Economia
vai decidir eleição, e não o caso Lulinha, diz fundador de instituto de
pesquisa
As investigações contra Fábio Luís Lula
da Silva, o Lulinha,
não devem ser decisivas na disputa pela Presidência entre o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), acredita Maurício
Moura, doutor em Economia e Política e fundador do instituto de pesquisa Ideia.
Na sua visão, será a economia que influenciará o voto de cerca de 5 milhões de
pessoas que definirão a eleição presidencial. Esse é o grupo que ainda não
decidiu seu voto e pode optar tanto por Lula como por Flávio Bolsonaro. Em um
segundo turno contra o senador, Lula teria 45% das intenções, contra 43%. "Quando
olhamos os 3% a 4% dos eleitores que achamos que vão decidir a eleição, eles já
consideram basicamente todos os lados corruptos e não é isso que vai ser o
fator decisivo. Então eu acho que [a investigação sobre suposta corrupção] é
mais um tema de 'bolhas' do que um tema relevante para a eleição", disse,
em entrevista à BBC News Brasil. Lulinha é investigado em três
inquéritos abertos pela Polícia Federal (PF) neste ano, que apuram um suposto
tráfico de influência em favor de empresas interessadas em obter contratos com
o governo federal. Em entrevista ao Jornal Nacional na quinta-feira
(27/08), Lula classificou como
"ilações" as acusações que estão circulando contra Lulinha e prometeu que
ele "não será protegido" por ser seu filho.
Moura
nota que esse grupo de indecisos é formado principalmente por mulheres, das
áreas metropolitanas do Sudeste, com renda de dois a cinco salários mínimos,
mas que estão endividadas. Tem também, em sua maioria, perfil conservador e
frequentam igrejas. "As pessoas têm atividade econômica, têm duas ou três
fontes de renda, e mesmo assim não conseguem fechar a conta no final do mês.
Tem um componente do custo da dívida, tem um componente de uma educação
financeira bastante básica ou inexistente, e também tem agora o componente de bets
[apostas esportivas].
Esse grupo que vai decidir a eleição sofre muito com a questão das bets. É um
tema de muita dor", ressalta. "E [essas eleitoras] são muito
apolíticas, estão fora das discussões das bolhas. Isso tem um efeito prático: a
decisão de voto é muito lá na frente [próximo ao dia da votação]",
continua.
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Confira a seguir os destaques da entrevista.
·
As investigações sobre o Lulinha têm dominado o
noticiário. Qual a relevância disso para o cenário eleitoral?
Maurício
Moura - Eu
acho muito baixa, para dizer quase nenhuma, porque, se tem um personagem na
política brasileira que o eleitor já precificou diversos escândalos de
corrupção e, mesmo assim, ele continua com um nível de aprovação bastante
constante, é o presidente Lula. Acho que não tem nenhuma novidade do presidente
Lula que possa alterar quem gosta e quem não gosta dele. Quando olhamos os 3% a
4% dos eleitores que a gente acha que vão decidir a eleição, eles já consideram
basicamente todos os lados corruptos, e não é isso que vai ser o fator
decisivo. Então eu acho que é mais um tema de "bolhas" do que um tema
relevante para eleição.
·
O que vai definir o voto desses 4%? No que esse eleitor
está mais atento?
Maurício
Moura - São
mais ou menos 5 milhões de eleitores, e eu acredito muito que esse voto vai ser
decidido pelo tema da economia. A gente sabe que é um grupo altamente
endividado. As pessoas têm atividade econômica, têm duas ou três fontes de
renda, e mesmo assim não conseguem fechar a conta no final do mês. Tem uma
componente do custo da dívida, tem uma componente de uma educação financeira
bastante básica ou inexistente, e também tem agora a componente de bets. Esse
grupo que vai decidir a eleição sofre muito com a questão das bets. É um tema
de muita dor. O PT ganhou todas as eleições presidenciais com um argumento
econômico muito bem estabelecido do ponto de vista de narrativa. Em 2002, o
Lula dizia que ia gerar 10 milhões de empregos e o Serra dizia que ia gerar 8
milhões. Em 2006, eles vieram com o argumento da expansão do Bolsa Família. E
foi, inclusive, o ano que mudou o perfil do eleitorado do Lula — passou a ser
um perfil mais popular do que era em 2002. Em 2010, tinha a questão do PAC
[Programa de Aceleração do Crescimento], do crescimento econômico, associando à
Dilma [Rousseff], a mãe do PAC. Em 2014, apesar de a gente ter uma crise
econômica contratada, o nível de desemprego estava baixo. O argumento contra o
Aécio Neves [rival de Dilma, na eleição de 2014] era manter o nível de
desemprego baixo e não retroceder nos programas sociais. Em 2022, o Lula
basicamente operou dizendo que as pessoas iam voltar a exercer um consumo que
não estavam exercendo, que é uma metáfora de picanha, churrasco e cerveja. Mas,
nessa eleição [de 2026], o governo não tem um argumento econômico de esperança.
Ele tem vários paliativos: tem o paliativo do Desenrola para quem está
endividado, o paliativo da mudança na tabela de imposto de renda. De alguma
maneira, a esperança de que a questão da escala 6x1 venha realmente a se
viabilizar e se concretizar. Estamos vendo uma eleição em que o PT tem uma
dificuldade de dizer qual é a esperança que ele está vendendo para um quarto
mandato do presidente Lula. Por outro lado, do lado da oposição, também há um
vazio bastante grande em relação a propostas para economia, para reduzir o
endividamento das pessoas. E uma coisa que nunca ganhou eleição no Brasil foi o
argumento de que basta tirar o PT que a economia vai melhorar. Então a oposição
também não está dialogando ainda com esse grupo que vai decidir a eleição. Claro
que esse grupo também está afetado por questões de segurança pública. Só que a
segurança pública é um tema que é diluído nas eleições, entre uma discussão
presidencial e a discussão do governo de Estado com a Polícia Militar, Polícia
Civil, e até discussão em nível municipal, com a Guarda Municipal, com câmeras
de segurança. Enfim, a segurança vira um tema de todos. Então, eu acho que o
tema crucial da eleição é economia.
·
Qual é o perfil social desse grupo?
Maurício
Moura - São
pessoas de dois a cinco salários mínimos, têm atividade empreendedora e a
maioria são mulheres. Elas são concentradas muito na região metropolitana do
Sudeste: São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro. E são muito apolíticas,
estão fora das discussões das bolhas. Isso tem um efeito prático: a decisão de
voto é muito lá na frente. Elas se desdobram em diversas atividades, são mais
conservadoras, frequentam cultos, frequentam igrejas. Já votaram no Bolsonaro,
já votaram no Lula. Hoje a grande questão é: são pessoas que votaram no Lula em
2022, mas estão infelizes com o governo, justamente porque a vida está mais
difícil do ponto de vista econômico. Mas também tem uma memória muito ruim do
governo Bolsonaro, principalmente na gestão da pandemia. Então, por isso é um
campo de batalha no aspecto de quem vai conquistar esses votos. E o que eu vejo
hoje é que nem o governo, nem a oposição têm um argumento econômico que possa
encantar nesse momento esse grupo.
·
Então, o Sudeste será determinante nesta eleição?
Maurício
Moura - Totalmente.
Inclusive foi o Sudeste que elegeu o presidente Lula em 2022, porque foi onde
ele conseguiu avançar nos votos que tinham sido no Bolsonaro. O presidente Lula
ganhou na capital [São Paulo], conseguiu boa votação na região metropolitana, o
mesmo aconteceu no Rio de Janeiro e o mesmo aconteceu no entorno de Belo
Horizonte. Apesar de ele ter perdido em Belo Horizonte, ele conseguiu avançar,
comparado com o que o PT tinha tido em 2018 na região metropolitana de Belo
Horizonte. Então, esse grupo é fundamental. E, como eu falei, é um grupo aberto
para oscilar para os dois lados, porque ele não está nessa bolha do dia a dia
da política, que é uma bolha que estabeleceu a divisão do país.
·
Alguns analistas têm destacado a deterioração do apoio do
PT no Nordeste. Isso é verdade? Fica então ainda mais importante, para Lula, ir
bem no Sudeste?
Maurício
Moura - É
verdade, do ponto de vista das pesquisas de opinião. Mas a grande questão é que
muitos eleitores [do Nordeste] que hoje não dizem que vão votar no presidente
Lula — e a gente está falando aí, dependendo do Estado, de 5% ou 6% [dos
eleitores] — eles também rejeitam o outro lado. Então, na hora da decisão,
muito provavelmente eles não vão votar na oposição. Por isso, eu acho que o
Nordeste tende a ter uma votação bastante similar a 2022. O que vai decidir [a
eleição] é essa votação dessas franjas metropolitanas no Sudeste, porque são
eleitores que não gostam de nenhum dos lados, mas também não rejeitam
totalmente. Já transitaram entre os dois lados.
·
Nesse contexto, como as disputas pelos governos estaduais
de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais ajudam ou atrapalham Lula e Flávio
Bolsonaro?
Maurício
Moura - Esse
ciclo tem uma característica muito diferente de 2022: os governadores hoje têm
uma aprovação maior do que o presidente e do que o candidato de oposição, o
Flávio. Pegando o exemplo do Tarcísio: nas pesquisas, tem 10% de gente que diz
que vai votar no Tarcísio e vai votar no Lula. Então, o Tarcísio é maior do que
o Flávio hoje. Em 2022, o Jair Bolsonaro e o próprio presidente Lula eram cabos
eleitorais importantes para as eleições de governador. Agora [nesta eleição],
não necessariamente. Mesmo no Nordeste, onde, obviamente, o peso do presidente
Lula [é grande]. Em Pernambuco, Bahia, Ceará, são governos bem avaliados, em
que os governadores têm mais de 50% de aprovação. Então, eu estou vendo uma
dissociação da eleição de governador, comparado com a associação que tivemos em
2022. E lembrando que a chance de a eleição para governadores acabar no
primeiro turno é muito maior esse ano, porque tem menos candidatos. São Paulo é
um exemplo disso, porque praticamente só tem dois candidatos viáveis, e isso
tem se repetido em diversos estados. No caso de Minas Gerais, eu sempre
acreditei que a eleição de governador de Minas Gerais pouco dizia sobre a
eleição para presidente. Várias vezes o PT ganhou lá [a eleição nacional],
inclusive em 2022, sem ter um candidato forte no Estado. Inclusive, em 2022, o
Zema foi reeleito no primeiro turno e a gente teve um fenômeno lá chamado
Luzema [pessoas que votavam em Lula para presidente e Zema para governador],
como já teve Lulaécio [Lula para presidente e Aécio para governador] e o
Anastadilma [Antonio Anastasia para governador e Dilma para presidente]. Então,
Minas Gerais é muito particular e, neste ano, talvez seja a eleição de
governador mais imprevisível do Brasil. Todas as pesquisas públicas mostram 90%
de indecisos na pesquisa espontânea. Tem vários candidatos, de todas as
frentes: esquerda, direita, extrema-direita, centro-esquerda, centro. Tem toda
uma distribuição de candidaturas ali que faz com que essa eleição de Minas
talvez seja a eleição mais imprevisível que eu tenho acompanhado.
·
A que atribui a recuperação do Flávio? O escândalo
do Dark Horse acabou tendo um impacto limitado?
Maurício
Moura - Sim,
teve um impacto limitado por uma questão bastante óbvia: a gente está com o
país dividido entre quem quer que esse governo continue e quem não quer que
esse governo continue. Obviamente, muita gente que não quer que esse governo
continue não gosta do Flávio, mas enxerga hoje o Flávio como a alternativa mais
viável para tirar o PT. Então, ele estava numa ascensão nas pesquisas de
opinião e teve uma perda nas simulações de segundo turno, principalmente,
depois do Dark Horse e do vídeo da Michelle também. Mas agora
percebemos uma reacomodação desses eleitores que tem uma característica bem
forte: eles reprovam o governo e acham que esse governo não merece continuar. No
Instituto Idea, temos um cenário muito mais forte de [a eleição acabar no]
primeiro turno do que é ventilado. Então, eu acredito, inclusive, que o Flávio
ainda tem mais fôlego para crescer. Claro, eu estou considerando que nenhum
evento vai implodir a candidatura dele. Estou olhando os números de hoje. Ele
passou por duas crises graves na campanha, e os números dele são os números
mais sólidos de um segundo colocado desde 1989 nesse momento, o que mostra que
o sentimento divisor do país continua muito bem estabelecido.
·
Você vem apontando chances relevantes de a eleição ser
resolvida no 1º turno. Mesmo com o desenrolar da campanha, continua com essa
leitura?
Maurício
Moura - Sim,
são três motivos. O primeiro, do lado do presidente Lula, é que é a primeira
vez que ele não vai ter concorrência real na esquerda. Então, ele tende a ter
um percentual de votos muito similar à aprovação dele. É uma coisa natural:
quem aprova o governo, não tendo uma alternativa no seu campo ideológico, acaba
naturalmente migrando para o Lula. Então, ele vai flertar com o primeiro turno.
O Lula
tem um problema de ganhar no primeiro turno: a abstenção sempre prejudica o PT,
que é uma das coisas que é mal interpretada nas pesquisas na reta final. As
pesquisas têm uma amostra do eleitorado inteiro, mas é 80% do eleitorado que
aparece para votar. Esses 20% [que não votam] são mais pessoas de menor renda,
menor escolaridade. Isso sempre afeta o PT. Por outro lado, ele não tem a
concorrência que ele teve [nas eleições passadas]. Em 2002, teve o Garotinho,
que fez 16% [no primeiro turno]. Em 2006, a Heloisa Helena fez 7,5% e o
Cristovam Buarque também roubou o voto do Lula. Em 2010, a Marina Silva fez
quase 20% dos votos. Em 2014, a própria Marina também roubou voto do PT. Em
2018, teve Boulos, teve Marina, teve Ciro roubando voto do PT. E, em 2022, a
Simone Tebet e o Ciro Gomes roubaram o voto do PT. Esse cenário não existe
dessa vez. E tem uma coisa muito importante: um segundo turno para o presidente
Lula é muito complexo, porque ele não vai ter mercado de voto para conseguir
[ampliar sua votação]. Em 2022, ele teve um terço dos votos da Simone e um
quarto dos votos do Ciro [no segundo turno]. Dessa vez, qual é o candidato, ali
entre Renan, Zema e Caiado, que vai oferecer espaço [para Lula crescer]? Então,
o primeiro turno é muito importante para o Lula.
·
E do lado do Flávio Bolsonaro?
Maurício
Moura - Do
lado da oposição, há o antipetismo de chegada, que é quando as pessoas deslocam
o voto [para o candidato mais competitivo contra o PT]. O eleitor quer até
votar num determinado candidato, mas acaba fazendo um voto útil no candidato
melhor posicionado para ganhar do PT. Em 2018, isso ficou bem claro na
transferência de votos de Alckmin para Jair Bolsonaro. Alckmin estava com algo
entre 10% e 15% nas pesquisas e acabou com 5%. Em 2022, parte do eleitorado do
Ciro Gomes e da Simone Tebet que não gostava do Lula acabou votando no
Bolsonaro já no primeiro turno. Teve essa antecipação [do voto do segundo
turno], e eu acredito que isso vai acontecer de novo. Claro que, se uma das
candidaturas Zema, Caiado ou Renan conseguir subir para uma pontuação de dois
dígitos no primeiro turno, vamos ter que esperar o segundo turno. Mas o nível
de voto espontâneo desses três ainda é muito baixo e vai ser muito difícil para
Zema, Caiado e Renan segurar os eleitores [de migrarem para Flávio] se o Lula
estiver flertando com ganhar no primeiro turno. O antipetismo de chegada é
muito forte. E o antipetismo de chegada, ao contrário do PT, se beneficia da
abstenção, ele fica [proporcionalmente] maior com a abstenção. É por isso que
todo mundo toma um choque [quando sai o resultado do primeiro turno], quando
sempre a diferença entre o PT e o segundo colocado é muito menor do que nas
pesquisas. E também tem um terceiro fator. Muita gente desses 4% que falei, que
não gosta nem de Bolsonaro nem de Lula, pode, eventualmente, ter uma mexida de
1 ou 2 pontos percentuais por causa de abstenção e de votos brancos e nulos, o
que obviamente sai da equação de voto válido também [e aumenta as chances de a
eleição acabar no primeiro turno]. Eu me lembro que o João Doria, que ninguém
imaginava que ia ganhar [a eleição para prefeito de São Paulo] no primeiro
turno em 2016, ganhou por causa dos votos brancos e nulos e por causa da
abstenção. A minha hipótese é: a combinação de um PT sem concorrência, o
antipetismo de chegada, um desânimo do eleitor de escolher entre as opções e um
número menor de candidaturas — esse é o quadro de um potencial [fim da eleição
ainda no] primeiro turno.
·
Você descreveu um cenário bem desafiador para o Lula em
um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro. Por outro lado, ao menos
desde a redemocratização, nunca ocorreu de um candidato que venceu o primeiro
turno ser derrotado no segundo turno. Uma virada seria algo inédito, certo?
Maurício
Moura - É
verdade, mas também seria algo inédito um presidente com essa avaliação e essa
aprovação, nesse momento, ser reeleito também, porque os números da presidente
Dilma em 2014 eram melhores do que os do Lula. Lula tem números bastante
similares aos que o Bolsonaro tinha nesse momento. Então, se por um lado é
verdade que o candidato que passa em primeiro sempre ganha, por outro lado, é
verdade também que esse nível de avaliação e aprovação não é um nível que o
coloca num campo de reeleição. Eu não acredito que seja por uma diferença muito
grande, se Flávio e Lula forem para o segundo turno. Porque, em 2022, foi uma
diferença de quase 6 pontos percentuais [entre Lula e Jair Bolsonaro no
primeiro turno]. Eu não acredito nisso. Acho que vai ser muito parecido com uma
antecipação que teve do segundo turno na eleição da Colômbia, agora. A Colômbia
estava com três candidatos viáveis, inclusive Paloma Valencia, que ficou em
terceiro, ela pontuava 15%, 16% nas pesquisas. Na reta final, ela acabou com 7%,
e os outros dois candidatos passaram para o segundo turno com o nível de
votação muito parecido. Eu acho que, se for para o segundo turno, vai ser muito
próxima a votação.
·
Você já destacou a importância do voto feminino para
Lula. Por que Lula tem vantagem ampla entre as mulheres?
Maurício
Moura - Nas
nossas pesquisas, isso se deve muito mais à rejeição ao sobrenome Bolsonaro do
que a qualquer medida específica desse governo, qualquer política pública que
realmente tenha feito a diferença no dia a dia. Mas uma coisa é importante
falar, que eu aprendi eleição após eleição: as mulheres, em média, tomam a
decisão mais próximo do dia da eleição. Isso ocorre em diversos países. Então,
a gente vê esse gap de gênero nas pesquisas, mas esse gap diminui muito quando
chega na hora da votação. Isso aconteceu com Donald Trump e Kamala Harris.
Tinha um gap de gênero muito forte. Na hora, quando chegou na reta final, o gap
de gênero basicamente se traduziu nas mulheres com nível superior. Em 2018,
também tinha um gap de gênero de mulheres [favorável] ao Haddad com o Bolsonaro
e, na reta final, as mulheres convergiram com o Bolsonaro. E a mesma coisa em
2022: elas foram fundamentais para a vitória do Lula, só que a diferença que o
Lula tinha nas pesquisas era maior do que na hora da conversão [do voto]. Eu
também acredito que as mulheres que não gostam do PT e que não gostam do Lula,
elas tendem a votar no Flávio. Essa diferença que a gente vê nas pesquisas, eu
já acho que dificilmente se sustenta. O Lula tem grandes chances de ganhar
entre as mulheres, mas não nesse gap que estamos vendo hoje.
·
Por que o novato Renan Santos tem desempenho similar ao
dos dois ex-governadores do Caiado e do Zema.
Maurício
Moura - Porque
ele conseguiu penetrar num nicho que são homens de alta escolaridade, urbanos,
que são muito fiéis a ele. E é um nicho que foi construído ao longo do tempo
com a inserção do MBL nas redes sociais e, obviamente, o Caiado e o Zema não
têm esse mesmo nicho. No caso do Caiado, pelo menos ele vai muito bem no Estado
dele. Ele é muito aprovado e lidera as pesquisas em Goiás. E o Zema, em Minas
Gerais, tem 12%. Cada um tem seu nicho, mas o nicho do Renan é bem
estabelecido. A dificuldade vai ser expandir esse nicho. Tem uma dificuldade
óbvia de nível de conhecimento. Inclusive, Caiado e Zema também são
desconhecidos. E PT e o PL vão ter muito mais tempo de televisão e recurso
financeiro para a campanha. E, obviamente, candidatos de nicho têm propostas de
nicho. Essas propostas têm ressonância com grupo, mas, quando você quer ampliar
seu espectro eleitoral, você tem que ampliar seu espectro de propostas também. Eu
não sei se a gente vai ver isso no Renan. Se o Renan conseguir puxar deputados
federais para o partido que está iniciando agora, eu acho que é um grande êxito
a campanha dele.
·
Agora que as candidaturas estão definidas nos Estados,
qual a sua avaliação sobre a disputa pelo Senado? Há chance de ter uma maioria
favorável ao impeachment de ministros do STF no próximo ano?
Maurício
Moura - É
um tema que está pautando a eleição. Muita gente não sabe o que faz o senador,
mas sabe que o senador pode fazer o impeachment no Supremo.
Sabemos
que essa eleição é muito complicada. Só um terço das pessoas sabe que vai votar
para dois senadores. A decisão do voto do Senado é muito próxima do dia da
eleição. Isso se acentuou depois que a campanha passou de 12 semanas para seis
semanas em 2018. É uma eleição muito complicada, que correlaciona ou com o voto
de presidente ou com o voto de governador. As pesquisas hoje dizem muito pouco
sobre o Senado. Dizem basicamente o recall [lembrança do nome] dos candidatos,
porque as pessoas não estão engajadas. Agora, para tentar responder à pergunta,
eu acho que vai ter um aumento de bolsonaristas no Senado, porque diversas
candidaturas claramente bolsonaristas, que passam pela própria Michelle no DF,
Dellagnol (Novo) no Paraná, o Van Hattem (Novo) no Rio Grande do Sul, Carlos
Bolsonaro em Santa Catarina... Se essas candidaturas tiverem êxito, obviamente
elas vão ocupar um espaço que é de centro-direita, de um centrão. E,
obviamente, esse tema vai ganhar relevância [no Senado]. Agora, eu não sei se
haverá maioria, não.
·
Em São Paulo, Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB)
estão bem nas pesquisas para o Senado, mas o governador Tarcísio Freitas
(Republicanos) aparece com força para uma reeleição. E sabemos que,
normalmente, um governador reeleito consegue eleger ao menos um senador. Essa
vantagem de Marina e Tebet pode ser ilusória?
Maurício
Moura - Simone
Tebet e Marina Silva foram duas candidatas à Presidência da República, o que,
obviamente, gera um recall [lembrança] natural dos seus nomes. A chance de ter
uma correlação do voto no Tarcísio com um dos senadores é enorme. Eu acredito
que a disputa de Marina ou de Simone é pelo segundo voto. Eu acho que uma das
duas que conseguir ser o segundo voto de quem vota primeiro num senador do
Tarcísio, por exemplo, tem grande chance de ser eleita. Se elas ficarem
confinadas ao voto da esquerda, ao voto do Lula, aí aumenta a chance de ter
dois senadores do outro campo. A questão é que o outro campo também está
dividindo o voto. Tem o André do Prado (PL), tem Guilherme Derrite (PP), tem
Ricardo Salles (Novo). Então, se por um lado eles tendem a correlacionar com o
voto do Tarcísio, por outro lado eles estão se dividindo também. Mas eu acho
que é importante deixar claro que as pesquisas de hoje dizem muito pouco sobre
isso.
Fonte:
BBC News Brasil

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