Como
Itaituba, polo de garimpos de ouro, virou peça-chave na eleição do Pará
NA ORLA
de Itaituba, no oeste do Pará, um garimpeiro de concreto de três metros de
altura com uma bateia nas mãos encara o rio Tapajós. A prefeitura instalou o
monumento em 2019, durante a gestão de Valmir Clímaco (MDB), para homenagear a
atividade que move a economia e organiza a política local. Sete anos depois, o
ouro voltou a orientar as alianças da cidade — desta vez, na disputa pelo
governo estadual.
De um
lado está o grupo do ex-governador Helder Barbalho (MDB), candidato ao Senado e
principal articulador da campanha da atual governadora, Hana Ghassan (MDB), que
o sucedeu em abril. Em Itaituba, os dois têm o apoio de Clímaco e do deputado
estadual Wescley Tomaz (Avante), adversários na eleição municipal de 2024, mas
aliados na defesa do garimpo.
Também
integra esse grupo o ex-deputado Hilton Aguiar (Republicanos), apresentado em
campanhas anteriores como “a voz dos garimpeiros” e candidato a uma vaga na
Assembleia.
Do
outro está o ex-prefeito de Ananindeua Daniel Santos (Podemos), o Dr. Daniel.
Ele escolheu como vice a itaitubense Ellayne D’Almeida (PL), ex-integrante da
diretoria de uma cooperativa garimpeira e filha de um dos nomes históricos do
setor na região.
Uma
pesquisa Genial/Quaest divulgada no fim de julho mostrou Hana com 24% das
intenções de voto no primeiro turno e Dr. Daniel com 20%. No segundo turno,
apareciam empatados, com 36% e 35%. Outro levantamento, da Real Time Big Data,
divulgado no início de agosto, manteve o cenário: Hana marcou 31% e Dr. Daniel,
29% no primeiro turno; numa disputa direta, ele apareceu com 38% e ela com 36%,
também dentro da margem de erro.
A
disputa apertada ajuda a explicar por que os dois principais grupos foram
garimpar apoio na cidade pepita, como Itaituba é conhecida. Com 62 mil
quilômetros quadrados — área superior à da Croácia — e população estimada em
135 mil pessoas, o município é o epicentro da cadeia do ouro no Tapajós.
Placas
de “compra-se ouro” dividem as ruas com revendas de escavadeiras, bombas,
motores e mangueiras. Hangares, oficinas, postos de combustível, pilotos e
transportadoras também vivem do movimento dos garimpos. Em junho, a Assembleia
Legislativa aprovou um projeto de Wescley que reconhece Itaituba como “Capital
Paraense do Ouro”.
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Barbalho aproxima antigos rivais no palanque de Hana
Na
eleição municipal de 2024, Clímaco e Wescley estavam em lados opostos. O então
prefeito lançou como sucessor seu vice, Nicodemos Aguiar (MDB), que venceu a
disputa. Wescley teve o apoio de Jair Bolsonaro (PL), que gravou um vídeo para
sua campanha.
A
derrota não afastou o candidato derrotado do grupo vencedor. Seis meses depois,
o governo de Barbalho nomeou para a coordenação regional da Secretaria de Meio
Ambiente um advogado de cooperativas garimpeiras indicado por Wescley.
Fernando
Brandão havia participado de mobilizações contra a destruição de máquinas
usadas em garimpos por agentes ambientais e trabalhado na campanha de Wescley à
prefeitura. Caçador autorizado de javalis, também publicava nas redes sociais
fotografias em que aparecia armado ao lado de animais abatidos, como mostrou a
Repórter Brasil.
Wescley
confirmou a indicação à Repórter Brasil e afirmou que defendia apenas a
legalização da atividade. A mulher do deputado também foi nomeada pelo governo
estadual para o cargo de secretária adjunta do Centro Regional de Governo do
Sudoeste do Pará. Nas redes sociais, Wescley escreveu recentemente que a
parceria com Barbalho e Hana “só fortaleceu” seu trabalho.
Wescley
cresceu no Crepurizinho, vilarejo garimpeiro no fim da Transgarimpeira, estrada
que parte do distrito de Moraes Almeida, cruza o rio Jamanxim e avança cerca de
150 quilômetros por uma região marcada por garimpos e exploração de madeira. A
família do deputado mantém negócios no local: em 2025, o pai assinou contratos
com a prefeitura para fornecer energia a uma escola e a um posto de saúde,
enquanto um irmão mantém empresa de peças e manutenção de veículos, tratores e
embarcações.
A
própria biografia de Wescley na Assembleia o apresenta como defensor da “classe
garimpeira”. Quando ainda era vereador, ele participou de pelo menos 11
reuniões com órgãos federais e fez 13 viagens custeadas pela Câmara Municipal
entre 2019 e 2022, segundo levantamento da Agência Pública. As agendas tratavam
de licenciamento, estrutura da ANM (Agência Nacional de Mineração) e
interrupção da destruição de equipamentos apreendidos em operações.
Procurado,
Wescley questionou a abordagem da Repórter Brasil e não respondeu às perguntas.
“O material será sempre com cunho esquerdista que mais desinforma do que
informa? Ou será uma matéria imparcial?”, perguntou.
Se
Wescley chegou ao grupo de Barbalho depois de perder a eleição, Clímaco é
correligionário do ex-governador e voltou à política a convite do principal
nome do MDB paraense. No vídeo em que anunciou sua candidatura à Assembleia,
Barbalho disse que o ex-prefeito representaria “os produtores rurais, a
comunidade garimpeira e todos aqueles que trabalham com a logística portuária”.
Clímaco
administrou Itaituba por três mandatos e, ao longo da vida pública,
apresentou-se como garimpeiro, madeireiro e pecuarista. Em entrevista ao jornal
O Globo, em 2022, afirmou que a prefeitura havia concedido mais de 500 licenças
para garimpo e admitiu que sua gestão nunca fiscalizara os empreendimentos
autorizados. Disse ainda que era dono de áreas de garimpo e que já havia usado
mercúrio para beneficiar mais de 3 mil quilos de ouro.
Consulta
da Repórter Brasil à base de autos de infração do Ibama (Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) localizou 28 registros
lavrados contra Clímaco e a Madeireira Clímaco, uma das empresas do político,
entre 1996 e 2014. Vinte e sete são multas que somam R$ 4,28 milhões em valores
originais; o outro registro é uma advertência.
O
histórico de conflitos vai além dos autos ambientais. Em junho de 2019, o
Ministério Público Federal abriu investigação depois que servidores da Funai
(Fundação Nacional dos Povos Indígenas) relataram que Clímaco teria recomendado
que moradores da cidade recebessem “à bala” uma equipe encarregada dos estudos
de demarcação das terras Munduruku. O então prefeito negou ter ameaçado atirar
nos servidores, mas confirmou que impediria a entrada da Funai em sua
propriedade.
Menos
de um mês depois, a Polícia Federal apreendeu 583 quilos de cocaína, dois
fuzis, uma pistola e munições na Fazenda Borboré, reconhecida por Clímaco como
sua. As investigações, no entanto, não estabeleceram ligação entre a droga e o
político, que negou qualquer envolvimento. O MPF denunciou oito pessoas no caso
e não incluiu Clímaco entre os acusados.
Em
fevereiro de 2022, quando a Polícia Federal realizava a Operação Caribe
Amazônico contra garimpos ilegais que poluíam o rio Tapajós e operavam perto da
Terra Indígena Munduruku, Clímaco foi a Brasília pedir a interrupção da ação.
Viajou com o deputado federal José Priante (MDB) e foi recebido pelo então
ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP).
No mês
seguinte, ganhou repercussão nacional por outro motivo. Durante uma festa,
subiu ao palco, apontou para mulheres na plateia e disse que iria “comer mais
de 20”. A Justiça determinou que se retratasse e destinasse R$ 40 mil ao
Conselho Municipal de Direito das Mulheres de Itaituba. Clímaco posteriormente
publicou um pedido de desculpas.
Procurado
pela Repórter Brasil sobre os vínculos com o garimpo, as multas e sua atuação
durante as operações ambientais, Clímaco não respondeu às perguntas. As
campanhas de Hana e Barbalho também foram procuradas, mas tampouco se
manifestaram.
Também
integra o grupo de Hana e Helder o ex-deputado estadual Hilton Aguiar
(Republicanos), irmão do atual prefeito de Itaituba. Ex-vereador da Cidade
Pepita, foi secretário regional do governo de Barbalho e, em abril de 2025,
assumiu a presidência da Companhia de Portos e Hidrovias.
Na
Assembleia, Hilton apresentou em 2022 um projeto para impedir que órgãos
ambientais estaduais destruíssem ou inutilizassem bens apreendidos em
infrações. A proposta alcançava escavadeiras e outros equipamentos empregados
em garimpos ilegais. Na campanha daquele ano, ele foi apresentado como “a voz
dos garimpeiros”.
Em uma
publicação recente, afirmou que as operações federais atingiam trabalhadores
sem resistência e concluiu: “Isso precisa acabar”.
Procurado,
Hilton não retornou às tentativas de contato feitas pela reportagem.
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Dr. Daniel leva o garimpo para dentro de sua chapa
O
principal adversário da candidata apoiada pelo ex-governador Helder Barbalho
fez um movimento diferente. Em vez de concentrar os vínculos com o setor em
candidatos proporcionais, Dr. Daniel escolheu uma representante do garimpo para
a vaga de vice.
Engenheira
civil e empresária, Ellayne D’Almeida nasceu em Itaituba e é filha de Ivan
D’Almeida, que se apresenta como dono de garimpo e primeiro presidente da
Associação dos Mineradores de Ouro do Tapajós. Em agosto de 2024, o Ibama
autuou Ellayne por lavra garimpeira de ouro em 13,61 hectares sem autorização.
Segundo o auto, o processo minerário da área ainda estava em fase de
requerimento na ANM (Agência Nacional de Mineração).
No mês
seguinte, ela passou a integrar a diretoria da Cooperativa dos Garimpeiros do
Igarapé Missão, registrada em Itaituba para a extração de metais preciosos.
Antes de ser escolhida como vice, Ellayne fazia campanha para deputada estadual
e coordenava a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) na região da
Transamazônica.
Em
abril, durante uma sessão na Câmara dos Deputados, o deputado Delegado Caveira
(PL) apresentou-a como uma possível liderança para “proteger o Estado do Pará,
proteger o garimpeiro, o madeireiro e o produtor rural”.
A
Repórter Brasil procurou a assessoria de imprensa da chapa formada por Dr.
Daniel e Ellayne. A resposta foi enviada pelo advogado Vinícius Borba,
conhecido por defender pecuaristas retirados da Terra Indígena Apyterewa e por
tentar organizar a “COP do Agro”, encontro de produtores rurais e políticos
criado como contraponto à COP30, no ano passado.
Segundo
o advogado, Ellayne negou ter realizado, autorizado ou financiado a extração de
ouro. Afirmou que as imagens de satélite usadas pelo Ibama mostram que houve
garimpo na área, mas não identificam quem o realizou.
O
Ibama, por sua vez, sustenta que uma operação com aquela dimensão não poderia
ter ocorrido sem o consentimento do responsável pelo pedido de autorização de
exploração do terreno.
Ellayne
apresentou defesa em abril de 2025 e pediu a anulação da multa de R$ 29,8 mil,
do embargo e da suspensão das atividades. A defesa argumentou que as imagens
analisadas mostram alterações iniciadas em 2019, quase quatro anos antes de
Ellayne apresentar o pedido de lavra. Os pedidos ainda não foram julgados.
A chapa
disse defender a regularização da mineração, o rastreamento da origem do ouro,
a redução do uso de mercúrio, a recuperação das áreas degradadas e o combate à
lavagem de minério. Também afirmou que a destruição de máquinas deve ser
excepcional e que qualquer atividade em terras indígenas e unidades de
conservação precisa respeitar a legislação.
Os dois
candidatos ao Senado aliados de Dr. Daniel também têm atuação favorável ao
setor. Deputado federal desde 2015, Delegado Éder Mauro (PL) apresentou em 2019
projetos para facilitar o licenciamento de pequenos garimpos e permitir a
exploração mineral de pequeno porte em reservas extrativistas.
O PL
5.246/2019, que previa licenciamento municipal para lavras garimpeiras de
pequeno porte, foi arquivado. Já o PL 5.822/2019 propõe permitir a atividade em
reservas extrativistas quando houver previsão no plano de manejo e aprovação do
conselho deliberativo da unidade.
Em
nota, a campanha de Éder Mauro afirma que mantém a defesa da mineração de
pequeno porte em reservas extrativistas quando autorizada pela legislação e
pelo plano de manejo, com licenciamento e fiscalização.
O
posicionamento diz ainda que quer garimpos formalizados, com CNPJ,
trabalhadores com carteira assinada e plano de recuperação ambiental, e que a
pauta será uma das bandeiras de sua campanha ao Senado. Para o deputado, é
preciso “descriminalizar o garimpeiro que trabalha”.
Já o
senador Zequinha Marinho (Podemos), candidato à reeleição, é autor do PL
2.973/2023, que permite a lavra garimpeira em áreas já destinadas à pesquisa de
outro mineral, desde que haja viabilidade técnica e econômica para as duas
atividades. Em 2025, ele também apoiou na Comissão de Direitos Humanos do
Senado um projeto para regulamentar a exploração mineral em terras indígenas.
Em
2019, o senador acompanhou integrantes da Cooperativa de Garimpeiros e
Mineradores de Ourilândia à ANM e pediu agilidade na análise de pedidos de
lavra. A Cooperouri foi posteriormente investigada pela Polícia Federal por
suspeita de legalizar ouro retirado da Terra Indígena Kayapó. Zequinha não foi
alvo da operação e afirmou à Repórter Brasil que havia apenas solicitado a
análise regular dos processos protocolados.
A
assessoria de Zequinha foi procurada, mas não respondeu às perguntas enviadas
pela reportagem.
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Candidatas indígenas confrontam o consenso pró-garimpo
Em um
cenário político amplamente ligado aos interesses de garimpos e
mineradoras, duas candidaturas indígenas
seguem caminho oposto no oeste do Pará.
Alessandra
Korap Munduruku (PT) disputa uma vaga na Câmara dos Deputados; Auricélia
Arapiun (PSOL), uma cadeira na Assembleia Legislativa. As duas construíram suas
trajetórias políticas justamente no enfrentamento ao garimpo, à mineração e a
grandes projetos que avançam sobre o Tapajós.
Nascida
em Itaituba, na aldeia Praia do Índio, Alessandra se tornou uma das lideranças
Munduruku mais conhecidas fora do Brasil. Foi a primeira mulher a coordenar a
Associação Indígena Pariri e ganhou, em 2023, o Goldman Environmental Prize,
uma das principais premiações internacionais dedicadas a ativistas ambientais.
Parte do reconhecimento veio de sua atuação contra projetos de mineração que
incidiam sobre o território Munduruku.
A
candidatura cria uma contradição dentro do próprio campo político em que
Alessandra está inserida. O PT participa da aliança de Hana e ocupa a vaga de
vice com o deputado estadual Dirceu Ten Caten, enquanto Clímaco e Wescley pedem
votos para a mesma governadora. Alessandra, porém, rejeita justamente a
atividade defendida pelos dois aliados locais.
“O
garimpo precisa ser combatido, não tratado como desenvolvimento. E, numa
eleição, o voto também é uma arma para dizer que esse modelo não pode
continuar”, afirmou à Repórter Brasil.
Para a
Assembleia, Alessandra apoia Auricélia, liderança indígena do Baixo Tapajós que
disputa a eleição pelo PSOL. Ao contrário de Alessandra, ela está fora da
aliança governista e integra o campo da candidata ao governo Araceli Lemos
(PSOL). Sua relação com Barbalho tem sido marcada pelo confronto.
Em
2023, Auricélia viralizou nas redes ao dizer, diante de outras lideranças
indígenas, que o então governador estava “com as mãos sujas de sangue”. Na
ocasião, relacionou políticas ambientais e omissões do Estado às mortes de
defensores dos territórios, à contaminação por mercúrio e à falta de
atendimento de saúde.
Neste
ano, Auricélia foi uma das principais articuladoras, ao lado de Alessandra, da
ocupação do terminal da Cargill em Santarém. Cerca de 60 indígenas de 14 povos
entraram inicialmente na área sem estrutura, água ou alimentação.
A
mobilização cresceu até reunir centenas de pessoas e durou 33 dias, com
assembleias, cozinhas coletivas, bloqueios e até a interceptação de uma
embarcação carregada de grãos no Tapajós. O protesto terminou depois que o
governo Lula revogou o Decreto 12.600/2025, que abria caminho para conceder à
iniciativa privada as hidrovias dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins.
A
partir dessa trajetória Auricélia trata o garimpo não como uma atividade
econômica isolada, mas como parte de um modelo de ocupação da Amazônia. “Temos
que defender nossos rios, nossos peixes, que estão contaminados e envenenando
nosso povo”, afirma.
O
mercúrio utilizado para separar o ouro da lama alcança os rios, entra nos
peixes e chega ao organismo de quem depende deles para viver. Uma pesquisa da
Fiocruz e do WWF-Brasil realizada em três aldeias do Médio Tapajós encontrou o
metal em todos os 200 participantes examinados; em 57,9%, a concentração estava
acima do limite de segurança adotado no estudo.
Dados
parciais apresentados pela Fiocruz em 2025 mostraram que gestantes Munduruku
estavam expostas, em média, a concentrações cinco vezes superiores ao limite de
segurança estabelecido pela OMS (Organização Mundial da Saúde), segundo o
Ministério Público Federal.
A
Repórter Brasil já mostrou aldeias Munduruku, no interior de Itaituba, onde
médicos, agentes de saúde e famílias tentavam entender por que crianças nasciam
com malformações ou apresentavam atraso no desenvolvimento, enquanto adultos
relatavam tremores, fraqueza e cegueira. A principal linha de investigação era
a exposição ao mercúrio, como mostrou a reportagem “A floresta doente”.
Fonte:
Repórter Brasil

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