Como reforma eleitoral beneficiou sigla ligada à Universal
Em
2015, o Brasil promoveu uma mudança significativa nas regras de financiamento
eleitoral ao proibir
doações empresariais e estabelecer limites para os gastos de
campanha. A primeira medida foi determinada pelo Supremo Tribunal Federal
(STF); a segunda, aprovada pelo
Congresso. Em meio aos escândalos revelados pela Operação Lava
Jato, as mudanças buscavam reduzir a influência do poder econômico sobre as
eleições.
Agora, um estudo sugere que
essa mudança produziu um efeito inesperado: esses limites mais rígidos de
gastos deram vantagem ao Republicanos, partido historicamente ligado à Igreja
Universal do Reino de Deus (IURD).
Segundo
os pesquisadores, a vantagem está relacionada à estrutura da Universal e que
reflete no Republicanos: presença territorial, capacidade de mobilização e uma organização
altamente centralizada - em um momento em que os demais partidos têm menos
acesso ao montante para realizar campanhas.
"A
igreja é uma maneira de se mobilizar fora do seio dos partidos políticos. Ela é
muito influente e, além de tudo, não precisa de financiamento eleitoral, dado
que é um tipo de organização que não precisa se preocupar em atrair recursos
para as eleições”, afirma Lucas Novaes, professor de Ciência Política do Insper
e um dos autores da pesquisa Special Interest Trade-Offs: Campaign
Finance Reforms and Religious Influence in Politics in Brazil ("Compromissos
entre interesses especiais: reformas no financiamento de campanhas eleitorais e
influência religiosa na política brasileira") ao lado de Melani
Cammett, de Harvard, e Guadalupe Tuñón, de Princeton.
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Lei é ponto de partida da pesquisa
A
mudança começou a valer nas eleições municipais de 2016. Os gastos de campanha passaram a
ter limites definidos por lei, calculados a partir do que havia sido
desembolsado na eleição anterior.
Mas a
regra estabeleceu um ponto de corte: municípios cujo maior gasto em 2012 ficou
abaixo de determinado valor receberam um teto fixo em 2016, enquanto aqueles
logo acima do corte tiveram um limite proporcionalmente maior. Isso fez com que
cidades com gastos muito semelhantes em uma eleição fossem submetidos a
tetos diferentes quatro anos depois, criando o que os pesquisadores classificam
como um experimento natural.
Na
prática, municípios situados imediatamente abaixo do corte ficaram sujeitos a
um teto de R$ 108.039, enquanto, logo acima dele, o limite saltava para R$
133.700, valores já corrigidos pela inflação entre 2012 e 2016. A diferença
permitiu comparar cidades semelhantes, mas sujeitas a restrições distintas, e
estimar o efeito de campanhas com menos dinheiro disponível.
Assim,
candidatos de um grupo tiveram uma restrição maior de recursos, enquanto os do
outro puderam gastar mais. Isso permitiu comparar os dois grupos e estimar o
efeito provocado especificamente por uma campanha com menos dinheiro
disponível, mostra o estudo.
"Nesses
municípios [com maior restrição], os candidatos do Republicanos, por poderem
contar com o auxílio das igrejas para a mobilização eleitoral, têm mais
incentivos para concorrer. A competição se torna mais favorável porque
candidatos de outros partidos não podem gastar tanto com mecanismos
tradicionais de campanha, como a contratação de cabos eleitorais”, diz Lucas.
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Relação Igreja x Republicanos
A
vantagem identificada pelos pesquisadores está ligada a uma relação entre
igreja e partido que vai muito além do apoio a determinadas
candidaturas. De acordo com Maria das Dores Campos Machado, professora
aposentada da UFRJ e pesquisadora de religião e política, o Republicanos
funciona como braço político da Igreja Universal, servindo tanto para lançar
candidaturas aos poderes Legislativo e Executivo nos estados e municípios
quanto para ampliar a influência da igreja junto ao governo federal.
"Em
algumas regiões os escritórios de campanha dos candidatos da IURD ficam em
edifícios pertencentes à Igreja ou em área anexa ao templo. As fronteiras entre
a religião e a política são muito fluídas e porosas", afirma. "Os
recursos são de várias naturezas: os cultos são momentos importantes para
apresentar ou defender candidaturas; usa-se também as gráficas para a produção
de material de divulgação; uso de pessoal, obreiros e obreiras para convencer o
eleitor nas ruas; uso da mídia religiosa, etc."
A proximidade
entre igreja e partido também é percebida na forma de
organização das duas instituições. Segundo Claudia Cerqueira, cientista
política e pesquisadora da relação entre a Igreja Universal e o Republicanos,
ambas são estruturadas de cima para baixo, em uma relação que ela classifica
como quase corporativa.
Na
avaliação da pesquisadora, a atuação dos candidatos do Republicanos é orientada
mais por questões econômicas e de poder do que propriamente religiosas. As
pautas de moral e costumes teriam uma presença mais reativa, enquanto temas
econômicos aparecem de forma recorrente na atuação política de seus
representantes.
"E
isso tem muita relação com o tipo de candidaturas que a igreja tenta emplacar.
Tem um termo de 'candidatura corporativa', ou seja, quem concorre pela IURD não
é simplesmente um candidato pastor, ele é um cara que representa os interesses
da igreja. Por isso acabaram incorporando todas essas atividades que são
necessariamente já pautadas pelo partido e igreja", afirma.
Segundo
a pesquisa, a maneira
centralizada de gestão também fortalece o controle do
Republicanos sobre seus quadros, facilitando sua permanência no partido e sua
mobilização em outras campanhas e pautas partidárias. "Se a Igreja vira um
ativo político e é centralizada, se esse político migrar de partido, ele não
vai conseguir levar consigo a organização da Igreja e os benefícios que a
Igreja traz para a sua carreira política", conta Lucas Novaes.
Essa
centralização também diferencia o Republicanos de outros partidos
historicamente ligados a igrejas evangélicas brasileiras. Um dos exemplos
citados no estudo é o Partido Social Cristão (PSC), que manteve uma relação com
a Assembleia de Deus e, em 2023 foi incorporado pelo Podemos.
"A
Igreja Assembleia de Deus é fragmentada e não tem o mesmo modelo de governo e
atuação que a IURD. Embora as duas igrejas trabalhem na formação de lideranças
para a política partidária, a IURD é uma igreja bem vertical, com uma
orientação centralizada e uma grande capacidade de controle sobre seus quadros
políticos”, afirma Maria das Dores Campos Machado.
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Mais candidatos em cidades com limite de gastos
Na
prática, a vantagem proporcionada pela estrutura da
Universalse refletiu também na estratégia eleitoral do Republicanos.
Segundo o estudo, o partido passou não só a vencer mais, como também a lançar
mais candidatos nos municípios submetidos aos limites mais rígidos de gastos.
"A
gente vê, através disso, que, de fato, aumentaram muito as candidaturas do
Republicanos nesses municípios tratados e, além disso, aumentou a quantidade de
candidatos eleitos do Republicanos nesses municípios, em comparação aos
municípios de controle, que são aqueles onde se pode gastar mais", diz
Lucas.
Os
resultados também foram influenciados desde o início da nova regra. Nos
municípios em que os locais de votação estavam mais próximos dos templos da
Igreja Universal, os limites mais rígidos aumentaram a vantagem eleitoral do
Republicanos; nos municípios em que essa distância era maior, esse efeito não
foi identificado. "Nas seções eleitorais mais perto de igrejas, a gente vê
também que o apoio cresce ainda mais para o Republicanos”, afirma o
pesquisador.
O
estudo encontrou ainda um movimento posterior à eleição de 2016: a Universal
passou a abrir novas unidades de forma desproporcional nos municípios
submetidos aos limites mais rígidos. Até a eleição seguinte, a diferença
acumulada chegava perto de um templo adicional nesses locais.
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Efeitos para além dos municípios?
Apesar
de o foco do estudo ser nas eleições municipais e seus desdobramentos, para
Novaes, porém, a lógica identificada pelo estudo continua relevante para
entender como uma base
religiosa organizada nos municípios pode se projetar para
outras esferas de poder.
"Dentro
do que a gente mostra aqui, diminuir o poder econômico teve esse efeito e esse
mecanismo é válido. A gente vê que a bancada evangélica continua forte e acho
que esse reforço na base municipal provavelmente reflete também em um maior
apoio para candidatos do Congresso, que eventualmente conseguem fazer leis ou
influenciar o processo legislativo de acordo com as preferências dessa base
local", afirma.
Ao
mesmo tempo, o crescimento do Republicanos para além de candidaturas
diretamente vinculadas à Universal abre frentes que podem ir além das pautas
tradicionais do partido. Um exemplo é São Paulo, governado por Tarcísio de
Freitas, que se filiou ao Republicanos em 2022 e não construiu sua trajetória
política dentro da IURD.
Para a
pesquisadora, quanto mais o Republicanos busca ocupar espaço no sistema
político e incorporar lideranças de outras origens, maior pode ser a
necessidade de acomodar interesses. "Talvez a IURD tenha que abrir mão de
muita coisa para crescer e se tornar um player tão importante em um sistema tão
fragmentado", conclui.
Procuradas,
a IURD, o Republicanos, a Assembleia de Deus e o Podemos não responderam aos
questionamentos da reportagem.
¨ 'Normalização da
religião' deixa fé menos explícita nas urnas, mas mantém influência política
Queda
de candidaturas com títulos religiosos pode refletir pragmatismo eleitoral e
desgaste da polarização, sem significar recuo da influência da fé ou a
importância da dimensão política.
Em um
levantamento feito pelo jornal O Globo, as eleições de 2026 registram uma mudança
significativa no cenário político brasileiro, com uma queda de 42% no
número de candidatos que utilizam termos religiosos em seus nomes de urna, em
comparação ao pleito de 2022. Esse movimento interrompe uma trajetória de
crescimento que vinha sendo consolidada desde 2010, devolvendo o patamar de
registros aos níveis observados em 2018.
Segundo
pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF), o fenômeno pode refletir uma
reacomodação nas estratégias de marketing eleitoral e uma maior cautela diante
da fiscalização do Tribunal Superior Eleitoral sobre o uso de templos. Oito
em cada dez brasileiros e brasileiras (81%) afirmam ser fundamental que seus
(suas) candidatos (as) nas eleições acreditem em Deus.
Essa
percepção é mais aguçada entre classes mais pobres (89% das pessoas cujos
rendimentos não passam de um salário mínimo) do que entre os mais ricos (57%,
entre aqueles que ganham de dez a 20 salários mínimos mensais).
Embora
a identidade religiosa continue sendo um pilar fundamental na mobilização de
bases conservadoras, para Péricles Andrade, essa redução indica que os
partidos políticos têm reavaliado suas estratégias com o eleitorado. "O
mais provável é que estejamos diante de uma mudança na forma de organizar as
campanhas, distribuir recursos e apresentar os candidatos ao eleitor".
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'Normalização' da religião na política
Como
explica o professor titular do Departamento de Ciências Sociais da Universidade
Federal de Sergipe (UFS), a estratégia atual de concentrar recursos e apoio
político nos candidatos considerados mais competitivos ou que já tenham um
mandato pode ser o motivo pela redução de nomes. Além disso, a adoção por uma
identificação religiosa ampla como cristão para evitar divisões pode explicar a
ausência de títulos como "pastor" ou "missionário" no
político.
"O
apoio pode circular pelas redes comunitárias, pelos grupos de fiéis, pelos
meios de comunicação religiosos e pela confiança construída no cotidiano. Com a
política cada vez mais profissionalizada, essas redes ganharam ainda mais
importância", afirma.
"A
religião pode estar menos visível no nome do candidato, mas continuar presente
nas relações, nos valores e nas estratégias que ajudam a organizar a disputa
eleitoral."
Essa
reavaliação também pode estar relacionada ao custo reputacional deixado pela forte
politização das igrejas nos últimos anos, avalia Yuri Sanches, head de
análise política da AtlasIntel. Segundo o analista, a redução da identificação
religiosa explícita ocorre em um contexto de maior desgaste da polarização brasileira, que levou
lideranças religiosas a se associarem diretamente às disputas políticas.
"Pastores, lideranças religiosas tiveram também que pagar um determinado
preço na sua reputação, na sua imagem, no seu relacionamento com os
fiéis", afirma.
Para
Sanches, depois de um período em que o debate político esteve intensamente
presente dentro das igrejas, um movimento de recuo se torna mais natural.
"Você
trazer o debate político para dentro da igreja não é trivial, embora tenha sido
bastante ativo, especialmente em igrejas evangélicas nos últimos anos."
Na
visão de Péricles, a redução mostra também que a religião migrou da mera
identificação pessoal do candidato para se consolidar como uma linguagem moral
de estruturação das propostas e de disputa pela moralidade pública. Vale
lembrar, o candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) declarou recentemente que um dos
seus primeiros atos seria decretar o Brasil como "um país
cristão", desconsiderando que o Brasil é um país laico segundo a
Constituição Federal de 1988.
"Essa
consolidação permitiu que propostas focadas na ordem, na disciplina e na
autonomia familiar fossem incorporadas ao debate secular e técnico, sem
depender de justificações teológicas explícitas."
Nesses
casos, a defesa de valores familiares, mérito e responsabilidade civil passa a
ser apresentada como parte da autonomia individual, da liberdade de escolha e
da limitação do papel do Estado, com pouca ou nenhuma centralidade
confessional.
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Queda envolve simbiose e pragmatismo político
Essa
dinâmica também ajuda a explicar como as organizações de fé e o sistema
político mantêm uma "simbiose profunda", funcionando como importantes
estruturas de engajamento eleitoral. Mesmo com o aumento da atenção sobre o uso
político de espaços religiosos e as restrições impostas pela legislação
eleitoral, a influência dessas instituições pode ocorrer por mecanismos menos
explícitos e mais difíceis de identificar juridicamente.
Péricles
explica que essa influência pode ocorrer de diferentes formas. Uma delas
está na associação entre a rotina religiosa dos fiéis e a circulação
sistemática de informações sobre pautas morais e supostas perseguições
ideológicas, criando referências políticas compartilhadas dentro das
comunidades. A autoridade das lideranças também pode ser convertida em
influência eleitoral por meio das redes de confiança e da ideia de fidelidade
entre membros da mesma comunidade, expressa em fórmulas como "irmão
vota em irmão".
Outra
estratégia está na utilização de discursos religiosos para recuperar a
legitimidade de políticos aliados que enfrentam crises ou questionamentos
éticos. Ao mesmo tempo, cartilhas, cursos de formação e palestras promovidos
por organizações – como a Conferência Brahvus do pastor Silas Malafaia – que
aproximam fé e política podem orientar as escolhas dos eleitores sem a
necessidade de pedidos explícitos de voto dentro dos templos.
Complementando,
Sanches pontua que o processo envolve justamente um cálculo entre o benefício
eleitoral da associação com determinada comunidade religiosa e o desgaste que
essa identificação pode provocar. O mesmo movimento, segundo ele, aparece na
redução de candidaturas que utilizam patentes militares, outro marcador
identitário que ganhou força durante o auge da polarização.
"Então,
é um trade-off entre o dividendo eleitoral que isso gera e o impacto
reputacional que isso vai gerar a nível institucional", resume, o que
explica que mesmo com a redução de candidaturas explícitas não houve uma queda
de influência de políticos religiosos.
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Maior representação de outras religiões na política
Embora
o levantamento de O Globo indique uma queda nas candidaturas evangélicas, outro estudo, realizado pelo grupo Ginga da Universidade Federal
Fluminense (UFF) sobre as eleições municipais de 2024, identificou um
crescimento expressivo no número de candidaturas relacionadas às religiões de
matriz africana. Foram 284 nomes em 2024, contra 63 em 2020.
Para Ana
Paula Mendes de Miranda, antropóloga, professora da UFF e coordenadora do
Ginga, o número ganha relevância quando observado dentro do universo de 8.731
candidaturas nas quais foi possível identificar algum pertencimento religioso.
A
pesquisadora, no entanto, recomenda cautela com a expressão "voto
afrorreligioso", por ela poder transmitir a ideia de que pessoas de
terreiro formariam um eleitorado homogêneo e necessariamente orientado pela
religião. Mais do que a existência de um "voto de terreiro" uniforme,
o levantamento permite observar a presença afrorreligiosa na política eleitoral
e como essa dimensão se articula com outros aspectos da vida social.
"A
política de terreiros não nasce com a eleição. Ela é anterior à participação
eleitoral e envolve uma luta histórica pela garantia de direitos, pelo
reconhecimento e pelo enfrentamento ao racismo religioso."
O
crescimento das candidaturas, portanto, pode ser compreendido também como uma
forma de levar para a arena institucional pautas e reivindicações que já fazem
parte da atuação dessas comunidades na sociedade. Diferente de outras fés,
Mendes pontua que aquelas de matriz africana possuem a particularidade de
estarem frequentemente atreladas à experiência racial, à ancestralidade, ao
território e às situações de discriminação.
"Isso
faz com que a defesa da liberdade religiosa não possa ser separada, em muitos
casos, da luta contra o racismo [...] O que existe é uma experiência social
compartilhada que pode produzir determinadas demandas políticas — sobretudo
quando estão em jogo a liberdade religiosa, a proteção dos terreiros, o
enfrentamento ao racismo religioso e o reconhecimento de direitos."
Sobretudo,
o medo de sofrer intolerância, discriminação ou ataques pode levar pessoas de
terreiro a não explicitar sua identidade religiosa durante uma campanha,
fazendo com que os dados oficiais não consigam captar toda a presença
afrorreligiosa na política. Como explica a coordenadora, declarar
publicamente esse pertencimento, em um contexto de racismo religioso, pode
aumentar a exposição à violência e à estigmatização.
Por
isso, esse número levantado pelo estudo não deve ser interpretado como o total
de pessoas de terreiro que disputaram as eleições. "Mais do que dizer que
temos '284 candidatos afrorreligiosos', é preciso compreender que temos 284
candidaturas que conseguimos identificar como afrorreligiosas", ressalta.
A
pesquisadora destaca que essa dificuldade de identificação também revela um
limite na própria forma como a participação religiosa na política costuma ser
analisada. Grande parte do debate sobre religião e política no Brasil toma a
experiência evangélica como referência, considerando como indicadores de
mobilização a existência de igrejas organizadas, lideranças, candidaturas
oficiais ou estruturas de orientação eleitoral.
Esse
modelo, porém, pode fazer com que outras formas de organização política sejam
interpretadas como ausência de mobilização ou, mesmo, o início de uma. No caso
dos povos de terreiro, a atuação política também ocorre por meio de redes
comunitárias, territórios e lutas por direitos, sem necessariamente se
transformar em uma estrutura partidária ou em uma candidatura explicitamente
identificada pela religião.
"O
que estamos observando mais recentemente é uma mudança na relação com a
política partidária e eleitoral", explica. "A emergência de
[ex-presidente, Jair] Bolsonaro e o aumento dos ataques e das violências contra
os terreiros produziram, para uma parcela desse movimento, a necessidade de
buscar uma maior inserção na política partidária, principalmente no campo da
esquerda e do campo progressista".
Fonte:
DW Brasil/Sputnik Brasil

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