Como
pensa Renan Santos: Tingir o chão de sangue - propostas para segurança vão contra Constituição
“Nós
vamos tingir o chão de vermelho com o sangue desses vagabundos”. A fala é do
candidato à Presidência da República Renan Santos (Missão) durante o ato de
lançamento de sua campanha neste domingo, 16 de agosto, no Largo de São
Francisco, em frente à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).
Os vagabundos, a que Renan se refere, seriam as lideranças do PCC e do Comando
Vermelho, que fugiram do país já que a política que o candidato apresenta é
bastante direta: “serem presos ou mortos”.
As
sucessivas palavras de ordem e frases de efeito no discurso do candidato, que
vestia um colete a prova de balas, eram intercaladas com gritos em coro dos
militantes da Missão, que repetiam o lema do partido “prendeu, matou”.
O
discurso belicista que prega, segundo o próprio candidato, contrasta com o
local do evento: uma das mais importantes faculdades de direito do país, quase
como uma provocação à constituição de 1988, tida como “garantista demais” pelo
grupo político de Santos. Em frente ao prédio histórico, centenas de jovens
clamavam por execuções sumárias, valas comuns para traficantes e que o Partido
dos Trabalhadores (PT) fosse posto na ilegalidade.
O
Partido Missão foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral em novembro de
2025, realizando o plano dos integrantes do MBL (Movimento Brasil Livre) de
montar a própria legenda, deixando de lançar candidaturas pulverizadas em
partidos do centrão, como a do deputado federal por São Paulo Kim Kataguiri,
eleito pelo Democratas, atual União Brasil e do ex-deputado estadual Arthur Do
Val, também eleito pelo mesmo partido e cassado em 2022, após o vazamento de
áudios sexistas sobre as vítimas da Guerra da Ucrânia.
Hoje, o
rosto da Missão é Renan Santos, que pretende chegar ao Palácio do Planalto com
uma plataforma voltada para uma “guerra declarada contra o crime organizado”
tocada a partir de decretos de Garantia da Lei e da Ordem, a instauração de um
Estado de Defesa e a aplicação do “direito penal do inimigo”, segundo seu plano
de governo.
O
direito penal do inimigo, teoria jurídica alemã formulada por Gunther Jakobs em
1985, estabelece a divisão da legislação penal em duas: uma que segue as regras
normais para o cidadão comum, que comete um crime ou um delito, outra muito
mais rígida para os inimigos do estado que “devem ser neutralizados”, como
grupos terroristas, e no caso brasileiro, facções criminosas e milícias. Só há
um problema com a teoria defendida pelo grupo: ele fere o artigo 5° da
Constituição, a Cláusula Pétrea que afirma que:
Todos
são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos
brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito
à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.” - Constituição
Federal, art 5º
A
professora de Direito Penal da Universidade Federal Fluminense (UFF) e
Presidente da Comissão de Criminologia do Instituto dos Advogados Brasileiros
(IAB), Roberta Duboc Pedrinha, classifica a defesa do “direito penal do
inimigo” através de um projeto de segurança pública como “absolutamente
preocupante e fruto de um maniqueísmo grotesco”. O próprio Renan Santos admite
que lida mais com a emoção do que com a razão ao defender suas ideias.
Segundo
o candidato, em discurso no evento deste domingo: “Nós faremos políticas
baseadas em dados, mas também faremos políticas baseadas em senso de justiça.
Todos ficam felizes em ver bandido preso”. E a militância do partido segue a
ideia, um dos cantos mais repetidos no Largo de São Francisco diz: “eu vou
votar no 14 como se fosse a vingança do povo”.
Emoção
é a palavra chave: muito do que foi dito no primeiro ato de campanha da Missão,
não só por Renan Santos, indica que o eleitorado do partido busca soluções
contundentes e fáceis, sem grandes discussões.
A
professora Duboc afirma que o apoio deliberado à atos de violência por parte do
estado é “uma adesão subjetiva à barbárie”. Segundo a criminalista, as falas
populistas de Renan Santos não passam de uma “questão performática”. É um
“simplismo com verniz técnico”.
Mas
isso não parece importar para os membros do partido. O candidato à
vice-presidente na chapa de Renan, o tenente-coronel da Brigada Militar do Rio
Grande do Sul, Aroldo Medina, afirmou à Agência Pública que chancela o programa
de segurança. Medina diz que Renan não está improvisando e que coordenará as
principais operações contra o crime organizado em um possível governo, dando
“um recado” para que as lideranças do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da
Capital: “arrumem as malas e vão embora”. Em seu discurso no palco do evento de
lançamento da campanha, Medina repetiu a afirmação, completando que “não
precisarão matar ninguém se os faccionados forem embora do país”.
A
reportagem questionou a assessoria de Renan sobre as propostas irem contra a
Constituição. O espaço segue aberto para a manifestação do candidato.
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Jovens e desiludidos aderem a discurso extremista
O
público presente no primeiro dia de campanha da Missão diz muito sobre a
candidatura. Boa parte dos que estavam acompanhando as falas de Renan Santos,
Kim Kataguiri, Amanda Vettorazzo e companhia eram jovens, alguns em seu
primeiro ciclo eleitoral. Outros, mais velhos, afirmaram ter se desiludido com
o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL – RJ).
Hugo
Brandão, estudante de 21 anos, afirma que a pauta da segurança é a mais
importante nestas eleições: “O combate ao crime organizado é o que vai garantir
a tranquilidade da população. Você sai de sua casa para trabalhar com medo de
ser morto por um desses vagabundos que chamam de vítima da sociedade”.
O
porteiro Rodinei de Castro, diz que se considerava um “bolsonarista”, mas que,
depois do escândalo do financiamento do filme Dark Horse por Daniel Vorcaro,
ex-dono do Banco Master e das conversas vazadas entre Vorcaro e Flávio
Bolsonaro (PL – RJ), mudou de ideia “apareceu aquele dinheiro do Banco Master,
eu não sou otário”. Além da corrupção, a segurança pública também é um dos
motivos para a adesão à campanha de Renan Santos: “O Renan prometeu exterminar
o crime organizado, isso é muito forte. Eu já fui roubado dez vezes”.
A pauta
da violência contra as mulheres — presente no discurso dos demais candidatos,
como Lula e Flávio —, também ressoa no eleitorado de Renan. Jéssyca Salustiano
(Missão), candidata à deputada estadual por São Paulo, conta que mesmo após a
instauração de medidas protetivas contra o ex-marido voltou a sofrer agressões
e afirma que “não é uma tornozeleira rosa” que vai resolver a violência contra
a mulher, “a política institucional não conseguiu me proteger”. Nas redes
sociais, contudo, Jéssyca repete as propostas do “Livro Amarelo” do partido,
vendido à R$ 100 no site, com ideias vagas sobre o que pretende fazer caso
eleita, como “proteção real às mulheres e combate ao descumprimento de medidas
protetivas”.
Fonte:
Por Gabriel Barros, da Agencia Pública

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