sábado, 29 de agosto de 2026

Existe uma psicanálise brasileira?

É desde o título que o leitor é lançado a passar certa porteira: Psicanálise nos trópicos é combinação significante que inscreve o calor, a efervescência da mistura, o transbordamento de sentidos da vida tropical que nos é própria. Temos em mãos um livro que recusa a friagem dos manuais e admite uma psicanálise em transpiração contínua e prolongada, climatizada pela língua e pelo corpo de um território que nunca coube inteiramente – ainda bem! – nas gramáticas do Norte global. Autor de vasta obra, Christian Dunker discorre sobre os itinerários tantas vezes labirínticos do movimento lacaniano no Brasil com desenvoltura.

Já na primeira página o leitor se aquenta e se achega na rede da história. Aqui o tom é bem menos autobiográfico, como o de Freud em 1925, e parece mais uma inflexão memorialística, como a da primeira parte de Memória, história e diálogo psicanalítico de Marie Langer ou, arrisco dizer, do movimento autoral de Wilhelm Reich em A função do orgasmo. Como se comprometer com uma história a que o próprio autor que lemos pertenceu? Com o perdão da platitude, afirmo: primeiro, lendo. Depois, preferencialmente, relendo. Que se tenha a coragem e a humildade para ler e tirar os pés historiográficos do chão, até porque é com eles, os tais pés, que estamos pensando. É nessa flutuação ambígua entre testemunho e documento, nessa forma de narrar regando interpretações, que este livro extrapola o movimento lacaniano stricto sensu para fazer sobressair a história da psicanálise no Brasil. 

Um livro único, mas não só. São diversas as continuidades elencadas pelo próprio autor ao menos desde seu primeiro livro vencedor do Prêmio Jabuti, há quinze anos, Estrutura e constituição da clínica psicanalítica, continuidades estas “desmuradas” no axial Mal-estar, sofrimento e sintoma, ora gestadas coletivamente nos livros do Latesfip, ora dialogadas com os gringos por meio de publicações internacionais de alto impacto, até finalmente confluírem nos mais recentes Lacan e a democracia e O estilo de Lacan. Consagra-se em Psicanálise nos trópicos uma credibilidade inconteste, fruto da atuação nas mais diversas frentes da vi(n)da intelectual – da academia às mídias digitais –, constituindo uma posição de autoria que talvez jamais caiba em qualquer lista de escritos mais ou menos exaustiva. Portanto, melhor será concluir este texto lembrando de quando apresentei ao Christian (aqui a intimidade me permite dispensar o sobrenome) uma canção fabulosa chamada “Baião de Lacan”, dos geniais Guinga e Aldir Blanc. Tamanho foi o entusiasmo da descoberta que Christian recortou parte da letra para torná-la epígrafe de “Psicanálise e modernidade brasileira”, capítulo excepcional de Mal-estar, sofrimento e sintoma.

Coube a mim, outrora aluno e orientando, hoje colega docente na USP e, acima de tudo, amigo e interlocutor, escrever este texto para a capa. Fiz isso não como quem encara o sol cegante cara a cara, na chave do comentário reconstruindo-argumentos-principais e seus quetais. Prefiro mirar de soslaio o sol pelo reflexo n’água, como quem aborda o inconsciente – e escreve a história. “A ideia de que o verdadeiro ¬Lacan não é nem o último, nem o que fala francês, nem o que nos colonizou, mas o que virá, começa a ganhar força”: eis o belo prognóstico com o qual este livro se conclui. Que ele nos inspire a leitura e as releituras, que seja um convite acalorado para um banho de sol. 

 

Fonte: Por Rafael Alves Lima, no Blog da Boitempo

 

 

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