sábado, 29 de agosto de 2026

“A esquerda precisa fazer mais para imaginar o futuro”

A apropriação crítica dos impactos da tecnologia sobre o trabalho e as possibilidades de reorganização econômica pós-capitalista têm sido debates centrais das ciências sociais contemporâneas. Nesse contexto, a obra de Aaron Benanav emerge como uma das contribuições mais originais e provocadoras da última década. Professor do Departamento de Global Development na Universidade Cornell, Benanav combina história econômica, teoria social e análise empírica para questionar narrativas dominantes sobre automação, desemprego e o futuro do trabalho. Sua pesquisa percorre temas que vão desde a estagnação econômica e a desindustrialização até as disputas em torno de tecnologia, classe trabalhadora e democracia econômica.

Ao longo de sua trajetória acadêmica, que inclui um doutorado em História pela Universidade da Califórnia, Los Angeles, posições em instituições como a Universidade Humboldt e a Universidade de Chicago, além de contribuições em revistas e jornais acadêmicos e de grande circulação, como The New York Times, The Guardian, The Nation e New Left Review, Benanav consolidou-se como uma voz crítica que conecta passado e futuro do capitalismo global.

A chegada ao Brasil de seu livro Automação e o futuro do trabalho representa um marco significativo, já que a obra tem ocupado lugar de destaque no debate contemporâneo sobre tecnologia, emprego e dinâmica econômica global. Publicado originalmente em inglês em 2020 sob o título Automation and the Future of Work, o livro ganha agora uma edição em português pela Boitempo, oferecendo ao público brasileiro uma análise crítica robusta dos mitos e realidades que cercam a automação e o seu impacto sobre o mundo do trabalho.

Em vez de aceitar as narrativas dominantes que atribuem a crise do emprego à tecnologia em ascensão, Benanav reorienta a discussão para as contradições estruturais do capitalismo moderno – em especial a estagnação econômica de longo prazo, a desindustrialização e a incapacidade dos setores de serviços de absorver plenamente a força de trabalho – e propõe reflexões profundas sobre alternativas emancipatórias à lógica capitalista vigente.

LEIA A ENTREVISTA:

·        Aaron, quais questões você está tentando responder no seu livro e por que ele é relevante para os leitores brasileiros?

O livro trata de como vivemos nesta era em que todos falam sobre automação e, agora, sobre inteligência artificial, e da ideia de que estamos vivendo um período em que tudo está se acelerando e ficando mais rápido – e como vamos acompanhar todas essas mudanças. E o que eu escrevo no livro é que, na verdade, muitos aspectos da nossa economia estão desacelerando e, de fato, estão estagnados. A economia não está tanto destruindo muitos empregos, mas sim deixando de criar muitos empregos.

Então, no livro, eu tento entender essa tensão entre essas duas perspectivas, que você também consegue perceber andando pelo Rio aqui. Essa sensação de que tudo deveria estar mudando dinamicamente, mas que, de várias maneiras, parece muito mais estagnado. E eu acho que o livro é muito relevante para o Brasil, que é um país onde, me parece, a economia está tendo muita dificuldade para encontrar esse motor de crescimento, e muito do livro é sobre isso.

·        O argumento central do livro desafia diretamente a perspectiva que atribui um enorme poder social à automação na destruição de empregos, embora ainda reconheça que a automação tem um impacto real. Você poderia elaborar um pouco mais sobre isso, destacando quais setores são realmente afetados e quais não são?

Quando você lê sobre isso na mídia, parece que todos os empregos correm o risco de serem eliminados pela automação e pela inteligência artificial. Mas, na prática, muito poucos empregos estão sendo eliminados. E quando você pergunta: “Bem, quais empregos estão desaparecendo?”, na verdade, muito poucas ocupações, como categorias inteiras, estão desaparecendo. O que está acontecendo mais concretamente é que os empregos estão mudando. Então, se você pensar na transição dos taxistas para Uber e outros tipos de trabalhadores de plataforma, os empregos ainda existem, mas o trabalho muda de caráter. Então, acho que vemos muito dessa transformação digital do trabalho e, em muitos casos, ela está tornando o trabalho pior.

E avalio que, quando o Vale do Silício nos diz que esses empregos estão todos desaparecendo, parcialmente isso serve para nos fazer sentir que não deveríamos lutar para tornar esses empregos melhores. Mas, na verdade, precisamos, sim, lutar para melhorá-los.

·        No livro, você argumenta sobre a ambiguidade das propostas de renda básica universal, que atravessam todo o espectro político. No Brasil, essa demanda certamente é vista como uma posição de esquerda, talvez até de esquerda radical. Você poderia elaborar sobre essa ambiguidade política que o livro aponta?

No livro, eu explico que não devemos tratar a renda básica e programas como o Bolsa Família como uma bala de prata, como uma solução definitiva para os problemas. Mas isso não significa que esses programas não tenham um papel importante. Na verdade, eu acho que, muitas vezes, o Estado de bem-estar social – especialmente nos Estados Unidos – é muito punitivo. Ele faz com que as pessoas pobres precisem se esforçar muito para conseguir acesso à ajuda. Então, acho que há algo muito positivo na ideia de tornar os programas sociais mais universais e de fazer com que ajudem mais as pessoas pobres e aquelas que precisam de assistência imediata.

Não acho que haja necessariamente algo ruim nisso. De fato, existe algo bastante positivo em defender uma ampliação da ajuda aos pobres e seu acesso à renda básica universal. Mas o problema é que isso não vai resolver nossos problemas. E, como imagino que vocês já vejam aqui no Brasil, se a economia mais ampla não estiver crescendo rapidamente, então até mesmo esses programas passam a enfrentar muitas pressões por austeridade e redução da assistência. Então, apenas ter uma renda básica, por si só, não vai resolver os problemas maiores da economia.

·        Em seu livro, você utiliza a expressão “greve do capital” para se referir ao fato de que, nas últimas décadas, o capital tende a permanecer ocioso ou a ser direcionado para aplicações financeiras, compra de ações, aquisição de ativos e outras formas de valorização que não implicam a criação de novos postos de trabalho. Esse tema nos pareceu particularmente difícil de resolver politicamente. Que caminho você sugeriria para superar essa verdadeira trincheira do poder de classe?

Diria que esse é um bom exemplo, porque se você tem uma renda básica, ela pode ajudar a aliviar parte da pobreza e da privação, mas não consegue resolver o problema de que, numa economia como esta, os capitalistas simplesmente não estão investindo. E eles usam sua capacidade de reter investimentos para dizer ao governo: “Vocês precisam criar um ambiente de negócios melhor para nós. Precisam reduzir proteções trabalhistas. Precisam remover regulações ambientais e assim por diante, para que fiquemos mais encorajados a investir.”

E eu penso que esse é um problema realmente difícil. A solução, na minha visão, é aumentar fortemente o investimento público e deslocar o investimento privado lucrativo em direção a essa forma mais pública de investimento. E aí você pode investir na construção da infraestrutura de que as pessoas realmente precisam para viver boas vidas. Acho que pode haver uma luta real entre o setor privado e o setor público. Mas isso é muito difícil de fazer, porque o Estado está majoritariamente a serviço do capital, então ele só quer melhorar as coisas para os ricos, em vez de enfrentar o poder deles.

·        Uma seção incomum em livros críticos sobre o capitalismo que o seu livro oferece é o capítulo seis, “Necessidade e liberdade”, no qual você delineia os contornos de uma sociedade pós-escassez. Qual foi sua intenção ao incluir esse capítulo no livro?

Uma das razões pelas quais fiquei muito interessado no debate sobre automação e IA é que as pessoas que falam sobre isso oferecem alguma visão de futuro que deveríamos tentar alcançar. Elas dizem: “Olhem, não deveríamos nos opor a essas tecnologias que podem acabar com empregos, porque talvez um dia possamos viver num mundo em que não precisemos trabalhar e possamos aproveitar a vida e encontrar sentido nela de outra forma.”

E acredito que há algo muito bonito nessa ideia, nessa tentativa de imaginar um futuro melhor. Eu só acho que o futuro que eles oferecem está errado. Não é um futuro em direção ao qual estamos caminhando nem um futuro que faça sentido tentar construir. Mas podemos imaginar outros futuros que não exigem que a inteligência artificial elimine todos os empregos e planeje toda a economia para nós. Podemos imaginar outros futuros que ainda sejam muito bons sem precisar disso.

Assim, no livro, tento explicar o que significaria viver num mundo no qual usamos a tecnologia para nos ajudar a viver vidas com dignidade e segurança, vidas numa economia ecologicamente mais sustentável, em que todos trabalhem menos e tenham acesso ao que precisam. Mas esse também é um mundo em que compartilhamos tanto os fardos do trabalho quanto os frutos desse trabalho.

Então, sim, no meu ponto de vista, a esquerda precisa fazer mais para imaginar esse futuro, especialmente depois do fracasso do socialismo de Estado no século XX. Acho que precisamos fazer mais para imaginar e apresentar às pessoas uma visão positiva do que poderia vir a seguir.

·        Existe uma crítica implícita aos marxistas contemporâneos nessa seção, como se você estivesse sugerindo que o pensamento revolucionário carece de criatividade e precisa sonhar mais? Está correto?

Penso que isso é verdade. Acho que realmente precisamos sonhar mais. Marx disse algo como: quando o movimento da classe trabalhadora estiver mais desenvolvido, não precisaremos mais de utopias. Mas, na verdade, depois da morte de Marx, no final do século XIX, justamente quando o movimento operário estava ficando muito forte, foi quando surgiram todas essas imaginações utópicas.

E, de fato, o livro mais popular na Alemanha entre os membros do Partido Social-Democrata no final do século XIX não era O capital, de Marx, mas sim Mulher e socialismo, de August Bebel, que apresentava toda uma visão de futuro que se tornou muito poderosa para as pessoas. Então acho que deveríamos escrever livros sobre “mulheres e socialismo” hoje, mas também livros sobre como esse futuro poderia ser no século XXI. Acho isso importante.

·        Como você responderia à crítica de que seu livro apresenta, assim como os autores que você critica, uma posição utópica e não imanente?

Acredito que, quando vivemos tempos em que a economia está bastante estagnada e há muita luta social que não consegue encontrar um programa coerente e inspirador, a demanda por algo assim corresponde muito ao espírito do momento. E algo que percebi é que, justamente quando comecei a trabalhar nisso, muitas outras pessoas também começaram, porque isso parece uma necessidade do nosso tempo, de uma forma que me parece muito conectada às lutas sociais, e não algo externo a elas.

·        Na sua visão, quais deveriam ser as principais tarefas da reflexão marxista hoje?

Creio ser um pouco difícil para mim dizer o que isso significaria aqui no Brasil. Muitas vezes, essas questões são muito contextuais, e é importante respeitar a autonomia da organização política e as particularidades de cada lugar. Então, eu teria um pouco de cautela com isso.

Mas eu diria que, nos Estados Unidos, minha experiência é que entramos numa era em que ser crítico do Vale do Silício e dos grandes magnatas da tecnologia se tornou algo bastante difundido. As críticas ao capitalismo já são muito conhecidas. E, na verdade, avançar para uma abordagem mais construtiva, em que não apenas dizemos o que está errado na sociedade, mas também o que queremos construir, parece muito importante agora, pelo menos onde eu vivo.

·        As plataformas digitais e os algoritmos representam uma nova fase do capitalismo ou apenas novas formas de gerir o trabalho precário?

Acho que são novas formas de gerir o trabalho precário. Sou muito cético em relação às ideias de que entramos numa fase de tecnofeudalismo ou capitalismo rentista, ou a essas tentativas de nomear a era com um novo termo. Acho apenas que o capitalismo continua existindo num período de baixo crescimento e estagnação.

E, em períodos assim, acredito que as empresas fazem um esforço especial para encontrar tecnologias que aumentem a exploração, retirem renda dos trabalhadores e a transfiram para os capitalistas. Há muito menos espaço para qualquer tipo de pacto social ou negociação e muito mais esforço para introduzir tecnologias que enfraqueçam o trabalho. E não avalio que isso seja algo especial de uma nova era. É apenas uma característica do capitalismo. Agora, as tecnologias digitais se tornaram a principal ferramenta para fazer isso, mas usar novas tecnologias para suprimir as demandas dos trabalhadores acontece há duzentos anos.

·        A expansão do trabalho informal e precário é resultado da tecnologia ou da estagnação econômica?

Creio ser importante dizer que isso decorre de muitas coisas. A expansão do trabalho informal e precário aconteceu ao longo de todo o século XX – obviamente mais na segunda metade do século XX – e continuou até hoje. E muitos fatores estiveram envolvidos. Houve a expulsão do trabalho agrícola do campo, a expansão demográfica das populações urbanas, as falhas da industrialização em empregar muitas pessoas nas áreas urbanas e a desindustrialização precoce, especialmente no Brasil, mas também em toda a América Latina nos anos 1980.

Então, penso que a produção desse tipo de setor de baixos salários, baixa renda, baixo crescimento de produtividade, majoritariamente de serviços e alguma atividade industrial informal e precária já acontece há muito tempo. E acho que a emergência da economia de plataformas apenas apresenta uma nova forma de organizar esse trabalho para o capital, mas não é diretamente responsável pela produção dessas populações.

Na verdade, países que apresentam crescimento econômico mais acelerado veem o setor informal diminuir. Então, isso é realmente um fenômeno de demanda insuficiente por trabalho e crescimento insuficiente.

·        Nesse sentido, como analisar a dinâmica do excedente de trabalho, especificamente na América Latina?

Sabemos que os marxistas latino-americanos vêm analisando isso há muito tempo, desde os anos 1960. Houve, especialmente na Argentina e em outros países da região, diversas teorias marxistas sobre marginalidade e população excedente. Naquela época, muitos analisavam isso em termos de uma espécie de capitalismo monopolista e da teoria da dependência. Hoje existem também as teorias do neoextrativismo, que procuram explicar essa dinâmica especificamente na América Latina.

O que considero útil nessas abordagens é que todas elas ajudam a explicar por que tem sido tão difícil fazer com que as elites empresariais e políticas latino-americanas apoiem até mesmo um programa desenvolvimentista moderado. Existe uma pressão muito forte para manter tudo dentro dessa lógica extrativista.

Então, acho que há uma produção intelectual muito importante vinda da América Latina para explicar esse fenômeno de maneira específica. Talvez o meu trabalho ajude a situar isso dentro de um contexto mais global, porque as pressões que existem aqui também estão ocorrendo em várias partes do mundo.

·        Se o problema central é a estagnação econômica e não simplesmente a automação, quais seriam as respostas políticas mais adequadas?

Como eu disse antes, considero muito importante respeitar a autonomia da política em diferentes regiões. Por isso, não sou a pessoa mais indicada para dizer o que as pessoas deveriam fazer aqui.

Mas, no livro, desenvolvo uma ideia que chamo de “conquista da produção”. Defendo que é importante não apenas lutar por programas de bem-estar social de inspiração social-democrata, mas realmente disputar o controle do Estado e transformar a economia.

Acredito que um amplo programa de investimento público, capaz de construir a infraestrutura necessária para uma economia muito mais orientada para o bem-estar, poderia confrontar de forma séria o poder do capital de moldar a nossa sociedade.

Mas penso que, em última instância, somente quando conseguirmos deslocar plenamente o capital e construir uma economia verdadeiramente pública, haverá potencial para alcançarmos um mundo semelhante ao que descrevo no último capítulo do meu livro.

É um problema difícil, mas considero fundamental que lutemos por essas transformações.

·        Para finalizar, você poderia nos fornecer uma pista, mesmo correndo o risco de dar um spoiler, sobre o que está escrevendo a respeito dos cenários de pós-capitalismo?

O último capítulo do livro sobre a automação serviu como ponto de partida para um trabalho que venho desenvolvendo há cinco anos, com o objetivo de construir uma explicação muito mais completa.

E, na verdade, daqui a algumas semanas será publicado um programa de transição bastante detalhado sobre como passar de uma sociedade capitalista para um futuro socialista. Acredito que esse programa não apenas garantiria às pessoas aquilo de que necessitam, mas também lhes daria condições reais de participar da construção da economia e da sociedade em que vivem, de forma verdadeiramente democrática.

No novo trabalho, apresento esse programa de transformação. Para mim, portanto, não basta ter uma visão de futuro. É preciso mostrar como essa visão pode orientar uma política capaz de nos conduzir efetivamente a esse novo mundo.

Penso que a grande dificuldade na América Latina, e também em muitas outras partes do mundo, é o elevado grau de dependência em relação à economia global. Isso torna muito difícil promover mudanças em um único país, ou mesmo regionalmente, sem transformar também a ordem internacional, especialmente a ordem monetária e financeira internacional, que considero um dos principais obstáculos para que qualquer região consiga romper com essa dependência.

Acho que vimos isso acontecer na América Latina, onde houve diferentes momentos e ondas de governos e movimentos de esquerda que enfrentaram enormes dificuldades para consolidar um caminho alternativo de desenvolvimento.

Portanto, essas são questões extremamente difíceis, mas, justamente por serem as mais importantes, é nelas que devemos concentrar nossa atenção.

 

Fonte: Entrevista com Aaron Benanav, por Marco Aurélio Santana (UFRJ), Tiago Magaldi (Unesp), Alexandre Fraga (Uerj) e Renata Monteiro (UFRJ), no Blog da Boitemp

 

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