sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Aborto como bode expiatório: Milei fabrica guerra moral enquanto informalidade corrói aposentadorias

Há três semanas, Javier Milei não pisa na Casa Rosada: há versões de que ele se trancou em Olivos, sem ver a luz do dia, para escrever um livro com delírios messiânicos. Mas, como por ato reflexo, voltou a aparecer em público recorrendo novamente ao ataque contra os feminismos, uma espécie de partitura já corroída e desgastada de tanto ser repetida:

“Estamos pagando muito caro pela loucura dos lencinhos verdes (…) (…) essa paixão por assassinar crianças no ventre da mãe também está nos custando caro em termos de crescimento, e nem lhes conto em termos de sistema previdenciário”, sentenciou do púlpito do Hotel Alvear, diante de CEOs, empresários, funcionários públicos e governadores, durante a 23ª edição do Council of the Americas. Referia-se — sem a menor consistência argumentativa — à queda da taxa de natalidade.

O presidente continua derrapando e errando quando tenta aplicar o manual da extrema-direita contrária aos direitos como forma de contornar as falhas do modelo econômico, refugiando-se na “batalha cultural” como um terreno que ultimamente se mostra cada vez menos fértil para ele.

Ao presidente não convém tanto falar de dívidas neste momento, enquanto desperdiça argumentos que não se sustentam nos dados do Ministério da Economia e ocorre uma enorme mobilização convocada por sindicatos e organizações sociais diante da inadimplência que afeta milhões de pessoas.

Desde que esteve no Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro de 2025, Milei não deixou de insistir, com diferentes intensidades, em confrontar os feminismos e tentar impor uma agenda contrária aos direitos que não chega a se consolidar.

Houve um projeto apresentado em 5 de fevereiro de 2024 para revogar a Lei 27.610, de IVE, que garante o direito à interrupção da gravidez, e que levava as assinaturas de Rocío Bonacci, Beltrán Benedit, María Fernanda Araujo, Manuel Quintar e Lilia Lemoine.

A apresentação foi constrangedora, e o bloco de La Libertad Avanza não continuou insistindo por essa via. As manobras legislativas agora buscam conseguir que seja analisado o projeto de Lei de Falsas Denúncias, apresentado por Carolina Losada, que obteve parecer favorável em abril, mas ainda não reuniu os consensos necessários para chegar ao plenário.

O projeto original de Losada propõe modificar os artigos 245, 275 e 277 do Código Penal para aumentar as penas nos casos de denúncias falsas, especificamente relacionadas a episódios de violência de gênero.

Por onde quer que passe, o governo libertário se depara com o fato de que a sociedade não está em sintonia com a ideia de transformar o aborto, as políticas de gênero e a Educação Sexual Integral em bodes expiatórios.

Segundo um relatório da Equipe Latino-Americana de Justiça e Gênero (ELA), as evidências mostram que as denúncias falsas são um fenômeno muito pouco frequente: em nível global, menos de 1% das denúncias de violência de gênero são falsas (ONU Mulheres, 2024). Na Argentina, do total de denúncias apresentadas à Justiça em geral — e não apenas por violência de gênero — menos de 3% são falsas, e a grande maioria está relacionada a crimes econômicos (Conselho da Magistratura, 2025).

O conjunto de políticas e projetos de lei antifeministas é o manual de estilo que os libertários precisam ter sempre à mão para que a batalha cultural não lhes escape por entre os profundos problemas econômicos que atravessam o país.

Por isso, esta mensagem do presidente vem acompanhada da notícia — que, naturalmente, foi comemorada pelo ideólogo Agustín Laje — de que a Argentina aderiu à Declaração de Genebra: “Enquanto continuamos travando a batalha interna para recuperar a proteção jurídica da vida, a Argentina deixa de utilizar sua política externa para promover o aborto e passa a integrar uma coalizão internacional que defende a vida, a família e a soberania das nações”, comemorava Milei na rede X.

A mensagem política de incluir a Argentina na Declaração de Genebra responde à intenção do governo libertário de ratificar o posicionamento do país como a “vanguarda moral” e o farol doutrinário na batalha contra a suposta agenda globalista e a intervenção do Estado.

Ao se alinhar, em fóruns internacionais, a um bloco de países ultraconservadores, busca disputar o senso comum não apenas no plano local, mas também projetar para o exterior uma cruzada ideológica que coloca a restrição dos direitos sexuais e reprodutivos no centro de sua plataforma doutrinária. Mas a pergunta é: está produzindo os resultados esperados?

Enquanto os peões da batalha cultural fazem de tudo para mascarar que o governo não consegue recuperar a agenda política — perdida após a longa agonia de Manuel Adorni, que continuou com a épica do “jogo contra os ingleses” e a defesa da soberania após a aprovação da Lei de Inviolabilidade da Propriedade Privada, que saiu do Senado completamente desfigurada —, a cena se completou no Hotel Alvear.

Ali, Milei anunciou que fará um novo recital para comemorar o fato de que a inflação no atacado em julho foi de 0,8%. Será que as feministas também serão culpadas pelo fato de o presidente não conseguir disfarçar a ansiedade de lotar um estádio do River como Lali?

<><> O argumento demográfico

“Essa paixão por assassinar crianças no ventre da mãe também está nos custando caro em termos de crescimento, e nem lhes conto em termos de sistema previdenciário”, explicava Milei no Alvear. No entanto, mais uma vez, os dados demonstram que sua narrativa de atribuir a baixa natalidade à Lei de Interrupção Voluntária da Gravidez fracassa. A tendência de queda da taxa de natalidade na Argentina é registrada desde 2014, segundo a Direção de Estatísticas e Informação da Saúde (DEIS), ou seja, seis anos antes da aprovação da Lei IVE, em dezembro de 2020.

A armadilha argumentativa que pretende vincular a Lei IVE ao déficit do sistema previdenciário ignora a precarização trabalhista à qual estão submetidos os trabalhadores e as trabalhadoras após a Reforma Trabalhista.

A taxa de informalidade chega a 44,2% da população ocupada, marcando o nível mais alto de trabalho não registrado dos últimos anos, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC) (aqueles que perdem o emprego formal deixam de financiar o sistema previdenciário).

A sustentabilidade do sistema de aposentadorias na Argentina não depende do número atual de nascimentos, mas da persistente informalidade trabalhista que afeta mais de 40% dos trabalhadores e trabalhadoras.

Milei vem testando há algum tempo como insinuar que o problema da natalidade seria consequência das políticas de gênero. Em maio do ano passado, fez um discurso semelhante na Câmara de Comércio dos Estados Unidos: “Passaram dos limites ao atacar a família, atacar as duas vidas, e estamos pagando por isso com quedas na natalidade”.

Segundo a Rede de Acesso ao Aborto Seguro (REDAAS), o maior impacto na queda da natalidade em geral provém do colapso das taxas de gravidez na adolescência, impulsionado por políticas públicas de acesso à contracepção e à Educação Sexual Integral (ESI). Entre 2017 e 2023, a taxa de fecundidade adolescente (nascimentos por cada 1.000 mulheres entre 10 e 19 anos) caiu 58% (passou de 27,4 para 11,5). A implementação do Plano Nacional de Prevenção da Gravidez Não Intencional na Adolescência (Plano ENIA) — lançado em 2017 e atualmente sem financiamento — foi um dos motores essenciais dessa queda.

<><> Uma estratégia que se esgota

Atacar o feminismo como bode expiatório para encobrir os erros macroeconômicos é uma estratégia que começa a apresentar sinais evidentes de esgotamento. Depois de quase três anos de governo, a receita de culpar as conquistas do movimento feminista pelas falhas estruturais do modelo econômico perdeu força e não serve para mascarar a perda da agenda política nem para anestesiar o descontentamento social que se acumula nas ruas.

A “loucura dos lencinhos verdes” diz muito mais sobre as urgências de um governo acuado do que sobre o discurso moral que os libertários um dia souberam acumular: a partitura reacionária soa cada vez mais desafinada. Pretender que a sociedade aceite o roteiro antifeminista como explicação para a queda da natalidade ou para o colapso do sistema previdenciário é a demonstração de que há um governo que está ficando sem bodes expiatórios e sem respostas.

¨      Após chamar jornalistas de ‘merdas humanas’, Milei propõe ‘castigo por informações inexatas’

O presidente da Argentina, Javier Milei, e seu ministro da Economia, Luis Caputo, defenderam nas redes sociais o lançamento de um projeto para punir com pena de prisão os jornalistas que publicarem o que definiram como “informações inexatas”.

A proposta foi levantada em publicações difundidas por ambos, nesta terça-feira (25/08), em suas contas na plataforma X, em comentários sobre duas reportagens de veículos conservadores argentinos que questionaram possíveis conflitos de interesse Milei e Caputo.

Em uma dessas publicações, o presidente da Argentina acusou os jornalistas de “merdas humanas”. A ofensa foi uma resposta à reportagem do jornal Clarín, um dos mais conservadores do país, sobre supostas reuniões para discutir a situação econômica argentina entre o mandatário e dois operadores de mercado: Julián Yosovitch (que também é apresentador do podcast Neura, no qual Milei já participou algumas vezes) e Federico Domínguez (também membro do think tank libertário Fundación Faro).

Em cima de um comentário de Domínguez negando que tal reunião tenha acontecido – alegando, com ironia, que talvez tivessem falado “telepaticamente” –, Milei escreveu: “MERDAS HUMANAS, MENTIROSAS, MERDAS HUMANAS, depois choram por maus modos… MERDAS poderiam começar por não mentir, CAGÕES…”.

Já o ministro Caputo criticou a conduta jornalística não com ofensas, mas com a proposta de punição aos profissionais da imprensa.

“Parece que, para certos jornalistas, mentir é um direito adquirido. A justiça deve ser feita. Precisamos de uma lei que castigue esse tipo de comportamento”, foi a proposta lançada pelo Ministro da Economia, sem especificar que tipo de castigo seria.

A publicação de Caputo foi republicada por Milei, minutos depois, junto com o comentário “desmascarando mentirosos”.

<><> Reportagem sobre Caputo

A publicação de Caputo não surgiu da reportagem do Clarín, e sim de outra matéria jornalística, relacionada ao próprio ministro.

O reporte em questão foi do jornalista Beto Valdez, da Rádio Rivadavia, de Buenos Aires, que relatou um suposto esquema no qual o empresário Julio Made, amigo de Caputo, teria conseguido que seu conglomerado, o Grupo Lenor, adquirisse o controle de postos de gasolina em diversas localidades do país a partir de uma medida na qual a responsabilidade pelo controle dessas empresas saiu das mãos do Instituto Nacional de Tecnologia Industrial.

Caputo alegou que a informação seria falsa, já que o ministro responsável por tal decisão não foi ele e sim Federico Sturzenegger, titular do Ministério da Desregulamentação.

No entanto, o próprio Valdez, em seu reporte, reconhece que a mudança foi promovida por Sturzenegger, mas alega haver informes técnicos dizendo que a medida prejudicaria a competitividade de mercado e que analistas consideravam estranho que o governo insistisse em uma política anti mercado e que, coincidentemente, favorecia um empresário que possui ligação com Caputo.

¨      Após prisão de Cerimedo, Paz repete roteiro de Milei: 'nunca houve relação direta'

“O Sr. Cerimedo nunca teve autorização para representar este boliviano, a Presidência, o Governo ou minha família”, disse o presidente boliviano Rodrigo Paz nesta quarta-feira (26/08) sobre o operador de extrema-direita Fernando Cerimedo, detido em território boliviano desde 18 de agosto, após ser acusado de ser o mentor de uma tentativa de feminicídio contra sua ex-companheira Nadia Beller, que estava grávida de quatro meses.

Nas primeiras declarações feitas desde o ataque de 17 de agosto, o presidente boliviano confirmou que “nunca houve um contrato” ou uma “relação de trabalho direta” com o consultor, como as relações mantidas com “ministros, vice-ministros ou delegados presidenciais”.

Segundo a versão de Paz, Cerimedo chegou à Bolívia em 2025 para trabalhar com outros candidatos durante as eleições gerais, e somente após o primeiro turno foi estabelecido o contato para adicioná-lo à campanha do segundo turno.

“Vencemos as eleições e, a partir disso, ele não só cooperou nessa eleição, mas também no início do governo. Mas, sendo um estrategista internacional, a constância ou presença do Sr. Cerimedo na Bolívia não era o que precisávamos para poder trabalhar e ter um formato de trabalho sólido”, disse o presidente boliviano.

Paz também defendeu sua família contra as acusações de corrupção feitas por Beller, sobrevivente do ataque, que Cerimedo apontou como sua ex-parceira.

O presidente boliviano afirmou que seu governo garantirá as investigações sobre a tentativa de feminicídio, que ocorreu em Santa Cruz em 17 de agosto, para que sejam “transparentes, organizadas e em busca da verdade”.

O Ministério Público acusou o operador argentino do suposto crime de “tentativa de feminicídio” e de ter enviado assassinos para matar sua ex-companheira. Ele também enfrenta outras duas investigações pelo suposto crime de enriquecimento ilícito e por violência familiar e doméstica.

<><> ‘Real influência’

A versão de Paz colide diretamente com o depoimento de seu próprio vice-presidente. Em entrevista à Página/12, Edmand Lara descreveu Cerimedo como uma figura com real influência dentro do Executivo: ele tinha um escritório ao lado do presidente no Palácio do Governo, participava de reuniões de gabinete e até dava ordens diretas aos ministros.

“Que ele era conselheiro do Presidente, ele era; que ele tomou decisões, ele tomou. Que ele tinha influência no governo, ele tinha”, disse Lara, que chegou a descrever episódios em que Cerimedo instruía os funcionários sobre quem contratar ou nomear para cargos públicos.

O vice-presidente também comentou que o consultor “tinha um cargo, mas não aparecia em nenhuma folha de pagamento” e que nunca ficou claro quem financiava seus serviços.

Lara chegou a desafiar Paz para um “cara a cara” para negar que Cerimedo fosse seu conselheiro, afirmando ter testemunhado pessoalmente como o argentino dava diretrizes aos ministros sobre “o que eles tinham que fazer e dizer”.

Já durante uma entrevista ao canal argentino C5N, Edmand Lara afirmou que Cerimedo estava por trás do plano para que ele tivesse menos poderes em seu papel de vice-presidente. “Aquele que teve a ideia de tirar meus poderes, meu orçamento, de emitir um decreto constitucional, relegar minhas funções ao mínimo, ninguém tira da minha cabeça que foi Fernando Cerimedo, porque, na Argentina, Milei faz o mesmo com seu vice-presidente”, disse ele.

Outro exemplo de seu poder foi relatado pela advogada Nadia Beller. Ela afirmou que Cerimedo lhe confidenciou ter conseguido que um grupo de elite da Polícia entrasse nos trópicos de Cochabamba e prendesse o ex-presidente Evo Morales. Por sua vez, o líder boliviano descreveu o estrategista argentino como um “agente do império” e assegurou que se sentia ameaçado por ele nas redes sociais.

<><> Governo argentino busca tirar Milei do caso

O caso também provocou reações no governo argentino, que busca distanciar o presidente libertário do operador. O porta-voz presidencial Adrián Ravier admitiu que Cerimedo — ex-assessor da campanha de Milei em 2023 e fundador do La Derecha Diario — entrou na Casa Rosada pelo menos 13 vezes durante o primeiro semestre de 2024, apesar de o próprio Milei insistir que “parou de se associar” ao consultor desde 2023.

Segundo registros oficiais, várias dessas entradas foram autorizadas por ex-funcionários como o então Ministro do Interior, Lisandro Catalán, e o conselheiro presidencial Santiago Caputo. Pelo menos duas das visitas foram destinadas à Secretaria Geral da Presidência, sob comando de Karina Milei, irmã do presidente, apontadas por Beller como parte da rede que Cerimedo buscava proteger.

O padrão se repete em ambos os países. Os governos da Bolívia e da Argentina tentam reduzir Cerimedo à figura de um consultor externo sem poder formal, enquanto os registros e depoimentos disponíveis sugerem uma interferência muito maior nas estruturas do executivo do que Paz e Milei estão dispostos a admitir.

A tentativa de Milei de se afastar de seu antigo conselheiro também conflita com sua agenda internacional. O presidente argentino programa uma viagem a Washington em 14 de outubro como convidado de honra no Gala Oficial da Herança Hispânica, um evento organizado pela La Derecha Diario junto com a Latino Wall Street, uma plataforma ligada a militantes trumpistas.

Na primeira edição do evento, realizada em fevereiro em Mar-a-Lago, o próprio Cerimedo foi distinguido como “Consultor Político do Ano” e foi incluído na promoção dessa reunião de outubro.

Enquanto a equipe de Milei apagou publicações que o ligavam ao seu ex-assessor, a confirmação de sua presença no gala de outubro mostra que o desengajamento público coexiste com laços políticos e midiáticos que ainda estão ativos.

 

Fonte: Por Euge Murillo, em Página 12 - Tradução: Ana Corbisier, para Diálogos do Sul Global/Opera Mundi

 

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