Generais
somem dos bastidores da política após anos de recados anônimos
Durante
anos, crises políticas em Brasília vinham acompanhadas de uma constante
silenciosa: a opinião de generais que não podiam ter o nome publicado.
Integrantes
do Alto Comando, oficiais-generais e interlocutores das Forças Armadas
apareciam sob reserva para comentar eleições, decisões do STF, investigações da
Polícia Federal e até a estabilidade do governo.
Esse
padrão foi especialmente intenso no governo Jair Bolsonaro, atravessou a
eleição de 2022 e seguiu nos primeiros anos do terceiro mandato de Luiz Inácio
Lula da Silva.
Em
2026, porém, o cenário mudou.
Uma
análise de reportagens recentes mostra que as manifestações políticas de
militares da ativa sob anonimato diminuíram de forma significativa. Não
desapareceram, mas ficaram mais raras e passaram a se concentrar em temas
estritamente ligados às Forças Armadas.
A
mudança chama atenção porque ocorre em um momento de alta tensão internacional.
Desde
2025, Brasil e Estados Unidos acumulam atritos comerciais e diplomáticos, com
tarifas que atingem 23,1% das exportações brasileiras, segundo o governo.
Washington também voltou a invocar a Doutrina Monroe e ensaiou uma demonstração
militar na América do Sul, posteriormente adiada.
Em
outros períodos, uma conjuntura desse tipo provavelmente geraria uma enxurrada
de avaliações reservadas de militares. Desta vez, não gerou.
O
contraste fica mais claro ao olhar para os anos anteriores.
Em
2022, no auge da crise entre Bolsonaro e as instituições, militares do Alto
Comando falaram sob reserva à imprensa sobre tentativas de dissuadir o então
presidente de atos políticos no 7 de Setembro. No mesmo período, generais
avaliavam anonimamente a relação entre Bolsonaro e o STF, a participação das
Forças Armadas no processo eleitoral e até a possibilidade de ruptura
institucional.
Após a
derrota de Bolsonaro, o padrão continuou.
Em 2022
e 2023, oficiais-generais comentavam sob anonimato a transição de governo, os
acampamentos em frente a quartéis e decisões internas do Exército. Em muitos
casos, não eram apenas informações operacionais, mas posições políticas
apresentadas como se fossem a visão das Forças Armadas.
O
militar sem nome virou personagem recorrente do noticiário: opinava sobre
governo, Congresso, Supremo e eleições sem assumir publicamente o que dizia.
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Lula assumiu, mas o padrão persistiu
A posse
de Lula não encerrou imediatamente essa dinâmica.
Em
2023, generais continuaram aparecendo com frequência nos bastidores. Houve
críticas reservadas a mudanças em regras de GLO, avaliações sobre investigações
da Polícia Federal e leituras políticas sobre os desdobramentos da tentativa de
golpe.
Ao
mesmo tempo, o novo comandante do Exército, general Tomás Paiva, defendia
publicamente uma Força “apolítica e apartidária”.
A
contradição era evidente: enquanto a cúpula institucional pregava
distanciamento da política, o fluxo de declarações sob reserva seguia ativo.
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A investigação do golpe mudou o ambiente
A
virada começou a se consolidar com o avanço das investigações sobre a tentativa
de impedir a posse de Lula.
Militares
passaram de comentaristas da política a investigados. A Polícia Federal
indiciou oficiais de diferentes patentes e revelou discussões internas sobre
medidas de exceção após a derrota eleitoral de Bolsonaro.
Depoimentos
de ex-comandantes do Exército e da Aeronáutica também vieram a público,
detalhando reuniões em que se discutiram alternativas fora da ordem
constitucional.
Em
2024, com dezenas de militares entre os investigados, o Exército passou a
adotar uma postura de cautela. A orientação interna era evitar qualquer
manifestação pública sobre o caso.
A
lógica era preservar a instituição e individualizar responsabilidades — o que
nos bastidores foi resumido como a separação entre o “CNPJ” das Forças Armadas
e os atos de indivíduos.
Em
2025, ainda havia manifestações sob reserva, mas em menor escala e com outro
foco.
Oficiais
passaram a comentar principalmente temas internos: imagem institucional,
decisões judiciais envolvendo militares e impactos das investigações sobre a
tropa.
O
conteúdo mudou de natureza. Antes, os generais opinavam sobre o país. Agora,
falavam sobre como proteger o Exército.
O off
continuava existindo, mas o papel político exercido por meio dele encolhia.
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O silêncio em meio à crise com os EUA
A
mudança se torna mais evidente diante da atual crise com os Estados Unidos.
Tarifas,
disputas comerciais, invocação da Doutrina Monroe e até movimentações militares
na região criaram um cenário de tensão geopolítica rara.
Ainda
assim, não houve o retorno do padrão de anos anteriores.
Há
registros pontuais de militares falando sob reserva sobre cenários de Defesa ou
vulnerabilidades estratégicas, mas sem o tom político que marcou o período
Bolsonaro.
Não há
generais avaliando publicamente — ainda que anonimamente — como o governo
deveria reagir, nem emitindo juízos sobre STF, eleições ou disputas
institucionais.
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De ator político a instituição de Estado
A
redução dos offs não tem uma única explicação, mas coincide com um processo
iniciado após o 8 de Janeiro e aprofundado pelas investigações do golpe: o
esforço da atual cúpula militar para afastar as Forças Armadas da política
partidária.
Desde
2023, o comando do Exército reforçou internamente limites para manifestações
políticas e passou a defender publicamente a neutralidade institucional.
A
legislação militar já restringe esse tipo de declaração, mas o anonimato sempre
funcionou como brecha.
Era
justamente essa brecha que permitia a existência do “militar sem nome” como
ator político recorrente.
Quando
um integrante do Alto Comando fazia uma avaliação política sob reserva, não
havia pronunciamento oficial, publicação em rede social ou discurso público que
pudesse resultar diretamente em responsabilização.
A
manifestação existia politicamente, mas o autor institucionalmente não existia.
Foi
esse mecanismo que transformou os “militares” em uma espécie de personagem
coletivo da política brasileira.
“Os
militares” estavam preocupados.
“Os
militares” rejeitavam determinada decisão.
“Os
militares” avaliavam que Bolsonaro havia exagerado.
“Os
militares” desconfiavam de Lula.
“Os
militares” estavam incomodados com o STF.
“Os
militares” estavam desconfortáveis.
Atrás
dessa expressão podiam estar um general, três oficiais ou integrantes
efetivamente representativos da cúpula. Para o leitor, entretanto, a impressão
produzida era a de uma posição das Forças Armadas.
Ao
falar sob reserva, o oficial influenciava o debate público sem assumir
responsabilidade institucional ou pessoal. O resultado era a construção de uma
entidade difusa — “os militares” — que parecia ter posição sobre quase tudo.
O que
mudou nos últimos anos não foi o uso de fontes anônimas pelo jornalismo, nem o
contato entre militares e imprensa.
O que
rareou foi uma figura específica: o oficial da ativa que, protegido pelo
anonimato, funcionava como comentarista permanente da política nacional.
Hoje,
mesmo em meio a uma crise internacional relevante, esse personagem praticamente
desapareceu.
E o
dado mais significativo é justamente esse: em um momento em que o país enfrenta
tensões externas, disputas comerciais e movimentações militares na região, o
que vem dos quartéis não são mais recados políticos — é silêncio.
• Cerimônia de generais vira ato de lobby
por captura do orçamento, com viés político
A
cerimônia de entrega de espadas a generais recém-promovidos, realizada em 7 de
agosto no Clube do Exército, em Brasília, deveria ser apenas um rito
tradicional de passagem de comando e celebração da carreira militar. No
entanto, o evento ganhou contornos políticos e transformou-se em um palco de
reivindicações orçamentárias.
O ICL
Notícias teve acesso aos áudios* do último discurso do então chefe do
Estado-Maior do Exército, general Richard Fernandez Nunes — que havia passado
para a reserva em 31 de julho. Em sua fala de despedida, ele insistiu na
necessidade de “previsibilidade orçamentária” e de condições materiais para o
Exército cumprir sua missão constitucional.
Logo
nesse ponto, a crítica de especialistas ajuda a dimensionar o peso político do
discurso. Para o pesquisador Ananias Oliveira, doutorando em Ciências Sociais
pela Universidade Federal de Campina Grande e estudioso da participação dos
militares na política, a questão da previsibilidade orçamentária é algo
pleiteado por qualquer área de governo.
“A
diferença é que as Forças Armadas querem 2% do PIB, porque isso é o padrão
OTAN. Mas, no caso brasileiro, não faz sentido: geograficamente,
historicamente, não há parâmetro que justifique”, afirma Oliveira. “Além disso,
boa parte do orçamento das Forças Armadas vai para o pessoal, algo totalmente
contrário ao modelo da OTAN. Aqui, a proporção que vai para aposentados,
salários, diárias e gratificações é muito maior, desproporcional.”
Logo no
início, Nunes condicionou o futuro da instituição à aprovação de uma regra
estável de financiamento. “O projeto Força 40 nos aponta o caminho para o
futuro, que pode tornar-se menos incerto caso a previsibilidade orçamentária
preconizada por nosso ministro da Defesa venha a ser aprovada. Líderes
precavidos precisam estar preparados para lidar com essa realidade”, disse o
general. Foi o ponto mais explícito de demanda por mais recursos, associando o
destino da força ao aumento ou estabilidade do orçamento.
Em
seguida, ele avançou para uma justificativa mais ampla, vinculando a missão
constitucional a investimentos em estrutura e capacidades: “A obtenção do
aprimoramento das capacidades militares terrestres exigem a consciência
situacional das necessidades presentes e a antevisão dos cenários que denotem a
configuração doutrinária, organizacional, operacional, material, educacional,
pessoal e de infraestrutura, que proporciona ao Exército as condições mais
adequadas ao cumprimento de sua missão constitucional.” Segundo o general, sem
mais verbas, não há condições adequadas de preparo.
Outro
trecho reforçou a lógica da pressão orçamentária, agora centrada na chamada
“família verde-oliva”. “A efetividade da atuação de nossas tropas nos mais
diversos ambientes repousa na certeza de familiares sujeitos a um ato contínuo
de adaptação a novas condições, tenham suas necessidades de moradia, de saúde,
de educação e de assistência social e religiosa razoavelmente satisfeitas”,
defendeu Nunes, em um pedido por recursos para custear benefícios sociais e de
bem-estar voltados a militares e seus dependentes.
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PEC fixa 2% do PIB para a Defesa
Essas
falas consolidaram o tom de lobby que marcou a cerimônia. “Recebam esta
mensagem com um misto de aconselhamento, voto de confiança e profissão de fé”,
disse ao abrir sua fala, enfatizando que aquele era seu “último dia no serviço
ativo”. Ao destacar a “previsibilidade orçamentária”, repetiu a mesma
formulação usada pelo Ministério da Defesa ao defender no Congresso a chamada
PEC dos 2% do PIB para a Defesa. Essa proposta constitucional, apelidada
ironicamente de “PEC do Viagra”, busca engessar no orçamento uma fatia
garantida para os militares.
O
discurso de Nunes, portanto, não foi apenas de despedida, mas uma sinalização
clara de alinhamento com a pauta que mais mobiliza o estamento fardado hoje: a
blindagem de verbas.
O
general também fez menção ao papel da comunicação estratégica: “Preservar e
fortalecer a imagem e a reputação do Exército requer plena aplicação dos
preceitos da comunicação estratégica, com estrita observância de regras éticas
e normativas.” O trecho reforça a escolha de defender reputação e blindagem
institucional, evitando temas espinhosos.
Nenhuma
palavra sobre os episódios de 8 de janeiro, sobre o papel de oficiais em
omissões de comando, ou sobre a demora em operações contra o garimpo na Terra
Yanomami. O foco exclusivo em pedir recursos e proteger a imagem, combinado com
a retórica contra críticas, reforça a percepção de que os militares querem
“passar o chapéu” sem prestar contas.
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Tarcísio e Villas Bôas na entrega de espadas aos generais
Para
Ananias Oliveira, a presença do ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas e
do governador de São Paulo, Tarcísio de Feitas, ao lado de Nunes reforça esse
recado.
“Quando
está lá Villas Bôas, quando está lá Tarcísio, é claro que há uma mensagem. São
os ‘meus’, aqueles a quem o Exército se refere para garantir que suas demandas
sejam atendidas. Há recados explícitos e implícitos. Explicitamente, é a defesa
da previsibilidade e de mais recursos. Implicitamente, é a sinalização de que
esses são os nomes a apoiar em uma eventual disputa presidencial de 2026”,
conclui o cientista social.
Não
houve menção a auditorias independentes, a metas de modernização verificáveis,
a prazos para entrega de capacidades militares ou mesmo a relatórios de
transparência acessíveis à sociedade. O Exército, que já consome boa parte do
orçamento com salários, aposentadorias e benefícios, não apresentou no discurso
de seu chefe do Estado-Maior qualquer plano para corrigir esse desequilíbrio.
A
cerimônia de promoção, marcada pela entrega de espadas, tornou-se um espaço
para o Exército reiterar sua principal pauta no Congresso: mais orçamento, sem
compromissos claros de eficiência e transparência. A presença de Tarcísio de
Freitas e Villas Bôas forneceu a moldura política. Oficialmente, Tarcísio
estava no Clube do Exército sob o pretexto de prestigiar colegas de turma da
Aman que alcançaram o generalato, mas sua presença ao lado de Villas Bôas
acabou servindo como gesto de apoio à agenda orçamentária das Forças Armadas.
Assim, a solenidade não só simbolizou apoio momentâneo, como também projetou
uma aliança de longo prazo entre a caserna e a política eleitoral.
Ananias
Oliveira acrescenta que o corporativismo e o espírito de corpo são elementos
permanentes:
“O
corporativismo sempre vai estar presente, o espírito de corpo vai estar
presente nas decisões. Não é à toa que Tarcísio, capitão da reserva do
Exército, escolhe nomes ligados à sua turma em cargos estratégicos, reforçando
a rede de vínculos. Quando a cúpula militar se posiciona com esse
enquadramento, fica claro o recado: nossas demandas precisam ser atendidas,
seja em benefícios, seja em previsibilidade orçamentária”, avalia o
pesquisador.
Fonte:
ICL Notícias

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