sábado, 22 de agosto de 2026

A perigosa ascensão do nacionalismo vitimista

A Coreia do Sul possui fortes tradições de luta de classes e organização política de esquerda. Infelizmente, isso geralmente não se refletiu no desenvolvimento do pensamento radical coreano, que tende a ser fortemente derivado de trabalhos publicados em outros países e idiomas.

O livro de Lim Jie-hyun, Victimhood nationalism, é uma exceção bem-vinda a essa regra. Lim é historiador na Universidade Sogang, em Seul, e seu livro é uma contribuição genuinamente original de um país que há muito tempo depende de importações intelectuais. Ele se baseia em estudos de caso da Polônia, Alemanha, Israel, Coreia e Japão para ilustrar um fenômeno que se torna cada vez mais comum à medida que seus defensores reivindicam um status de “vitimização hereditária”.

<><> Entre o agressor e a vítima

Lim define o conceito de “nacionalismo vitimista” (não o nacionalismo das vítimas), em torno do qual o livro é estruturado, como “um modelo narrativo para conceder superioridade moral e legitimidade política a uma nação presente”. Para Lim, o nacionalismo vitimista envolve um processo duplo de desistoricização e hiper-historicização. Os fatos históricos são expurgados de sua complexidade e remodelados para atender às necessidades nacionalistas de um país.

O nacionalismo da vitimização objetifica e desumaniza as vítimas de injustiças passadas.

Ao longo do processo, o nacionalismo vitimista objetifica e desumaniza as vítimas de injustiças passadas. A memória coletiva deixou de ser sobre reflexão coletiva: tornou-se um recurso histórico a ser usado na busca por legitimidade e poder contemporâneos.

Embora Lim não mencione isso explicitamente, o nacionalismo vitimista parece estar alicerçado numa forma de demanda popular que vem de baixo para esquecer, higienizar ou reinterpretar o passado sombrio de uma nação de maneiras que atendam às necessidades do presente. A memória coletiva alemã das atrocidades da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, frequentemente permanece por trás de narrativas mais amplas sobre as causas universais da guerra e da violência humana. No Japão, por sua vez, a culpa em tempos de guerra é muitas vezes subsumida num discurso de pacifismo absoluto, obscurecendo a distinção entre perpetrador e vítima.

A série de filmes mais longa do cinema japonês é A condição humana (1959), adaptada do romance homônimo de 1958 e centrada no protagonista pacifista Kaji. A insistência de Kaji na inocência moral o acompanha em todas as suas experiências, da prostituição em tempos de guerra aos gulags soviéticos.

Quando li o romance na adolescência, em Seul, fiquei impressionado com a dissonância entre o humanismo professado por Kaji e sua condescendência racista em relação a uma “mulher de conforto” coreana infectada com uma doença sexualmente transmissível transmitida por soldados japoneses. Isso contrasta com sua devoção à sua esposa de pele clara, Michiko, que se torna o fio condutor que o sustenta desde a corrupção do militarismo japonês até a sangrenta frente da Manchúria e, por fim, à prisão soviética.

Partindo da ideia de nacionalismo vitimista, agora entendo facilmente por que o livro e o filme atenderam a uma necessidade dos japoneses do pós-guerra, tanto liberais quanto conservadores. Funcionaram como um veículo para reformular a experiência da guerra de maneiras que enfatizam a inocência e o pacifismo japoneses. Não que a história de Kaji não reflita a experiência mais ampla das massas japonesas durante a guerra. No entanto, ela omite o que está em jogo, transformando tais sentimentos em uma apologia unilateral e obscurecendo as forças estruturais que impulsionaram a violência.

<><> Inspirando-se no Holocausto

Na visão de Lim, esse regime de memória do pós-guerra, frequentemente permeado por sentimentos residuais de culpa coletiva e desconforto moral, sofreu uma transformação significativa ao se entrelaçar com a memória do Holocausto. Em 1963, ativistas japoneses pela paz e sobreviventes do Holocausto já entoavam juntos os cânticos “Hiroshima nunca mais” e “Auschwitz nunca mais” na cerimônia anual na Polônia que marcava a libertação do campo de concentração.

Um dos pontos fortes da argumentação de Lim em defesa da noção de um nacionalismo vitimista reside na sua observação de como a memória do Holocausto, frequentemente entendida principalmente como uma catástrofe histórica singular infligida a um único grupo étnico, tornou-se um modelo através do qual as nações constroem a sua própria história de sofrimento. Isso significa reformular sofrimentos tão diversos como o bombardeio nuclear, o colonialismo e o stalinismo de maneiras que convidam à comparação com o Holocausto, transformando as memórias nacionais em narrativas coletivas de vitimização.

No entanto, esse projeto muitas vezes resultou na minimização — ou mesmo no completo negligenciamento — do sofrimento das verdadeiras vítimas dessas nações, desde as escravas sexuais do exército japonês até os prisioneiros políticos e detidos de outras minorias étnicas que foram perseguidos sob o regime de Adolf Hitler.

Lim discute a interação dialética entre a globalização e a nacionalização desse regime de memória transnacional. A incorporação da narrativa de vitimização de uma nação específica na formação da memória global do Holocausto ajuda a conferir-lhe capital moral e dignidade, o que, por sua vez, reforça a narrativa global, como se observa na adaptação de “Nunca mais” por ativistas pacifistas japoneses.

“A incorporação da narrativa de vitimização de uma nação específica na formação da memória global do Holocausto ajuda a conferir-lhe capital moral e dignidade.”

Para Lim, o Holocausto tornou-se um quadro de referência fundamental através do qual as vítimas de tragédias históricas são reinterpretadas como mártires, baseando-se na forma como Israel celebra a memória do Holocausto. Na memória nacional israelense dominante, o Estado de Israel foi fundado sobre as cinzas do Holocausto. A lógica subjacente é que, se um Estado judeu tivesse existido antes da ascensão de Hitler, o Holocausto não teria ocorrido. Consequentemente, aqueles que pereceram nas câmaras de gás de Hitler não foram meramente vítimas, mas mártires.

<><> Alemanha e Japão

Na Alemanha, houve um esforço para forjar uma autoimagem pós-guerra que expiasse os pecados da humanidade, substituindo as realidades concretas das atrocidades alemãs durante a guerra por questões vagas e abstratas, como “Por que os humanos precisam fazer guerra?”. Na memória coletiva, argumenta Lim, o Holocausto e outras atrocidades nazistas eram vistos como crimes cometidos por Hitler e seus asseclas, para os quais a justiça havia sido feita por meio dos Julgamentos de Nuremberg. Os alemães comuns, por sua vez, tendiam a se ver como as primeiras e últimas vítimas de Hitler e, em última análise, como vítimas de uma memória injusta.

Para muitos alemães, as memórias mais terríveis derivam da experiência de alemães que foram encarcerados em campos de detenção antes de sua expulsão da Polônia e da Tchecoslováquia. Já em 1949, líderes políticos da Alemanha Ocidental começaram a descontextualizar os crimes de guerra alemães, com Hans-Christoph Seebohm, ministro dos transportes no governo de Konrad Adenauer, equiparando o sofrimento dos alemães expulsos ao das vítimas do Holocausto.

Segundo Lim, a vitimização assumiu um papel central na narrativa nacionalista alemã após o fim da Guerra Fria. Ele cita uma pesquisa de 1995 encomendada pela revista Der Spiegel, na qual cerca de 40% dos entrevistados com 64 anos ou mais afirmaram que a expulsão de alemães da Europa Central e Oriental no pós-guerra foi um crime contra a humanidade comparável ao Holocausto. Essa forma de nacionalismo vitimista, baseada na dicotomia entre “alguns criminosos nazistas” e “a maioria dos alemães inocentes”, foi fundamental para reforçar a identidade nacional da Alemanha unificada sob a liderança de Helmut Kohl.

Lim sugere que a cultura da memória japonesa do pós-guerra não era muito diferente. Ele apresenta a memória cultural japonesa como uma forma de vitimização nacional que definiu os quinze anos de regime militar entre 1931 e 1945 como uma aberração histórica que se desviou de um processo de modernização bem-sucedido. Essa perspectiva apresentava o militarismo japonês como um desvio, e não como um produto, do desenvolvimento imperial mais amplo do Japão.

“Para muitos japoneses, a memória dos bombardeios atômicos constitui a principal lente através da qual a guerra é lembrada.”

Grande parte do imaginário popular japonês atribuía a responsabilidade pelas atrocidades da guerra exclusivamente a entidades amorfas como o “militarismo” ou o “sistema”, enquanto retratava os japoneses comuns como vítimas inocentes da guerra. Essa narrativa reformulou a imagem dos povos do Japão e das nações asiáticas conquistadas pelo país, apresentando-os como vítimas comuns do militarismo japonês.

Para muitos japoneses, a memória dos bombardeios atômicos constitui a principal lente através da qual a guerra é lembrada. A identidade global do Japão como a única nação vítima de bombardeios nucleares funcionou, nas palavras de Lim, como uma “memória de fachada que oculta os crimes de guerra do Japão contra seus vizinhos asiáticos”. Os mortos e mutilados de Hiroshima e Nagasaki são retratados como vítimas de um “mal absoluto”.

Por sua vez, essa narrativa do mal absoluto deu origem a uma forma de pacifismo absoluto que condena todas as guerras como malignas, dissociadas de seu contexto histórico. A questão da responsabilização está praticamente ausente do pacifismo japonês, pois este não identifica um sujeito claramente responsável. Desistoricizada e descontextualizada, a versão dominante do pacifismo no Japão é usada para condenar a guerra e as bombas nucleares, enquanto raramente responsabiliza o Japão pelas guerras imperialistas que devastaram seus vizinhos.

Em 1994, Kurihara Sadako, uma poetisa crítica da narrativa de vitimização de seu país, escreveu as seguintes palavras em um poema:

Se o bombardeio atômico foi misericórdia

O massacre de 20 mil pessoas pelo exército imperial em Nanquim também foi um exemplo disso.

Assim como a câmara de gás nazista que massacrou 6 milhões de pessoas.

<><> Vitimização e violência

Onacionalismo vitimista santifica a condição de vítima, transformando-a em uma forma coletiva de martírio. As experiências históricas são esvaziadas de contexto, com a ênfase em certos elementos e a marginalização de outros. Lim se refere a isso como uma combinação de “historicização” e “desistoricização”.

Uma das observações perspicazes de Lim é que a desistoricização e a globalização podem servir como instrumentos de coesão nacional e como obstáculos à solidariedade transnacional. Ao elevar as experiências nacionais de sofrimento a um quadro moral globalmente reconhecido, associado à memória do Holocausto, elas fortalecem a identidade coletiva em nível nacional. Ao mesmo tempo, obscurecem o sofrimento dos sujeitos coloniais e de outras vítimas de perseguição histórica, limitando, evidentemente, a possibilidade de uma política da memória verdadeiramente universal.

“Mais cedo ou mais tarde, poderemos observar o Japão e a Alemanha utilizando suas próprias narrativas de vitimização para se rearmarem contra a China e a Rússia.”

A cronologia do livro de Lim termina no início do século XXI. Já vivemos num período em que o nacionalismo vitimista parece estar passando por mais uma transformação, após uma fase anterior marcada por narrativas apologéticas e autopiedosas de vitimização.

Recentemente, testemunhamos casos em que narrativas nacionalistas de vitimização assumiram um rumo violento na Rússia, em Israel e em outros lugares, com alegações de sofrimento histórico invocadas para justificar a prática de violência contra outros em nome do lema “Nunca mais”. A associação explícita feita por Benjamin Netanyahu entre suas atrocidades na Palestina e a memória temerosa do Holocausto foi amplamente documentada. A retórica de Vladimir Putin, que retrata a Mãe Rússia como uma vítima histórica do Ocidente, também é bem conhecida.

Mais cedo ou mais tarde, poderemos observar o Japão e a Alemanha utilizando suas próprias narrativas de vitimização para se rearmarem contra a China e a Rússia. Narrativas ahistóricas de nacionalismo são particularmente corrosivas.

A armadilha da universalidade

Em princípio, a esquerda é internacionalista, opondo-se, em última análise, a todas as formas de nacionalismo, mesmo defendendo criticamente o direito dos oprimidos à autodeterminação. Para a esquerda, o nacionalismo vitimista constitui um desafio particular. Embora seja frequentemente articulado em linguagens morais universais — direitos humanos, paz e memória do Holocausto — ele obscurece, ou mesmo ignora, as memórias da devastação causada pelo imperialismo, colonialismo e regimes autoritários.

A análise de Lim serve de alerta contra o uso político da memória, e esse alcance provavelmente vai além de sua proposta de nacionalismo vitimista. Para que “Nunca mais” mantenha seu significado universal, a esquerda deve permanecer vigilante contra todas as formas de narrativas disfarçadas pela linguagem da vitimização universal.

¨      Ser nacionalista em 2026. Por João Cruz Ferreira

O nacionalismo não é fácil de definir enquanto conceito abrangente, pois pode assumir várias modalidades. Por exemplo, pode ser religioso (como o nacionalismo hindu), cultural (como os movimentos de promoção da língua basca) ou económico (como as políticas protecionistas adotadas pelas administrações Trump e Biden). A maioria dos nacionalismos não é expansionista nem iliberal (como o foram a Alemanha Nazi ou movimentos de esquerda radical revolucionários ou anticoloniais), mas antes pacífica e perfeitamente compatível com uma democracia liberal. Porém, o termo “nacionalismo” é empregue no discurso político e mediático quase exclusivamente num sentido pejorativo, associado a ideias supremacistas ou extremistas, fruto dos fantasmas do etnonacionalismo racial alemão e do nacionalismo autoritário italiano das primeiras décadas do século XX. Talvez isso ajude a explicar a frase proferida por Emmanuel Macron nas comemorações do 14 de Julho deste ano: “Patriotismo, sim; nacionalismo, jamais.”

Porém, esta simplificação é redutora e equivocada. O nacionalismo tout court mais não é do que a visão política de que importa preservar a soberania e a identidade nacional e promover os interesses da nação acima de tudo. No fundo, é a ideologia que corresponde ao sentimento de patriotismo: a ideia de que devemos amar o nosso país e defender aquilo que o define. Que incompatibilidade existe entre esta linha de pensamento e a preservação das instituições democráticas e das liberdades fundamentais? Talvez devêssemos perguntar a Marcelo Rebelo de Sousa, que afirmou, em 2017, no discurso comemorativo do 25 de Abril, que “a nossa maneira de amar a nação é um nacionalismo patriótico” e já dez anos antes, enquanto comentador televisivo, se tinha definido como “uma pessoa de direita e nacionalista.”

Apesar da dissonância gritante entre as elites políticas e mediáticas e os cidadãos comuns relativamente àquilo que é considerado “bom” e “mau”, o nacionalismo já não pode ser encarado como uma corrente minoritária ou radical, mas antes como uma posição largamente consensual entre as populações ocidentais. Os indivíduos que as compõem reconhecem-se como parte de algo maior do que eles próprias e veem a sua identidade nacional e o seu sentido de pertença ameaçados por uma conceção radical do cosmopolitismo, que encara nacionais e estrangeiros como intercambiáveis, como se a nacionalidade se resumisse à atribuição de um documento de identificação e não também à herança de uma língua, uma história, uma geografia, de valores e práticas distintivas.

<>< Enquanto dorme... O mundo não pára

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Com a conivência da esquerda e da direita, unidas por uma visão liberal da economia levada até às últimas consequências, o globalismo conduziu, por um lado, à adoção de políticas de imigração permissivas e irresponsáveis por parte de países com populações historicamente estáveis e demograficamente coesas; por outro, à renúncia ao modelo da assimilação em prol do do multiculturalismo. Ora, se o maior obstáculo a uma integração harmoniosa reside na entrada súbita e massiva de imigrantes num mesmo território – por favorecer a formação de comunidades paralelas, onde se pode viver convenientemente sem abandonar a língua e as normas sociais do país de origem, muitas vezes contrárias aos costumes locais -, outro resulta da perceção, alimentada pelo moralismo woke, de que exigir um processo de aculturação aos princípios fundamentais do país de acolhimento constitui uma forma de discriminação. Assim, os requisitos ditados pelo mais elementar bom senso para uma integração bem-sucedida (por exemplo, a exigência de igualdade de tratamento independentemente do género, orientação sexual ou religião) passaram a ser apresentados como manifestações de hegemonia cultural. A integração passou a ser entendida como um processo que envolve direitos sem deveres recíprocos, o que resultou na descaracterização de bairros e comunidades inteiras e em dinâmicas de separatismo etnosocial.

Perante isto, ser nacionalista em 2026 surge como uma inevitável reação popular contra a progressiva erosão da identidade civilizacional das sociedades ocidentais. Paremos, por isso, de culpabilizar quem emprega um nacionalismo cívico e democrático para defesa da sua herança cultural, sobretudo quando o faz através dos instrumentos próprios de um Estado de Direito, como o debate público e as eleições. É precisamente isso que se tem verificado na Europa, onde um número crescente de eleitores tem optado por partidos que defendem uma agenda nacional-conservadora. E os que hoje governam, como em Itália, ou participam em soluções de governo, como na Suécia, demonstram que a defesa da identidade nacional e o controlo da imigração não é incompatível com a democracia representativa, a separação de poderes, a economia de mercado ou o Estado social. A avaliação dos movimentos nacionalistas deve assentar menos nos rótulos que lhes são atribuídos e mais nas preocupações das pessoas a quem dão voz.

 

Fonte: Por Kap Seol- Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil/Observador

 

 

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