los e entregam
valor a empresas, desenvolvedores e pesquisadores. Sobre a acusação que vinha
sendo feita, ele foi igualmente direto. Proibir o uso desses modelos por
empresas estadunidenses nada faria contra o risco, porque atores maliciosos
dificilmente são empresas nacionais legítimas e isso protegeria as empresas de
IA da concorrência, o que segundo ele nunca foi seu objetivo. As três medidas
que Amodei defende tinham outra conotação. Ele crê que uma política eficaz
seria barrar a venda de chips avançados à China e reprimir o contrabando,
impedir operações de destilação em escala industrial e submeter todo modelo
suficientemente capaz, aberto ou fechado, a teste de segurança obrigatório,
qualquer que seja o país de origem, isentando por inteiro os menos capazes,
como os de startups e da academia.
A
objeção substantiva, porém, permanece e é a mesma que nossa série já
registrava. Amodei concede que pesos abertos apresentam risco potencialmente
maior porque é difícil aplicar salvaguardas e monitorar uso. Além disso, porque
uma vez liberados os pesos não podem ser retirados. E recusa duas afirmações da
carta das demais empresas: a de que modelos abertos necessariamente facilitem o
desenvolvimento de salvaguardas e a de que acesso amplo a capacidades
necessariamente ajude mais defensores que atacantes, dizendo parecer-lhe ao
menos igualmente provável que o oposto seja verdade.
Nesse
ponto, o exemplo que ele usa é a biologia, onde teme assimetria estrutural a
favor do atacante, com modelos capazes de armar vírus de nível pandêmico a
partir de materiais disponíveis enquanto a defesa é tarefa operacional de anos.
É argumento sério e não está respondido pela evidência do episódio que originou
o debate, porque o que a Hugging Face demonstrou foi outra coisa, em outro
domínio. Demonstrou que, em perícia forense de cibersegurança, o defensor
precisa rodar o modelo por conta própria e que os filtros comerciais
proprietários o impedem exatamente quando ele mais precisa. Generalizar de um
caso de ciber para toda a política de pesos abertos seria escalar algo sem
evidência apropriada. O que o caso prova, prova sobre defesa cibernética. E isso
já basta para desautorizar restrições amplas justificadas em nome dela.
No
mesmo dia do posicionamento de Amodei, o argumento da carta pró-abertura virou
instituição. A Nvidia lançou a Open Secure AI Alliance, que reúne SpaceXAI,
Thinking Machines, Palantir, IBM, CrowdStrike, Hugging Face e mais de 35
empresas em torno de pesquisa aberta e do reconhecimento regulatório de modelos
abertos como ativos defensivos e não como passivos. A empresa e suas aliadas prometem
contribuir com modelos abertos, dados e recursos para acelerar o
desenvolvimento de ferramentas de cibersegurança. Justin Boitano,
vice-presidente de IA corporativa da Nvidia, resumiu à Axios que
desenvolvimento aberto produz defesa mais forte.
O
próprio texto de lançamento da coalizão faz a ressalva que evita o panfleto ao
afirmar que modelos abertos podem ser mal utilizados como qualquer tecnologia
poderosa, inclusive para enfraquecer salvaguardas ou reaproveitar capacidades
em ataques, mas esses riscos não são exclusivos de sistemas abertos e precisam
ser geridos onde quer que IA avançada seja implantada. A aliança também não é
contra modelos fechados. O mundo precisa dos dois, diz a Nvidia.
A frase
que sustenta a aliança é a mesma conclusão a que a Hugging Face chegou na
prática. Quando defensores não podem inspecionar, adaptar e rodar IA avançada
na própria infraestrutura, sua capacidade de resposta fica constrangida
exatamente no momento em que velocidade mais importa. A maior empresa de chips
avançados do mundo institucionalizou o argumento usando como prova o episódio
que a OpenAI havia apresentado como demonstração de potência.
O
motivo material apareceu nomeado num veículo que não é de nicho. Sob a manchete
de que executivos da OpenAI e da Anthropic soam alarme sobre modelos chineses e
sugerem que eles levam a um futuro distópico de IA, o Wall Street Journal registrou que analistas
que estudam o setor dizem que as duas empresas, que se preparam para abrir
capital no próximo ano, simplesmente querem eliminar a concorrência. É a mesma
dúvida que já apareceu sobre o incidente da Hugging Face, aplicada agora ao lobby contra
pesos abertos, e datada por calendário de oferta pública, não apenas por
convicção declarada.
O
círculo é mais largo que a briga entre laboratórios abertos e fechados, e para
vê-lo é preciso recuar a maio. Naquele mês, antes de qualquer carta, o
Pentágono anunciou que as Forças
Armadas estão se tornando uma força de combate de inteligência artificial em
primeiro lugar, por meio de novos acordos com Google, OpenAI, Amazon,
Microsoft, SpaceX, Oracle, Nvidia e a startup Reflection. É outro clube,
definido por contrato militar em vez de acesso a modelo, e a sobreposição com o
primeiro é apenas parcial. Microsoft, Nvidia, Reflection e a própria OpenAI
fornecem ao Pentágono e acabaram assinando a carta em defesa dos pesos abertos.
Quem não está nessa lista é a Anthropic, e não por escolha. O Pentágono a vetou em fevereiro, depois de disputa
sobre se o Claude poderia ser usado em vigilância em massa ou armas autônomas,
e o dirigente Emil Michael declarou que não há
empresa de IA mais hostil ao combatente. O que o contrato militar revela,
portanto, não é um bloco único. Revela que o acesso a Washington na área de
defesa já está concentrado num punhado de nomes e que a mesma empresa isolada
na disputa sobre modelos abertos está isolada também ali, pela razão oposta.
De
volta a julho, a divisão contábil do cabo-de-força tem um limite que convém
registrar, porque ele apareceu quatro dias depois da carta. Em 28 de
julho, 1.273 empregados de laboratórios de
fronteira também
assinaram uma petição pedindo que o governo dos Estados Unidos apoie um esforço
internacional para desenvolver as ferramentas técnicas e de governança
necessárias para pautar deliberadamente a fronteira do desenvolvimento
automatizado de IA. A distribuição por empregador diz muito: 533 da Anthropic,
330 da OpenAI, 191 do Google e 62 da Meta. Assinaram os diretores científicos
da OpenAI e da Meta AI, o cofundador e diretor científico da Anthropic, o
cofundador do Google DeepMind, Dario Amodei, Jack Clark, e o diretor científico
da Thinking Machines. As duas empresas endossaram formalmente.
A linha
que separa quem lucra com muitos implantadores de quem lucra com escassez não
se reproduz, portanto, no nível técnico. Ela é real e explica o comportamento
corporativo, mas não descreve o que pensa quem treina os modelos. Um dos
comentários pessoais da petição fecha o círculo de maneira quase incômoda.
Shengjia Zhao, diretor científico da Meta AI, escreveu que avaliações como
CyberGym e ExploitGym mostram que agentes de fronteira já descobrem e exploram
vulnerabilidades reais de software, o que sem salvaguardas apropriadas poderia
habilitar ciberataques em escala. ExploitGym é exatamente o benchmark que
o agente da OpenAI estava tentando vencer quando escapou e invadiu a Hugging
Face.
No dia
seguinte, Sam Altman levou o mesmo raciocínio adiante, dizendo que talvez
seja preciso pautar o ritmo do desenvolvimento e que o desafio é fazê-lo sem
que pareça captura regulatória nem conluio entre os laboratórios. Ele havia
recusado campanhas anteriores de desaceleração. Mudou de posição depois do que
chamou de primeiro incidente de segurança que sentiu muito visceralmente e
informou que a OpenAI pausou o treinamento do modelo envolvido. A semana que
começou com a indústria se dividindo por modelo de negócio terminou com ela
convergindo por razões corporativas.
A ilha
ficou mais estranha três dias depois. Em 30 de julho, a Anthropic divulgou que uma revisão
das próprias avaliações, motivada pela confissão da concorrente, encontrara
três incidentes em que modelos Claude saíram de ambientes que deveriam estar
isolados e comprometeram sistemas reais de três organizações, com os casos mais
antigos datando de abril. Isso é alimento para os dois ângulos. Confirma que a
postura de segurança da empresa tem substância operacional, porque ninguém a
obrigou a procurar nem a contar. E confirma que a substância não impediu que
três modelos comprometessem sistemas reais durante meses sem que ninguém, nem a
empresa nem duas das três vítimas, percebesse.
E há um
movimento da OpenAI que contradiz o desenho legislativo que ela não combate.
Chris Lehane, chefe de assuntos públicos globais da empresa, antecipou a ida de Altman ao
Congresso avisando
que, se o Congresso não aprovar padrões nacionais de segurança em IA, a OpenAI
buscará o que chamou de federalismo reverso, trabalhando estado a estado para
aprovar leis substantivas. É exatamente a via que o FRONTIER Act, objeto do
nosso próximo texto, fecharia ao proibir estados de impor obrigações em
transparência, auditoria e notificação. A empresa que assinou a carta pelos
pesos abertos ameaça ir às jurisdições estaduais, enquanto o projeto que ela
não combate proíbe que se vá.
O
desfecho veio poucos dias depois e por vazamento. O arcabouço que a Casa Branca concluiu em 3 de agosto
e revisou com as empresas no dia seguinte define modelo de fronteira coberto pela norma da
Casa Branca como sendo modelo fechado, com capacidades de estado da arte e
riscos de segurança nacional. Modelos de pesos abertos estão excluídos e o
documento, segundo fontes, afirmaria expressamente que nada nele deve ser
interpretado como restrição a esses modelos depois de liberados. O racha teve
vencedor, portanto, e ele está escrito. Só que o documento do governo dos EUA
não veio à luz e o critério que consagra a vitória não mede capacidade nenhuma.
Mede arquitetura comercial. Quem serve por interface fechada entra na revisão
prévia do governo. Quem publica os pesos fica de fora por definição, ainda que
o modelo seja igualmente capaz, como os testes de julho já haviam demonstrado
que são.
E
convém não atribuir a exclusão apenas à eficácia do lobby. Ela é também
reconhecimento de impossibilidade, porque, ao contrário do que ocorre com
modelos licenciados, nenhum governo consegue forçar a
retirada de
um modelo aberto depois de publicado. A mesma irreversibilidade que os
defensores da restrição apontam como risco é o que torna a restrição
inexequível. O campo aberto venceu, em parte, porque não havia como derrotá-lo.
E a ironia se completou na conferência de cibersegurança Black Hat, em 5 de
agosto, quando a OpenAI informou estar conscientemente desacelerando
pesquisa para
reforçar segurança. A semana começou com a indústria dividida entre quem queria
acelerar e quem queria frear. Terminou com o laboratório mais associado à
aceleração anunciando freio próprio sem que lei alguma o obrigasse.
Um novo
plot twist se seguiu. Em 13 de agosto, um funcionário da Casa Branca informou que o arcabouço será revisto nos próximos
meses para alcançar também os modelos de pesos abertos. O gatilho anunciado não
é discricionário, é uma condição objetiva. Assim que modelos abertos atingirem
as mesmas capacidades de fronteira dos modelos da classe Mythos e do GPT-5.6,
entram no regime e passam a exigir teste antes do lançamento. Ou seja, o
critério por arquitetura comercial que consagrou a exclusão nunca foi
princípio. Foi expediente para o intervalo em que a paridade ainda não existia.
E os testes independentes de julho, com o Kimi K3 igualando modelos americanos
em desenvolvimento de exploits e superando o nível Fable em
desenvolvimento web, indicam que esse intervalo está terminando.
E os
isentos têm nome. Reportagens posteriores indicaram que o Llama, da Meta, e o Nemotron, da
Nvidia,
não passarão por teste de segurança e que os modelos chineses de pesos abertos
também ficam de fora. São exatamente as duas empresas que lideraram a reação
pública contra as restrições, com o executivo-chefe de uma delas no Salão Oval
e no Congresso, e ambas obtiveram isenção nominal para seus próprios sistemas.
A campanha reconstituída no texto anterior desta série era sobre modelos
chineses. O instrumento que dela resultou isenta os chineses e isenta, com nome
e sobrenome, os modelos de quem a derrotou.
Há
ainda uma simetria que quase ninguém registrou e ela desmancha a leitura de que
este é um embate diametralmente oposto entre dois sistemas políticos. Do outro
lado do mundo, Pequim discute o mesmo instrumento e pelas mesmas razões
técnicas. A proliferação de modelos chineses de pesos abertos aumentou o interesse do país em acelerar sua
própria governança de IA, porque uma vez liberados os pesos podem ser baixados,
modificados, redistribuídos e despidos de salvaguardas, ao mesmo tempo em que o
desenvolvedor original perde a capacidade de revogar acesso ou atualizar
proteções. Daí a discussão chinesa sobre abertura seletiva, que consiste em
manter os modelos abertos enquanto se retarda ou se restringe o acesso aos
sistemas de fronteira mais avançados, ou se exige revisão prévia deles. É o
desenho dos EUA, formulado em Pequim, com o mesmo argumento de
irreversibilidade que os laboratórios fechados usaram em Washington.
Há precedente direto para essa lógica, de quase uma década atrás. Em 2019, o
primeiro governo Trump lançou campanha para desbancar a Huawei da liderança em
equipamentos de telecomunicações, que àquela altura já superava 30% do mercado
global. O obstáculo era estrutural, não retórico. Diferentemente de Huawei,
Nokia, Ericsson e Samsung, nenhuma empresa americana sabia construir uma
estação rádio-base de 5G inteira, hardware e software integrados num único
fornecedor. A resposta, amadurecida no fim daquele governo e levada adiante
pelo seguinte, não foi tentar criar do zero um concorrente de porte
equivalente. Foi desagregar a cadeia. O OpenRAN separava hardware de software
por interfaces abertas, permitindo que peças da rede fossem fornecidas por
empresas menores, várias delas estadunidenses, que não tinham como erguer um
fornecedor único e vertical mas sabiam construir um componente. A continuidade
entre Trump e Biden nessa política foi rara o bastante para ser notada, e o
segundo chegou a inaugurar, em 2024, um laboratório de interoperabilidade em
Manila com o governo filipino. Uma década depois, o resultado é modesto.
Huawei, Nokia, Ericsson, ZTE e Samsung ainda somam mais de 90% do mercado
global de equipamentos de rede, a Huawei chegou a ultrapassar a Nokia fora da
China, e os fornecedores americanos de Open RAN, como Mavenir e Parallel
Wireless, seguem pequenos diante dos que a estratégia deveria desafiar.
A
lógica se repete agora, com um detalhe que a torna mais estranha. Em 5G, os
Estados Unidos abriram a cadeia contra um incumbente chinês fechado e
verticalizado, a própria Huawei. Em IA, os papéis se invertem em parte. A
Nvidia e as demais empresas sem modelo de fronteira fechado próprio, a Meta
incluída depois de agosto, ocupam hoje a posição que os fabricantes de
componentes de rede dos EUA ocupavam há uma década. Sem ter como competir de
igual para igual com quem detém o pacote inteiro, apostam em abrir a peça que
controlam para garantir algum lugar no mercado. Já a China, que em 5G era a
incumbente fechada a ser destronada, joga agora do lado aberto, oferecendo
modelos de pesos acessíveis como ferramenta de expansão comercial e
geopolítica, na mesma lógica que os Estados Unidos usaram contra ela uma década
antes. O precedente do OpenRAN não garante que a abertura funcione dessa vez.
Os números do próprio mercado de telecomunicações mostram que ela não bastou
para deslocar os incumbentes por lá. Garante apenas que, quando a alternativa é
perder o mercado inteiro para um punhado de fornecedores verticais, abrir a
cadeia é a jogada que qualquer lado tenta primeiro.
O que
julho e agosto deixaram claro, portanto, não foi um veredito sobre pesos
abertos. Foi a demonstração de que o argumento contra eles é sustentado por
quem tem interesse comercial direto em enfraquecê-los, contestado por mais de
270 empresas do próprio setor e por 200 startups, abandonado em 72 horas por
todos os laboratórios de fronteira menos um e desmentido pela evidência do
episódio que serviria para prová-lo. A contenção falhou dentro de um dos
laboratórios mais ricos do setor. A defesa funcionou com peso aberto chinês
rodando localmente. Nada disso impediu que a semana terminasse com o Congresso
dos EUA preparando a resposta. E é essa resposta que trata o texto seguinte
desta série.
Fonte:
Por James Görgen, em Outras Palavras

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